        =70 A VIELA DA DUQUESA


SVEVA CASATI MODIGNANI


ASA


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este livro foi digitalizado para ser lido
por Deficientes Visuais


Npoles, 1910. Numa das muitas casas pobres da Viela da
Duquesa, onde =Rosa Avigliano vive com a sua numerosa
famlia, surge de repente uma =jovem mulher elegantemente
vestida: ela quer que Rosa lhe prepare um =feitio para
conquistar o amor do marido. Teresa, a mais velha das
=crianas Avigliano, fica boquiaberta perante to
extraordinria =apario. Imaginativa e sonhadora, ela 
gostaria de poder transpor =os limites daquelas vielas sem ar 
e sem luz, onde viu morrer de =misria, de doena e de fome, 
amigos, vizinhos e at um =irmo mais novo. Aquela visitante 
misteriosa encarna aos seus olhos =de rapariga tudo aquilo 
que at ali lhe foi vedado. Mas a bonita =desconhecida no  
to feliz como Teresa imagina: a condessa =Josepha Paravicini 
abandonara h alguns meses o seu castelo no Tirol, =terra 
ento austraca, para casar com o prncipe Enrico =Castiglia 
e se mudar para Npoles, renunciando aos costumes, s 
=pessoas que amava, s paisagens, aos aromas e  sua lngua 
de =infncia. Tudo isto para vir a descobrir que o marido 
nunca a amara. =Com o destino por cmplice, nasce entre a 
princesa e a rapariga do =povo uma ligao que as ir manter 
unidas durante toda a vida. =Ambas atravessam o sculo que h 
pouco terminou, sofrem duas =guerras mundiais, vivem os 
dramas da ditadura fascista e os tempos =difceis da 
reconstruo, empenhando-se na luta pelas =reivindicaes 
sociais e pela conquista do direito das mulheres = 
dignidade.

Narrando as histrias pessoais destas personagens, marcadas 
por =tragdias e paixes, Sveva Casati Modignani percorre 
todo o =sculo XX num romance que exprime os pontos de vista 
dos humildes e =dos poderosos. Neste entretecer de vidas 
privadas e grandes eventos, =propicia aos leitores pginas 
intensas que reconstituem com realismo =o esprito de uma 
poca e exaltam a fora dos sentimentos e dos =ideais.
SVEVA CASATI MODIGNANI  um dos nomes mais populares da 
fico =italiana, tendo publicado j quinze romances, que 
venderam mais de =oito milhes de exemplares e deram origem a 
alguns filmes e sries =televisivas de sucesso. A ASA 
publicou j nesta coleco o seu =romance Baunilha e 
Chocolate, um dos grandes sucessos editoriais de =2002. Quem 
quiser consultar o site da autora pode faz-lo em 
=www.sveva.ws.



A VIELA DA DUQUESA


TRADUZIDO DO ITALIANO POR
REGINA VALENTE


ASA Literatura


TTULO ORIGINAL VICOLO DELLA DUCHESCA


2001, Sperhng & Kupfer Editori S.p.A.


Terceira edio: Setembro de 2003


ASA Editores, S.A.


SEDE
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Dedicado a Luna e aos pais

AGRADECIMENTOS


A Viela da Duquesa foi-me inspirado por Adriana =Cenni 
        Baistrocchi, que atravessou quase todo o sculo XX e, em 
=        algumas ocasies, participou nos grandes acontecimentos 
        do =sculo. As suas memrias permitiram-me reconstituir 
        =atmosferas e sentimentos. O Dirio de Guerra do seu 
        =primeiro marido, Gualtiero Fedrigoni, Capito da Armada 
        Italiana =na Rssia, morto neste pas em Dezembro de 
1942,         sugeriu-me =algumas pginas de uma histria 
dramtica.
Nora Savarese e Marisa Fuccillo ajudaram-me a 
interpretar         o =carcter napolitano de algumas personagens, 
em primeiro         lugar a =de Teresa. Os romances de Mastriani, 
as crnicas         de Matilde =Sero, os poemas de Di Giacomo e 
as canes de         Murolo =fizeram o resto.

Grande parte do romance desenrola-se em Merano, =cidade 
        que aprendi a conhecer e a amar ao longo dos anos. 
        =Compreendi a complexidade da sua histria graas aos 
meus         =amigos de lngua alem. Entre eles, recordo Heini 
e         Irmgard =Winterholer, Ferdi e Anni Capello, o Dr. 
Dietmar         Capello e o =professor Andreas Capello, o Dr. Fritz 
Singer         e a mulher, Marisa, =Peter e Adriana Castelforte, 
        directores do hotel Schloss Rundegg e =Horst 
Hellmenreich,         da livraria Poetzelgerger, que me forneceu 
=alguma         documentao histrica sobre o sul do Tirol.
Donatella Barbieri, como sempre, esteve perto de mim 
        durante toda a =elaborao do romance e ocupou-se da sua 
        edio.
As redactoras da Sperling trataram escrupulosamente o 
        texto. =Annamaria Andreini Arisi deu-me conselhos 
        preciosos. Peo =desculpa aos leitores, se deixei 
escapar         alguma coisa menos =exacta.

MERANO - SCHLOSS RUNDEGG 30 DE DEZEMBRO DE =1999




Aporta automtica abriu-se silenciosamente = passagem 
de uma senhora idosa, alta e magra, que entrou no pequeno 
=trio do Hotel Schloss Rundegg, em Merano. Vestia um casaco 
preto =debruado a pele de marta, e do chapu, de abas largas, 
escapavam =alguns caracis loiros. Tinha um bonito rosto 
iluminado por uns =grandes olhos verdes.
O taxista que a acompanhava pousou duas malas brancas =ao 
lado de um banco antigo.
- Vielen Dank - agradeceu a senhora.
- Bitte - respondeu o taxista, e afastou-se, cumprimentando 
com =familiaridade o porteiro que vinha ao encontro da 
hspede.
- O meu nome  Valeschi - disse a senhora. - Foi reservado um 
=quarto em meu nome.
- De facto, estvamos  sua espera. Boa-tarde, signora 
Valeschi. =Fez boa viagem? - perguntou Giovanni, o porteiro 
da noite. Era um homem =com cerca de cinquenta anos, com um 
corpo imponente e um sotaque =meridional que lhe fez lembrar 
imediatamente a sua ama.
- ptima, muito obrigada - respondeu distraidamente a 
senhora, =enquanto desabotoava o casaco que cobria um vestido 
vermelho lacre. =Olhou em volta, com curiosidade. Reconheceu 
o tecto abobadado com a =coluna central em pedra rosa que, no 
Natal, a me cobria com ramos de =abeto e fitas de seda 
vermelha. Agora,

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apenas os arcos estavam enfeitados com grinaldas de abeto e 
bolas =douradas.
- Deseja instalar-se, signora Valeschi? - sugeriu Giovanni.
- Com certeza - respondeu, afastando as recordaes. 
=Aproximou-se do balco da recepo, tirou as luvas, abriu a 
=carteira e pegou num documento de identidade.
- Vou j mandar levar a sua bagagem para o quarto - disse 
ele.
-  na torre? - perguntou.
- Conforme foi pedido - confirmou.
- A que horas servem o jantar? - quis saber a senhora.
- Agora mesmo. So sete e meia.
- Ento vou para a mesa - decidiu.
Naquele momento veio ter com eles o maitre, de fato preto, 
camisa =imaculada e lao vermelho.
- Huber, senta a senhora na mesa trinta e dois -pediu o 
porteiro ao =homem, que assentiu com um gesto de cabea.
S ento ela se deu conta de que uma instalao 
=estereofnica difundia num tom muito baixo os acordes de uma 
=cano de Natal. Seguiu o maitre e achou-se numa sala de 
tecto =baixo, paredes caiadas, mesas cobertas com toalhas 
brancas e cadeiras de =espaldar alto forradas de veludo 
vermelho. Velas e ramos de abeto =sublinhavam as festividades 
natalcias. Era a noite de 30 de =Dezembro. No dia seguinte, 
com as badaladas da meia-noite, comearia =o novo milnio.
- Sou a nica hspede? - perguntou a Huber, que a acompanhou 
=at  mesa, depois de ter entregado a um empregado o casaco 
e o =chapu da senhora.
- A nica a jantar. Esta noite os nossos clientes esto num 
=castelo em Vai Venosta. Vo chegar tarde - explicou, 
enquanto lhe =estendia a ementa. - Vai desejar vinho ou 
cerveja? gua mineral com =ou sem gs?
- gua natural e vinho branco. O que me aconselha?
- Temos um Versoaln excepcional.
Enquanto ela consultava a ementa, um jovem empregado pousou 
na mesa um =cestinho com fatias de po torrado e um pires com 
rolinhos de =manteiga.

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- Posso ajud-la a escolher? - ofereceu-se Huber, 
dirigindo-lhe =um sorriso.
- Pode at decidir. Traga-me qualquer coisa ligeira - 
respondeu a =senhora, fechando a ementa. E acrescentou: - 
Nesta sala, antigamente, =havia uma salamandra de majlica 
azul e branca que chegava ao =tecto.
- Desde que o hotel abriu, e j l vo trinta anos, isto 
=sempre esteve assim. Antes era tudo uma runa. Eu conheo 
isto =bem, porque sou de Scena, uma aldeia aqui perto. Quando 
era pequeno, =vinha para c brincar com os meus amigos. 
Entrar no castelo era uma =prova de coragem, porque se dizia 
que dentro destas paredes vagueava o =fantasma do velho 
Bernhardus Paravicini que, no sculo XVIII, era o =dono. Na 
Catedral h uma lpide em sua memria - explicou o =maitre 
enquanto lhe deitava vinho no copo. A senhora provou-o.
-  realmente ptimo - concordou. E prosseguiu: - O senhor e 
os =seus amigos chegaram alguma vez a ver esse fantasma?
- No, mas ouvimo-lo. De repente ramos atingidos por uma 
lufada =de ar gelado, at em pleno Julho. Ento fugamos, 
aterrados. =Diz-se que o conde Bernhardus no era uma pessoa 
muito socivel =- garantiu.
- Talvez no lhe agradasse saber que este castelo tinha sido 
=abandonado - respondeu a senhora.
Talvez nem sequer goste que ele tenha sido transformado num 
hotel, =porque h quem garanta que ainda lhe sente a 
presena. Mas  =apenas sugesto.
A senhora viu-se de novo criana, numa noite de Inverno. 
Havia um =vendaval, e a neve, ao cair, fazia redemoinhos. Ela 
estava sentada num =banco, ao lado da salamandra.
- Certamente no tencionas ficar a toda a noite! - disse-lhe 
a =me.
- Estou aqui muito bem - sussurrou ela.
- Mas vais ficar doente. O frio fortifica. O calor  para as 
pessoas =fracas. Tu s uma menina forte. Portanto, vai para a 
cama.
- Eu no sou uma Paravicini como tu. Sou uma Valeschi. No 
sou =austraca. Sou italiana. Tenho frio e no quero dormir 
sozinha na =torre.
- Aqueci-te a cama.

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- Tenho medo do Bernhardus. Ele est ali fora a uivar como um 
lobo. =E eu sinto em cima de mim aquele bafo de gelo.
Nesse momento levou uma mo  face, ao stio em que a me a 
=atingira com uma bofetada. Tinham passado oitenta anos sobre 
aquela =noite.
- Claro,  apenas sugesto - disse.
Um criado aproximou-se da mesa a empurrar um carrinho. 
Levantou a tampa =de duas bandejas. Huber serviu-lhe um 
filete grelhado de salmo =fresco e legumes cozidos em vapor.
- Amanh  noite vai haver uma grande festa no castelo. 
Deseja =que lhe reserve um lugar para a ceia?
-  claro - respondeu ela.
Concluiu o jantar com um sorvete de limo. Depois saiu da 
sala de =jantar.
No trio, Giovanni foi ao seu encontro e devolveu-lhe o 
bilhete de =identidade.
- Se me permite, vi que a senhora nasceu em Merano - 
observou, =satisfeito com aquela descoberta.
Ela respondeu com um sorriso.
- Sabine vai acompanh-la ao seu quarto, o nmero trinta e 
dois =- acrescentou, retomando o habitual tom profissional. 
Uma rapariga com =um fato tirols esperava-a ao lado do 
ascensor.
- Veio de Paris, no  verdade? - perguntou a jovem, enquanto 
=subiam. E explicou: - Vi a etiqueta na bagagem.
- Foi uma viagem demasiado longa para a minha idade - 
confessou a =senhora.
- Se desejar, posso ajud-la a desfazer as malas - 
ofereceu-se =Sabine, ao mesmo tempo que percorriam o 
vestbulo do terceiro =andar.
Na verdade, a viagem no tinha sido assim to cansativa; mas 
=sentiu-se cansada de repente. Tinha permanecido na clnica 
durante =trs interminveis semanas, o tempo necessrio para 
que as =feridas cicatrizassem e os hematomas fossem 
reabsorvidos. Tinha sido =submetida a um ligeiro lifting 
facial.
- Quero tirar este sinal incomodativo que tenho no pescoo. 
E, j =que l estou, quero-me consolar: massagens, ginstica, 
dieta e =cremes hidratantes - explicou aos filhos. Se eles 
soubessem a verdade, =ter-lhe-iam certamente criado alguns 
obstculos.

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- Podamos passar o fim-de-ano juntos, no Crillon - props, 
=divertindo-se com a ideia de se apresentar rejuvenescida no 
encontro =com eles e com o novo milnio.
Naquela clnica de luxo, isolada do resto do mundo, sem nada 
que =fazer a no ser ver televiso ou ler os jornais, a 
senhora =abandonou-se s recordaes. Sempre tinha evitado 
deter-se =por muito tempo no passado. -  tpico dos velhos, 
consolarem-se =com o tempo que passou - dizia s amigas, que 
falavam com nostalgia =dos seus anos de juventude. Ela tinha 
tido uma longa existncia, por =vezes muito difcil, 
atravessando quase por inteiro o sculo que =estava a acabar.
Na clnica, enquanto as feridas cicatrizavam, reflectiu sobre 
tudo =aquilo que a vida lhe dera e lhe tirara. E, de repente, 
no momento em =que devia ir ter com os filhos, partiu para 
Merano, quase como se =quisesse fugir deles. Mas no era 
isso. Tinha tomado uma deciso e =precisava de estar s para 
a avaliar.
- Faa favor, minha senhora, pode instalar-se  vontade - 
disse =Sabine, abrindo a porta do quarto.
Ela recordou o seu quarto de criana. As paredes revestidas 
de =madeira de abeto, o parquet pintado com cores vivas, a 
cama com a =cabeceira de madeira e um edredo forrado a 
tecido da Flandres, os =trabalhos de ponto de cruz nas 
paredes, o armrio das bonecas e o dos =vestidos. Tudo 
mudara. Achou-se numa antecmara iluminada por =apliques em 
madeira dourada e decorada com quadros de motivos florais. A 
=parede do fundo estava inteiramente ocupada por um roupeiro. 
 =esquerda, uma porta dava para a casa de banho, e  direita 
ficava o =quarto. Era mais pequeno do que a recordao que 
tinha dele. As =janelas continuavam a ser quatro: duas 
viradas a norte e duas a leste. =J no havia revestimento de 
madeira e as paredes estavam pintadas =de branco. Viu um 
amplo leito de casal e, no canto entre as janelas, =duas 
poltronas antigas e uma mesa redonda em cima da qual se 
encontrava =uma taa com p, em cristal, cheia de bombons, 
fruta fresca num =cestinho e rosas brancas e lrios numa 
jarra de prata. Grandes =quebra-luzes, sabiamente dispostos, 
difundiam uma luz quente.
A senhora deixou-se cair numa poltrona. Tinha chegado ao fim 
da viagem. =Sabine, na antecmara, abriu as malas e arrumou

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no armrio os fatos e a roupa interior. Depois preparou a 
cama para a =noite.
 Naquele armrio est o frigorfico. Tem gua, sumos de 
=fruta, vinho e bolachas - explicou  hspede. E continuou: - 
=Amanh vai haver uma ceia para festejar o ano dois mil. Vem 
uma =orquestra de dentro tocar msica tirolesa - anunciou, 
=enquanto pousava em cima da cama uma camisa de noite e um 
roupo.
A senhora sabia que dentro se referia  ustria, que na 
=parte sul do Tirol tinha ainda o significado de ptria. 
Tinham =passado oitenta anos desde a anexao daquela zona  
Itlia, =mas as pessoas da regio continuavam a considerar a 
ustria como a =sua prpria casa. Quando era pequena, 
acontecia-lhe muitas vezes =ouvir a me anunciar: - Amanh 
vou para dentro. Vou ficar alguns =dias em Innsbruck. - Ela 
ficava com a ama, Teresa Avigliano, que entrou =e saiu da sua 
vida uma infinidade de vezes.
Dirigiu o olhar  porta da casa de banho. Ali, noutros 
tempos, era o =quarto de Teresa.
- Posso ajudar em mais alguma coisa? - perguntou a empregada.
- Muito obrigada. No preciso de mais nada - disse, 
=despedindo-se.
Finalmente ficou s. Levantou-se da poltrona e aproximou-se 
de uma =janela que dava para o monte San Zeno. Abriu-a. O ar 
no estava =demasiado frio. No havia estrelas no cu. 
Respirou a plenos =pulmes, pensando: Esta noite vai nevar. 
Ouviu barulho de =automveis e viu as luzes dos faris que 
iluminavam o prado em =frente ao castelo. Eram os hspedes 
que regressavam de Vai Venosta. =Voltou a fechar o vidro 
rapidamente.
Recordou o dia em que a me lhe anunciou: - - No consigo 
manter =este castelo por mais tempo.  muito doloroso para 
mim, mas tenho que =o vender. Anda comigo a Merano. Encontrei 
um comprador e preciso do teu =apoio. - Ela no a acompanhou.
Tinha passado muito tempo desde aquele dia.
Foi  casa de banho, despiu-se, vestiu a camisa de noite e 
viu-se =ao espelho. A cirurgia esttica tinha sido bem 
conseguida. Estava =satisfeita, e pensou:  como quando se 
limpam as pratas: ficam =mais bonitas de se ver.

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Foi para a cama e encolheu-se debaixo do edredo. Adormeceu 
=imediatamente. Foi acordada pelo toque do telefone. Agarrou 
no =auscultador.
- Mas que horas so? - perguntou com uma voz ensonada, sem 
querer =saber quem era o interlocutor.
- So horas de ganhares juzo. Estamos todos aqui, em Paris, 
por =tua causa. E tu saste da clnica sem nos informares.
Era o seu filho Gianni. Parecia furioso.
- Valha-me Deus! - suspirou, resignada.
- Tu  que propuseste que festejssemos o Ano Novo juntos. S 
=por milagre soubemos que estavas em Merano. Mas o que ser 
que se =pode fazer com uma inconsciente como tu?
- Tens quase sessenta anos e ainda no aprendeste a controlar 
os =nervos. Acaba com esses histerismos. Acalma-te e goza 
Paris em festa - =respondeu, nada atemorizada pela 
repreenso. Desligou a chamada logo =a seguir.
Como  evidente, o telefonista da clnica que fez a reserva 
para o =castelo informara os filhos, apesar de ter recebido 
uma boa gorjeta para =ficar calado. Tentou retomar o sono, 
considerando que os filhos quase =nunca conseguiam faz-la 
sentir-se culpada. Amava-os =profundamente, e eles 
adoravam-na. Mas actuava muitas vezes por =impulso, sem os 
consultar como eles gostariam. No estava, de facto, =nada 
arrependida de ter satisfeito o desejo de regressar ao 
castelo sem =os avisar. Durante anos tinha negado uma parte 
importante das suas =origens e, de repente, sentiu a 
necessidade de as recuperar. E ainda =estava a tempo de o 
fazer.
O telefone tocou de novo. Era Giuditta, a nora.
- Thea, no te zangues, por favor. Diz-me s se podemos ir 
ter =contigo a Merano. A propsito, sentes-te bem no castelo?
- A resposta  primeira pergunta  no. Sim, quanto  
=segunda. D um abrao a todos por mim e v se me deixam em 
=paz.
No quis ouvir mais nada. J estava completamente desperta e 
ligou =para a recepo.
- Faa-me um favor: diga para no me passarem mais chamadas. 
=Alm disso, quero tomar o pequeno-almoo no quarto.
Levantou-se, foi  casa de banho e tentou pentear aqueles 
cabelos =curtos, encaracolados, outrora loiros como os da me 
e agora =platinados pela pintura.

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Bateram  porta. Entrou Sabine, empurrando o carrinho do 
=pequeno-almoo. A rapariga vestia um lindssimo traje 
regional de =l vermelho-escuro debruado de fitas e gales e 
um casaquinho de =l azul.
- J viu que espectculo, minha senhora? - perguntou, abrindo 
a =cortina que tapava a janela. A neve caa, lenta e 
silenciosa, e tinha =embranquecido a paisagem.
- Tal como quando nasci.
- Nasceu no Inverno?
- Em Janeiro. Neste castelo, no andar de baixo, no quarto da 
minha =me. Tambm ela nasceu aqui. Chamava-se Josepha 
Paravicini - =explicou.
Sabine olhou-a, incrdula. - A me da senhora era uma 
=descendente do conde Bernhardus, o fantasma? - perguntou. A 
senhora =confirmou.
- Posso contar aos outros? Hoje de manh estava algum a 
dizer =que o tinha ouvido rir, durante a noite - revelou. - 
Nunca tinha =acontecido, o velho Bernhardus rir.
- Talvez estivesse contente por eu ter voltado - disse ela, 
com um =sorriso compreensivo.
- Qual  a sensao de ser hspede na sua prpria casa? =Quer 
dizer: o castelo era da famlia da senhora, e agora  um 
=hotel onde toda a gente pode vir -comentou a rapariga.
- As coisas nunca so como ns gostaramos que fossem. A 
vida, =muitas vezes,  como uma rodinha: um crculo perfeito 
que acaba no =stio em que comeou. Lembra-se daquele jogo 
que se fazia em =criana? - perguntou a senhora. E pensou: 
A est, estou a =comportar-me como as minhas amigas velhas. 
Mas elas tm razo: = importante recordar.

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NPOLES - VIELA DA DUQUESA AGOSTO DE =1910


Crianas mal vestidas e sorridentes, de =mos dadas, 
formavam uma roda to larga como a viela e andavam = volta, 
a recitar uma lengalenga. As suas vozes ressoavam 
=alegremente no silncio daquela tarde quente de domingo.
Rosa Avigliano entrou na viela e identificou dois dos =cinco 
filhos na roda das crianas. Regressava da casa de don 
Vincenzo =Cuocolo, onde trabalhava como mulher-a-dias. No 
via a hora de se =estender, com um pano embebido em vinagre 
na testa, porque a dor de =cabea no lhe dava trguas desde 
o amanhecer. Tudo por causa =daquele grande calor sufocante 
que cortava a respirao. =Agarrava-se a esta convico para 
afastar o terror da clera =que, em muitas famlias de 
Npoles, incluindo a sua, j tinha =levado tantas vidas. 
Agora, felizmente, a epidemia estava a =extinguir-se.
Uma gota de gua caiu-lhe na face, depois outra, e outra 
ainda. Rosa =ergueu os olhos para o cu, que era uma lmina 
estreita por cima =da Viela da Duquesa.
- Est a chover, meu Deus! - sussurrou, incrdula, enquanto 
as =gotas engrossavam.
- Est a chover! - gritou, para que toda a viela a ouvisse, e 
=aquele grito foi uma nascente de alegria. A tenaz na cabea 
abrandou =a presso.
Concetta Russo, com os olhos ainda inchados de sono, apareceu 
na soleira =do seu baixo e gritou tambm:

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- Nossa Senhora do Socorro fez um milagre! - Chamou o marido, 
para que =pusesse a salvo os sacos de l para cardar.
O merceeiro tambm se apressou a arrumar os caixotes de 
madeira de =que pendiam tranas de alhos e cebolas, colares 
de tomates secos =comidos pelas moscas, ramos de malaguetas e 
grinaldas de limes =entrelaados com loureiro.
O sapateiro levou para dentro de casa o banquinho com os 
instrumentos de =trabalho e a cesta dos sapatos velhos para 
consertar. As mulheres =levaram para dentro mesas, cadeiras, 
fogareiros e mquinas de =costura. A viela era casa e 
oficina. A vida fazia-se na rua. Os baixos =eram um abrigo s 
para a noite.
As ltimas chuvas tinham cado em Maro, e desde ento a 
=cidade sufocava sob um sol implacvel, de tal maneira que o 
Lavinaio, =o fosso onde confluam as guas das chuvas, estava 
h meses =completamente seco.
No princpio de Agosto, o povo levou em procisso a =esttua 
da Senhora do Socorro para implorar a chuva e o fim da 
=epidemia de clera que, segundo aquilo que diziam os 
jornais, tinha =feito poucas dezenas de vtimas; mas os 
habitantes dos baixos sabiam =que os mortos eram s centenas 
e repousavam na colina, no =cemitrio de Poggioreale. Em 
Abril, Rosa Avigliano sepultara ali o =ltimo filho, que 
tinha apenas um ano. Um outro filho de cinco anos, 
=Peppiniello, esteve entre a vida e a morte. No hospital, o 
mdico =disse-lhe que tinha que se conformar. - Mas dois so 
de mais - =sussurrou Rosa, prostrando-se aos ps da esttua 
de So =Francisco. - Nosso Senhor j me levou uma criana. 
No chega? =Meu Santo adorado, intercede pelo Peppiniello, e 
eu entrego-to a ti - =prometeu.
O Santo fez-lhe a vontade. O menino tinha-se curado e usava 
agora o =hbito rude dos monges, apertado na cinta por uma 
corda com os ns =do rosrio.
Peppiniello, sem se preocupar com o hbito que vestia, corria 
agora =de um lado para o outro da viela com as outras 
crianas e, como eles, =soltava gritos de alegria.
- Meninos, venham, que o cu vai-vos lavar, finalmente! - 
ordenou =Rosa. A chuva ajudara-a a recuperar as energias 
consumidas pelo calor e =pelo cansao, e agora tentava 
agarrar os filhos, como faziam as =outras mes da viela. - 
Teresella! - chamou mais uma vez.
Teresa era a filha mais velha. Tinha doze anos e raramente se

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misturava com os da sua idade. Gostava de passear sozinha 
pelas ruas do =bairro, a observar as pessoas e as coisas. 
Admirava as fachadas das =igrejas, perguntando a si prpria o 
que significariam aqueles =escritos por cima das portas, 
porque no sabia ler. Examinava os =restos de antigos 
palcios em runas, que conservavam vestgios =de uma 
opulncia longnqua. Sabia que naquele bairro tinha sido 
=morto Masaniello e decapitado o prncipe Corradino de 
Svevia. - Por =quem? - perguntou Teresella ao pai. - Pela 
fome - respondeu ele. - A =fome  um monstro que devora os 
homens.
Naquele bairro, o nobre Alfonso de Arago, duque da Calbria, 
=vivera com a sua corte num magnfico palcio do qual j no 
=existiam vestgios h mais de um sculo. Mas a partir da 
=foi dado quelas vielas o nome de Duquesa; eram sete, como 
os pecados =mortais. Todas igualmente miserveis, ladeadas de 
casas degradadas, =habitadas pela fome.
Qual ser o contrrio da fome? perguntava-se muitas vezes 
=Teresella, que no conhecia a saciedade.
Naquela tarde sufocante, a rapariga observava o Lavinaio 
seco. Estava =atulhado de detritos e emanava um cheiro 
nauseabundo. A chuva apanhou-a =de surpresa e correu, 
descala, para casa. Ouviu a voz da me que =a chamava no 
momento em que entrou na viela onde ficava o seu baixo.
- Leva l para fora o balde e a bacia - ordenou Rosa. Estava 
a =tirar aos filhos mais pequenos as roupas rasgadas, 
deixando nus os =corpos mal nutridos de trs rapazes e uma 
rapariguinha, com a pele =morena salpicada de mordeduras 
avermelhadas de pulgas. No meio da rua, =debaixo da chuva 
torrencial, Rosa esfregou-os energicamente com =sabo.
As crianas riam, abrindo em direco ao cu as bocas secas. 
=O aguaceiro enchia as bacias, lavava a calada e arrastava 
para o =Lavinaio toda aquela sujidade.
Rosa empurrou os filhos para dentro do baixo. Pegou num 
lenol, =embrulhou-os todos juntos e massajou-lhe os corpos. 
- Agora =portem-se bem. Vo para cima da cama. A me e a 
vossa irm =tambm tm que se lavar - explicou.
O baixo era um quarto sem janela, com uma nica abertura que 
dava =para a viela e atravs da qual recebia pouco ar, pouca 
luz e nunca =sol. As paredes ressumavam humidade.

23


No havia gua corrente, nem casas de banho. A gua ia-se 
=buscar a poos estagnados e estava sempre contaminada. 
Quanto ao =resto, tinha que ser feito ao ar livre, onde 
calhava. Os detritos eram =deitados  rua, de onde ningum se 
preocupava em os retirar.
As famlias que viviam nos baixos sofriam de catarro crnico. 
As =crianas morriam muitas vezes de garrotilho, uma angina 
=diftrica para a qual no se conhecia remdio. Convivia-se 
com =gatos famlicos, galinhas piolhosas e ratos venenosos.  
noite, as =pessoas deitavam-se em camas infestadas de 
percevejos.
H anos que mdicos e polticos, autoridades citadinas e 
=jornalistas, escritores e poetas denunciavam a vergonha dos 
baixos =napolitanos. Eram visitados por ministros e 
deputados, que lamentavam =aquela situao e prometiam 
melhoramentos que nunca se chegavam a =verificar.
No baixo da famlia Avigliano, o soalho era de tbuas 
desconexas e =encharcadas. Um luxo que o marido de Rosa se 
permitiu, cobrindo a terra =batida com madeira recolhida na 
Marina.
Alguns cortinados, suspensos por cordas, criavam cantos de 
uma =intimidade relativa. Enquanto as crianas continuavam a 
brincar, a =rir e a dar cambalhotas na cama, Rosa, com a 
ajuda de Teresella, levou =para dentro a bacia a transbordar 
de gua da chuva. Puseram-na a um =canto, por trs de um 
cortinado.
- Agora vamos ns lavar-nos - anunciou, desapertando as fitas 
da =camisa da filha. Levantou-a pelas axilas e meteu-a na 
bacia de =madeira. L fora, na viela, a chuva martelava a 
calada e no =cu faiscavam relmpagos.
A rapariga, liberta de uma sujidade de semanas, secou-se e 
comeou a =passar o pente de osso nos cabelos.
Enquanto se penteava em frente a um espelho, observava-se a 
si =prpria e  me, que se tinha metido na bacia.
- Me, por que  que os meus cabelos so to negros? - 
=perguntou.
- So os fios de seda que a noite tirou do manto dela e te 
ofereceu =- disse Rosa.
Teresella sorriu, satisfeita.
Rosa dava muitas vezes respostas fantasiosas s perguntas 
incessantes =daquela filha to curiosa.

24


- Est a falar verdade, me? - insistiu a rapariga. E 
=acrescentou: - E mais? Que outras prendas me deu o cu?
- A lua deu-te aquela luz plida para colorir a tua pele e as 
=estrelas entraram na tua boca para te fazer brilhar os 
dentes - =continuou, pacientemente. Tinha sado da bacia e 
procurava um pano =para se secar.
- E o sol? O que foi que me deu?
- Nada. Eu estava  espera que ele te entrasse no crebro 
para =iluminar o teu esprito. Mas no foi assim. Andas 
sempre =distrada. Passas a vida a passear e eu no sei de 
que  que =andas  procura. S a noite  que te deu 
presentes.
- No ando  procura de nada, me. Gosto de olhar para tudo 
=aquilo que est  minha volta: os palcios, as ruas, as 
=carruagens, os automveis, as lojas, aquelas bonitas, de 
Chiaia e de =Corso Umberto. Gostava de ver a casa de don 
Vincenzo Cuocolo. Nunca =entrei num palcio de senhores.
Don Vincenzo, um rico comerciante de peles, vivia com a 
famlia no =primeiro andar de um palcio do sculo XIX de que 
Rosa fazia a =limpeza. At tinha telefone. Quando tocava, 
Rosa estremecia e saa =a correr da sala, a gritar: O 
talfricof. Depois ficava a =espiar da porta a pessoa que 
falava, levando ao ouvido uma espcie de =cone do qual saa a 
voz de um interlocutor distante: uma bruxaria dos =tempos 
modernos.
Naquela grande casa havia duas criadas que punham a mesa, 
serviam o =ch, remendavam os lenis, passavam a roupa e 
punham as pratas =a brilhar. Ela no sabia fazer nada 
daquilo. Tocavam-lhe os =trabalhos mais pesados. Limpava as 
lareiras e as salamandras, descia = despensa para ir buscar 
a lenha e o carvo para a cozinha e para =o aquecimento, 
lavava a roupa e esfregava o cho com escova e soda 
=custica.  noite, quando regressava ao seu baixo, sentia-se 
=to cansada que, s vezes, se atirava para cima da cama sem 
jantar =e adormecia imediatamente, extenuada.
Ganhava duas liras por dia e a famlia podia contar sempre 
com elas. =Mais incertos eram os ganhos do marido, que 
trabalhava nas descargas do =mercado do peixe. No trabalhava 
todos os dias. Quando calhava, =trazia para casa trs liras. 
As despesas eram elevadas, porque o =aluguer do baixo era 
caro. Vinte liras por ms. O resto ia em comida =e remdios.

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No entanto, Rosa trazia muitas vezes de casa do patro restos 
de =caf ou de comida, lascas de sabo e roupa que j no era 
=usada. Em suma, era um bom emprego e ela fazia os possveis 
por o =conservar.
- Gostavas mesmo de ver a casa de don Vincenzo? - perguntou 
Rosa, =admirada. Ela nunca nutrira a mnima curiosidade em 
relao aos =palcios dos nobres e dos ricos. Sabia que o 
melhor eram mesmo as =igrejas. Ali podia-se admirar a 
verdadeira riqueza: as cores =maravilhosas dos frescos, as 
esttuas de mrmore, as colunas e os =capitis floridos, os 
estuques dourados e centenas de velas sempre =acesas que, s 
de olhar, aqueciam o corao. Rosa entrava em =todas as 
igrejas como se fosse a dona da casa, sem temer que os santos 
a =olhassem com desprezo.
- A famlia Cuocolo no ia gostar de te ver. Tm medo de 
olhar =nos olhos a nossa misria - disse Rosa com um sorriso 
irnico, =enquanto vestia uma camisa lavada sobre o corpo 
magro de seios =imensos.
- Me, quando  que me vai crescer assim o peito? - perguntou 
=Teresella.
- Que pressa que tu tens de crescer - respondeu a me, com 
uma voz =spera.
- No me respondeu - insistiu a rapariga, enquanto travava 
uma luta =difcil com os caracis.
- Quanto mais tarde, melhor. Quando te crescer o peito vais 
ser uma =mulher. Nessa altura, a tua vida, que j  
desgraada, vai ser =um inferno. Olha para mim e no tenhas 
pressa de crescer - rematou. =Nesse momento, um trovo 
explodiu com tanta fora que fez tremer a =terra. Rosa 
estremeceu, a filha agarrou-se a ela, os mais pequenos 
=pararam de brincar e uma mulher gritou, estarrecida: - 
Jesus, um =terramoto!
- A av acordou - sussurrou Teresella, contrariada porque o 
=trovo e a av a tinham arrancado a um momento de intimidade 
com a =me.
Rosa afastou a cortina que durante uns minutos a tinha 
isolado do resto =do mundo. Atravessou o quarto e inclinou-se 
sobre uma cama de onde =provinha um cheiro acre.
- Me Lina, acalme-se. A clera ainda no passou, e j =est 
a pensar no terramoto? -interrogou-a com doura.

- Ento o que foi? - perguntou a velha, que se tinha sentado 
na =cama.
- Estava a dormir to bem que ainda no deu conta do 
temporal. Os =santos, l em cima, no Paraso, esto a 
discutir por coisas =deles, muito privadas - - tranquilizou-a 
com um sorriso que se =transformou num esgar de 
desapontamento porque, no cho, alastrava =uma mancha de 
gua.
- Nossa Senhora do Socorro, ns pedimos a graa da chuva, no 
=um dilvio.  assim que respondeis s nossas preces? - disse 
=Rosa, irritada. A viela tinha-se transformado numa torrente 
e o baixo, =que ficava dois degraus abaixo do nvel da rua, 
estava a ficar =alagado.
- Teresella, meninos, ajudem-me - ordenou, enquanto agarrava 
num =monte de farrapos na tentativa de travar o fluxo da 
gua.
- E a senhora, me Lina, aproveite para se lavar porque, 
desculpe =que lhe diga, cheira muito mal - acrescentou, 
voltando-se para a =sogra, que, como nica resposta, voltou a 
deitar-se na cama. Ainda =por cima era domingo, um dia 
dedicado ao Senhor. Durante toda a semana =dedicava-se a 
andar atrs daqueles netos que eram demasiado =enrgicos para 
as poucas foras que ainda tinha. Para se lavar, =esperaria 
pelo prximo aguaceiro, na condio de vir em dia de 
=trabalho. Quanto ao baixo alagado, era s um pequeno 
contratempo que =se resolveria depressa mesmo sem a sua 
ajuda.
O temporal afastou-se e as crianas fugiram outra vez para o 
ar =livre. A viela retomou a sua vida de sempre.
De repente, uma figura luminosa perfilou-se na soleira do 
baixo. Em =frente a elas estava uma mulher jovem, lindssima, 
com um vestido =branco que a cobria do pescoo at aos ps. 
Os cabelos de ouro =formavam uma espcie de aurola em volta 
da cabea protegida =por um grande chapu.
- A senhora  a dona Rosa Avigliano? - perguntou a 
=desconhecida.
Rosa deixou cair ao cho os farrapos que ainda segurava, 
pousou uma =mo protectora no ombro da filha e respondeu, 
desconfiada: - E para =que  que quer saber?
- Preciso de si para me fazer um feitio - disse simplesmente 
a =visitante, sem se mexer do stio onde estava.

26 - 27


Rosa Avigliano tinha aprendido com a me a confeccionar 
amuletos =contra o mau-olhado, a desfazer votos, a pronunciar 
rezas para =conseguir favores dos santos, a preparar feitios 
e a libertar quem =era atingido por eles. Conhecia as 
frmulas para tornar frtil uma =mulher estril, para curar 
uma dor de garganta, para escapar ao =perigo de um raio e 
para casar com um homem renitente.
Ela prpria, quando ficou grvida de Teresella e o namorado a 
=abandonou, recitou durante nove noites uma reza a So Joo. 
Ao fim =da novena viu uma esteira de fogo atravessar o cu. 
No dia seguinte, =o namorado regressou e casou com ela.
Como quase todos os habitantes dos baixos, Rosa era 
analfabeta, mas =possua a cultura da superstio da qual, 
porm, nunca =fizera comrcio. Pelo contrrio, olhava com 
desconfiana as =curandeiras que tinham sempre a casa cheia 
de desesperados e se =aproveitavam da sua dor para receberem 
dinheiro e presentes.
Por isso se irritou quando aquela misteriosa mulher, da 
soleira do =baixo, lhe pediu um feitio.
- Rosa Avigliano sou eu, mas no posso fazer nada por si - 
disse =com uma voz spera, apertando o ombro magro da filha.
- Sofia, a minha criada, diz que a senhora me pode ajudar - 
insistiu a =jovem, que falava com um sotaque estrangeiro.
- No conheo a sua criada. Lamento muito - replicou, 
=comeando a ficar preocupada, porque a gente da viela se 
=concentrava
j nas costas da visitante, que no mostrava nenhuma 
=inteno de ir embora.
- Sofia  amiga da Concetta, a criada de don Vincenzo 
Cuocolo, o seu =patro. Disse-me que j lhe preparou um 
feitio para =conquistar o amor de um jovem - retorquiu a 
senhora.
A informao era verdadeira. Concetta, uma das duas criadas 
da =famlia Cuocolo, tinha-se apaixonado perdidamente por um 
jovem =merceeiro do bairro Vicria, que tinha olhos azuis e 
uns bigodes =negros com as pontas encaracoladas. Quando 
Concetta saa para fazer =algum recado, corria at  
mercearia para comprar scapece, uma =conserva slida de 
tomate e courgette, ou spiritosa, a raiz amarela =da 
pastinaca, cozida e temperada com alho e malagueta. Concetta 
=lanava-lhe uns olhares apaixonados para comunicar ao jovem 
o seu =amor ardente, que ele retribua com igual intensidade. 
Esta =paixo, alimentada de olhares, continuava h meses a 
ter apenas o =sabor da scapece e da spiritosa. Concetta 
oferecia a Rosa aquela comida =que comprava inutilmente e 
jejuava, consumindo-se em lgrimas.
- Ele tem que falar comigo. Quero que me diga que est 
apaixonado =por mim, porque assim no posso viver - 
confessou-lhe, enquanto =escovava os fatos e Rosa, inclinada 
no cho, encerava o soalho.
- Concetta, eu tambm tenho os meus problemas e j estou 
cansada =de ouvir falar dos teus males de amor - desabafou um 
dia.
- Tens razo. Tem pacincia. Mas diz-me, como foi que 
=conseguiste convencer o homem de quem gostavas a 
declarar-se?
- Jesus, s me faltava esta! Esse declarou-se imediatamente. 
No =era pessoa para enredos. Foi dito e feito, ests a 
perceber?
- No. O que  que quer dizer isso?
- Que a certa altura dei por mim com uma grande barriga. O 
meu problema =era convenc-lo a casar comigo, porque ele 
deixou-me.
- Ai Virgem Santssima! E depois?
- Havia duas possibilidades: uma certa e outra duvidosa. A 
primeira, era =contar ao meu pai, que o obrigava a casar 
comigo com a navalha em punho. =A segunda, era a novena 
secreta a So Joo. Escolhi a segunda, e =fiquei com a outra 
de reserva. So Joo convenceu-o - explicou =Rosa, 
continuando a espalhar a cera.

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- Ento eu tambm posso fazer a novena? - perguntou Concetta, 
=animando-se.
- No, senhora. Primeiro ele tem de se declarar. Portanto,  
=preciso um feitio - explicou a mulher, passando um brao 
pela =testa para limpar o suor.
- E claro! Tenho que ir  tia Grazia, na Viela de 
Mezzocannone.
- Ela leva-te muito dinheiro. Eu fao-te o feitio. Mas no 
=garanto que funcione - decidiu. E acrescentou: - Pega na 
tesoura e =corta uma madeixa de cabelo.
-  para j. Aqui est a madeixa. E agora o que  que se 
=faz?
- Isso  comigo - declarou Rosa. Levou-a para casa dentro de 
um =leno. Queimou-a numa bacia, juntou um p fino de ervas e 
deitou =tudo num saquinho de pano que depois entregou a 
Concetta.
- Tens que meter este saquinho em vinho quando chegar a lua 
nova e =deix-lo assim durante sete dias e sete noites. 
Depois ds o =vinho ao teu namorado mas tens que ter a 
certeza que ele o bebe. A =seguir acendes uma vela a So 
Pascoal e ao fim de trs dias ele =declara-se - disse-lhe.
- Mas tu s bruxa?
- Espero que no. De qualquer maneira, isto  sabedoria 
antiga, =mas que nem sempre produz o efeito que se pretende. 
O importante  =ter f.
O feitio funcionou e o jovem merceeiro casou-se com 
Concetta. A =rapariga prometeu a Rosa no falar a ningum no 
feitio, mas =acabou por desabafar com a criada daquela 
bonita senhora que a vinha =procurar. Rosa Avigliano estava 
agora realmente zangada, porque no =queria de maneira 
nenhuma atrair sobre si prpria a curiosidade da =viela 
inteira.
- Entre - disse contrariada, enquanto afastava com um gesto 
brusco os =vizinhos que se tinham concentrado  entrada do 
baixo.
- Sente-se - sugeriu, oferecendo-lhe a cadeira menos 
=desengonada. - E conte-me tudo - concluiu, sentando-se ao 
lado =dela.
- Ser que no posso falar-lhe a ss? - perguntou 
=timidamente a jovem.
- A minha filha Teresella  uma criana. A minha sogra, como 
pode =ouvir, dorme profundamente. Portanto pode falar  
vontade.

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- O meu marido no me ama - sussurrou a visitante.
- Mas que rica novidade - comentou Rosa com um sorriso 
irnico.
- Faz-me sofrer - continuou a jovem.
-  sempre assim. Ns damos a alma por eles e eles nem olham 
para =ns. Prncipes ou mendigos, os homens so todos iguais 
- =lamentou-se, pensando em Matteo, o marido que desejara com 
todo o =corao, que a deixava, grvida, e ia dar uma volta, 
a fazer =olhos meigos s outras mulheres.  viva di Giacomo, 
por =exemplo, que no era mais nova nem mais bonita do que 
ela. S que =o marido, ao morrer, lhe deixara uma banca de 
peixe no bairro do =Mercado, apartamentos em Npoles e 
terrenos no campo. Roslia di =Giacomo morava com os dois 
filhos no quinto andar da casa que confinava =com o baixo de 
Rosa. Tinha um apartamento de quatro assoalhadas, luz 
=elctrica e uma criada para tratar da casa. Rosa sentia-se 
humilhada =quando a encontrava, porque dona Roslia trazia 
argolas de ouro nas =orelhas e um colar comprido de coral que 
lhe tocava os seios.
- Acredite, minha senhora, o seu marido no  pior do que os 
=outros - advertiu-a.
- Esta noite maltratou-me - explicou a jovem. Desapertou o 
punho do =vestido e mostrou-lhe as marcas no brao.
O meu Matteo nunca me bateu pensou Rosa mas muitos maridos 
=apaixonados batem nas mulheres, espicaados pelo cime.
- Os homens gostam de briga - comentou.
- Ajude-me, por favor. Quero que ele me d amor - suplicou a 
=desconhecida.
Rosa viu os grandes olhos da rapariga encherem-se de 
lgrimas. Teve =pena dela. Era to bonita, to jovem, e 
estava to desesperada. =Pensou na sua Teresella. J no 
tardava o dia em que tambm ela =ia chorar por amor. Era a 
vez de Rosa a consolar para lhe aliviar a =dor.
- Eu no fao feitios. No sou nenhuma bruxa - disse em =voz 
baixa. E declarou com sinceridade: - Aquilo que a criada da 
senhora =lhe contou  verdade, mas  fruto do acaso, no dos 
meus =poderes.
- Ajude-me - insistiu a jovem.
- Me, ajude a senhora - interveio Teresella, que observava a 
=desconhecida com curiosidade. Fascinava-a a delicadeza

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do rosto, o ouro dos cabelos, os diamantes que brilhavam nos 
lbulos =das orelhas e o cheiro a alfazema que flutuava  sua 
volta.
Rosa levantou-se da cadeira com um suspiro de resignao. Foi 
=atrs da cortina e tirou um cordo da coberta branca da 
cama. =Mergulhou-o na gua benta contida numa caixa, em 
frente  imagem =da Santssima Trindade. Espremeu-o e deu-lhe 
sete ns, enquanto =recitava uma orao. Depois entregou-o  
visitante.
- Cosa este cordo no forro do casaco do seu marido. Se ao 
fim de =sete dias no tiver acontecido nada,  porque no h 
=esperana para a vossa unio - disse. E acrescentou: - Mas 
=no volte a deixar que ele lhe bata. Entretanto, sorria. No 
 =com lgrimas que vai resolver os problemas.
- Sim. No vou voltar a permitir-lhe que me faa mal - 
=concordou a jovem. - Mas tenho a certeza de que este feitio 
vai =funcionar. Muito obrigada - sussurrou, enquanto pousava 
em cima da mesa =uma moeda de ouro.
- Est a ofender-me - reagiu Rosa, olhando-a com severidade.
- S queria recompensar esta amabilidade - desculpou-se a 
jovem, =confusa.
- Lembre-se de mim nas suas oraes  Virgem - pediu Rosa, e 
=acrescentou: - E nunca diga nada sobre o que aconteceu aqui 
entre a =senhora e Rosa Avigliano. - Era uma despedida.
A jovem enfiou o cordo na bolsa de seda branca.
- Prometo - garantiu. - E a senhora lembre-se de Josepha 
Castiglia =- disse, simplesmente.
Subiu os dois degraus do baixo e foi-se embora.
- Me, aquilo  mesmo um feitio? - sussurrou Teresella.
- No vai funcionar. Aquela rapariga tem um marido doente da 
=cabea e do corao - comentou amargamente.
- Como  que sabe?
- Sinto-o - explicou Rosa, assomando com a filha  entrada do 
=baixo.
Ao fundo da viela, uma carruagem esperava a bela senhora que 
agora =passava por entre duas alas de gente curiosa. s 
pessoas da Duquesa =tinha sado a sorte grande: uma mulher 
vestida de branco, uma =carruagem, uma visita misteriosa.

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NPOLES- PALCIO CASTIGLIA AGOSTO DE =1910


Josepha saiu do baixo e olhou em volta. A gente =da 
viela afastou-se para a deixar passar. Ela tentou sorrir, mas 
no =conseguiu ultrapassar o desalento provocado pela misria 
que a =rodeava. Dirigiu-se lentamente para o fundo da rua 
onde, ao lado de uma =carruagem, a esperavam o cocheiro e uma 
mulher que a recebeu com =satisfao.
- Finalmente! J estava a ficar aflita.
- Est tudo bem, Sofia. Tem calma - respondeu a jovem, 
subindo com =ela para a carruagem. - Para o palcio Castiglia 
- ordenou ao =condutor. Em seguida deixou-se cair contra o 
encosto de pele =escura.
- Conseguiu o feitio? - perguntou Sofia.
- Est aqui, na minha bolsa - tranquilizou-a.
No disse mais nada. Fechou os olhos. Sentia-se infeliz, como 
=sempre, mas as confidncias que trocara com Rosa Avigliano 
tinham-na =reconfortado. Falara com ela como se fosse sua 
irm, e perguntou-se =por que razo no conseguiria fazer a 
mesma coisa com a sogra e =com as cunhadas. Como era possvel 
ter mais familiaridade com uma =mulher do povo do que com 
elas?
Estava casada h seis meses e, para acompanhar o marido, 
tinha =deixado no longnquo Tirol os poucos afectos 
importantes da sua =existncia. De um dia para o outro, tinha 
mudado de terra, de casa e =de hbitos. Fizera-o por amor. 
Tinha dezassete anos e vivia num =lugar estranho, com um 
homem que a desprezava.
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- Josepha, vais ser feliz - tinha augurado o seu tutor, 
=acompanhando-a ao comboio que a levaria a Paris em viagem de 
=npcias. Nos momentos de desconforto, recordava as palavras 
daquele =velho amigo para continuar a ter esperana. No 
conseguia =resignar-se  ideia de que aquele augrio nunca se 
viria a =cumprir.
Josepha Sidonia tinha nascido condessa Paravicini von 
Riccabona zu =Reichenfelds, senhora de Rundegg e Rametz. Em 
Fevereiro, quando em =Npoles se propagava a epidemia de 
clera, casou com Enrico =Filippo Maria Castiglia, prncipe 
da Calbria. O casamento foi =celebrado na catedral de 
Merano, cidade natal de Josepha, com o fausto =que a condio 
dos esposos requeria. Viveu em Paris at Maio, =altura em que 
de Npoles chegaram notcias tranquilizantes sobre a 
=epidemia, j circunscrita aos bairros pobres. O resto da 
cidade =estava em segurana.
- Lembrou-se dos meus conselhos? - quis ento saber a criada, 
=desviando Josepha dos seus pensamentos.
- Que conselhos? - perguntou a rapariga.
- Para evitar o contgio. No aceitou nada de beber, pois 
no? =Esteve sempre com as luvas caladas? Eu bem lhe 
recomendei - disse, =surpreendida ao captar no olhar da 
senhora, habitualmente triste, uma =expresso serena. Sofia 
tinha-se afeioado a ela e acompanhava-a =fielmente, tendo j 
aprendido a conhecer-lhe os humores e os estados =de 
esprito.
Josepha nunca se tinha aberto com ela, mas a mulher sabia 
como ela era =infeliz. Ningum podia imaginar que o prncipe 
Enrico pudesse =ignorar aquela esposa to bonita, at porque, 
pelo menos em =pblico, se mostrava prdigo de atenes. O 
drama =consumava-se em privado. Sofia tinha-a encontrado a 
chorar mais do que =uma vez. Na noite anterior ouvira o 
prncipe gritar com ela. De =manh, enquanto a ajudava a 
vestir-se, viu as marcas no brao da =rapariga. Naquele 
momento decidiu falar sobre a possibilidade de =conseguir um 
feitio.
Josepha estava to desesperada que resolveu acreditar naquilo 
que, em =outras ocasies, teria considerado apenas uma 
superstio tola, =e aventurou-se a entrar numa zona da 
cidade considerada de risco. =Agora, a julgar pela serenidade 
da jovem, Sofia achou que tinha valido a =pena arriscar.

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- Ningum me ofereceu de beber e no tirei as luvas. Aquelas 
=pessoas no esto empestadas. Esto abandonadas por toda a 
=gente. Acho que era nosso dever ocuparmo-nos delas - 
rematou.
A carruagem parou em frente ao palcio. O porteiro 
apressou-se a =abrir a portinhola. Josepha pagou ao cocheiro 
e, acompanhada pela =criada, entrou no trio. Subiram 
rapidamente a escada at ao =primeiro andar e entraram pela 
porta do apartamento. Naquele momento, de =uma espcie de 
funil situado junto  entrada saiu o som =amplificado de um 
assobio. Era uma chamada que vinha do andar =superior.
- Estou muito atrasada, Sofia? - perguntou Josepha, alarmada. 
=Entretanto, tirou o grande chapu de organza e atirou-o para 
cima de =um div.
- So cinco horas em ponto - tranquilizou-a a criada. 
Encostou-se =ao funil, soprou para dentro dele e anunciou: - 
A princesa j =est a sair.
Aquele telefone rudimentar ligava o primeiro andar, onde 
viviam Josepha =e o marido, ao segundo, onde ficava o 
apartamento da princesa Carolina, =a sogra. Fora Sas, um 
velho criado, quem perguntou por ela, porque =ia servir o ch 
naquele momento.
Josepha tirou as luvas e arranjou o cabelo em frente ao 
toucador.
- Esconde a minha bolsa. O feitio est l dentro - ordenou 
= criada. E perguntou-lhe: - Estou apresentvel?
- Como sempre, princesa - animou-a a mulher, sabendo quanto 
ela temia =a opinio da sogra. Por isso voltou a abrir a 
pesada porta de mogno =pela qual Josepha saiu a correr.
Sas estava  espera dela e, assim que a viu, sorriu-lhe, 
=inclinando ligeiramente a cabea. Vivia naquele palcio 
desde =pequeno. Sabia tudo sobre os Castiglia. Tinha 
assistido a tudo quanto de =bom e de mau acontecera naquela 
famlia, sem nunca emitir uma =opinio nem pronunciar uma 
palavra a mais do que o necessrio. =Tinha agora quase 
oitenta anos, vacilava um pouco sobre as pernas =cansadas, 
mas por razo nenhuma se furtaria aos seus deveres. De 
=resto, nunca faltara um nico dia ao trabalho. Josepha tinha 
por ele =respeito e simpatia.
- Boa tarde, Sas. Est tudo bem? - perguntou-lhe.

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- Tudo bem, obrigado, princesa - respondeu, com uma voz um 
pouco =trmula.
Josepha atravessou uma srie de salas e parou  entrada de um 
=salo. As janelas estavam abertas e viam-se os jardins da 
Marina e =as palmeiras que se recortavam, ntidas, contra o 
cu. O temporal =tinha refrescado o ar e lufadas de vento 
faziam inchar as cortinas de =tule branco apanhadas ao lado 
das janelas. Na luz clara da tarde viu os =poucos convivas 
que a esperavam sentados nas poltronas da sala: a =princesa 
Carolina, que tinha os cabelos pintados de vermelho e 
=ressequidos da permanente, Virginia, a filha mais nova, com 
um olhar =eternamente franzido, Marianna, a segunda filha, 
trintona, de grandes =olhos negros e uma postura graciosa, e 
Vittorio Alliata, o marido de =Marianna, pequeno e trigueiro, 
sempre com um ar aborrecido. Faltava =Enrico, o seu marido, 
que tinha sado na noite anterior no meio de um =grande 
alarido e, obviamente, no tinha ainda voltado.
Josepha respirou fundo e preparou os lbios para um sorriso. 
Entrou =na sala e disse - Bonsoir. - Depois aproximou-se da 
sogra e, =esboando uma vnia, repetiu: - Bonsoir, maman.
- Bonsoir, Josphine - cumprimentou a princesa, 
pronunciando-lhe o =nome  francesa. Em seguida fez-lhe sinal 
para que se sentasse na =poltrona ao lado da sua. Por fim 
voltou-se para Sas, que esperava =muito direito ao lado do 
aparador sobre o qual estavam pousadas as =chvenas e o bule. 
- Pode servir o ch.
Aquela sala chamava-se sala azul devido aos tons dominantes 
dos =pesados cortinados de veludo de seda, dos damascos 
floridos que =revestiam as poltronas e do imenso tapete 
bukhara que cobria o cho =de mosaico. Em duas paredes 
opostas destacavam-se as lareiras de =mrmore branco 
esculpido com o braso dos Castiglia: trs =torres com ameias 
e um leo erguido. Dentro de grandes cachepots =azul-china 
havia plantas altssimas e viosas.
Josepha ergueu o olhar para o tecto pintado a fresco com 
figuras de =anjos rolios de mos dadas, como se brincassem 
s rodinhas, =pelo meio de ramos floridos entrelaados, sob 
um cu azul com =ligeiras nuvens rosadas. Sempre que se 
sentava naquela sala, Josepha =erguia um olhar receoso para o 
tecto, imaginando que um daqueles anjos =podia cair, 
derrubando-a.

38


De uma sala distante chegavam as vozes melodiosas das 
crianas, que =recitavam uma lengalenga e riam muito.
Eram os filhos de Marianna e Vittorio Alliata que, com outros 
primos, =passavam o domingo em casa da princesa Carolina.
Josepha tinha tido dificuldade em se habituar  opulncia 
daquele =palcio, onde lhe parecia haver excesso de tudo: 
mveis, objectos =de adorno, pratas, quadros e tapetes. 
Captava em todo o lado sinais de =uma ostentao exagerada. A 
sogra, que se vestia sempre de roxo, =andava carregada de 
jias. As duas cunhadas, Marianna e Virginia, =competiam com 
a me e iam a Paris,  Madame Paquin, encomendar =vestidos, 
chapus e perfumes. O cunhado Vittorio s falava de =cavalos 
e automveis.
Ela tinha crescido na simplicidade. A casa de Merano em que 
nascera e =crescera, Schloss Rundegg, era uma construo 
severa da Idade =Mdia, decorada com sobriedade.
O vesturio dos Paravicini no se afastava muito do dos 
criados. =Vestiam roupas do Tirol de linho fresco, de Vero, 
e de l virgem, =no Inverno. Habitualmente, usavam pratos e 
copos de estanho e a comida =no diferia da dos camponeses. 
Quando conheceu o prncipe Enrico =Castiglia e a famlia, 
Josepha ficou deslumbrada e seduzida pelo =fausto que agora a 
sufocava.
Sorriu aos parentes e, para se sentir menos embaraada, abriu 
de =repente o leque e abanou-se. Tinha-lho dado a av materna 
quando =fizera dez anos e entrara para o colgio em 
Innsbruck. Chamava-se =Dorothea von Rost, era vienense e, 
como todas as mulheres daquela =famlia, ocupava-se 
activamente da casa, com a ajuda dos =criados.
Tambm a me cozinhava, bordava, recebia os hspedes e 
mantinha =uma correspondncia regular com as amigas e os 
parentes afastados de =Innsbruck e de Viena. Ela prpria 
sabia lavar, cozinhar e passar a =ferro, porque, no pequeno 
mundo em que vivera, o trabalho era =considerado um dever que 
exaltava a dignidade do indivduo.
Em Npoles apercebera-se das diferenas que separavam o 
=Imprio austro-hngaro do Reino italiano. Aqui o trabalho 
era uma =condenao que recaa sobre os humildes. Os ricos e 
os nobres =cultivavam o cio como uma arte. Quando tentou 
ocupar-se da casa foi =severamente repreendida pelo marido. 
Ela no ousou contrari-lo, =mas aborrecia-se,

39

e a nostalgia do seu pas tornava-se cada dia mais forte.
- Vi que voltaste para casa h pouco tempo, numa carruagem 
=pblica - observou Virginia, com evidente curiosidade.
- Estava com medo de chegar atrasada para o ch - respondeu 
=Josepha, ignorando a provocao.
De cada vez que Virginia lhe dirigia a palavra, sentia a 
sombra de uma =armadilha. Sabia que a cunhada a considerava 
pouco mais do que uma =estranha.
- A nossa casa no  o teu colgio de Innsbruck. Ningum te 
=ia censurar o atraso - replicou Virginia com um sorriso 
falsamente =anglico.
Virginia no era bonita, nem sequer simptica. Nasceu quando 
a =me j tinha ultrapassado os trinta anos. A princesa 
Carolina =decidiu que a filha a devia assistir na velhice. 
Ela conhecia as =intenes da me, que a condenavam a ficar 
solteira, e =vingava-se em toda a gente com pequenos vexames 
e maldades.
- Queres saber onde estive? - perguntou Josepha com doura. E 
=continuou: - Depois do temporal, o ar estava to fresco que 
decidi =dar um passeio.
- Devias evitar passear sozinha. s demasiado jovem e no 
=conheces bem esta cidade. As ruas esto cheias de 
socialistas que nos =odeiam e de ladres prontos a 
arrancar-te a bolsa - interveio o =cunhado Vittorio. Tinha 
quarenta anos, um nome ilustre e um =patrimnio considervel 
que desbaratava nas corridas de cavalos e =em aventuras com 
artistas mais ou menos famosas, entre Roma, Milo, =Paris e 
Londres. Gostava daquela jovem cunhada. Afinal, fora ele 
=prprio quem a apresentara a Enrico, com quem nunca 
conseguira =estabelecer qualquer relao, porque o jovem 
prncipe no =partilhava do seu entusiasmo nem pelos 
automveis nem pelos cavalos, =e ainda menos pelas poldras 
que se exibiam nos =caf-chantants. Achou que uma estrangeira 
jovem, graciosa, =ingnua e de famlia nobre poderia tir-lo 
da apatia em que =parecia constantemente mergulhado.
- Muitos ladres roubam porque tm fome. Quanto aos 
socialistas, =no me metem medo. Confio no sbio governo do 
nosso Rei, assim =como sempre acreditei no meu imperador - 
respondeu Josepha, com uma =ponta de ironia que a princesa 
Carolina captou imediatamente, assim como =no lhe escapou

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a divertida troca de olhares entre Virginia e Marianna.
Esta ltima era uma mulher agradvel e muito sensvel ao 
=fascnio masculino. Ao contrrio da irm mais nova, 
detestava a =bisbilhotice mas, tal como Virginia, raramente 
se mostrava benevolente =nas suas opinies. Depois de dar  
luz trs filhos, cansada das =infidelidades do marido, 
decidiu assumir a sua parte de distraco =e arranjou um 
amante. Era um jornalista que escrevia para Il Mattino e 
=frequentava os crculos intelectuais. Chamava-se Ciro 
Ruoppolo, era =filho de um professor primrio e a relao com 
uma princesa =Castigla, casada com um Alliata, satisfazia 
plenamente as suas =ambies sociais.
- Ca suffit - rematou a princesa Carolina, olhando as filhas 
com =severidade. Em seguida voltou-se para a nora: - Por que 
ser que o =teu marido no vem?
- Ele hoje no est - respondeu ela, esforando-se por 
=parecer tranquila.
- Onde foi? - perguntou o cunhado.
- Conhece o Enrico. Segue a sua inspirao sem dar 
=explicaes - justificou a jovem.
Na noite anterior, quando Enrico entrou no quarto dela para 
lhe desejar =uma boa noite, antes de se ausentar, como todas 
as noites, ela =suplicou-lhe que a deixasse regressar a 
Merano, j que era evidente =que ele no a amava. -  
possvel que eu no seja uma boa =esposa. Mas s Deus sabe 
quanto gostaria de o ser. Se a culpa  =minha, deixa-me 
voltar ao lugar de onde vim - disse-lhe.
Estava sentada no canap, aos ps da cama. Enrico dominava-a 
com =a sua imponncia. Era lindssimo. E estava muito 
zangado.
- Queres separar-te? - perguntou-lhe com uma voz spera e os 
=olhos brilhantes de clera.
Josepha assentiu, olhando-o aterrada.
Enrico agarrou-a por um pulso e obrigou-a a levantar-se.
- Larga-me. Ests a magoar-me - reagiu Josepha.
-  isso que quero - replicou, apertando-lhe o pulso at a 
=fazer chorar de dor. - Ouve-me bem. Fui buscar-te a umas 
runas a =que tu chamas pomposamente castelo e fiz de ti uma 
princesa Castiglia =destinada, talvez, a dama da corte.

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No ouses voltar a falar-me de sentimentos nem de separao. 
=Essas consideraes de pequenos burgueses no me dizem 
=respeito.
Concluiu a invectiva com um empurro enrgico. Ela caiu e 
esteve = beira do desmaio, no tanto pela dor fsica como 
pela ofensa =recebida de um homem com quem se casara apenas 
por amor.
Enrico saiu do quarto logo de seguida, batendo a porta com 
violncia. =Depois ouviu-o descer as escadas. No voltara a 
v-lo.
- Enrico foi sempre um solitrio. Mas agora comea a exagerar 
- =comentou a sogra com amargura.
-  bizarro - sublinhou o cunhado com ligeireza.
- Como todos os homens - replicou Virgnia com um ar 
condescendente =em relao s duas cunhadas que tinham 
marido: um privilgio =que lhe era negado.
- Quando for pai, ganha juzo. De que ests  espera para lhe 
=dares um herdeiro? - disse Marianna.
Josepha corou. Um filho era tudo aquilo que ela mais 
desejava. Mas, =desde o dia do casamento, Enrico nunca lhe 
tinha sequer tocado.

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Quando se encontrava numa situao difcil e no sabia como 
=sair dela, Josepha defendia-se erguendo entre ela e os 
outros uma =impenetrvel barreira de silncio. Endireitava as 
costas e fixava =um objecto ao acaso. A sogra, as cunhadas e 
o cunhado continuaram a =conversar. Ela observava a cor de 
mbar do ch na chvena que =tinha na mo.
Quase no se deu conta de que, a certa altura, Marianna e o 
marido se =foram embora e que tambm Virgnia se tinha 
afastado.
- s assim to infeliz? - A pergunta da sogra, formulada em 
voz =baixa, devolveu-a  realidade.
A jovem sentiu um tom amargurado na voz da princesa. Desta 
vez no =podia refugiar-se no silncio. - E a senhora, maman, 
 assim =to infeliz? - respondeu, at porque no tinha 
propriamente =uma resposta.
- Uma pergunta interessante - comentou a sogra. - Ests  
=espera de uma confisso sincera?
- Talvez no. H verdades que, quando se dizem, fazem mal ao 
=corao - sussurrou.
- Pois , o corao das mulheres sangra quase sempre, sem 
=distino de classe nem de idade. Vivemos atormentadas por 
feridas =que nunca se fecham.
- Comeo a perceber isso- disse Josepha com amargura.
- Sabes, eu casei com um homem que no amava. Talvez nem 
sequer o =meu marido estivesse apaixonado por mim.

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No nosso tempo, os casamentos eram combinados pelos pais, 
para =reforar os patrimnios familiares. O meu era 
substancial. O =prncipe apoderou-se dele.
- Parece-me tudo to triste - suspirou Josepha. Nunca tinha 
=conhecido o prncipe Castiglia. Oficialmente, vivia em 
Genebra, numa =villa junto ao lago, mas certos mexericos 
velados, apanhados aqui e ali, =sugeriam uma verso 
diferente. O prncipe enlouquecera aos =quarenta anos e tinha 
sido internado numa clnica sua para =doentes mentais, de 
onde no voltara a sair.
Do andar de baixo chegava a voz melodiosa de Sofia, que 
cantava uma =cano de amor. Da rua subia a chiadeira das 
carruagens puxadas =por cavalos e, mais longe, ouvia-se um 
comboio.
- Triste, no. Doloroso - corrigiu a sogra. E acrescentou: - 
=Queres ficar para jantar? Estou  espera de um convidado 
=delicioso.
- Como desejar, maman - respondeu Josepha. No era um convite 
muito =aliciante. Os convidados da princesa pareciam-lhe 
todos muito =aborrecidos, mas nunca teria a coragem de 
recusar. Naquela noite tinha =uma coisa para fazer que a 
motivava muito mais. Tinha de coser o =feitio de Rosa 
Avigliano no casaco do marido.
- Sabes o que escreveu um autor siciliano que tu certamente 
no =conheces? Esconde um desejo num armrio. Abre-o, e 
=encontrars um engano - disse a princesa levantando-se da 
=poltrona. Aproximou-se de uma janela, ficou assim, imvel, 
de costas =voltadas para ela, e continuou: - Talvez seja 
melhor no ficares =para jantar. Pode ser que o Enrico decida 
regressar a casa. - =Voltou-se, aproximou-se da rapariga e 
pousou-lhe uma mo no ombro, =olhando-a com ternura.
- Hoje estive no bairro do Mercado e vi sofrimentos bem 
maiores do que =os nossos - ousou confessar Josepha.
- s uma rapariga estranha - observou a senhora, pensativa. 
Depois =abanou o sininho de prata. Apareceu o criado.
- Acompanha a princesa - mandou a sogra. A rapariga saiu da 
sala e =chegou  escadaria.
Desceu alguns degraus e depois parou. Vinha algum a subir. 
Talvez =fosse o marido que, finalmente, regressava a casa. 
Retomou a descida com =o corao num tumulto.

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Ao nvel do primeiro andar, cruzou-se com um homem numa farda 
de =militar. Quando a viu, tirou rapidamente o bivaque de 
ordenana, =metendo-o debaixo do brao, enquanto se punha em 
sentido. Os raios =oblquos do sol poente, que penetravam 
atravs de uma grande =janela aberta, iluminaram-lhe os 
cabelos acobreados e bem cortados. =Josepha reparou no bigode 
fino, quase invisvel, nos olhos verdes, =salpicados de ouro 
como os bosques do Tirol no Outono, nas mas =do rosto altas 
e pronunciadas que faziam sobressair um nariz perfeito. =Era 
muito mais alto do que ela. Ele inclinou a cabea num 
=cumprimento. Ela fez a mesma coisa, e depois dirigiu-se, 
muito direita, =para a porta do seu apartamento, enquanto o 
jovem recomeou a subir. =Obviamente, era aquele o hspede de 
quem a princesa estava  =espera.
Pousou uma mo no puxador de bronze cinzelado e olhou para 
cima. Viu =o jovem debruar-se da balaustrada de mrmore e 
sorrir-lhe, com =ar de quem troava do seu ar altivo.
- Ol - disse ele, deixando-a desorientada. E acompanhou 
aquele =cumprimento com um gesto da mo calada.
Josepha, naquele momento, exibiu-se numa reverncia cmica. - 
=Servas - replicou, com a mesma boa disposio. Aquele jovem 
=oficial proporcionara-lhe um momento de alegria.
Com um gesto decidido, baixou o puxador e entrou em casa. O 
amplo =vestbulo que conduzia aos sales de visitas estava 
decorado com =divs barrocos alinhados ao longo das paredes, 
consolas imponentes =com espelhos imensos por cima e, nas 
paredes, grandes telas de pintores =napolitanos do sculo 
XIX. Jarras cheias de flores emanavam um =perfume intenso que 
tornava o ar mais pesado. Atravessou-o e abriu uma =pequena 
porta forrada - assim como as paredes - de brocado cinzento. 
=Seguiu atravs de um longo corredor que conduzia aos 
aposentos =destinados a si e ao marido: duas salas de estar, 
o escritrio de =Enrico, os respectivos quartos de dormir, 
com os quartos de vestir e as =casas de banho, e um pequeno 
quarto onde dormia Sofia. O criado do =prncipe vivia com o 
resto da criadagem no terceiro andar do =palcio. A cozinha, 
a lavandaria e a despensa ficavam no =rs-do-cho. As 
carruagens, os cavalos, os ces e os =armazns ocupavam um 
edifcio para l do ptio, onde ficava =tambm instalado o 
cocheiro.

45


Josepha estava com pressa de recuperar a sua bolsa, que 
ficara ao =cuidado de Sofia. Passou rapidamente frente ao 
escritrio de Enrico. =A porta estava escancarada. Parou  
entrada. Ele estava sentado numa =poltrona forrada de couro 
vermelho a fumar um charuto. No trazia =casaco e a alvura da 
camisa exaltava o tom cinzento-prola do colete =de seda. No 
se mexeu. Limitou-se a olhar para ela. Josepha reparou =nos 
olhos vermelhos e nos cabelos despenteados.
- Perdoa-me - sussurrou Enrico.
Ela foi incapaz de reagir. Estava perdidamente apaixonada por 
aquele =homem indefinvel, misterioso. Mas a lembrana do que 
tinha =acontecido na noite anterior era ainda demasiado viva 
para lhe permitir =perdoar. Acima de tudo, decidira nunca 
mais se deixar atemorizar por =ele. Inclinou a cabea e 
seguiu o seu caminho.
- Josepha! - gritou Enrico, com raiva. Ela voltou atrs e 
olhou-o =com severidade.
- Pedi-te perdo. Ouviste-me? - perguntou, com voz rouca.
- Ouvi perfeitamente - respondeu, glida.
- Ento responde-me - ordenou.
Josepha entrou na sala, cujas paredes eram revestidas de 
estantes cheias =de livros antigos. Parou em frente dele e 
desapertou o punho com gestos =lentos. Levantou a manga e 
mostrou-lhe as ndoas negras marcadas no =brao.
- Devo perdoar-te isto? - perguntou friamente.
Enrico, inesperadamente, estendeu a mo e acariciou levemente 
o =brao da jovem. Inclinou a cabea e aflorou-lhe o pulso 
com os =lbios.
Josepha estremeceu. Os dedos, os lbios, o perfume do marido 
tinham o =poder de a subjugar. Fora assim desde o primeiro 
encontro, em Merano, em =Setembro do ano anterior.
Tinha regressado pouco tempo antes do colgio de Innsbruck. O 
seu =tutor, o burgomestre Joseph Grossmann, foi ter com ela 
ao castelo onde =vivia sozinha com a criadagem. Os pais e os 
avs tinham morrido h =muitos anos. Ela mostrou-lhe com 
orgulho o diploma de curso e a medalha =de mrito.
- E agora, o que vais fazer? - perguntou-lhe com alguma 
=inquietao. Era um velho senhor, simples e honesto, 
ancorado nos =modelos e valores do sculo XIX que, com o 
advento do novo

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sculo, pareciam vacilar. A modernidade do sculo XX 
=desorientava-o e, no fim de contas, no lhe agradava. Tinha 
tido =duas mulheres. Nenhuma lhe dera filhos. Sentia-se feliz 
por tomar conta =de Josepha, mas aquela rapariga de aspecto 
delicado, olhar altivo e sem =parentes era para ele uma fonte 
de contnuas preocupaes.
No era um problema ocupar-se dos poucos bens que restavam  
=ltima descendente dos Paravicini: o castelo, umas vinhas, 
uns =bosques de conferas e algumas aces de uma sociedade 
de =energia elctrica adquiridas pela av Dorothea com o 
dinheiro =obtido pela venda de um palcio na ustria. Agora 
dava-se conta =de que no bastava administrar com honestidade 
o modesto =patrimnio da jovem. Aquela rapariga precisava do 
calor de uma =famlia. No podia deix-la sozinha, entre as 
paredes de =Schloss Rundegg, confiando-a ao cuidado de trs 
velhos: as duas =criadas e o criado. Tinha de lhe arranjar um 
marido.
Naquela estao, a nobreza europeia convergia para Merano. 
Fora a =Imperatriz Sissi quem despertara aquela pequena 
cidade do sul do Tirol =da sua sonolenta quietude, 
transformando-a num local da moda. Os =castelos abandonados 
h sculos foram rapidamente restaurados e =surgiram grandes 
hotis e novas residncias. A fina flor passeava =ao longo do 
Passirio, frequentava as Termas, acotovelava-se no 
=hipdromo. Promoviam-se concertos, recepes, almoos, 
=bailes e festas. As senhoras redescobriam os fatos 
caractersticos do =Tirol. Histrias de amor comeavam e 
acabavam no tempo de uma =estao. No ia ser fcil casar com 
alguma honradez a jovem =rf. Mas tambm no era impossvel. 
Josepha pertencia a =uma famlia aristocrata e alguns 
parentes seus tinham desempenhado =cargos pblicos 
importantes no Tirol. Entre estes contava-se =Bernhardus 
Paravicini. Mais de um sculo depois da sua morte, ainda =se 
elogiavam os dotes pblicos e privados daquele homem. Morrera 
em =1770, com cento e quatro anos, e a quarta mulher, uma 
jovem de trinta =anos, deu  luz o ltimo filho quatro meses 
depois da morte do =marido. O notvel patrimnio do conde 
Bernhardus dispersou-se nas =numerosas subdivises de 
heranas. Em pouco mais de cem anos, =desapareceram os 
herdeiros e os seus haveres. No entanto, Josepha era =ainda 
senhora de Rundegg, o castelo dos antepassados.

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 certo que o novo sculo trazia consigo novidades 
fascinantes. Os =automveis e os trens elctricos substituam 
os cavalos. A =electricidade entrou nas casas, nos 
escritrios, em toda a parte, =mudando radicalmente os 
hbitos das pessoas. Mas a nobreza continuava =a ter algum 
peso. E ele ia fazer valer os ttulos daquela pupila.
Forando a sua natureza esquiva e reservada, o burgomestre 
reabriu as =salas do castelo e organizou recepes para 
introduzir Josepha na =sociedade. Como  natural, ela no 
conhecia as verdadeiras =intenes do tutor. Ficou preocupada 
quando o viu gastar uma =fortuna para lhe comprar vestidos 
lindssimos e elegantes. Sentiu-se =intimidada quando ele a 
quis ao seu lado nas vestes de jovem dona da =casa. 
Apaixonou-se quando o tutor lhe apresentou o belssimo 
=prncipe Enrico Castiglia, que lhe aflorou a mo com um 
beijo, =sussurrando-lhe Enchant. Bastou-lhe olhar para ele 
e =sentir o toque dos seus lbios para o amar 
apaixonadamente.
E amava-o ainda, enquanto lhe mostrava as marcas que a 
violncia da =vspera lhe deixara no brao.
- No te queria magoar - murmurou Enrico, olhando-a 
tristemente. =Ela voltou a apertar o punho.
- Isto no  nada - respondeu. - So outras coisas que me 
=doem. Quero esquecer o teu comportamento vulgar da noite 
passada e =ignorar o teu desprezo pela minha famlia. Mas no 
posso continuar =a suportar o teu engano. Tu mentiste-me. 
Pediste-me em casamento e =encheste-me de vestidos e de jias 
que eu nunca te pedi. Em =pblico tratas-me como uma rainha, 
e em casa evitas-me como se eu =sofresse de uma doena 
contagiosa. Porqu? O que foi que eu fiz =para merecer tudo 
isto?  uma pergunta que eu fao desde a nossa =noite de 
npcias quando, em Paris, me deixaste sozinha num 
=apartamento do Ritz. Eu sonhava com a felicidade e tu nem 
sequer olhaste =para mim. Um homem e uma mulher, quando se 
casam, dividem a mesma cama. =Ns nunca o fizemos. Porqu? - 
perguntou, em voz baixa.
Ele baixou a cabea e no respondeu.
- Porqu? - repetiu a rapariga com mais fora, inclinando-se 
=sobre ele. Voltou a levantar-se confusa, desorientada, 
porque Enrico =estava a chorar. Teve um instante de 
hesitao, e depois =acariciou-lhe os cabelos como se fosse 
uma criana.

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- Qu'est-ce qui se passe? - perguntou-lhe baixinho. - O =que 
se passa contigo? - repetiu na sua lngua.
- No passas de uma menina - disse ele. E acrescentou: - No 
ias =entender.
- Mas sou tua mulher. Preciso de entender - reagiu Josepha.
- s to nova - repetiu Enrico, mecanicamente. Depois, 
=surpreendendo-a mais uma vez, puxou-a para cima dos joelhos 
e =abraou-a.
- S por esta noite, queres dormir na minha cama? - sussurrou 
=ela.
Enrico concordou.

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NPOLES - VIELA DA DUQUESA AGOSTO DE =1910


Matteo Avigliano entrou na Viela da Duquesa =quando o 
sol descia no horizonte e os sinos tocavam alegremente, 
=anunciando a Av-Maria. Os habitantes dos baixos comiam na 
rua o =pouco de que dispunham.
Duas mulheres discutiam nos andares mais altos e os =gritos 
ressoavam na viela. As pessoas ouviam e tomavam partido, uns 
por =uma, outros por outra. As crianas faziam um barulho 
diablico, =afastando aos pontaps ces esquelticos que 
tentavam roubar =algum pedao de comida. Os homens, 
encostados s paredes, =conversavam entre si com um copo de 
vinho numa mo e um cigarro na =outra. As raparigas 
cavaqueavam  janela, enquanto uma voz de tenor =cantava: 
Fenesta ca luve....
Matteo caminhava lentamente, as mos enfiadas nos bolsos das 
=calas deformadas pelo uso e o casaco negro de fusto aberto 
sobre =o peito largo. Trazia um cravo vermelho na lapela. 
Dera-lho Roslia =di Giacomo, tirando-o do peito com um 
sorriso cheio de =subentendidos.
Gostava de Roslia. Tinha um riso forte, dentes bonitos e 
ancas =Onerosas. Era temida no bairro, porque emprestava 
dinheiro a juros e =no havia lgrimas capazes de a comover.
Algum despejou um balde de gua suja de uma varanda. Matteo 
=afastou-se rapidamente, apesar de ter as pernas 
enfraquecidas depois de =um dia inteiro de trabalho, coroado 
por um encontro apaixonado com =Roslia.

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Estava contente por regressar a casa. Sabia que no ia 
=encontrar um jantar rico nem uma mulher terna. Mas havia os 
filhos. =Matteo amava-os. Mesmo quando gritavam e se pegavam, 
no conseguia =zangar-se. Olhava para eles e o corao 
inchava-lhe de orgulho. =Quanto a Rosa, no fim de contas, no 
era a pior das mulheres. Era uma =trabalhadora incansvel e 
uma me atenta. Tinha mau feitio, =irritava-se muitas vezes, 
mas s por cime. Mas no tinha =macacos na cabea, 
entregava-lhe o dinheiro que ganhava at ao =ltimo cntimo e 
nunca gastava uma lira com ela. Tratava a sogra =com 
respeito. Em todo o bairro, ningum podia dizer mal dela.
Perto do baixo, Matteo viu quatro dos seus filhos a comerem 
po e =melo. Annina chorava porque Salvatore lhe tinha 
tirado um pedao =da fruta. Teresella, como de costume, no 
estava. Rosa tambm =no estava. A me, que distribua 
sapatadas ao acaso para fazer =calar os netos, ergueu os 
braos ao cu assim que o viu.
- Agora  que tu chegas! - exclamou. E acrescentou, sufocando 
um =soluo: - A desgraa caiu mais uma vez sobre esta 
famlia.
- As coisas que a me inventa por causa de um pedao de melo 
=- disse o homem, sem pacincia, entrando no baixo j 
mergulhado =na escurido.
Em cima da mesa havia uma vela acesa. Um luxo que aquela 
famlia =raramente se permitia. Ouviu um choro sufocado para 
alm da cortina =que protegia o leito conjugal. Pairava 
dentro de casa um cheiro acre que =conhecia bem. Assustou-se 
e pensou em Rosa e em Teresella: uma das duas =estava doente.
Parou ao lado da mesa, paralisado pelo medo. Por um instante, 
foi =assaltado pelo impulso de fugir para no saber aquilo 
que, dentro de =alguns momentos, o ia fazer enlouquecer de 
dor. Agarrou na garrafa que =sustinha a vela e, com um gesto 
decidido, afastou a cortina. Rosa estava =estendida na cama e 
respirava com dificuldade. Teresella estava =inclinada sobre 
ela e acariciava-lhe o rosto, chorando baixinho. - =Clera! - 
sussurrou, aterrado.
Conhecia bem os sintomas daquela doena que, em Abril, lhe 
matara o =ltimo filho; agora que a epidemia parecia ter 
acabado, a clera =atingia de novo a sua famlia.
De manh, antes de sair para ir trabalhar, a mulher 
preparara-lhe o =pequeno-almoo e deixara na prateleira tudo

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aquilo que era preciso para ele fazer a barba. Pareceu-lhe 
que estava =bem. No se queixou. Agora tinha o nariz aguado 
quase =transparente, os lbios azulados e gretados, as faces 
encovadas e a =pele do rosto amarela e enrugada. Aquela 
doena horrvel ceifava =as suas vtimas em poucas horas, 
depois de se ter manifestado.
- Em vez de chorares, vai  farmcia buscar permanganato de 
=potssio - ordenou a Teresella, metendo-lhe algum dinheiro 
na =mo. Pela maneira como via a mulher, pensou que no havia 
=remdio que a pudesse salvar. Mas tinha de tentar ajud-la.
- No deites dinheiro fora - disse Rosa, com um fio de voz. 
Sabia =que j era demasiado tarde para remdios.
H dois dias que sentia um estranho mal-estar, que tinha 
insistido =em ignorar. Devia, porm, ter-se metido logo na 
cama e tomado o =permanganato. - O remdio j no adianta - 
sussurrou =docemente a Teresella. - E as tuas lgrimas tambm 
no. =Pra de chorar. Faz-me mal ao corao. Vai-te embora. 
Agora =tenho que falar com o teu pai.
Matteo virou ao contrrio a bacia de zinco que se encontrava 
aos =ps da cama e improvisou um banco para se sentar ao p 
dela.
- Essa flor vermelha e perfumada no te fica bem - disse 
Rosa, =indicando o cravo na lapela do casaco.
Matteo pegou nele e atirou-o para longe.
- Perdoa-me - sussurrou, envergonhado por aquela infidelidade 
=recente.
Rosa pensou na estupidez do marido e de tantos outros homens. 
Primeiro =ofendem e depois pedem desculpa, como se bastasse 
um acto de =contrio para apagar as ofensas. Se estivesse 
bem, tinha-lhe =dito duas coisas. Mas agora tinha uma coisa 
muito diferente na =cabea.
- J no vou ver a luz do dia - continuou. A boca ressequida 
=causava-lhe gretas dolorosas. Mas mais ainda a fazia sofrer 
a ideia de =perder para sempre os filhos e aquele marido que 
tanto amara. A =paixo que tinha por ele nunca se apagou. 
Sabia que Matteo no ia =dormir sozinho por muito tempo. Os 
vivos, sobretudo os que tinham =filhos, voltavam sempre a 
casar. Era um tormento pensar que Matteo ia =partilhar aquela 
cama com outra mulher.
- Amanh j ests bem - mentiu o homem, com o peito


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sacudido pelos soluos. Segurava uma mo de Rosa entre as 
suas e =beijava-a docemente.
- Antes de me ir embora, tenho de resolver a tua vida e a das 
=crianas - disse ela.
- Cala-te, por amor de Deus - suplicou-lhe.
- Pelo contrrio, vamos conversar, porque j no h muito 
=tempo. Tens muitas mulheres  tua volta. Uma delas tem de 
ser a tua =segunda mulher.
- No digas essas coisas, Rosa. No vai haver outra mulher 
depois =de ti. Esta cama  sagrada.
- E vai continuar a s-lo. Vais ter outra, longe desta 
caverna. A =cama de uma senhora que mora numa casa grande, 
cheia de luz. Os meus =filhos precisam de ar e de sol. Tu 
sabes bem de quem falo - =sussurrou.
Matteo assentiu.
- Portanto, chama a viva di Giacomo e traz-ma aqui, ao p de 
=mim - ordenou.
Sabia que o marido preferia Roslia a outras mulheres que o 
=desejavam. Rosa detestava-a porque lhe conhecia a avareza, o 
cinismo e =a mesquinhez. Tinha a certeza de que Roslia ia 
conseguir casar-se =com Matteo, mas queria ser ela a impor as 
condies.
- Ela no vem. No h nenhuma razo para isso - objectou o 
=homem.
- O desejo de quem est para morrer  sagrado. Ela vem. 
Matteo =achou aterradora a perspectiva de trazer  cabeceira 
de
Rosa a mulher com quem vivia fugazes momentos de paixo. 
Roslia, =to elegante e perfumada, no devia passar a 
soleira daquele baixo =srdido e miservel. Mas no podia 
recusar-se a satisfazer o =ltimo desejo da mulher. Rosa 
continuava a ser mais forte do que ele. =Do fundo do corao, 
esperou que Roslia recusasse o convite. =Mas a viva no se 
fez rogada. Entrou no baixo a tapar os =lbios e o nariz com 
um lencinho cheio de perfume. Inclinou-se sobre =Rosa para 
ouvir as palavras que esta tinha para lhe dizer.
- Mandei-a chamar porque tenho de lhe pedir um favor. Se por 
acaso =pensar em casar outra vez, tome em considerao o meu 
marido. =No preciso de lhe referir as suas qualidades. 
Conhece-as bem - =disse, sem conseguir evitar a ironia. - Mas 
quanto ao resto  =ingnuo como uma criana. Tem a fora toda 
no corpo. A vontade = fraca. Mas  uma pessoa honesta.

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Faz bom negcio, se casar com ele.
- Mas isso  conversa que se tenha? O seu marido  s um 
=empregado meu. Quanto ao resto, a senhora  a mulher dele 
e...
Rosa no a deixou acabar. - S por pouco tempo, dona Roslia. 
=Gosta do Matteo. Eu sei.  natural. Eu tambm gostei. Mas 
agora =temos cinco filhos. Se um dia se casar com ele, ter 
de ser me =deles. - Finalmente, tinha-se desforrado, ao fim 
de tantos anos de =frustrao. Tinha conseguido transformar 
em deciso sua uma =unio que se consumaria de qualquer 
maneira. Mas havia mais. Por isso =continuou: - Os meus 
filhos vo viver consigo, na sua casa. Ter =de os alimentar 
e vestir como deve ser. O meu marido pagar com o =trabalho 
dele a comida, a roupa, os remdios e tudo o que for 
=preciso. Se os puser na escola, no faz mais do que a sua 
=obrigao. No lhe peo que os ame. Peo-lhe que os 
=respeite. Parece-lhe demasiado?
Roslia nunca se sentira to embaraada. Habituada a olhar 
toda =a gente do alto da sua riqueza, sentia-se agora numa 
situao de =dependncia que a incomodava.
- Dona Rosa, eu nunca pensei casar com o seu marido - 
protestou.
- Eu sei. Tem razo. Mas, se por acaso um dia isso lhe passar 
pela =cabea, j sabe o que tem a fazer, e eu, l de cima, 
vou =abeno-la - concluiu Rosa.
Enquanto ouvia, Roslia olhava de soslaio para Matteo que, 
enfiado =num canto, soluava baixinho. Gostava daquele homem, 
ainda jovem e =forte. Depois de arranjado, faria uma bela 
figura ao lado dela. Nunca =tinha pensado casar com ele, 
porque nunca imaginara que a mulher pudesse =morrer. Agora 
via-o sob um outro aspecto. Efectivamente, podia dar um =bom 
marido.  claro que, ao casar com ele, teria tambm de levar 
=para casa os cinco filhos. Eram realmente de mais. Pensou 
que a mais =velha ia sair dali rapidamente, entretanto, podia 
ser til em casa. =Os outros, o pequeno monge em primeiro 
lugar, punha-os a trabalhar com =o pai.
- Se  para ficar satisfeita, digo-lhe j que a coisa se 
podia =resolver - replicou com um ar brando, que lhe 
contradizia a frigidez do =olhar.
- A senhora tambm deve ficar satisfeita - sussurrou Rosa.

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- No me parece que seja momento para exprimir satisfao - 
=defendeu-se a mulher.
- Por que no? A si no lhe importa a minha morte e a minha 
=proposta no lhe desagrada. Portanto, faa-me um favor. Est 
a =ver aquela imagem da Imaculada a esmagar a serpente do 
mal? - =perguntou, indicando uma pequena imagem colorida 
pousada na prateleira =ao lado da cama. - Jure pela Virgem 
que vai respeitar os meus filhos e =tomar conta deles - 
ordenou.
- Juro - disse Roslia, fazendo o sinal da cruz. E 
acrescentou: - =No caso de eu e o seu marido decidirmos 
casar.
Rosa concordou, extenuada.
- Se no for fiel a este juramento sagrado, eu saberei. E no 
=ficarei contente - concluiu, segura de que aquela ameaa 
teria algum =peso no comportamento de Roslia.
Rosa Avigliano morreu com a primeira luz da manh. Foi o 
ltimo =falecimento devido  clera naquele terrvel ano de 
1910. Era o =dia 15 de Agosto, dia de Nossa Senhora da 
Assuno. Teresella teve =a certeza de que a Virgem tinha 
recebido a me no Paraso.

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Rosa foi sepultada numa vala comum, a dos pobres, no 
cemitrio de =Poggioreale. A chuva de alguns dias atrs tinha 
restitudo vigor = relva e s flores. Enquanto o cortejo 
fnebre percorria os =caminhos do cemitrio, no meio daquela 
festa de cores e perfumes, a =av disse: - - Queria morrer 
depressa, para repousar, aqui, no meio =desta maravilha.
Todos os habitantes das sete vielas da Duquesa foram 
despedir-se de =Rosa uma ltima vez. Havia homens, mulheres, 
crianas e idosos. As =mulheres choravam, desesperadas, e 
recordavam a honestidade, a =rectido e a generosidade da 
defunta. Don Vincenzo Cuocolo mandou uma =corbeille de rosas 
brancas e um envelope com vinte liras, para as =primeiras 
necessidades da famlia.
No regresso do enterro, a vizinhana invadiu o baixo da 
famlia =Avigliano, levando comida e bebidas. Nunca ali se 
vira tanta =abundncia de macarro temperado com zuffritto, 
um molho feito com =vsceras de porco, de vinho asprino, de 
figos e de melo, para =consolar o vivo e os rfos.
Foi uma festa que os habitantes da viela recordaram durante 
muito tempo. =Todos, excepto Teresella, comeram at  
saciedade. A rapariga, =esquiva como sempre, escondeu-se na 
cama, por trs da cortina, e =no apareceu. Estava 
desesperada com a morte da me, a
assistira at ao ltimo suspiro, enquanto o pai soluava.
Poucos minutos antes de morrer, Rosa disse-lhe: - Quando eu

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j c no estiver, tens que entregar esta imagem  dona 
=Roslia di Giacomo. - Era a imagem da Imaculada a esmagar a 
=serpente.
A viva di Giacomo manteve-se distante de todas as 
=manifestaes de condolncias. Nunca conseguiria simular nem 
=uma sombra de tristeza, de tal maneira estava satisfeita com 
a =situao. A pobre Rosa servira-lhe Matteo numa bandeja de 
prata. =Dentro de poucos meses teria um novo marido e no 
tinha a menor =dvida de que gostava muito mais de Matteo 
Avigliano do que do =defunto, que a dominara e oprimira de 
todas as maneiras. Este seria um =instrumento malevel nas 
suas mos. Ela seria a dona de tudo e =teria um trabalhador 
fiel e incansvel no mercado, e um amante =maravilhoso na 
cama.
Enquanto Rosa estava a ser enterrada, ela saboreava um banho 
relaxante, =perfumado com sais ingleses. Os dois filhos, 
Vincenzo e Renato, estavam =em baixo, na viela, a inventar 
malandrices com os amigos. Era bom que se =divertissem quanto 
quisessem. Em Outubro regressavam ao colgio. Os =padres que 
tratassem de os endireitar e de os instruir. O falecido 
=marido nunca teria aceitado a ideia de os pr a estudar. 
Quando =os filhos so mais instrudos do que os pais, acabam 
por no os =respeitar, dizia. Ele era analfabeto, conseguira 
tornar-se quase =rico. Conseguia, com dificuldade, assinar os 
contratos que estabelecia =com os fornecedores, depois de 
algum lhe ter lido e explicado cada =uma das clusulas. Da 
aritmtica apenas tinha as noes mais =elementares de que 
precisava para o seu comrcio. Mas, com o novo =sculo, tudo 
mudara. Para incrementar o volume de negcios do =falecido 
pai, era indispensvel que os filhos tivessem =instruo.
- Lina! - gritou Roslia enquanto saa da banheira. Lina era 
a =criada, uma pobre mulher vinda do campo, onde deixara um 
marido =campons e seis filhos. Roslia pagava-lhe um salrio 
de =misria, deixava-a dormir no cho e dava-lhe as sobras da 
=cozinha para comer. Mas sempre era melhor que nada. Lina 
guardava o que =ganhava dentro de um leno, apertado com uns 
ns muito fortes, que =trazia ao peito. No primeiro domingo 
de cada ms, Roslia =deixava-a ir  terra abraar a famlia. 
Ela abria o leno =em cima da mesa da cozinha e ficavam todos 
ali  volta, a remirar =aquelas poucas moedas como se fossem 
um tesouro.

60


A criada veio a correr e estendeu-lhe uma toalha de linho 
branco. =Roslia secou-se, olhando-se ao espelho. Tinha 
orgulho naquele =corpo forte e slido.
- A senhora  muito bonita, dona Roslia. Parece uma esttua 
=- observou Lina, admirada. Ela arqueou os lbios num sorriso 
=satisfeito. Gostava de receber cumprimentos, ainda que 
vindos da criada, =que a elogiava, em parte, para lhe 
conquistar alguma =benevolncia.
- A beleza vem e vai. Mas, enquanto existe, a mulher deve 
=aproveit-la - comentou, pensando que tambm era muito til 
=ser-se inteligente e astuto. A famlia de Roslia era muito 
pobre =e ela, aos dezasseis anos, cravou os olhos no dono da 
banca de peixe =mais importante da cidade, Andrea di Giacomo. 
Tinha a melhor clientela =de Npoles e fornecia at o palcio 
real. Ela demonstrou-lhe =que, com o seu sorriso encantador, 
uma voz melodiosa e olhares =lnguidos conseguia vender tudo, 
at ao ltimo linguado, =deixando os clientes encantados. 
Andrea tinha quarenta anos e as =raparigas da viela 
achavam-no velho, gordo e feio. Sempre fugiram dele =como da 
peste. Ela, pelo contrrio, casou com ele. Ele cobriu-a de 
=ouro e ela mostrou-se  altura daquele peixeiro rico. Ou 
mais do que =isso, uma vez que o ultrapassou em astcia e 
parcimnia. Com o =dinheiro acumulado no banco, comprou uma 
srie completa de casas na =Viela da Duquesa, e era ela quem 
cobrava pessoalmente as rendas.
Depois adquiriu uma nova banca de peixe a um comerciante que 
estava =falido, e depois outra, e mais outra. O dinheiro, nas 
mos dela, =multiplicava-se. Por vezes, at o marido se 
assustava com a avidez =irrefrevel daquela mulher bela e 
ambiciosa.
- Estamos a estender-nos demasiado, Roslia. Assim no pode 
ser. =A camorra no nos vai deixar viver sossegados durante 
muito tempo - =avisava.
- Com certas pessoas, eu c me sei arranjar - replicava, 
mordendo o =freio. Nasceram dois filhos. Entregou-os a uma 
ama, para no lhe =chuparem o seio e no ter de perder tempo 
com eles. Estava demasiado =ocupada a ampliar os seus 
negcios e a acumular riquezas. Nunca amou =o marido, e 
quando ele morreu de enfarte respirou de alvio. Naquela 
=altura, j s era um peso para ela. Mas adorava os filhos e, 
=sobretudo, amava o dinheiro. E'danare, como dizia,

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em dialecto cerrado. Esta palavra proporcionava-lhe um prazer 
=irreprimvel.
- -Precisa de um marido, dona Roslia, para poder gozar tanta 
=beleza - comentou Lina com um sorriso malicioso, enquanto a 
penteava em =frente ao toucador do quarto de dormir.
- A seu tempo, tambm isso h-de vir - rematou ela. No 
=tinha nenhuma inteno de lhe confiar os seus projectos.
Mas j toda a gente sabia que o feliz contemplado ia ser 
Matteo =Avigliano, o vivo de Rosa, porque esta fora a 
vontade da =defunta.
Roslia, sentada em frente ao espelho, observou a imagem 
reflectida =da cama de casal, coberta com uma grande colcha 
de linho bordado e =protegida por um tule que descia do 
tecto. Ali, durante anos, tinha-se =aborrecido com o marido. 
Agora, por sorte, a nica coisa que dele =restava era um 
grande retrato a spia, encerrado numa moldura oval, 
=pendurado num canto da sala por onde raramente passava os 
olhos. Dentro =de alguns meses, o tempo necessrio para 
respeitar o luto, Matteo =Avigliano iria aquec-la nas noites 
de Inverno.  claro que =tambm tinha de instalar ali os 
cinco filhos. O quarto que dava para =o ptio interior 
ficaria para eles. Os seus filhos j tinham o =quarto deles 
e, mesmo quando estivessem no colgio, ningum =deveria ousar 
ocup-lo. Na sala, nem sonhar. Tinha que estar sempre 
=arranjada e serviria para almoarem ao domingo, ela, Matteo 
e os dois =filhos dela. Eles eram di Giacomo, proprietrios 
legtimos de tudo =aquilo. Os pequenos Avigliano comeriam na 
cozinha, com a criada. E que =agradecessem ao cu. A passagem 
daquele baixo srdido ao quinto =andar do seu prdio era um 
salto de muito respeito. De resto, ela =saberia mant-los 
sossegados.  primeira desobedincia, haviam =de lhe 
experimentar a fora do brao.
Lina apanhou-lhe os cabelos numa trana macia sobre a nuca. 
Ela =observou-se ao espelho, satisfeita. Mas o sorriso 
desfez-se numa =contrariedade: Teresa Avigliano estava  
porta do quarto, a olhar =para ela.
Roslia virou-se de repente e fulminou-a com um olhar hostil 
- O =que  que ests aqui a fazer? - perguntou, agressiva. 
Aquela =rapariga de olhar altivo deixava-a pouco  vontade.
- Um recado, da parte da minha me - disse Teresella, 
olhando-a =bem nos olhos.
- Da parte da tua me? Mas ela morreu anteontem! - 
levantou-se, =alisando sobre as ancas as pregas do vestido.
- Antes de morrer, disse-me para lhe entregar isto - 
explicou, =estendendo-lhe a imagem da Virgem. - Disse-me para 
lha dar depois do =funeral.
- Pousa-a ali - ordenou Roslia, sentindo nascer dentro de si 
uma =inquietao que rapidamente repeliu.

62 - 63


NPOLES - PALCIO CASTIGLIA AGOSTO DE =1910


Josepha entrou no quarto de vestir. Sofia estava = 
espera dela e espantou-se de a ver sorrir.
- A minha bolsa - disse Josepha, alegremente.
- Aqui est, minha senhora.
A rapariga fez saltar as duas molas de prata em forma de rosa 
e =abriu-a. Virou-a ao contrrio e despejou o contedo sobre 
uma =pequena bandeja de veludo vermelho. No meio de uma 
caixinha de marfim, =um pente de osso num estojo de prata, um 
frasquinho de perfume com tampa =dourada e um leno de renda, 
encontrou o cordo com os ns =dados por Rosa Avigliano.
- Aqui est - - exclamou, pegando nele e entregando-o a 
=Sofia.
- E ento, o que  que temos de fazer com isto? - perguntou a 
=criada.
- Depois eu digo-te. Agora, quero que me prepares um banho 
perfumado =- ordenou.
-  para j - respondeu a mulher.
Ajudou-a a libertar-se dos sapatos e do vestido, pousou-lhe 
sobre os =ombros um roupo e Josepha entrou no quarto de 
banho. Era um =espao amplo, de paredes esmaltadas, decorado 
com frisos de volutas =em estilo Liberty. Havia duas 
poltronas, colunas que Ostentavam Jarras =de flores, dois 
espelhos com as molduras em bronze dourado e uma enorme 
=banheira oval em mrmore rosa. A gua saa de uma torneira 
de =metal dourado em forma de cabea de leo. Estava morna, 
como ela =gostava.

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Abandonou-se com uma sensao de prazer. Pensava na recente 
=ternura do marido, nas suas lgrimas, na promessa de 
passarem a noite =juntos. No sabia como explicar aquela 
mudana imprevista, h =tanto desejada. Mas de uma coisa 
tinha a certeza: Enrico era um homem =indecifrvel.
Poucos meses antes do casamento, o tutor tinha-lhe dito: - 
=Ests cheia de sorte. Vais viver para Npoles, a maior 
cidade de =Itlia. Vais encontrar gente interessante e viver 
no meio da riqueza! =- O burgomestre verificara a solidez do 
patrimnio dos prncipes =Castiglia, proprietrios de 
palcios, de casas, de terrenos no sul =de Itlia e de uma 
destilaria de licores famosa em toda a Europa. Os =rosoiz(1), 
os alkermes(2) e o brandy eram os melhores do mercado e 
=garantiam um volume de negcios de alguns milhes. As 
destilarias =produziam ainda o famoso Elixir de Santa 
Roslia, uma espcie de =digestivo que surgia pontualmente, 
no fim da refeio, na mesa das =famlias mais ilustres. O 
tutor informou Josepha de que Enrico, =depois do casamento, 
no se ia apropriar dos bens da jovem mulher. - =Um gesto 
verdadeiramente generoso - sublinhou o homem -, porque 
=normalmente o patrimnio da esposa passa a ser do marido. 
Tens =realmente muita sorte, minha menina - repetia,
satisfeito.
Mas a vida em Npoles no se revelou assim to excitante, os 
=compromissos mundanos eram incessantes e, em vez de a 
divertirem, =aborreciam-na. Josepha sentia muitas vezes 
saudades da sua terra. =Mas o amor por Enrico, o desejo de o 
conquistar e a esperana de vir =a ser me compensavam a sua 
melancolia.
Saiu da banheira e Sofia embrulhou-a no roupo que tinha 
bordado, a =vermelho, o braso dos Castiglia.
Sentou-se em frente a um toucador e a criada comeou a 
=pente-la. - A Rosa Avigliano disse-me para coser o cordo 
na =parte de dentro do casaco do meu marido - comeou 
Josepha.
- E s agora  que me diz! Se eu soubesse, j estava feito - 
=exclamou a mulher.


*1. Nome usado, especialmente no passado, para indicar 
licores de =graduao alcolica moderada, doces e aromticos. 
(N. da =T.)
2. Licores obtidos atravs da macerao em lcool de canela, 
=cravinho, coentros e nOz moscada, aromatizados com essncia 
de rosas =e tingidos de vermelho. (N. da T.)


68


- Mas tenho de ser eu a fazer isso, caso contrrio o feitio 
=no funciona - explicou a jovem senhora. E acrescentou: - 
Traz-me =o casaco do prncipe e tem cuidado para ningum te 
ver.
- Qual casaco? O prncipe tem muitos - observou Sofia.
Naquele momento Josepha soltou uma gargalhada. Apercebera-se 
de que =Rosa Avigliano no tinha chegado a preparar um 
feitio, pois de =outro modo teria indicado em que casaco 
devia coser o cordo. Mas =aquele toque de falsa bruxaria 
tinha-lhe devolvido alguma =confiana.
- Sabes uma coisa, Sofia? O cordozinho vai dar-me sorte - 
=exclamou alegremente.
Mais tarde, enquanto jantavam juntos, Enrico parecia 
eufrico, mais =do que alegre.
Pela primeira vez desde que se tinham casado, desfez-se em 
conversas e =mexericos e contou-lhe velhas histrias de 
famlia. Falou-lhe do =av materno, que passara a vida a 
cultivar rosas maravilhosas, e do =pai que, nos estbulos da 
villa de Caserta, criava cavalos e gastara =uma fortuna para 
adquirir exemplares perfeitos em todo o mundo.
Enrico comportava-se como se as relaes entre eles tivessem 
sido =sempre assim to ntimas, to tranquilas. Aquela 
mudana =imprevista tornava feliz Josepha, cujos desejos se 
estavam finalmente a =realizar. O muro que os separava 
tinha-se desmoronado. Por isso, =enquanto depenicava um 
pssego com marsala(1), arranjou coragem para =lhe confessar 
aquilo que h meses a atormentava.
- Pensei que tivesses outra mulher - sussurrou, aproveitando 
a =ausncia momentnea de Saverio, o criado.
- Mas o que  que te passa pela cabea? - protestou Enrico, 
=entristecendo.
- Jantarmos juntos, como esta noite, parece-me um milagre. 
Nunca tinha =acontecido. E depois,  noite, vais-te embora e 
eu no Sei =porqu - continuou ela, com uma voz hesitante.
- Tenho o meu trabalho e as minhas preocupaes. Tu, minha 
=menina, no poderias compreender.
- Nunca soube que trabalhavas. Mas porqu de noite? - disSe 
=Josepha, espantada.


*1. Vinho seco e licoroso oriundo da Siclia. (N, do E.)


69



- De dia no me consigo concentrar. Tenho um escritrio no 
porto, =onde vou trabalhar de noite. Mas  um segredo que no 
podes =revelar a ningum - recomendou-lhe. Depois calou-se, 
porque =Saverio tinha regressado  sala de jantar para 
perguntar se os =prncipes desejavam mais alguma coisa. 
Entretanto, pousou em cima da =mesa uma tacinha com doces e 
pralinas.
- Podes ir - disse Enrico, despedindo-o. E, voltando-se para 
=Josepha, continuou: - Estou a projectar uma inveno 
grandiosa, =que me absorve totalmente - afirmou com ar grave.
- De que se trata? - perguntou ela, cheia de curiosidade. 
Enrico =esticou-se por cima da mesa, estendeu um brao para
lhe tocar a face e, em tom de conspirao, disse: - Estou a 
=projectar a construo de um submarino de cristal.
Josepha pensou que tinha percebido mal e olhou-o perplexa.
- Um submarino de cristal? - repetiu, incrdula.
-  excepo das mquinas, obviamente - explicou o =prncipe 
muito depressa. E continuou: - Quero transportar, de =Npoles 
at Nova Iorque, o Elixir de Santa Roslia, para o =lanar 
nos Estados Unidos. O barco de cristal  um achado genial 
=para lhe fazer a melhor propaganda possvel. A imprensa vai 
falar =muito de mim. Vo falar do prncipe da Calbria como 
de um novo =Capito Nemo. Serei eu, obviamente, a pilotar o 
submarino. Um dia =quero levar-te ao meu escritrio e 
mostrar-te o projecto. Mas, =antes disso, tenho de ir a 
Gnova para o entregar aos estaleiros de =Baglietto. Exclu 
Npoles porque no quero que a coisa se fique =a saber. Por 
enquanto, e at que o submarino esteja construdo, =tudo deve 
ficar em segredo. Tu no me vais trair, pois no? - 
=concluiu, olhando-a com uma expresso febril, quase 
alucinada.
No o ia trair, mas no sabia o que pensar. Enrico tinha o 
poder =de a colocar sempre perante situaes 
incompreensveis. No =sabia se o marido tinha inventado uma 
histria ou se estava realmente =a projectar aquela loucura. 
Houve um momento de silncio =interrompido, 
providencialmente, pelo assobio de uma chamada do andar de 
=cima. Enquanto se levantavam da mesa, Saverio veio anunciar 
que a =princesa Carolina os convidava a subir.
- Ento vamos l tomar o caf com a minha me - disse ele, 
=alegremente, oferecendo-lhe o brao.

70


Na sala de estar da sogra estava o jovem oficial com quem ela 
se tinha =cruzado a subir as escadas. Sorriu-lhe com um ar 
cmplice, enquanto =a sogra fazia as apresentaes.
- O capito Lorenzo Valeschi - disse a princesa.
Ele inclinou a cabea e levou aos lbios a mo que Josepha 
lhe =estendia.

71


Lorenzo tinha vinte e cinco anos. Era neto do conde Florian 
Walewsky, um =ex-revolucionrio polaco que, depois de ter 
cumprido o servio =militar como oficial no exrcito francs, 
se dedicou  vida =poltica. O filho, Alessandro, pai de 
Lorenzo, estabeleceu-se no =norte de Itlia e mudou o apelido 
Walewsky para Valeschi. Casou com =uma jovem de Milo, Vezia 
Bassanesi, filha de um advogado famoso, e =comeou a 
trabalhar com o sogro. Daquele matrimnio nasceram sete 
=filhos.
Lorenzo herdara do av as caractersticas somticas eslavas e 
o =temperamento inquieto e passional. Foi uma fonte de 
grandes =preocupaes para os pais, de tal maneira que o pai, 
a certa =altura, o mandou para Npoles, para a Escola Militar 
da Nunziatella. =- A vida da tropa vai endireit-lo - 
garantiu  mulher.
Ao fim de trs anos, Lorenzo no parecia ter mudado assim 
tanto. =Nas suas breves licenas, frequentava a princesa 
Carolina, amiga =ntima da me, ou ento, com mais 
frequncia, os teatros de =variedades, onde entretecia breves 
aventuras com cantoras e =bailarinas.
A princesa apreciava-lhe a inteligncia viva e a honestidade. 
=Naquela noite decidiu apresent-lo ao filho e  jovem nora 
para =que o inclussem na sua vida de sociedade.
- Lembrei-me de que vocs os dois podiam dar-lhe a conhe cer 
=Npoles - disse a princesa, por fim, depois das 
=apresentaes.

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- Se  para isso, Vittorio Alliata saber faz-lo muito 
=melhor do que ns - esquivou-se logo o filho, contrariado 
com a =proposta.
- Alliata s o poderia arrastar para a perdio - observou a 
=princesa. - Caf-chantant, variet, passeios de automvel 
com =risco de quebrar os ossos do pescoo e sabe-se l o que 
mais.
Lorenzo ouvia-os, sorria e olhava Josepha de soslaio, fumando 
=preguiosamente um cigarro. Ela sentia-se embaraada com 
aqueles =olhares.
- Tu podias servir-lhe de guia - sugeriu Enrico, de repente, 
=voltando-se para a mulher. - H tantas igrejas para ver, com 
=quadros e esttuas importantes que Lorenzo saberia apreciar.
- Muito bem, irmozinho! Parece-me uma proposta 
verdadeiramente =aliciante para o nosso capito - exclamou 
Virgnia, num tom =irnico. E continuou: - No te passa pela 
cabea que essas =visitas poderiam aborrecer o Lorenzo?
- Se no lanas uma ironia, no ficas sossegada - retorquiu 
=Enrico, incomodado.
- Mas a Virgnia acertou. No meu tempo de liceu, tive que 
visitar =igrejas, castelos e museus com fartura. S que 
Npoles  famosa =pelo seu golfo, pela beleza do mar e das 
ilhas. Gostaria muito de =passear na sua companhia - props 
Lorenzo, dirigindo a Josepha um =olhar sorridente.
- Eu no sei onde lev-lo. Vivo em Npoles h poucos meses 
=apenas, e antes disso escalava os montes do Tirol. Virgnia 
 uma =cunhada deliciosa e tem absoluta razo. Receio ser uma 
pssima =companhia. Sou terrivelmente acanhada, como j deve 
ter percebido - =- afirmou, esperando convencer Lorenzo a 
desistir daquele projecto.
- Voc  deliciosamente espontnea e acho que o Enrico  um 
=homem cheio de sorte por a ter como mulher - respondeu com 
=sinceridade.
A princesa Carolina observava o filho com uma certa 
apreenso, porque =Lorenzo se mostrava evidentemente atrado 
por Josepha. Mas Enrico, =por sua vez, fixava um ponto 
indefinido, absorto nos seus prprios =pensamentos.
- Estou um pouco cansada. Mas vocs, jovens, podiam ir ao 
teatro - =interveio Carolina. - Li em Il Mattino que h uma 
nova comdia de =Salvatore di Giacomo. Vo l encontrar os 
Alliata.

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- Muito obrigado pelo convite, mas tenho que regressar ao 
quartel. O =exrcito de sua majestade  um patro muito 
exigente - =desculpou-se Lorenzo.
Josepha soltou um suspiro de alvio. Enrico prometera passar 
a noite =com ela e estava ansiosa por regressar a casa.
- Eu tambm estou um bocado cansado esta noite - afirmou 
Enrico, =emergindo dos seus pensamentos. - Vamos ao teatro na 
prxima semana =- acrescentou, despedindo-se da me e da 
irm.
Enrico e Josepha desceram a escadaria com Lorenzo, que 
explicou que =tinha sido encarregado, pelo comando do 
estado-maior, de superintender, =em Npoles, a construo de 
novas instalaes para os =militares.
- Conhecendo os napolitanos, creio que a tua permanncia aqui 
vai =ser muito longa - disse Enrico como despedida, 
estendendo-lhe a =mo. Tinham chegado ao primeiro andar e um 
criado ia acompanhar o =hspede at  sada do palcio.
- Vamos ter muito tempo para nos voltarmos a encontrar 
-despediu-se =Josepha.
- Ento, at breve - disse o jovem, e acrescentou: - Adeus
Josepha.
- Servus, Lorenzo - sorriu ela, repetindo o jogo do primeiro
encontro.
- Nunca te vi to  vontade como com aquele aborrecidssimo 
=Valeschi - observou Enrico, quando chegaram a casa.
- No o acho antiptico - afirmou ela com indiferena.
- Conhecemo-nos desde pequenos. Ou melhor, ele era pequeno. 
Eu tenho =mais cinco anos do que ele. Foi sempre um rebelde. 
Conseguiu ser expulso =de no sei quantos colgios, antes de 
entrar na Escola Militar. =Uma vez esteve para casar. Fomos a 
Milo, ao casamento. Toda a gente, =inclusivamente a noiva, o 
esperava na igreja. Ele apresentou-se com =duas horas de 
atraso, em traje desportivo. Foi tudo ao ar. Para sorte da 
=noiva - contou Enrico.
Josepha riu com gosto.
- Achas divertido? - perguntou o marido, perplexo.
- Infinitamente - respondeu, com a inconscincia dos seus 
dezassete =anos.
Sofia esperava-a para a ajudar a despir-se.

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- Vai-te embora depressa. Esta noite no preciso de ti - 
sussurrou =Josepha, segurando a mo de Enrico e conduzindo-o 
para o seu quarto. =Ele seguiu-a e, quando ficaram ss, ela 
virou-se de costas.
- s capaz de me desapertar o vestido? - perguntou-lhe.
- No to bem como a Sofia - respondeu, embaraado. Uma leve 
=tremura percorria as mos daquele homem enquanto
este se debatia com a abotoadura do vestido de seda. Josepha 
sentiu nas =costas o toque dos seus dedos e estremeceu de 
prazer.
O vestido escorregou para o cho, ela voltou-se e tirou-lhe a 
=gravata.
Ele encolheu-se e tentou falar. Ela pousou-lhe um dedo sobre 
os =lbios.
- Cchhh - disse, num sopro, e abraou-o. - Por que foi que 
=esperaste tanto tempo? - sussurrou logo a seguir, 
apertando-o contra =si.
Ele no respondeu. Ficou tenso e libertou-se dos braos dela. 
=Depois, com uma voz quebrada pela emoo, disse: - Eu no 
=queria casar. Foi a minha me que insistiu. No o devia ter 
feito. =Agora  tudo mais difcil para mim, porque at 
construir o meu =barco no poderei amar ningum. No posso, 
no devo gastar =as minhas foras, as minhas energias. O 
barco  tudo para mim, =entendes?
Josepha sentiu-se gelar. Enrico olhava-a nos olhos e aquele 
olhar =tinha uma estranha imobilidade, como se tivesse sido 
capturado por uma =viso.
- O que  que ests a tentar dizer-me? - perguntou.
- Quando tiver acabado o meu barco, ficarei finalmente livre. 
Tens de =me dar tempo, tens de esperar. s capaz disso? - 
desafiou-a, =acariciando-lhe a face. E continuou: - Amo-te 
infinitamente, =Josphine. Tem confiana em mim. Ser bem 
empregue. Em breve =voltaremos os dois a Merano. Vais voltar 
a ver a tua terra, a tua gente =- Est j prximo o dia em 
que vou fazer de ti uma esposa =feliz, acredita-me, sou 
sincero. S tens de ter pacincia. s =capaz? - repetiu, com 
uma voz muito doce.
Josepha sentia-se aturdida, confusa. Olhou durante muito 
tempo Para =aquele homem incompreensvel e lindssimo que 
amava com todo o =ardor dos seus dezassete anos. Contra toda 
a evidncia - =racionalidade, baixou os olhos e disse: - Fico 
 tua espera.

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NPOLES - - VIELA DA DUQUESA AGOSTO DE =1910


Teresella sentiu o pai levantar-se. Ainda =estava escuro 
l fora. Agora que Rosa j no existia, Matteo =partilhava o 
leito matrimonial com os trs filhos rapazes, enquanto =ela 
dormia na outra cama com Annina e a av. O velho catre fora 
=eliminado. Poucos dias antes, Teresa suplicara-lhe que se 
lavasse.
- Mas para qu? Ao fim de uma semana vou estar =outra vez 
suja - retorquiu Lina, que desdenhava a mania das =limpezas.
- Exactamente. Ao fim de uma semana, lava-se outra vez - 
respondeu a =neta. - Acha bem ter a pele coberta por uma 
camada de sujidade?
- Est muito bem assim.  uma couraa contra as doenas - 
=teimou a velha.
- No est bem, est mal. Se no se lavar, vou ser obrigada 
=a dormir no cho, por baixo da mesa - insistiu a neta. Mais 
tarde =trouxe dois baldes de gua para encher a bacia.
- O que  que ests a fazer, Teresella, com essa gua toda? 
=-perguntou uma vizinha, aproximando-se da entrada do baixo.
- Vou dar banho  av.
- Oh, meu Jesus! A dona Lina vai-se lavar - anunciou a mulher 
a toda =a viela.
- A est. S faltava o pregoeiro para toda a gente ficar a 
=saber que me obrigaste a tomar banho - protestou a velha, j 
=derrotada.
Com uma lasca de sabo e um farrapo, Teresella friccionou
durante muito tempo o corpo engelhado e os cabelos da av,

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que no parava de se queixar porque o mundo estava a mudar, 
porque os =jovens j no tinham respeito pelos idosos e 
porque as coisas iam =acabar mal por culpa daquelas 
modernices. Mas quando j estava limpa =e penteada, a av 
andou de um lado para o outro na viela para se =deixar 
admirar, orgulhosa da ironia com que as vizinhas se dirigiam 
a =ela.
Est vinte anos mais nova, dona Lina. No ser que =quer 
mesmo arranjar um noivo? A ltima vez que a vimos assim, =o 
Vesvio enlouqueceu. Ser que estamos outra vez em =perigo?
Naquela noite, na cama, Teresella abraou-a.
- Obrigada, av, por no me ter obrigado a dormir por baixo 
da =mesa. - E acrescentou: -  verdade que parece mais nova. 
O seu =cabelo ainda  negro e macio. Se no lhe faltassem os 
dentes era =bonita como o pai. Ele  parecido consigo, sabia? 
Mas a senhora =quantos anos tem?
- Muitos.
- Eu tenho doze anos. Vou fazer treze. Eu sei, porque foi a 
me que =me disse.
- A Rosa teve azar - observou a mulher com tristeza.
- Tenho saudades dela - sussurrou Teresella, encostando-se  
=av.
Naquela manh saiu da cama muito devagar para no acordar a 
av =e os irmos mais pequenos. Vestiu uma saia e uma blusa 
limpas. =Lavara-lhas a me apenas uma semana atrs. Depois 
acendeu o =fogo e pousou-lhe em cima um tachinho cheio de 
gua. Quando =estava a comear a ferver, juntou-lhe uns 
restos de caf em =p. Por fim encheu uma chvena com aquela 
gua cor de mbar =que temperou com um gro de sal. J no 
havia acar. =Tirou da prateleira um pedao de po torrado e 
pousou-o na mesa, =ao lado da malga. Fez, em suma, aquilo que 
sempre tinha visto Rosa =fazer.
- Chamas a isto caf? - disse o pai, desconsolado.
- No me deu dinheiro para o caf. Nem para o acar - 
=desculpou-se.
Matteo pousou umas moedas em cima da mesa.

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- Compra o que for preciso. Mas amanh de manh, por favor, 
=d-me um caf decente - disse, enquanto mergulhava um pedao 
=de po na chvena.
Teresella enfiou as moedas no bolso da saia. Depois pegou 
numa bacia de =metal e num pincel. O pai tinha de fazer a 
barba e ela sabia como obter =uma boa espuma com poucas gotas 
de gua por cima do sabo seco. =Teve o cuidado de deixar em 
cima da prateleira, ao lado da bacia, um =pedao de jornal 
para limpar a navalha, um pano hmido para lavar =a cara, o 
pente e o boio de cera para dar brilho ao cabelo.
Quando lhe pareceu que estava tudo em ordem, saiu para 
comprar =acar, caf e tambm um bocado de massa, se o 
dinheiro =chegasse. No foi  loja ao fundo da viela, porque 
lhe davam =acar hmido, que pesava mais, e po velho de 
muitos dias. =Foi ao mercado. Regateou, baixou o preo e 
ainda conseguiu que lhe =oferecessem tomates, courgettes e 
chicria. Eram legumes rejeitados =que os vendedores atiravam 
para uma cesta. Chegando cedo, ainda se =conseguia fazer uma 
boa escolha com o acordo do vendedor.
Estas pequenas astcias vinham-lhe dos ensinamentos da me. 
=Quando regressou a casa, o pai j tinha sado para ir 
trabalhar e =a av j estava a p. Annina e os irmos ainda 
estavam a =dormir. Pegou num recipiente de barro e voltou a 
sair para ir buscar =leite. Ela no gostava, mas gostavam os 
irmos.
Quando o sol j ia alto no cu, mas o ar ainda estava 
=suficientemente fresco, sabendo que os irmos estavam 
seguros com a =av, Teresa saiu do bairro e dirigiu-se ao 
cemitrio. Era um =longo percurso, mas ela caminhava ligeira. 
Chegou ao cimo da colina =morta de cansao, mas a beleza do 
local recompensou-a. Entrou no =cemitrio. As campas, 
alinhadas de ambos os lados, estavam salpicadas =de flores, 
de todas as cores, que emanavam um perfume estonteante. Ao 
=fundo do cemitrio viu um campo raso cheio de pequenas 
cruzes de =madeira. Era ali que Rosa estava sepultada. 
Identificou a campa da =me porque a terra estava remexida. 
Olhou em volta, no muito =longe, pousada sobre uma lpide 
modesta, havia uma jarra cheia de =lrios brancos. Tirou um, 
pedindo desculpa ao morto. - Tem aqui =muitas. Vire-se para 
l e faa de conta que no v Quanto =eu tiro esta flor para 
a minha me - disse. E acrescentou: - FOI =muito amvel. 
Muito obrigada. - Enfiou o caule na terra.

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- Um vizinho seu deu-me esta flor para si. Bom-dia, me - 
saudou. =E continuou: - Gosta de lrios, no gosta? Gostava 
tanto que =falasse comigo. - Sentou-se no cho. Ficou ali, 
com as mos =pousadas no regao, a observar a extenso 
daquelas pequenas =cruzes, com o corao inchado de dor. 
Recordava os raros momentos =de intimidade com Rosa e no se 
conformava com a ideia de que no =ia haver mais nenhum, 
nunca mais. Tinha sido bom falar com ela. Bastava =um gesto, 
uma exclamao, e percebia logo o que ela tinha
no corao.
O ar tornava-se cada vez mais quente. Pequenas gotas de suor 
=despontavam na testa de Teresa. Pensou que o sol no 
conseguiria =aquecer a terra escura e fresca onde a me 
repousava. - Preciso =muito do seu amor - sussurrou.
Lembrou-se de quando subia a colina com ela. Vinham sobretudo 
na =Primavera e no Outono para apanhar rebentos, bagas, 
flores e folhas que =Rosa punha a secar para curar pequenas 
molstias. A me apanhava e =explicava, enquanto ela 
perseguia cobras e libelinhas, sem a ouvir. =Agora lamentava 
o facto de ter perdido aqueles
ensinamentos preciosos.
O que  que vai ser da minha vida? perguntou-se, 
angustiada. =Nunca tinha ido  escola e ainda no tinha 
comeado a =trabalhar.
- Me, diga-me que a minha vida no vai ser to desgraada =e
to curta como a sua - suplicou.
A me repetia-lhe muitas vezes que o seu sofrimento no vinha 
=s da misria, mas tambm do facto de ser mulher. 
Considerava =que as mulheres, mesmo as inteligentes, no 
podiam aproveitar as suas =prprias capacidades porque os 
homens no o permitiam. Sussurrava = filha: - Lembra-te, 
Teresella, que eles sabem que a nossa =capacidade de amar  
muito grande, e aproveitam-se disso at ao =ltimo suspiro. - 
E acrescentava: - O que mais te recomendo  =que te faas 
respeitar pelos homens.
Teresa havia de guardar bem aqueles conselhos. Lembrou-se 
daquela =senhora to bonita, que cheirava a alfazema, a 
chorar em frente  =me porque o marido a maltratava. - Que 
complicao - =rematou.
O lrio, enfiado na terra, caiu em cima de um torro. Mas 
ainda =libertava o seu perfume.

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O calor tornara-se intolervel. Teresa levantou-se. Com um 
gesto =delicado acariciou a terra sob a qual a me repousava. 
Olhou em =volta. Um cortejo fnebre avanava lento e solene 
ao longo da =avenida principal. Ela saiu do cemitrio e 
dirigiu-se a casa.

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Naquele dia, Teresa renunciou  acostumada deambulao pelos 
=bairros ricos da cidade. Em vez disso, sentou-se num banco, 
entre duas =palmeiras, a ver o mar. Viu os navios que 
deslizavam, majestosos, sobre =a gua. Iam em direco ao 
horizonte, onde o mar se confundia =com o azul do cu. 
Gostaria de ir num daqueles navios. Sabia que os =ricos 
viajavam para se divertirem e os pobres para chegarem a 
terras =distantes,  procura de fortuna. Alguns arranjavam 
trabalho e =mandavam dinheiro para as famlias que ficavam em 
Npoles. Era =dinheiro honesto, respeitvel, bem diferente 
daquele que acumulavam =os camorristas. Teresa ouvia muitas 
vezes pronunciar esta palavra, e um =dia perguntou a Matteo: 
- Pai, o que  um camorrista?
-  uma pessoa que vive do trabalho dos outros e nunca 
trabalha - =respondeu ele.
Teresella via-os passar de carruagem ou de automvel, com os 
sapatos =muito bem engraxados e um anel de brilhante no dedo. 
Quando passavam =pelas vielas, os homens encolhiam-se e 
tiravam o chapu, por medo, =no por respeito. Estavam em 
todo o lado: nas mesas dos cafs =elegantes, no passeio junto 
ao mar, no mercado do peixe, em frente aos =teatros. Nunca 
estavam sozinhos. Tinham sempre dois, trs, quatro =homens 
atrs deles, a tentar imit-los nos gestos e nos olhares 
=altivos. Um pouco como acontece nas matilhas de ces vadios, 
pensou. =O chefe anda rodeado dos seus servos fiiS que 
mantm  =distncia os outros ces, a abrir a boca e a 
mostrar os =dentes.

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Tambm certas mulheres, como as cadelas, lutam entre si por 
=rivalidade, reflectiu a rapariga, concluindo para si 
prpria: =Homens, ces e certas mulheres so muito 
parecidos. E =perguntou-se: E eu, que tipo de mulher vou 
ser?.
Havia rapazinhos que, ao cruzarem-se com ela nas vielas, se 
punham em =fila para no a deixarem passar. Os mais audazes 
esticavam a mo =para lhe tocar os seios. Ela fugia, 
assustada. Algumas amigas =rendiam-se aos gestos 
desajeitados, como se estes fossem um jogo para =se 
divertirem um bocado. - Metem-me nojo - dizia Teresella, e 
ficava =incomodada por elas serem to fracas, j to 
submissas.
Dentro de alguns anos, teria um namorado. Mas no queria um 
rapaz =descarado, nem sujo, nem camorrista. No entanto, 
aquele bairro no =oferecia nada melhor. Nascera nas vielas, 
ali crescera e ali deveria =viver. Nunca haveria de entrar 
num navio, nunca veria as terras do lado =de l do mar, nunca 
seria rica, mas queria um namorado que a =respeitasse e lhe 
oferecesse uns brincos de coral como os de dona =Roslia.
Afastou os olhos do mar e observou a silhueta escura de 
Castel dell'Ovo. =Ouviu, ao longe, o batimento cadenciado dos 
cascos de cavalos. Parecia =que se aproximava um regimento de 
cavalaria. Cavalos e cavaleiros =fascinavam-na. Gostava das 
cores das fardas, dos sabres brilhantes ao =sol, da altivez 
dos animais e dos homens que os montavam. Se tivesse =podido 
escolher, gostaria de ter sido um cavaleiro. Guarda real ou 
=polcia montada, tanto fazia. Nunca perdia uma parada 
militar. Uma =vez, tinha conseguido entrar sorrateiramente 
num cinematgrafo e viu =as imagens fantsticas de um 
cavaleiro a galope. Pareceu-lhe que =vinha para cima dela e 
lanou um grito. Foi agarrada por uma orelha, =severamente 
repreendida e posta fora da sala. Contou tudo  me, =que riu 
com gosto e lhe prometeu: - Um dia, se me sobrar algum 
=dinheiro, vamos as duas ao cinematgrafo.
Nunca chegaram a ir.
Agora o rudo dos cascos de cavalos tornava-se mais distinto, 
mas =no conseguia v-los porque a marginal, para l do 
castelo, =fazia uma curva. De repente, viu avanar uma 
multido de homens e =mulheres, algumas com crianas ao colo, 
que caminhavam unidas como =uma avalanche escura, segurando 
bem altas as bandeiras vermelhas que =flutuavam no ar.

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Pronunciavam em coro palavras que no conseguia captar, mas 
as suas =vozes eram potentes, muito bonitas. Pensou tratar-se 
da =manifestao operria de que tinha ouvido falar no 
bairro. Os =trabalhadores tinham decidido fazer greve por 
causa da diferena de =salrios entre os operrios do Norte e 
os do Sul.
Na noite anterior, ao passar junto a um grupo de homens 
reunidos na =viela, ouviu um deles dizer: - Vai ser uma greve 
que vai dar que falar =ao mundo inteiro, porque desta vez 
vamos estar l todos.
Quando chegou a casa, Teresa perguntou a Matteo: - Tambm vai 
fazer =greve, pai?
Ele torceu a boca numa expresso de raiva: - Os operrios so 
=uns privilegiados, e no sabem. Trabalham com mquinas que 
fazem o =esforo por eles. Ests a ver estes braos e estes 
ombros? Eu =sou a minha mquina. Percebes a diferena? Se eu 
parar, o que  =que vocs comem? E, para alm disso, no 
quero nada com a =poltica. Por mais voltas que isto d,  o 
governo que =determina o bom e o mau tempo. Percebeste?
Abanou a cabea. No tinha percebido.
-  melhor assim. No h nada para perceber. Para ns, com 
=greve ou sem greve, as coisas no mudam. E agora despacha-te 
a =ajudar a tua av - rematou Matteo.
Teresa levantou-se do banco e avanou em direco quela 
=massa ondeante e escura, atrada pelo seu andar seguro, 
pelas vozes e =pelas bandeiras vermelhas como papoilas. 
Caminhava ligeira pelo passeio, =ao mesmo tempo que as 
senhoras e os homens elegantes, que at =quele momento 
passeavam tranquilos, fugiam pelas ruas =interiores.
- Vamos, vamos! Vamos embora! - gritavam. - Alguma coisa 
terrvel =est para acontecer. - O rudo dos cavalos 
aproximava-se cada =vez mais e estava j atrs dela. Teresa 
virou-se e viu um grupo =de guardas a cavalo a avanar contra 
o cortejo. As primeiras filas =desembainharam os sabres, 
erguendo-os no ar, e lanaram-se contra =os manifestantes. 
Teresa parou e levou a mo ao peito. O =corao batia-lhe com 
tanta fora que lhe cortava a =respirao. Os paus das 
bandeiras transformaram-se em lanas =para contrapor aos 
sabres. Os guardas, obedecendo a uma ordem, agarraram =nos 
mosquetes e abriram fogo. Os cavalos empinavam-se

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e relinchavam assustados. A massa dos manifestantes 
misturou-se com a =dos guardas, enquanto os disparos e os 
gritos chegavam ao cu. Teresa =estava desnorteada.
-  uma batalha - sussurrou aterrorizada, encostando-se ao 
muro de =um palcio. Os manifestantes fugiam, dominados pelo 
terror, e, de =repente, um homem empurrou-a e f-la cair ao 
cho.
Ele levantou-se rapidamente e ajudou-a a pr-se em p. Teresa 
=olhou-o, estarrecida. Era apenas um rapaz. Estava a perder 
sangue =atravs de um corte fino na face.
- Porcos! Porcos e assassinos! - sibilou, enquanto a segurava 
=firmemente por um brao: - - Vamos embora daqui. Depressa. 
Se me =apanham, metem-me na priso.
Foi Teresa quem o conduziu atravs de um labirinto de vielas, 
=acabando por parar num largo onde havia uma velha catedral.
- Entra ali. Ningum te encontra - garantiu.
- Encontra-me o padre, que est com certeza do lado dos 
patres =- disse ele. Estava plido e sangrava muito.
- Anda l, no sejas palerma - replicou Teresa enquanto o 
=empurrava para o interior da igreja.
- Vou morrer esvado em sangue - sussurrou o rapaz, 
assustado.
- A complicao que tu ests a arranjar por causa de um 
=golpezinho de nada - sorriu ela. Tirou do bolso da saia um 
leno =lavado, molhou-o na pia de gua benta, torceu-o e 
pousou-lho sobre =a face.
- Mas tu s doida! Isso  gua infectada - protestou ele.
- Isto  gua bendita - corrigiu ela.
- Como eu. Chamo-me Benedetto - disse.
- E eu Teresa - respondeu.
O teu nome deriva de uma palavra grega que significa 
=caadora. Tu capturaste-me.
- s estudante? - perguntou-lhe, divertida.
Benedetto trazia umas calas remendadas, uns sapatos gastos,
Uma camisa branca com riscas escuras e um colete preto. 
Pareceu-lhe que =tinha uma cara bonita, apesar da face que 
comeava a inchar. Mas =foram sobretudo os olhos que a 
encantaram, porque eram profundos, =escuros e inteligentes.
- Sou operrio. No vs as minhas mos?
Eram calejadas, grandes e fortes. Teresa gostou delas.

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MERANO - SCHLOSS RUNDEGG SETEMBRO DE 1910


Embora estivesse um Setembro muito ameno, =Josepha no 
conseguia apreci-lo como gostaria. Alguns dias antes =tinha 
regressado ao Tirol e vivia no castelo com o marido, tentando 
=inutilmente reencontrar a alegria de viver.
A confisso de Enrico suscitara nela o instinto =maternal. 
Agora que conhecia a sua fragilidade psicolgica, sentia =que 
o amava ainda mais. E, como era jovem e cheia de desejo, 
tentava =persuadir-se de que o amor acabaria por levar a 
melhor sobre os =fantasmas que perseguiam o marido. De 
qualquer modo, pensava ter =superado os momentos piores, 
quando se convencera de que o marido a =traa. Esperou seis 
meses. Podia esperar ainda mais, tanto mais que a =espera, 
agora, era sublinhada pelas constantes confidncias do 
=prncipe que, quando estavam ss, no se cansava de falar do 
=submarino de cristal e dos seus projectos mirabolantes.
Naquela manh Josepha levantou-se cedo. Como sempre, deslizou 
para =fora do edredo fofo e quente e abriu as janelas de par 
em par. =Gostaria de sorrir ao cu, s montanhas, aos 
vinhedos que se =perdiam na distncia da paisagem ondulada, 
mas foi acometida Por uma =dor aguda no estmago. No se 
sentia bem h j algumas =semanas e atribua o mal-estar  
tenso que lhe causava aquela =difcil relao conjugal.
Antes de partir para Merano, Enrico fora a Gnova para propor 
aos =estaleiros Baglietto a construo do submarino. 
Regressou em tal =estado de agitao que Josepha, sem saber 
como o acalmar,


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lhe props: - Por que no me mostras os teus desenhos? Afinal 
de =contas, tinhas-me prometido.
Assim conseguiu ver o sumptuoso escritrio que o prncipe 
tinha =instalado num palacete, no sector do porto mais 
afastado da zona de =carga e descarga de mercadorias. Era uma 
sala enorme, cujas janelas =davam para o mar, mobilada com 
uma imponente mesa de desenho e um =culo apontado aos 
estaleiros navais. Nas paredes estavam suspensos =desenhos 
antigos de submarinos. Alguns tinham a forma de monstros 
=lendrios. O cho estava coberto com belssimos tapetes 
=orientais. Enrico abriu um cofre embutido na parede que 
estava cheio de =rolos de papel. Estendeu-os um a um para 
mostrar os seus desenhos  =mulher. Eram extraordinrios, 
Josepha admirou-se com o facto de =Enrico ser dotado de tanto 
talento artstico. Notava-se uma grande =destreza manual e 
uma criatividade incrvel naquelas =representaes de naves 
que pareciam realmente deslizar nas =profundezas do mar, pelo 
meio de cardumes de peixes de todas as formas e =cores.
- O que te parece? - perguntou ele.
- Que devias fazer uma exposio. Acho que s um artista - 
=disse Josepha, de repente.
- Sou um inventor. Aqueles genoveses disseram que o meu 
projecto  =irrealizvel. No perceberam nada. Olha, repara 
neste desenho. A =minha nave subaqutica vai ter este 
aspecto: cristal puro que adquire =o tom de mbar do Elixir 
de Santa Roslia que leva dentro. Este = o sector das 
mquinas. E o capito nos comandos sou eu. O =primeiro homem 
no mundo a realizar sozinho a travessia do Atlntico =num 
submarino. O que achas? Vou navegar nas profundezas. Os 
faris =potentes da minha nave vo iluminar o percurso - 
explicou, com =ardor.
- Mein Gott - sussurrou ela, atordoada e incrdula.
- Exactamente. O gnio  muitas vezes incompreendido. Acho 
=que vou a Inglaterra. Os ingleses so grandes navegadores, 
capazes de =perceber aquilo que eu quero - concluiu 
secamente. Depois, com o passar =dos dias, acabou por 
acalmar.
Josepha gostaria muito de falar com algum sobre aquela 
loucura que =obcecava o marido, mas no o fez porque tinha de 
manter
o segredo.
Quando a famlia Castiglia, como todos os anos,

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chegou a Merano, com nurse e criados atrs, instalou-se no 
Hotel =Meranerhof, ocupando todo o primeiro andar. Josepha e 
o marido, pelo =contrrio, esconderam-se em Schloss Rundegg. 
Ali no havia todas =as comodidades proporcionadas por um 
grande hotel, mas Enrico parecia =apreciar a paz daquela 
antiga residncia. Saverio e Sofia dormiam nas =mansardas, 
com a criadagem do castelo.
De incio, e tambm devido  incompreenso das respectivas 
=lnguas, tinha havido algumas brigas entre eles. Josepha fez 
de conta =que no percebeu. Agora, apesar de continuarem a 
entender-se mais =por gestos do que por palavras, pareciam 
ter encontrado um modo de =entendimento. Entre os trs 
austracos e os dois napolitanos =estava em curso desde h 
alguns dias uma troca de =informaes.
Sofia ensinava Petra e Klara, as velhas criadas de Josepha, a 
maneira de =cozinhar o macarro, de preparar um caf muito 
aromtico e de =temperar os legumes com azeite. Ao mesmo 
tempo, aprendia com elas as =receitas do Tirol para cozer as 
batatas, as mas e a carne de =porco. O manjerico, que no 
castelo Rundegg sempre fora apenas uma =planta ornamental, 
era agora usado para condimentar as entradas e os =legumes. 
Josepha seguia com interesse estes intercmbios e sentia-se 
=feliz por pensar que tinha feito entrar nos muros do castelo 
uma lufada =de novidade.
Tudo seria perfeito se Enrico fosse um marido como todos os 
outros. =Josepha agarrava-se  esperana, apelava para a 
pacincia, =mas, entretanto, sofria de insnias e sentia 
nuseas e dores de =estmago. Por vezes, quando estava  
mesa, tinha de se levantar =com vmitos.
- Quando uma mulher tem esses problemas, significa que est  
=espera de um filho - sussurrou Sofia, sorrindo-lhe.
Josepha zangou-se e repreendeu-a.
- Mete-te nos teus assuntos - disse-lhe com brusquido.
A criada atribuiu a reaco da senhora ao seu extremo 
=acanhamento.
Naquela manh Josepha saiu do quarto e entrou no do marido.
Encostou-se  cama sem fazer barulho. Enrico dormia 
profundamente. =Observou o seu perfil perfeito; o ombro e o 
brao nu revelavam a =consistncia da musculatura.

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Espiou a respirao, quase imperceptvel.
- Desejo-te tanto - disse, num sopro.
Com um suspiro resignado, saiu do quarto e desceu ao andar 
inferior. =Sofia preparara a mesa do pequeno-almoo com as 
porcelanas de =Meissen, que eram as da famlia. Foi envolvida 
pelo aroma do =caf.
- Como se sente esta manh? - perguntou a criada, saudando-a.
- Cheia de fome - respondeu, e trincou rapidamente um pedao 
de =strudel de ma.
Sofia gostaria de salientar que as mulheres grvidas tm 
sempre =apetite, mas calou-se. No entanto, sorriu com um ar 
malicioso.
- Trouxeram uma carta para a senhora - anunciou, 
estendendo-lhe uma =bandeja onde estava pousado um envelope 
azul-celeste.
Josepha pegou nele e abriu-o. O burgomestre solicitava a 
presena =dos prncipes de Castiglia num baile no teatro 
cvico, que era o =orgulho da cidade. Josepha tinha sete anos 
quando o construram, =depois de terem sido abatidas as 
rvores seculares do parque =Rufin.
Teve um gesto de contrariedade. Se o convite no viesse do 
seu tutor, =teria com certeza recusado. Mas disse: - Pede  
Petra que te ajude a =abrir o meu ba. Est l aquele vestido 
de voile azul. Deve =precisar de ser refrescado.
Esperara evitar a vida mundana, pelo menos durante a estadia 
na =montanha. O prncipe, que era to esquivo como ela, 
estava de =acordo. Mas no podia recusar o afectuoso convite 
do Dr. Grossmann =que, evidentemente, desejava v-la, ainda 
que ela temesse este =encontro e o olhar inquiridor do 
burgomestre. No queria de maneira =nenhuma confessar-lhe as 
suas amarguras, at porque ele se iria =sentir culpado por a 
ter aconselhado to depressa a casar-se com =Enrico 
Castiglia.
De repente, enquanto tomava o caf, foi acometida por uma 
vertigem. =Um mal-estar surdo agrediu-lhe o estmago. Mal 
teve tempo de =atravessar a sala a correr e sair para o 
jardim. Vomitou sobre a =relva.
Sofia viu tudo e interpretou o episdio  sua maneira. 
Gostaria de =a socorrer, mas conteve-se.

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Josepha refugiou-se na torre, no seu quarto de rapariga. 
Estendeu-se =na cama e abraou Teddy Bear, o ursinho com que 
brincava em pequena. =Quando era ainda uma menina, 
contava-lhe sonhos e contrariedades. =Agora, sussurrou-lhe: - 
Por que  que a vida nunca  como ns =a sonhamos?
Enrico abriu a porta de repente e surpreendeu-a abraada ao 
velho =urso de trapos.
- s mesmo uma mida - comentou, zangado.
Ela assentiu sem reagir. Era intil confiar-se quele homem, 
=escravo das suas prprias obsesses.
- Esta noite vamos ao teatro - anunciou. - - Joseph Grossmann 
=convidou-nos.

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POSITANO - VILLA CASTIGLIA OUTUBRO DE 1910

Os prncipes regressaram a Npoles em =meados de 
Outubro. Josepha deixou de m vontade o Tirol, onde o ar 
=tinha j arrefecido, as rvores se tingiam de amarelo e 
vermelho e =os cumes mais altos dos montes estavam j 
salpicados de neve.
Em Npoles o sol estava quente e as frias ainda =no tinham 
acabado. Depois de alguns dias de barafunda por causa da 
=mudana de guarda-roupa, a famlia mudou-se para Positano. 
=Recomeou a acostumada dana das trocas de visitas, das 
=excurses de barco at s ilhas, das festas e das 
=recepes. Ficariam ali at ao fim de Novembro. O mar era 
=realmente encantador, mas o sol provocava em Josepha 
alergias muito =incomodativas que a obrigavam a evit-lo. No 
saa nas horas =mais quentes do dia, e olhava com inveja as 
cunhadas, os parentes e os =amigos que tomavam banho e se 
bronzeavam.
Ao pr-do-sol, quando toda a gente se retirava para os 
respectivos =quartos para descansar, antes do jantar, descia 
 socapa a pequena =escada cavada na rocha que descia da 
villa at ao mar. Numa Pequena =enseada, protegida por uma 
barreira rochosa, despia-se e metia-se na =gua, tentando 
nadar. Aps as primeiras tentativas mal sucedidas, =aprendeu 
a flutuar de costas. Esticava-se e a gua sustinha-a como =se 
fosse uma folha.
Podia ento admirar o azul do cu sobre si, ouvir o pio das 
gaitas =e abandonar-se aos seus prprios pensamentos.

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Josepha conhecera poucos homens na sua vida. Conservava uma 
vaga =recordao do pai e das outras figuras masculinas que 
frequentavam =o castelo.
A me recebia muitas vezes os homens mais importantes da 
cidade. Eram =personagens que inspiravam confiana e 
infundiam segurana, como o =seu tutor, o burgomestre Joseph 
Grossmann.
Enrico no se parecia com nenhum deles. Mudava de humor com 
uma =rapidez incrvel. No conhecia a serenidade. Quando 
tentava =resolver um problema com ele, mesmo o mais 
elementar, via-o =atrapalhar-se, incapaz de lhe oferecer uma 
sugesto. Agora j =tinha percebido que, mesmo quando 
conseguisse derrotar os seus =fantasmas, o marido nunca lhe 
daria segurana alguma.
Felizmente, a juventude impedia-a de se debruar sobre si 
prpria =durante demasiado tempo. Afastava aqueles 
pensamentos e abandonava-se, =feliz, deixando-se embalar pelo 
mar, at porque o mal-estar que a =atormentara durante 
semanas desaparecera ao deixar Merano.
Depois regressava  villa e preparava-se para enfrentar a 
=famlia e os hspedes que alternavam a um ritmo cerrado. 
Vinham =jornalistas, empresrios, polticos e amigos. Uma 
quantidade de =pessoas que Josepha no conhecia e que, por 
vezes, a entediavam. =Poucos conseguiam desanuviar a 
atmosfera com discursos interessantes, e =faziam-no durante 
um tempo muito breve. Os assuntos srios, =raramente 
abordados, eram discutidos com indiferena. As 
=reivindicaes operrias e as crises polticas e =econmicas 
transformavam-se em bisbilhotice. Josepha tinha a certeza =de 
que os Castiglia e os amigos viam as mudanas polticas e 
=sociais em curso com uma absoluta indiferena, como se se 
tratasse de =assuntos que no lhes diziam respeito.
Os temas preferidos de conversa eram as traies conjugais, 
as =dvidas que os senhores contraam s mesas de jogo e os 
=estratagemas mais ou menos lcitos para as saldar, os furtos 
de =objectos valiosos por parte de certos hspedes aos donos 
das casas, =os subornos que serviam para contornar certos 
obstculos e as =discuSses furibundas entre os vrios 
membros do Parlamento.
- No preciso de me deslocar para saber o que acontece: o 
mundo vem =ter comigo - comentava a princesa Carolina.

100


Tinha razo. Mas Josepha no gostava daquele tipo de mundo. 
=Crescera num ambiente fechado e provinciano, naquele Tirol 
que Viena =considerava como uma remota zona do Imprio. 
Talvez faltasse  sua =gente o sentido de humor, mas as 
palavras tinham um peso que era =avaliado antes de se 
pronunciarem. No se emitiam juzos =precipitados e no 
bastava um passo em falso para condenar uma pessoa =ou para 
troar dela. Nunca ningum ousaria avanar com uma =conversa 
do foro sexual. Se algum o fizesse, no encontraria uma 
=plateia atenta e sorridente.
Josepha nem sempre conseguia captar os cambiantes das 
bisbilhotices que =se cruzavam  noite, depois do jantar, na 
villa Castiglia.
Pedia explicaes na sua linguagem que era uma mistura de 
=italiano, napolitano e alemo. Toda a gente sorria daquela 
candura e =a maior parte das vezes no lhe respondiam.
Naquela noite, chegou um hspede de Roma. Chamava-se Corrado 
Magni. =Era um bonito rapaz, muito desenvolto. Desempenhava, 
na corte, um cargo =no muito bem definido e contou anedotas 
divertidas sobre a =famlia real. Durante o jantar, 
referiu-se  oposio cada =vez mais forte dos socialistas.
- So uns desgraados. Nem sequer conseguem chegar a um 
acordo =entre si. O socialismo  um partido atormentado por 
demasiadas =cises internas para constituir sequer um perigo. 
J perderam os =sindicalistas revolucionrios. Em breve 
perdero tambm os =reformistas de direita e os comunistas - 
comentou o cunhado =Alliata.
- E das greves, o que pensam? - perguntou Josepha.
Todos a olharam, empalidecendo. Ela lembrava-se, por ter 
ouvido falar a =me e os amigos dela, da perturbao 
provocada pelas primeiras =greves no sul do Tirol, com o 
avano das novas ideias socialistas e a =criao de 
sindicatos e sociedades de socorro mtuo. O prefeito =de 
Merano, com a severidade que as leis do Imprio lhe 
reservavam, =apanhava os subversivos e castigava-os, apesar 
de ter muitas dvidas =sobre o assunto porque, como confiava 
 me, considerava que as =revoltas explodiam por 
necessidade, no por capricho.
- Minha querida, os grevistas so mandries, gente com pouca 
=vontade de trabalhar. Os operrios tm de ser vigiados e,

101


assim, depressa voltaro  razo. Por exemplo, quando os 
=operrios das nossas destilarias entram em greve, ns no 
=deixamos de produzir porque conseguimos substitu-los; mas 
eles =deixam de comer. Percebes a diferena? - interveio a 
sogra.
- Quer isto dizer que aos operrios convm serem explorados, 
para =assim terem o po assegurado - observou Josepha, 
candidamente.
Vittorio Alliata olhou-a como se ela fosse uma aluna e ele um 
professor =paciente.
- A palavra explorados no  bonita e nem sequer exacta. =O 
servo da gleba era explorado pelo seu senhor que, por outro 
=lado, o protegia dos saques dos exrcitos e dos bandidos e 
que, nos =anos de carncia, lhe matava a fome. De qualquer 
maneira, digamos que =era explorado. Os nossos operrios 
trabalham dez horas por dia mas =so remunerados at nos 
feriados e, no fim do ano, recebem um =prmio em dinheiro. 
Ns, empresrios, pelo contrrio, no =temos garantias, 
apesar de andarmos a tentar obt-las h anos. =H dois anos o 
governo decidiu criar uma nova lei para o =desenvolvimento 
econmico de Npoles. Ainda no foi aprovada. =Os deputados 
liberais apresentaram uma interpelao durssima = Cmara e 
o assessor para as finanas demitiu-se em sinal de =protesto. 
No aconteceu nada. Assim, ficamos excludos dos =benefcios 
fiscais porque nos acusam de especulao. Se o =governo no 
nos defende a ns, empresrios, como poderemos =ns defender 
os nossos operrios? So questes complexas, =minha menina. O 
Imprio austraco no tem os nossos problemas. =A tua nao 
no conhece a camorra, as erupes do =Vesvio, as epidemias 
e os terramotos que, de vez em quando, arrasam =anos e anos 
de trabalho. No existe na vossa terra a mentalidade 
=astuciosa que est na base da nossa sociedade. Cada 
meridional quer =ser mais astuto do que o vizinho e, no fim, 
perdemos todos - concluiu =Vittorio.
- Francamente, parece-me um panorama muito triste - observou 
=Josepha.
- Mas para que te metes nisso, Josepha? - interveio Virgnia, 
que =se aborrecia quando no se falava de histrias 
sentimentais ou de =escndalos. - A poltica  assunto de 
homens. Ns, =mulheres, temos a vantagem de poder ignor-la. 
Digo bem, Corrado? - =voltara-se para o hspede romano que 
lhe

102


fazia uns olhos doces, e ela no era insensvel a estas 
mensagens. =Por isso acrescentou: - Vou um bocado at ao 
jardim. Quem quer =seguir-me? - Era um convite ao jovem 
hspede, que Josepha no =captou e apressou-se a dizer: - Eu 
vou contigo.
O cunhado Alliata segurou-a por um brao.
- Deixa-a ir - sussurrou. - Ela quer ficar sozinha com o 
=Corrado.
- Porqu? - perguntou candidamente.
- Porque talvez Virgnia morra solteira, mas no virgem - 
=explicou-lhe com um sorriso divertido.
Josepha teve um momento de perplexidade antes de apanhar o 
significado =daquelas palavras. Nesse momento, Enrico, que 
naquela noite estava =estranhamente atento  conversa, 
disse-lhe: - Vamos chamar o =Saverio para nos levar a andar 
de barco. Apetece-te?
Enquanto atravessavam o jardim, debilmente iluminado pelas 
lmpadas =exteriores da villa, viram Marianna, a mulher de 
Alliata, na companhia =de Ciro Ruoppolo, o jornalista de Il 
Mattino. Estavam abraados, =encostados a um aloendro, e riam 
baixinho.
- A tua irm engana Alliata. No  verdade? - perguntou 
=Josepha ao marido, ao entrarem para o barco.
- S um bocadinho - respondeu ele, provocando o desconcerto 
de =Josepha.
O barco deslizava lentamente, impulsionado pelos remos que 
Saverio =mergulhava na gua com ligeireza.
- Como  que se pode trair algum s um bocadinho? - 
=perguntou ela.
- So subtilezas napolitanas que nunca chegars a 
compreender. =Tens de te conformar - respondeu o marido.
Ela no se conformava. Mas estava uma noite esplndida e 
decidiu =no a estragar com uma conversa intil.
- Sabes uma coisa, Enrico? Ao fim da tarde, quando tu e os 
outros =descansam, eu deso at  praia e tomo banho - 
confessou.
- Por que me dizes isso como se fosse um segredo?
- Porque  um segredo. Nunca tinha dito a ningum, antes 
deste =momento.
- Toda a gente sabe - disse ele, deixando-a desorientada. 
Josepha =olhou para ele, consternada.
- Ests a dizer-me que algum me viu?

103


- Obviamente - respondeu Enrico.
- Mas eu tomo banho nua - exclamou.
- E ento?
- Por que no me disseste nada?
- Porque toda a gente acha que tu queres manter o segredo.
- Nunca vou chegar a compreender-vos! - exclamou, exasperada.
- Se quiseres, dou ordens para ningum te vigiar mais. Se te
afogares, no tenho culpa - avisou Enrico.
- No me vou afogar. De qualquer maneira, no quero ser 
espiada =- declarou, decidida.
- Ningum vai voltar a vigiar-te - prometeu.
-  uma promessa, ou  s um bocadinho? - perguntou.
- Promessa verdadeira - assegurou ele, divertido.
No dia seguinte, quando desceu at  praia ao fim da tarde, 
trazia =prudentemente vestido um fato-de-banho por baixo do 
roupo que =atirou para os rochedos.
De repente, enquanto tentava nadar, uma voz masculina rompeu 
o =silncio: - Nunca vi uma ninfa to bonita.
Josepha assustou-se. Mexeu-se com atrapalhao na gua que a 
=engoliu, obrigando-a a gesticular.
Foi erguida por dois braos fortes que a puseram a salvo. 
Respirou =com dificuldade, agarrando-se ao pescoo do seu 
salvador. Abriu os =olhos e encontrou  sua frente o rosto 
sorridente de Lorenzo =Valeschi.
- Ol - disse ele. - Cheguei agora a Positano. Desci para
ver o mar e vi-te a ti.
- Pe-me j no cho - gritou. Antes queria afogar-se do =que
ser vista naquela situao.
-  para j - replicou ele, deixando-a cair outra vez. O 
=mergulho fez levantar salpicos de gua. O jovem, 
completamente =vestido, estava metido na gua at  cintura.
- Idiota! No sei nadar - gritou, enquanto se debatia, 
tentando =boiar.
Lorenzo voltou a segur-la imediatamente.
- No sabia que estavas aqui - disse-lhe, divertido.
- No  verdade. Vieste espiar-me - reagiu, furiosa. E 
=acrescentou: - No s um cavalheiro.

104


Lorenzo segurava-a firmemente nos braos e saiu da gua. As 
=calas e a camisa estavam encharcadas.
-  verdade. No sou. Mas tu s infinitamente bonita.
- Gostava que um raio te incendiasse. Nunca te vou perdoar 
por me teres =espiado - gritou.
O oficial mantinha-a apertada contra si e sorria.
- s extraordinria, Josepha - sussurrou.
- Vai  fava! Odeio-te! - gritou.
- E eu amo-te - disse em voz baixa, pousando os lbios sobre 
os =dela. Foi um beijo muito doce.
Josepha, contrariando o desejo, conseguiu libertar-se dos 
braos =dele. Ps-se de p num instante, agarrou no roupo e 
correu em =direco  escada que conduzia  villa. Fugia de 
Lorenzo, de =si prpria e da sensao magnfica e 
perturbadora que =obtivera do contacto com aqueles lbios.
Subiu ansiosamente os degraus que trepavam pelo meio das 
pedras. Estava =assustada. O medo transformou-se em pnico 
mal entrou em casa, onde =os Castiglia a esperavam num 
silncio atnito.
A sogra foi ao encontro dela e abraou-a, sem uma palavra. 
Marianna =e Virgnia fixavam obstinadamente as pregas dos 
vestidos. Vittorio =Alliata tinha uma mo pousada sobre o 
ombro da mulher. Das outras =salas vinha o som de passos 
apressados e de sussurros. Josepha =sentiu-se gelar.
- O que aconteceu? - perguntou num fio de voz.
O cunhado foi ter com ela e disse: - O Enrico sofreu um 
acidente. - =Depois voltou-se para a princesa: - V 
descansar, maman. Ns =tratamos da Josphine.
- Que tipo de acidente? - insistiu ela, incapaz de se mexer. 
Naquele =momento Marianna comeou a chorar.
- Matou-se com um tiro de revlver - disse o cunhado.

105


NPOLES - VIELA DA DUQUESA NOVEMBRO DE =1910


- Matteo, a tua me tem mais sete filhos. =Achas justo 
continuares a tomar conta dela? Os teus irmos e as tuas 
=irms nunca trataram dela. Porqu? - perguntou Roslia di 
=Giacomo enquanto acariciava os flancos de Matteo, que estava 
estendido =na cama, junto dela, a gozar a tibieza da grande 
coberta forrada de seda =cor-de-rosa.
- Ela dava-se bem com a Rosa. E depois, no penses =que ela 
no pode ajudar. E claro, se o pai ainda fosse vivo, estava 
=com ele e no havia problemas - raciocinou em voz alta, e 
=acrescentou:
- Na verdade, a minha me nunca foi um problema.
- Mas agora . Ns vamos casar, tu e os teus filhos vm para 
=aqui. E a tua me, onde  que a metemos? - insistiu a 
mulher, =beliscando-lhe um brao com a ponta dos dedos.
- Rosal, no podemos falar sobre isso noutra altura? - 
=perguntou, tomado j por um renovado desejo.
Roslia afastou-o de si e sorriu.
Temos de falar agora, porque daqui a uma semana vamos casar - 
insistiu, =sem querer mudar de assunto.
- Mas tu no tinhas j discutido isso com a Rosa? - Tentava 
=furtar-se a uma deciso que, desde h alguns dias, andava no 
=ar.
- No. Sobre a dona Lina no se disse uma palavra. Tu bem 
Sabes, =porque estavas presente.
- Vou falar com os meus irmos. Mas se ningum a quiser,

109



tem mesmo de ficar connosco. - Matteo era muito afeioado  
=me e esperava que a futura mulher acabasse por a aceitar.
- Tens medo dos teus irmos? Olha que tambm  me deles, 
=no  s tua. Eu acho que eles se esto a aproveitar 
=demasiado da tua generosidade - sussurrou com meiguice. E 
continuou: - =Eu compreendo e admiro o teu sentido de 
responsabilidade em =relao  tua me. Mas j fizeste mais 
do que devias. =Digo-to com sinceridade. Agora acho que ests 
a exagerar. Tambm =o digo para o bem dela. Vivemos no quinto 
andar. Achas que aquela pobre =mulher pode fazer cinco lanos 
de escada, para cima e para baixo, =sabe-se l quantas vezes 
por dia?
Matteo foi obrigado a abordar a questo com o irmo mais 
velho, =Nino, que morava em Portalba, trabalhava como 
alfaiate e era tambm =porteiro. De todos os filhos de Lina, 
era o que vivia melhor. Nino =convocou o resto da famlia e, 
a uma semana do casamento, depois de =beijos, abraos e 
felicitaes por aquela ditosa unio que =faria de Matteo um 
homem rico, foi posta em cima da mesa a questo da =me.
- Normalmente, uma me viva deve estar em casa de uma filha 
- =comeou Matteo. E continuou, olhando para as trs irms: - 
A =me teve sorte por ter uma nora como a Rosa. Mas agora 
toca a uma de =vocs a obrigao de tomar conta dela.
Caterina, a mais velha, falou tambm em nome das outras duas.
- Tu achas que se alguma de ns tivesse condies para ficar 
=com ela quando o pai morreu no o tinha feito? Eu j sou 
obrigada =a viver com as minhas duas cunhadas. Temos sete 
filhos e vivemos onze =pessoas em dois quartos. A minha 
situao  trgica. E isto =tambm vale para a Carmelina e 
para a Santa - disse, indicando as =duas irms mais novas.
- O meu marido est tuberculoso e j no trabalha. No =entra 
dinheiro nenhum em casa. A tia Assunta est connosco e  um 
=peso morto. S nos faltava a me. Ento  que eu me atiro ao 
=mar - concluiu Carmelina.
Santa encolheu os ombros. - As minhas desgraas j vocs =as 
conhecem. Para que  que preciso de falar?
Tinha o marido na priso, um filho com poliomielite, trs 
muito =pequeninos e estava prestes a dar  luz o quinto.

110


Vivia da caridade dos vizinhos e de trabalhos espordicos. 
Nem sequer =podia pedir dinheiro emprestado, porque ningum 
lhe dava crdito. =- Ests a ver? - disse Nino a Matteo. - As 
nossas irms =esto muito mal. Ns, os irmos, no estamos 
melhor. Para o =bem da me, tens de convencer a tua esposa.  
uma herana que =s tu podes carregar.
- Esto a brincar comigo - disse Matteo, irritado. - Esta 
=reunio foi feita para encontrar uma soluo. Durante muitos 
=anos fiz aquilo que pude sem pedir nada a nenhum de vocs. 
Agora =preciso da vossa ajuda.
Alguns dos irmos fizeram sinais de assentimento e declararam 
que =Matteo tinha razo, olhando para Nino, o mais velho, de 
um modo =significativo. Nino, como todos sabiam, era o que 
vivia mais desafogado. =No pagava renda de casa e recebia 
dois ordenados: como porteiro e =como alfaiate. Tinha nove 
filhos, trs dos quais trabalhavam j e =levavam dinheiro 
para casa. O que tinha doze anos era ajudante de =padeiro, o 
de onze era empregado de uma barbearia e a de dez tomava 
=conta dos filhos de uma bordadeira.
Nino sentiu-se atingido e comeou a fazer fortes aluses  
=conduta de Roslia di Giacomo, que emprestava dinheiro a 
juros, que =tinha negcios com a camorra, que provavelmente 
provocara a morte do =marido e que, quando Matteo comeasse a 
aborrec-la, arranjaria =maneira de ficar viva outra vez.
Matteo ficou furioso, vieram  baila velhos rancores nunca 
=resolvidos, uma irm acusou outra de lhe ter roubado um 
colcho e =um irmo culpou outro do desaparecimento de um par 
de sapatos que =tinham pertencido ao pai. Os nimos 
inflamaram-se cada vez mais, =voaram insultos e algum 
comeou a usar as mos. Em breve, =irmos e irms, cunhados e 
cunhadas envolveram-se numa briga, =enquanto os gritos 
aumentavam e os vizinhos, que intervieram para =aplacar os 
nimos, acabaram por sua vez por se envolver numa contenda 
=memorvel.
Dona Lina, a causa involuntria de tanta animosidade, 
assistia, a =tremer, quele descalabro. Sussurrou: - Uma me 
at pode =sustentar dez filhos, mas dez filhos no so 
capazes de sustentar =uma me - lamentou-se. Aps o que, 
desgostosa e humilhada por =estar na origem daquela rixa, se 
afastou.

111


Matteo apercebeu-se, foi atrs dela, abraou-a a chorar e 
=pediu-lhe perdo. Os irmos e os cunhados fizeram a mesma 
coisa. =A contenda apagou-se entre beijos e abraos e, por 
fim, decidiram =que a me ficaria  vez com cada um dos 
filhos. Ela aceitou com um =sorriso de escrnio.
O casamento com Roslia di Giacomo foi celebrado com muita 
=discrio, s seis da manh, na igreja do Carmine.
No houve banquete de casamento. Roslia gostaria de fazer 
alarde =do luxo a que se podia permitir, mas intuiu que no 
era boa altura. =Consolou-se por pensar que, com aquela 
renncia, evitava uma grande =despesa. Assim, depois da 
cerimnia religiosa, despedidas as =testemunhas, ela enfiou o 
brao no de Matteo e anunciou: - Vamos = esplanada, tomar um 
caf.
Matteo vestia um fato do falecido di Giacomo, oportunamente 
adaptado ao =seu corpo. A mulher oferecera-lhe um chapu, a 
camisa de seda branca =com o colarinho engomado e os sapatos 
de verniz. Eram os primeiros =sapatos novos da sua vida, pois 
sempre os comprara usados: eram baratos =e faziam o mesmo 
efeito. Ela ostentava um casaco negro debruado a pele e =um 
chapu com um vu de organza que lhe cobria os olhos. Estava 
=radiante. Matteo, pelo contrrio, estava confuso. Quando ela 
lhe =meteu no bolso dez liras para pagar a despesa da mesa 
naquele stio =de luxo, corou de vergonha. Olhou-a com dio e 
o seu pensamento foi =ao encontro de Rosa. Ela nunca o pusera 
numa situao difcil =e, quando lhe entregava o dinheiro 
ganho com o seu prprio trabalho, =fazia-o com uma discrio 
sorridente e com o orgulho de trazer =uma contribuio para a 
famlia.
Depois pensou nos filhos. Enquanto ele estava sentado  mesa 
daquele =bar elegante, eles estavam a transferir para o 
quarto da madrasta as =poucas coisas que possuam. Sentia que 
aquele apartamento espaoso =e confortvel nunca chegaria a 
ser a casa deles e, quem sabe, nem =mesmo a sua.
Olhou para Roslia como se estivesse a v-la pela primeira 
vez, e =viu-a como ela era realmente: uma mulher exuberante 
na cama, astuta no =trabalho e glida na vida. Teve medo.
- Mas por que me casei eu contigo? - sussurrou. A pergunta 
era =dirigida mais a si prprio do que a ela.

112


Roslia saboreava gulosamente uma amndoa coberta de 
chocolate. =Engoliu-a como se fosse um remdio azedo. Olhou 
para Matteo com uma =expresso lvida.
-  um bocado tarde para fazeres essa pergunta - observou.
- Sinto-me ridculo com esta roupa em cima de mim. Pareo um 
=palhao do circo - continuou, enquanto sentia uma raiva 
surda que =lhe torcia o estmago.
- Fala com respeito daquilo que trazes. So coisas de luxo. 
Coisas =caras - murmurou ela, decidida a cortar pela raiz um 
comportamento que =no lhe agradava.
- So coisas caras, carssimas. Paguei-as com o afastamento 
da =minha me - replicou Matteo, odiando-se a si prprio e a 
ela, =que o obrigara a tomar aquela deciso. Levantou-se da 
mesa, =afastando a cadeira com muito barulho, agarrou no 
dinheiro que =Roslia lhe metera no bolso e pousou-o com 
fora no tampo de =mrmore. Depois saiu, abandonando a mulher 
que o olhava, estarrecida. =Precisava de regressar 
imediatamente a casa, aos filhos. Mas a que casa? =Aquele 
quarto pobre, pelo qual pagara sempre pontualmente a renda, 
j =no existia. A outra, a do quinto andar, atravancada de 
mveis =vistosos e de quinquilharia cara, parecia-lhe agora 
vulgar, =intolervel. Mas o que foi que eu fiz, perguntou-se, 
como se s =naquele momento se desse conta de que nenhuma 
mulher poderia alguma vez =ocupar o lugar de Rosa. 
Libertou-se da gravata que lhe apertava o =pescoo. Queria 
voltar para junto dos filhos. Comeou a correr e, =a certa 
altura, sentou-se, desesperado, nas escadas de uma igreja. 
=Sentia-se dominado pelos remorsos. Depois, sentiu uma mo 
carinhosa =a acariciar-lhe a nuca. Era o mesmo toque, 
afectuoso e casto, da =me. Ergueu os olhos. Ao lado dele 
estava Teresa. Sorria.
- Est elegante como um senhor - sussurrou a filha, admirada. 
=Matteo baixou a cabea e no respondeu. - Pai, tenho fome. O 
=Peppino e os outros tambm querem comer. A despensa da dona 
=Roslia est fechada  chave. Lina, a criada, diz que a 
senhora = que tem a chave. O que  que fazemos?
Matteo levantou-se, deu a mo  sua menina e dirigiu-se para 
a =Viela, com um passo decidido. -  muito simples. 
Arromba-se a =despensa e come-se. A dona Roslia vai perceber 
bem depressa que, =com a famlia Avigliano, s se pode 
conviver com as nossas =condies.

113


Teresa abriu os olhos, como sempre, com os primeiros raios de 
sol. Olhou =em volta com uma sensao estranha. Era a 
primeira vez que =acordava na casa nova. Roslia destinara 
aos filhos Avigliano um =quarto espaoso, que dava para a 
caixa das escadas, com duas grandes =camas: uma para ela e 
Annina e a outra para os trs irmos. Havia =um ba, onde 
Teresa arrumara cuidadosamente as roupas de todos eles, =e um 
toldo, intransponvel, por trs do qual se amontoavam as 
=provises: batatas, mas, a barrica das sardinhas em sal, 
=talhas cheias de azeite e baldes de farinha, de gro-de-bico 
e de =lentilhas. Nunca vira tamanha abundncia. As paredes do 
quarto eram =caiadas. Teresa pendurou num prego o rosrio da 
av. As imagens da =Virgem e de outros santos, de que a me 
tanto gostava, alinhou-as em =cima do ba, ao lado dos seus 
pequenos tesouros: dois berlindes de =vidro, uma boneca de 
papelo e um palhao que s tinha uma =perna.
Os irmos dormiam profundamente. Em pleno sono, Annina 
tossia. Tinha =apanhado uma grande constipao e em breve ia 
contagiar toda a =gente. Teresa no sabia com que ervas  que 
a me preparava =certos emplastros muito quentes que se 
punham no peito para curar os =resfriados. Duvidava de que 
dona Roslia os conhecesse. A nova mulher =do pai olhava para 
ela e para os irmos com um ar grave e, quando =encontrara a 
fechadura da despensa arrombada, sussurrara: - Foste tu, 
=pequena cobra.

114


Por isso, Teresa moveu-se com extrema cautela. Levantou-se da 
cama e =vestiu-se, a tremer de frio. Enfiou uma camisola 
interior de l e, =por cima, um vestido cinzento que era da 
me; a av tinha-o =arranjado para ela. Calou as meias e os 
tamancos e foi at  =cozinha, onde Lina estava a acender o 
fogo.
O carvo incendiou-se rapidamente.
Naquele momento apareceu o pai. Os cabelos encaracolados e 
negros, como =os dela, estavam despenteados, e a barba 
escurecia-lhe as faces.
- Como ests? - sussurrou. Teresa sorriu-lhe.
- Enquanto faz a barba, eu preparo-lhe o caf - disse ela.
- Eu trato disso - ofereceu-se a criada.
- Deixa a Teresella faz-lo - ordenou Matteo.
Lina deixou-os ss. Naquela diviso pairava uma tepidez 
=agradvel. Em cima de uma mesa, por baixo da janela, estava 
um =espelho, a taa do sabo, o pincel da barba, a navalha e 
uma =toalha.
- Esta manh temos caf verdadeiro, do bom - murmurou a 
=rapariga, enquanto preparava a mesa para o pai. Pegou num 
po e =cortou algumas fatias, em cima das quais deitou um fio 
de azeite. =Gostaria de o melhorar ainda mais, tirando de um 
frasco de vidro alguns =tomates em azeite. Mas no ousou, com 
medo de que Roslia no =achasse bem.
Atravs do espelho, o pai viu-a olhar para o frasco dos 
tomates.
- Come - disse-lhe.
-  melhor no - decidiu.
- Ela no  to m como tu pensas - afirmou ele, 
=referindo-se a Roslia.
Ela no fez comentrios. Deitou o caf na malga e juntou-lhe 
=bastante acar.
Matteo, entretanto, limpou a cara que acabara de barbear e 
sentou-se = mesa com ela. Bebeu um trago de caf.
-  mesmo bom - comentou, antes de trincar uma fatia de Po. 
=Atravs da janela observaram o sol que se erguia num cu 
cada Vez =mais azul. Era um espectculo novo para eles, 
habituados  =escurido do baixo que tinham deixado. Pela 
primeira vez viam os =telhados das casas e a roupa estendida 
a secar nas varandas.

115


- Se me der dinheiro, vou comprar o leite para os meus irmos 
- =props Teresa.
Matteo tirou algumas moedas do bolso das calas, meteu-lhas 
na =mo, e depois enfiou os dedos por entre os cabelos da 
filha e =despenteou-os, sorrindo-lhe.
- Vai correr tudo bem. Garanto-te - sussurrou, e acrescentou: 
- =Viste como foi, ontem, quando arrombmos a despensa? Nem 
piou. Agora =j no  preciso chave. Come o que te apetecer. 
Era isso que a =tua me queria para ti e para os teus irmos. 
E a vontade dela =h-de ser sempre respeitada.
Teresa saiu e voltou com a panela de barro cheia de bom leite 
de cabra. =A criada estava a arrumar a cozinha. Ela aqueceu o 
leite no lume e =ps na mesa malgas e po. Do quarto chegou a 
voz de =Roslia.
- Lina, o caf - gritou.
A mulher saiu da cozinha levando um tabuleiro com uma chvena 
e o =aucareiro.
Teresa acordou os irmos e juntou-os  volta da mesa.
- No faam barulho. Sabem muito bem que agora somos hspedes 
=e temos de nos portar como deve ser - recomendou.
Tambm eles se sentiam intimidados e comeram em silncio.
Roslia entrou na cozinha. Vestia uma saia de l verde que 
lhe =dava pelo tornozelo, botins pretos de taco fino e um 
casaco preto, =com uma gola ampla, do qual saa o colarinho 
alto, com =aplicaes de renda, da camisa branca.
Entre duas dentadas, Annina tossia e fungava. Teresa, que 
estava sentada = mesa com os irmos e os via comer, 
levantou-se de repente. Eles =ficaram com as colheres no ar.
- No s capaz de te assoar a um leno? - comeou =Roslia, 
em tom de censura. E acrescentou: - Vai ser preciso tomar o 
=xarope de ipecacuanha para essa tosse.
Ningum sabia o que era aquele remdio de nome difcil, mas a 
=palavra xarope significava alguma coisa doce, o que levou 
Annina a =sorrir.
- No  razo para sorrir - continuou a mulher num tom 
=brusco. - Ainda mal acabaram de chegar e j  preciso gastar 
=dinheiro em remdios. E no  s isso. Ningum vos =ensinou 
que tm de me cumprimentar quando me vem?

116


- Bom-dia, dona Roslia - disseram quase em coro.
- Devem chamar-me mezinha. A partir de agora, desempenho as 
=funes de vossa me - explicou com ar de =resignao.
- Mezinha - comeou Annina -, pega-me ao colo?
A pequena sofria muito com a falta da me, e estava 
firmemente =decidida a contentar-se com Roslia, que lhe 
dirigiu um olhar =perplexo.
- Quantos anos tens? - perguntou-lhe.
Annina no sabia. Teresa respondeu por ela: - Tem seis anos. 
- =Parecia que tinha menos. Era muito pequena, plida como um 
anjinho de =cera.
- Pega-me ao colo, mezinha? - repetiu.
- Tenho de ir para o mercado. No tenho tempo para estas 
palermices. =E vocs, por que  que no vo para a escola?
- Mas que escola? - respondeu Peppino. -  preciso dinheiro 
para =comprar roupa e o resto. E depois, a ns, o que nos 
interessa? No =se ganha dinheiro a ir  escola.
Um sorriso triunfante surgiu nos lbios da mulher.
- J s suficientemente crescido para comeares a trabalhar. 
=Tenho de falar sobre isso com o teu pai. De qualquer 
maneira, chegou o =momento de tirares o hbito. No quero 
monges nesta casa
- sentenciou, e depois virou-se para a criada: - Procura na 
arca dos =meus rapazes. Esto l as roupas velhas deles. 
Arranja qualquer =coisa que lhe sirva - ordenou.
Roslia ignorara Teresella. A rapariga esgueirou-se 
silenciosamente =para fora da cozinha e foi at  porta de 
casa. Abriu-a. A mulher =foi atrs dela como um tiro.
- Onde  que vais? - perguntou.
- Vou sair - respondeu ela.
- E onde vais?
- Dar uma volta.
- Volta depressa para dentro. No quero vagabundos nesta
casa - declarou com desprezo, enquanto tentava agarr-la por 
um =brao. Teresa soltou-se e comeou a descer as escadas com 
a =velocidde de uma seta. L fora estava frio, mas depressa 
o sol =comearia a aquecer as ruas, as praas e a marginal. 
Fugia daquela =casa, onde se Sentia sufocar, e de dona 
Roslia. Queria que a =tratassem por mezinha. Vejam l!

117

Roslia sibilou: - Comeamos mal. Tenho de dar um aperto 
nestas =crianas. - Enfiou um chapu de veludo verde, ps 
sobre os =ombros um grande xaile negro com franjas e saiu, 
por sua vez. Estava de =muito mau humor. As coisas no 
estavam a correr segundo os seus =planos. Matteo no era to 
fcil de manobrar como pensava. =Tinham ousado arrombar a sua 
despensa. No podia tolerar outras =rebelies e era preciso 
remediar as coisas depressa, antes de perder =o controle da 
situao. Dirigiu-se ao mercado com um passo =decidido, quase 
militar, a remoer os ltimos acontecimentos. Meia =hora 
depois de se ter casado com ela, Matteo abandonara-a, 
=escandalizando os elegantes frequentadores daquele caf. E 
nessa =noite, quando o abraou, ele respondera: - Deixa-me, 
Roslia. =Agora no me apetece.
Uma grosseria imperdovel. Ela era a patroa, ele e os filhos 
iam ver =como era, se no se submetessem imediatamente  sua 
vontade.
No domingo, a criada regressaria  terra. Ia despedi-la, 
=dizendo-lhe que j no precisava dela. Teresa era 
suficientemente =crescida para a substituir.
Entrou no mercado. A sua banca de peixe estava j preparada, 
 =espera que abrissem as portas e chegassem os clientes. E 
que =banca!, pensou com orgulho. Matteo fazia alarde da 
habilidade que =tinha. Bastou-lhe uma olhadela para controlar 
tambm as outras =trs bancas. Os seus homens estavam a 
acabar de as preparar. Mas a =mais bonita, de qualquer 
maneira, era a que tinha sido arranjada pelo =marido. Reparou 
no amarelo intenso dos limes enfiados na boca dos 
=peixes-espada, as laranjas sanguneas que sustentavam as 
ostras, o =verde tenro das folhas de alface que formavam uma 
coroa por baixo do =marisco. Soberbo, pensou, enquanto se 
dirigia  parte do fundo, onde =ficavam os escritrios: uma 
gaiola de madeira e vidro com uma mesa, =uma cadeira e uma 
pilha de registos. Havia um velho com culos que =estava 
precisamente a consultar um deles.
- Qual  hoje a situao, guarda-livros? - perguntou, sem 
=cumprimentar.
- Chegou esta noite um carregamento de raias. Muito bonitas - 
Estava = espera das suas ordens para as mandar entregar - 
respondeu o =velho.

118


- Diga ao Matteo para as pr no carro. E tome nota: duas 
caixas para =o restaurante da estao, duas para a 
Margellina, trs para a =cozinha do Excelsior, quatro para a 
messe dos oficiais... - Ela no =precisava de apontamentos 
escritos, porque tinha tudo na cabea e =no lhe escapava 
nada.
- Desculpe, dona Roslia. Don Matteo, agora,  seu marido. 
Pensei =que o Girolamo pudesse tratar das cargas e...
No o deixou acabar.
- O senhor no tem nada que pensar. S tem que tratar das 
contas =- admoestou-o com severidade. Saiu do escritrio e 
dirigiu -se com =passo marcial  banca do marido, gritando: - 
Ento, Matteo, =no se faz nada? Tens de ir imediatamente 
entregar as raias.
Matteo ofereceu-lhe um sorriso irnico e fez uma vnia. - A 
dona =Roslia  que manda - respondeu, imperturbvel.
119


MERANO - SCHLOSS RUNDEGG NOVEMBRO DE 1910


Josepha e a princesa estavam ss, na salinha =azul. O 
funeral de Enrico Castiglia, prncipe da Calbria, fora 
=oficiado com a solenidade imposta  condio da famlia. 
=Agora repousava no cemitrio de Poggioreale.
- Ests mesmo decidida? - perguntou a sogra.
A jovem ergueu o olhar aos frescos do tecto. Pareceu-lhe que 
os =anjinhos pintados por entre os ramos em flor tinham 
perdido a =expresso ameaadora que sempre a aterrorizara e 
que, em vez =disso, a olhavam com benevolncia, como se a 
convidassem a subir com =eles at quele cu sereno.
- J no tenho motivos para continuar em Npoles - respondeu. 
=O cu azul, sulcado de pequenas nuvens cor-de-rosa, era o 
cu da =sua terra, onde queria regressar.
- No vais acreditar se eu te disser que, das minhas filhas, 
s a =rainha predilecta - disse a princesa. Trazia um vestido 
de crepe da =China negro, e nas orelhas tinha duas preciosas 
prolas cinzentas, =idnticas s do colar de quatro voltas 
que lhe chegava  =cintura.
- Muito obrigada, maman, por essa declarao de afecto - 
=sussurrou a rapariga.
Depois da morte de Enrico, Josepha assumira um ar mais 
maduro. Desde a =Primavera, quando se casou, at ao Outono, 
quando ficou viva, =tinha queimado todos os sonhos, todas as 
esperanas e todas as =iluses.

123


- Ests magoada e desiludida. E tens razo - afirmou 
Carolina. E =acrescentou: - Felizmente, s jovem e tens todo 
o tempo do mundo =para reencontrares a serenidade.
- Acredita mesmo nisso?  possvel. Mas no aqui, nesta casa 
=- replicou com amargura.
- Sinto-me culpada por te ter enganado - continuou a sogra.
A jovem pensou em Lorenzo Valeschi. Quando fugiu dele, depois 
de ele a =ter beijado na praia, ainda no sabia o que tinha 
acontecido. A =famlia Castiglia juntou-se  volta dela para 
a confortar. Todos =choravam, e algum sussurrou: Tal como o 
Pap, =referindo-se  loucura que aproximara Enrico do pai.
Josepha estendeu um brao e acariciou a mo da sogra. - Eu 
acho =que uma me tem de ajudar os filhos para alm de tudo o 
que  =razovel. A senhora esperou que Enrico, ao casar 
comigo, conseguisse =curar-se. Mas no foi assim - suspirou. 
E continuou: - Desejei =tanto um marido, uma famlia, filhos. 
Acreditei que, um dia, ele iria =ser capaz de me dar tudo 
isso.
- Quiseste acreditar, com essa tua ingenuidade e confiana 
sem =limites. No, nunca poderia dar-te aquilo que desejavas. 
Mas o =Lorenzo podia - disse a sogra, olhando-a com ternura.
- Lorenzo... - balbuciou Josepha, corando.
- Esteve aqui h pouco. Ama-te, tenho a certeza. Posso 
garantir-te =que, no caso dele, no h taras hereditrias - 
comentou em voz =baixa.
No lhe interessava aquela garantia. No queria saber mais 
=nada de homens, nem de casamentos, nem de italianos. A 
Itlia =ferira-a profundamente; a maneira de viver, de pensar 
e de agir daquela =gente era oposta  dela.
- Est a propor-me outro casamento? - perguntou tristemente.
- A morte do meu Enrico esvaziou-me de qualquer vaidade - 
respondeu a =princesa. Disse aquele meu com um tom de voz 
que tocou a jovem =viva. Naquelas trs letras estava contido 
todo o amor materno que =Carolina sempre ocultara sob um 
manto de indiferena resignada.
Enrico fora um personagem incmodo para a famlia. Depois da 
sua =morte, todos se sentiram libertos de um pesadelo.

124


e os criados sofriam verdadeiramente. Saverio e Sas estavam 
to =pesarosos como se tivessem perdido um filho.
- Antes de partir, gostava de saber por que me escolheu a 
mim, por que =decidiu que havia de ser eu a vtima a 
sacrificar  loucura de =Enrico. Porque era jovem e ingnua? 
Porque era estrangeira? Porque =era pobre e me deixaria 
ofuscar com tanta riqueza? - perguntou Josepha =com ardor.
A sogra olhou longamente para ela, depois abanou a cabea e 
=respondeu: - H dez anos que Enrico manifestava sinais de 
=desequilbrio. Eu estava to assustada que os ignorei. Quis 
=acreditar que era apenas um homem difcil e convenci-me de 
que, =casando, seria capaz de recuperar o equilbrio. Tu eras 
jovem, bela e =inteligente, e eu criei a iluso de que 
conseguirias salv-lo. =Talvez, com o tempo, venhas a 
compreender-me.
Depois levantou-se, imitada pela nora. - Adeus, Josphine. 
Espero =que encontres alguma serenidade - e despediu-se, 
abraando-a.
Josepha viajou de comboio de Npoles at Merano com os 
cunhados =Alliata, Marianna e Vittorio. A famlia Castiglia 
manifestara-lhe um =afecto completamente inesperado.
Em Merano encontraram o frio e a neve nas montanhas. Os 
hotis e as =moradias estavam cheios de hspedes ilustres. Os 
concertos, os =espectculos teatrais e as recepes animavam 
aquela pequena =cidade. Joseph Grossmann, prevenido da sua 
chegada atravs de um =telegrama, estava na estao  espera 
dela. Acompanhou-a a ela =e aos cunhados de carruagem at ao 
castelo, onde Petra, Klara e Toni =a esperavam ansiosos.
Tinham acendido todas as salamandras, posto a brilhar os 
cobres e os =estanhos e perfumado armrios e gavetas com 
flores de Alfazema. =Prepararam uma refeio  base de sopa 
de Gulasch, =almndegas com toucinho, creme de legumes, 
leito assado, =filhs, strudel de mas e Sacher-Torte.
Finalmente, Josepha Maria Sidonia, senhora de Rundegg e
arnetz, princesa Castiglia, estava de novo em casa. Apesar de 
=contristados pelo seu luto, no castelo todos estavam 
convencidos de qUe =este regresso era uma bno do cu.

125


Como bons austracos, toleravam os estrangeiros porque 
traziam algum =bem-estar econmico  cidade, mas nunca tinham 
considerado com =benevolncia a unio de Josepha com um 
italiano.
Oficialmente, a morte do prncipe fora atribuda a um 
acidente. =Parentes e testemunhas tinham declarado que 
Enrico, ao limpar a pistola =do pai, tinha disparado 
involuntariamente um tiro que o matara. Josepha, =por seu 
lado, no tencionava acrescentar uma nica palavra a esta 
=verso. Assim, durante o almoo na intimidade da saleta, 
reiterou =a histria que os Castiglia pretendiam que contasse 
ao seu tutor, com =o apoio dos cunhados. Enquanto contava 
aquela mentira piedosa, revivia =os momentos dramticos 
daquele evento e admirou-se pelo facto de o =encarar com 
tanto distanciamento. Era como se contasse uma histria 
=longnqua no tempo, apesar de ter acontecido apenas um ms 
=atrs. Sentia-se finalmente descontrada no castelo, onde 
=reencontrara imediatamente aqueles hbitos que lhe eram to 
=queridos.
Klara serviu os doces. Ela olhou com prazer para a 
Sacher-Torte e =pensou em Lorenzo Valeschi. Em Positano, 
depois da tragdia, tinha =ido fazer-lhe uma visita. - Tenho 
pena que sejas to infeliz - =disse-lhe.
- Enrico era louco. Sabias? - perguntou a rapariga.
- Toda a gente sabe. Sempre soubemos - sussurrou. - S tu 
parecias =no ter conscincia disso.
- Pensa o que quiseres. Agora j no tem importncia - 
=replicou, para rematar a conversa.
Antes de se afastar, Lorenzo segurou-a por um brao. - 
Gostava de =te dizer muitas coisas, mas compreendo que este 
no  o momento =certo. Esperarei por outra ocasio.
No chegou a proporcionar-se. Ela deixou Npoles com uma 
mensagem =de Lorenzo, que lhe chegou atravs da sogra: 
Ama-te. A =consistncia do chocolate que se desfazia 
lentamente na sua boca =f-la recordar o jovem oficial, o 
sorriso, a ternura daquele beijo, =alegria.
-  conveniente que eu informe o teu tutor sobre algumas 
questes =financeiras decididas pela tua sogra - principiou o 
cunhado. Tinham =sado da saleta e estavam agora sentados na 
sala de estar.

126


Petra serviu o caf. Joseph Grossmann acendeu o cachimbo e o 
=prncipe Alliata permitiu-se um cigarro.
Josepha olhou-o com alguma perplexidade. As questes 
financeiras =no lhe interessavam.
-  mesmo necessrio? - perguntou. Estava com vontade de 
=calar uns sapatos confortveis e dar um passeio ao longo do 
=Passirio.
- Ns regressamos amanh, e  bom que conheas a =dimenso do 
teu patrimnio.
Explicou que, uma vez que Enrico morrera sem deixar 
testamento, a lei =lhe atribua todos os seus bens: um quinto 
da quota da destilaria, =alguns castelos na Lucnia e na 
Calbria, herdades na Puglia, um =palcio em Caserta e outro 
em Salerno, duas casas em Posillipo e =aces de uma 
sociedade mineira na Amrica do Sul.
- Todos estes bens sero geridos, como at agora, pelos 
=administradores da nossa famlia. No fim de cada ano 
recebers a =tua quota de dividendos. A princesa Carolina 
deixa ao Sr. Grossmann a =possibilidade de controlar as 
contas sempre que o desejar. Para alm =disso, determinou que 
tu recebers uma doao anual de duzentas =mil liras.  
exactamente a quantia de que dispunha o teu marido.
Josepha herdara uma fortuna.
- O que  que eu vou fazer com isso tudo? - perguntou, 
estarrecida. =Aquilo que tinha sempre lhe bastara. A herana 
de um marido que, de =facto, nunca o fora, parecia-lhe um 
peso e uma ligao com o =passado que queria esquecer.
- O que quiseres. Podes ficar com as coisas, vend-las ou 
=d-las. So tuas - respondeu o cunhado.
- No posso simplesmente recusar? - perguntou, dirigindo-se 
ao seu =tutor.
O prncipe Alliata pensou que Josepha tinha sido contagiada 
Pela =loucura do marido.
- Eu acho que a Josepha est cansada.  melhor conversarmos 
=ns os dois - interveio o Sr. Grossmann.
- No estou, de facto, cansada, mas podem decidir, como 
sempre - =concluiu, virada para o tutor. E acrescentou: - 
Agora preciso de =reencontrar as minhas montanhas. - 
Levantou-se e saiu, deixando-os =sozinhos a falar de casas, 
rendas e dividendos de que no tencionava =ocupar-se.

127


NPOLES - VIELA DA DUQUESA DEZEMBRO DE =1910


A relao dos filhos de Matteo Avigliano =com a rica 
Roslia era o tema preferido das vielas. A nova famlia =era 
observada com constante curiosidade e bastava uma coisa de 
nada para =servir de mote  conversa.
- Ontem  noite, don Matteo deitou-se  =meia-noite. A luz do 
quarto da dona Roslia ficou acesa durante =muito tempo - 
disse uma mulher.
- A dona Santa, que tem umas janelas em frente s da dona 
=Roslia, ouviu-os discutir toda a noite. Ela arranjou lenha 
para se =queimar - esclareceu outra.
- E aquelas pobres crianas da dona Rosa, que Deus a tenha em 
sua =glria, esto todo o dia sozinhas. A Teresella trata dos 
irmos =como pode, mas tambm  ainda uma criana. Era a 
menina dos =olhos da me e agora faz de criada em vez da 
Lina, que foi =desPedida.
- O meu marido, que  padrinho de casamento do don Nino,
o varredor do mercado do peixe, contou-me que ele lhe disse 
que
ouviu o don Matteo mandar o rapaz da banca pr de lado uma
caixa de douradas para os filhos. A dona Roslia deu logo 
ordens em =contrrio. Don Matteo tirou o avental, enfiou o 
casaco e foi  =banca dele. Ento a dona Roslia foi atrs 
dele, a =saracotear-se. O que aconteceu depois, o don Nino 
no soube =dizer.
- Agora est a chegar o Natal, e os filhos da dona Roslia 
vo =chegar do colgio. Sabe-se l o que vai acontecer nessa 
=altura.
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Esta e outras conversas iam-se cruzando, e pintavam uma 
situao =muito prxima da realidade. Matteo no era to 
dcil como =dona Roslia gostaria. Rosa tinha-a apanhado nas 
curvas. =Convencera-a de que Matteo tinha a ingenuidade de 
uma criana, que a =fora que possua estava toda no corpo, 
enquanto que a sua vontade =era fraca; pelo contrrio, no 
era nem ingnuo nem fraco. Para =alm disso, e isto era uma 
incmoda surpresa, preocupava-se muito =com os filhos, que 
ela francamente detestava. Vistos cada um por si, =eram 
aceitveis. Mas todos juntos formavam um muro contra qualquer 
=ordem sua. A mais velha, Teresa, era a mais insuportvel. 
Nunca =falava, nunca se revoltava e no protestava quando era 
castigada, =limitando-se a olh-la com ironia. Aqueles 
olhares enfureciam-na. =S lhe apetecia atirar-se a ela e 
esbofete-la. Depois =lembrava-se do juramento que fizera a 
Rosa e das palavras da moribunda: =Se no for fiel a este 
juramento sagrado, eu saberei. E no =ficarei contente. Era 
supersticiosa, como toda a gente, e temia a =vingana dos 
mortos.
- Amanh vou buscar os meus filhos ao colgio. Tenho de os 
=preparar para esta situao - anunciou ao marido quando 
estavam =deitados.
- Os meus, felizmente, no precisam de tantos cuidados - 
replicou =Matteo com um sorriso de desprezo.
- s vezes esqueces que o Cenzino e o Renato so os herdeiros 
=legtimos do meu primeiro marido - sublinhou Roslia.
- Como  que posso? Todos os dias me lembras isso. Mas tambm 
= bom que os informes de que eu agora sou o padrasto. Vou 
tratar de =me fazer respeitar por eles, assim como tu 
trataste de te fazeres =respeitar pelos meus filhos. E 
depois, Roslia, pra de te =lamentares. A Teresella faz de 
criada e o Peppiniello  o meu =ajudante. Os outros trs no 
te incomodam nada. No te =esqueas de que tinhas prometido 
mand-los a todos para a escola =- respondeu Matteo.
- Tu tambm sabes muito bem que a ideia da escola no lhes 
=agrada. E tambm pensas da mesma maneira. Quanto  Teresa, 
um dia =ainda me vai agradecer, porque est a aprender aquilo 
que toda a =mulher deve saber fazer.

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- E tu tens a casa limpa, a cama feita e a comida na mesa, 
sem gastares =uma lira, a partir do momento em que ela se 
tornou tua criada - =replicou, com um ar plcido.
- Uma criada que tem a liberdade que quer. Entrega os mais 
pequenos =s vizinhas e vai dar uma volta, como sempre - 
sibilou com =perfdia.
Matteo sorriu. - Ela  mesmo assim.  curiosa, quer ver mundo 
- =comentou satisfeito.
- Quanto a Peppino, devias agradecer-me porque estou a tentar 
=ensinar-lhe uma profisso. Apesar de, em vez de estar na 
banca, =fugir para brincar. Quando o chamo, no percebe as 
ordens que lhe =dou. Ou finge que no percebe - protestou.
- Tem nove anos.  preciso dar-lhe tempo - justificou, 
reprimindo =um bocejo. Estava muito cansado e adormeceu 
imediatamente.
Roslia, porm, ficou muito tempo acordada a remoer uma 
=situao que s lhe trouxera uma vantagem: ter na cama um 
homem =de quem gostava.
Mas, talvez porque Matteo tinha conscincia dessa fraqueza, 
usava-a =em seu prprio proveito e s vezes chegava a fazer 
de conta que =ignorava o desejo dela. Ultimamente, despertara 
em si uma suspeita: que =o marido andasse metido com a 
cozinheira do restaurante Miramare. Por =mais do que uma vez 
os tinha surpreendido no mercado a trocarem olhares =doces. 
Se Matteo no estivesse, a cozinheira no fazia a =encomenda. 
Dizia-lhe: Volto mais tarde. Roslia ficava =irritada e 
comeava a sentir o cime que noutros tempos =atormentara 
Rosa. Andava inquieta. Tinha um sono agitado e acordava mais 
=cansada do que quando se deitava. Assim que Podia, despejava 
em cima de =Teresa a raiva reprimida. A rapariga suportava 
aqueles vexames e =calava-se, at porque sabia que no havia 
sada para aquela =situao.
Na manh seguinte, Roslia demorou mais tempo a arranjar-se
? que era costume. Teresa teve de lhe =friccionar as costas e 
as pernas com um leo perfumado, pr a =brilhar os sapatos 
pretos de verniz e passar a ferro o casaco de alpaca =verde e 
a saia preta. Veio a cabeleireira arranjar os caracis 
=rebeldes

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de Roslia com um ferro apropriado. Teresa passou gua com 
vinagre =na aba do chapu de tecido verde guarnecido com pele 
de raposa, tal =como na gola do casaco. Dona Roslia ia a 
Salerno buscar os =filhos.
- Voltamos  hora do jantar. Pe a toalha branca de renda e 
os =copos de cristal, e ai de ti se partires algum. Mete no 
forno o pudim de =macarro, para o servires a ferver. Passa 
pela pastelaria Sogliano. =Traz uma torta paraso. J est 
paga. Ns comemos na =sala. Tu e os teus irmos ficam muito 
bem na cozinha. Tambm =vo comer macarro e torta. Primeiro 
servimo-nos ns, e depois =vocs - explicou Roslia, antes de 
sair.
- Sim, senhora - disse Teresa.
- No s mesmo capaz de me chamar mezinha.
- No sou capaz, senhora - respondeu, impvida. Roslia 
=enganava-se, se pensava que podia humilh-la. Ela estava 
mais =preocupada com o macarro e com a torta. Tinha medo de 
que no =houvesse em quantidade suficiente para os irmos e 
para ela. Por =isso, mal a mulher saiu, preparou-lhes o 
pequeno-almoo, vestiu-os =e mandou-os brincar para a rua. 
Arrumou rapidamente a cozinha, fez as =camas, cobriu o cabelo 
com um leno de l, ps um xaile nos =ombros e saiu a correr 
para ir  pastelaria.
- Venho da parte da dona Roslia buscar uma torta paraso 
=- anunciou.
- J est pronta. Vou embrulh-la - disse o pasteleiro.
- Primeiro quero v-la - replicou.
Era lindssima, grande, fofa, dourada como o sol. Tinha uma 
coisa =escrita em letras azuis guarnecidas com violetas de 
acar. - O =que  que diz ali por cima? - perguntou.
- No sabes ler?
- Claro que sei ler. Esqueci-me dos culos - mentiu, 
repetindo =aquilo que ouvia dizer aos mais velhos.
- Diz: Bem-vindos, filhos amorosos - leu o homem.
- E depois? - Aquilo parecia-lhe mais longo e complexo do que 
aquelas =trs palavras.
- E depois diz: Mete-te na tua vida - acrescentou o 
=pasteleiro.
- Est bem - replicou Teresa, com um ar grave. - =Quando? 
tiver os culos, em casa, j =posso ler o que diz a.

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Voltou para casa, segurando a torta com cuidado. Conhecia bem 
Cenzino e =Renato e duvidava de que pudessem ser definidos 
como filhos amorosos. =Eram pouco maiores do que ela e sempre 
os conhecera como um perfeito par =de meliantes. Dona Roslia 
nunca os repreendia. Pelo contrrio, =estava sempre pronta 
para os defender contra os protestos do alfaiate, =que os 
acusava de lhe terem roubado um pedao de tecido, do 
=sapateiro, a quem tinham tirado um frasco de cola, do 
padeiro, pelo =furto de um saco de farinha, e de algumas 
mes, pelas agresses =s suas meninas. - Tudo calnias.  
tudo inveja - dizia =ela.
As pessoas no ousavam insistir, at porque estavam sempre, 
de =alguma maneira, em dvida para com ela, ou pelos aluguis 
ou por =algum emprstimo de dinheiro.
- Feios como o pai e prfidos como a me - sussurravam os 
=vizinhos. Mas, entretanto, Roslia tinha ido busc-los ao 
=colgio e gastara dinheiro naquela torta to bonita e to 
=perfumada. Apesar de estar bem embrulhada, Teresa sentia o 
cheiro da =baunilha, do limo e da manteiga. Cresceu-lhe gua 
na boca =enquanto desejava que sobrasse o suficiente para ela 
e para os =irmos.
Passou em frente  igreja e, de repente, viu Benedetto. 
Estava =sentado nas escadas, a apertar o atacador de um 
sapato. O sol =iluminava-lhe uma parte da cara marcada por 
uma plida cicatriz. =Parou em frente dele e cumprimentou-o. 
O jovem olhou para ela e =sorriu-lhe.
- Ol - disse. Tinha todo o ar de no a reconhecer.
- No te lembras de mim? - perguntou, desiludida.
Ele abanou a cabea e levantou-se. Era mais alto do que ela 
se =lembrava. Tinha deixado crescer um bigode que lhe 
realava a linha =sinuosa do lbio superior. Trazia um casaco 
de l spera, =escura, e um cachecol vermelho enrolado  
volta do pescoo.
- Mas  claro! Agosto, a greve, a minha ferida! - exclamou, 
=Passando um dedo pela face. - s a Teresa - concluiu.
- Ainda bem que te lembras de mim.
- Cresceste - foi o comentrio que fez.
Ela oscilava, embaraada, ora num p, ora no outro. Queria 
falar =com ele, mas no se lembrava de nenhuma observao que 
viesse a =propsito.
- Levo aqui uma torta - disse.

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- Sinto-lhe o cheiro. - Parecia que ele tambm no arranjava 
=nada para dizer.
-  para festejar o regresso do colgio dos filhos da dona 
=Roslia.
-  a tua patroa? - perguntou ele.
- Sim - respondeu ela. - Eu trato da casa. Mas no recebo 
=nada.
- Mas isso  explorao - declarou o jovem. - Deves exigir 
=um salrio justo.
- Salrio justo... o que  isso? Ela  a mulher do meu pai. 
=Vivemos todos em casa dela. Uma casa grande e bonita. Quer 
que a =tratemos por mezinha. Mas eu no consigo trat-la 
assim. O =meu pai diz que ela no  m. Para mim  pssima. 
Mas por =que  que te estou a contar estas coisas todas? - 
disse, espantada =com tanto palavreado.
- Eu vou contigo.
- No trabalhas?
- Despediram-me. A Uva de Bagnoli despediu-me a mim e a mais 
cem =companheiros. Esto a fazer acordos com outras empresas 
=siderrgicas, para crescerem e aproveitarem os benefcios 
fiscais =previstos pela lei especial para Npoles. Como o 
custo da =mo-de-obra  o mais baixo de todo o pas, ns 
=protestmos. O resultado, j vs: estou desempregado - 
=explicou.
Benedetto usava uma linguagem incompreensvel.
- Fico admirada por se poder despedir um doutor como tu - 
comentou. =Segundo ela, os doutores possuam o mximo da 
sabedoria, e nas =palavras de Benedetto estavam implcitos 
grandes conhecimentos.
- Mas que doutor?! Eu s tenho o diploma da escola primria - 
=disse ele a sorrir, enquanto se dirigiam  Viela da Duquesa.
- Como  que vais viver, sem trabalho?
- Os meus companheiros ajudam-me - explicou.
- E quem so esses companheiros?
- So aqueles que lutam contra os patres, os socialistas.
- Oh, meu Deus! Mas vocs so doidos. Eles do-vos trabalho e 
=vocs vo contra eles. Mesmo que vos paguem pouco, sempre 
vos =do alguma coisa. E alguma coisa  melhor do que nada - 
=raciocinou Teresa.

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- Mas somos ns que damos o nosso trabalho aos patres. E no 
=o contrrio.
- Essa nunca tinha ouvido! - replicou, incrdula. Tinham 
chegado = viela.
-  melhor separarmo-nos aqui - disse a rapariga. Depois 
=acrescentou: - Se por acaso precisares de ganhar alguma 
coisa, eu posso =falar com o meu pai. Ele diz que h falta de 
gente para as cargas e =descargas, no mercado, por causa das 
Festas. Chegou muita gente de fora. =Encheram os hotis e os 
restaurantes. H trabalho para todos.
- Sabias que ests a ficar bonita? - comentou o rapaz, 
ignorando a =proposta dela.
- Tambm tu - balbuciou Teresa, um bocado confusa com aquele 
=cumprimento. E acrescentou: - Que pena eu no ter percebido 
bem tudo =aquilo que me disseste.
- No faz mal. Se soubesses a quantidade de coisas que nem eu 
=percebo!
Era mais alto dois palmos do que ela. Aproximou o rosto do 
dela e =depositou-lhe um beijo levssimo nos lbios.
Teresa dirigiu-se a casa. Caminhava com desenvoltura e 
sentia-se =voar.

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Matteo regressou a casa com os filhos. Parecia uma galinha 
quando, ao =entardecer, rene os pintos e os empurra para a 
capoeira.
- Todas as noites eu tenho que andar  vossa procura pelas 
vielas. =S sabem brincar e comer - censurou, com voz dura.
Eles riam porque, por mais que o pai se esforasse por 
parec-lo, =na realidade no conseguia ficar zangado.
- Que calorzinho to bom est nesta casa - disse, empurrando 
os =filhos para a entrada. Matteo trazia uma lufada de 
alegria para dentro =daquelas paredes. Teresa estava-lhe 
grata por isso. Mas naquela noite =os seus pensamentos 
estavam noutro lugar. Iam ao encontro de Benedetto, =da sua 
linguagem difcil, daquele bonito rosto plido marcado por 
=uma cicatriz, do calor dos lbios que, por um momento, 
tocaram os =dela.
- E que cheiro to bom - acrescentou Matteo, abrindo o forno.
- Pudim de macarro - informou Teresa.
- Pois, esta noite chegam os professores - brincou o homem, 
=referindo-se aos filhos de Roslia.
- Pai, como  que se faz para aprender a ler? - perguntou ela 
de =repente.
Os irmos mais novos estavam a fazer muito barulho, 
reclamando =qualquer coisa para comer. Matteo calou-os com 
umas sapatadas e olhou =para a filha com um ar perplexo.

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- Gostava de saber ler - continuou Teresa, olhando-o nos 
olhos.
- E perguntas-me a mim? Sei l! Vai-se  escola,  assim que 
=se faz. L  que ensinam a ler e a escrever. Mas que 
novidade  =esta? A ti que te interessa? Os nmeros j os 
conheces. Tambm =conheces o dinheiro. No te chega? - 
objectou o pai.
A Teresa no apetecia muito ir sozinha para a escola, 
partindo do =princpio de que dona Roslia a autorizaria. J 
era demasiado =crescida. Para alm disso, tinha muito que 
fazer em casa. Mas, =sobretudo, livros e cadernos 
intimidavam-na. Durante todo o dia, =enquanto ficava sozinha 
em casa, divertia-se com a ideia de que, se =no fosse 
analfabeta, podia satisfazer muitas curiosidades. Fora 
=Benedetto quem lhe fizera nascer aquele desejo. Ele estava 
seguramente = altura de saber ler e escrever. Com certeza 
sabia muitas coisas, e =ela gostaria de partilhar esses 
conhecimentos.
- Era s uma ideia - respondeu ao pai. E acrescentou: - No 
=faa caso, pai. No tenho inteno nenhuma de deixar que 
=isto me suba  cabea.
O homem sorriu, mais tranquilo.
- Daqui a pouco est a a Roslia com os filhos. Ainda no 
=puseste os pratos na mesa - lembrou-lhe.
- Est enganado, tenho tudo pronto. Toalha fina, copos de 
cristal e =talheres de alpaca. O que  que ser esta alpaca? 
- perguntou. =Havia muitos talheres, alinhados dentro de uma 
grande caixa forrada de =veludo azul. Ela no soube quais 
escolher, e por fim decidiu usar os =mais pequenos. 
Pareceram-lhe mais refinados. - Preparei a sala para os 
=quatro, como mandou a dona Roslia.
Matteo escancarou a porta da sala proibida, observou a mesa 
Posta, a =salamandra que libertava calor, a torta em cima do 
aparador. Fechou a =porta e voltou  cozinha.
- Meninos, tm fome? - perguntou. Uma pergunta intil. 
Estavam =sempre esfomeados. - O macarro est pronto?
A filha confirmou.
- Ento vamos comer. Todos para a mesa - ordenou, afastando a 
=cadeira para se sentar.
- Pai, no pode ser assim. A sua mulher vai ficar muito 
zangada - =avisou.
- E agora zango-me eu, se no me deres j o jantar - replicou 
=Matteo.
Roslia entrou em casa com os filhos no momento em que Matteo 
e as =crianas limpavam os pratos com po.
Olhou com uns olhos glidos para as bocas sujas de molho e 
para o =marido, que sorria com um ar divertido. Viu aquilo 
que sobrava, em cima =de uma travessa, daquele estupendo 
prato de massa, molho e carne que ela =preparara com tanto 
cuidado. As crianas, incluindo Teresella, =olhavam com a 
boca aberta para os dois meios-irmos vestidos como =uns 
gals, com uma capa de l azul que lhes chegava quase at 
=aos ps. Vincenzo e Renato olhavam, por sua vez, de soslaio 
para o =padrasto e para os filhos com um misto de espanto e 
desprezo.
- Demoraram a chegar - disse Matteo. - Ns j nos servimos. 
Mas =ainda h que chegue - informou, sem perder a compostura.
- Meninos, cumprimentem o pai - disse Roslia e, atravessando 
a =cozinha, chegou-se ao p de Teresa. Deu-lhe um belisco 
hostil =no fundo das costas, sibilando: - Foste tu, vbora. - 
Depois sorriu =ao marido, que se levantou da cadeira e a 
beijou na face.
- A Teresella preparou uma mesa de reis, na sala - explicou 
Matteo, =enquanto se inclinava para dar um beijo aos dois 
rapazes.
- Eu tambm quero dar-vos um beijo - disse Annina. Estava 
sempre =disponvel e confiava em toda a gente.
- Quando lavares a cara - respondeu Roslia. E acrescentou: - 
=Depressa, meninos. Vamos tirar os casacos para irmos para a 
mesa.
Vincenzo olhou para Teresa enquanto desapertava o casaco.
- Sentes-te bem na nossa casa, no  verdade? - perguntou, 
=sublinhando a propriedade da casa.
- Comam, comam, que aqui  tudo de graa - ajudou Renato, 
usando =o dialecto cerrado das vielas.
Era uma declarao de guerra que nenhum dos Avigliano captou. 
=Aquilo que agora lhes dominava o pensamento era a torta 
=paraso que todos tinham visto, mas nenhum ousara abrir, 
=at porque estava pousada em cima do aparador e a sala era 
uma zona =proibida.
Matteo adivinhou a gulodice dos filhos.

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- No faam barulho. Daqui a bocado comem o doce - garantiu.
Teresa serviu a madrasta e os filhos. Matteo, sentado  mesa 
com =eles, viu-os jantar, enquanto fumava um cigarro. No 
gostava dos =filhos de Roslia, achava-os arrogantes e 
mentirosos. Mas foi =suficientemente sensato para no deixar 
transparecer essa antipatia. =Ouviu-os falar dos estudos, dos 
desportos que praticavam e do nmero =de camisas e camisolas 
necessrias para o novo ano. Roslia =sorria, com o olhar 
velado pela emoo.
- Coraes da me, coraes da me - repetia =continuamente.
- Coraes da me, chegou a hora de abrir a torta - disse 
=Matteo. E acrescentou: - Primeiro as senhoras.  assim que 
vos =ensinam no colgio, no ? - perguntou muito srio, 
=enquanto partia as fatias para Roslia, Teresella e Annina. 
A seguir =estendeu a faca  mulher: - Signora Avigliano, 
dou-lhe a honra de =servir em primeiro lugar o seu marido, 
depois os seus filhos e =finalmente os que esto na cozinha. 
- disse tudo isto com gestos de =comediante. A inteno era 
definir desde logo a importncia dos =papis. Mais uma vez, 
Roslia engoliu em seco, porque aquele homem =ignorante e 
bonito conseguira subverter os seus projectos.
Naquela noite Teresa deitou-se tarde porque teve de lavar 
pratos, =copos, talheres, toalha e guardanapos, varrer a sala 
e prepar-la =para o pequeno-almoo na manh seguinte. Os 
irmos mais novos =j dormiam quando ela se enfiou, exausta, 
na cama.
Adormeceu imediatamente. Foi acordada por Annina, que 
recomeara a =tossir. Aquele catarro horrvel no queria ir 
embora, apesar do =xarope de ipecacuanha. S acalmava quando 
Teresa lhe dava =acar caramelizado. Mas como  que o podia 
preparar? O =fogo estava apagado. No entanto, se a irm 
continuasse a tossir, =ia acordar toda a gente. Deu-lhe um 
gole de gua. A situao =no se alterou. - Vou preparar-te 
um caramelo - sussurrou. - Mas =tu, Por favor, tenta no 
fazer barulho - recomendou-lhe.
Naquela casa to espaosa, a existncia era mais sufocante do 
=que no baixo de onde tinham sado h to pouco tempo. 
=Continuava a sentir-se uma hspede indesejvel e, s vezes, 
=no conseguia reprimir algumas lgrimas de desconforto. No 
fundo =do corao invocava a me para que, do cu, a ajudasse 
a ser =forte e razovel.

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Cobriu-se com um xaile e foi  cozinha, com cuidado para no 
=fazer barulho. Meteu uma mo-cheia de palha no fogo, 
juntou-lhe =alguns ramos secos e atirou para cima de tudo um 
fsforo aceso. A =palha pegou fogo imediatamente e incendiou 
os ramos pequenos. Enfiou =ento rapidamente um pequeno toro 
de madeira, fechou a porta e =esperou que a chapa aquecesse. 
Ps em cima do fogo uma sert =pequena de ferro e pulverizou 
o fundo com algumas colheres de =acar que comeou a ferver, 
adquirindo um bonito tom de =mbar. Molhou um prato e 
despejou rapidamente o acar =liquefeito, que solidificou, 
formando uma rodela transparente. Com uma =faca, separou-o do 
prato e partiu-o em vrios pedaos. Depois =inclinou-se sobre 
o fogo para apagar o fogo. Foi naquele momento =que sentiu 
que algum a agarrava pelos ombros. Uma mo =apertou-lhe a 
boca para a impedir de gritar e outra insinuou-se sob a 
=camisa de fusto. A voz de Vincenzo sussurrou-lhe ao ouvido: 
- =Porta-te bem. Se bufas, digo que foste tu que me 
provocaste.
Cenzino tinha treze anos. Era violento e agressivo como o 
irmo, =Renato, que era mais novo um ano. Os dois, juntamente 
com os amigos, =contavam-se entre aqueles que incomodavam as 
raparigas com gestos e =palavras inconvenientes. Teresa 
considerava-os vis e mesquinhos, at =porque sabiam atirar 
para cima dos outros as culpas das maldades que =faziam. Foi 
precisamente aquela ameaa: Se bufas, digo que foste =tu que 
me provocaste, que lhe deu fora para reagir. Num impulso 
=dobrou o cotovelo e esticou-o para trs, atingindo o rapaz 
na zona =mole do estmago. Ele no emitiu sequer um gemido de 
dor. Ficou =com a respirao suspensa. Largou a presa e 
oscilou. Caiu e =encolheu-se no cho, arquejante.
- Agora vai dizer que fui eu que te provoquei - sussurrou 
Teresa, com =raiva. Pegou nos caramelos e voltou ao quarto.
Deu-os  irm.
- Toma. Chupa devagar. Vais ver que a tosse passa logo - 
disse-lhe, =para a confortar, enquanto lhe acariciava a 
cabea. Entretanto ia =pensando que a partir daquele momento 
estava a mais naquela casa. =Vincenzo e Renato no se iam dar 
por vencidos, mas ela no =tencionava sucumbir. Veio-lhe  
ideia o rosto solar de Benedetto. =Foi a pensar nele que 
sorriu e ficou mais calma.

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MERANO - SCHLOSSRUNDEGG DEZEMBRO DE 1911


Josepha acordou. O quarto estava gelado e =mergulhado na 
escurido. Encontrou s apalpadelas o basto que =estava aos 
ps da cama. Agarrou nele e deu trs pancadas =enrgicas no 
cho. Logo a seguir ouviu uma confuso de passos =pelas 
escadas acima, abriu-se a porta e entrou Klara.
- At que enfim! - comeou a velha criada, =enquanto 
atravessava o quarto e comeava a abrir as janelas, 
=escancarando as portadas de madeira. - Sabe que horas so? 
Eu j =ia subir para ver se ainda estava viva - resmungou, ao 
mesmo tempo que =a luz do sol inundava o quarto.
- Dormi como uma pedra. Est-se to bem debaixo deste edredo 
=- disse Josepha com uma voz ensonada.
- Levante-se, sua preguiosa. J so oito horas. As horas da 
=manh valem ouro - ralhou a mulher, enquanto enfiava alguma 
lenha na =salamandra de majlica. E continuou: - A Petra e eu 
no =conseguimos dar conta do recado. Ainda tem de preparar a 
comPota de =mirtilos e o strudel e o pur de castanhas para 
rechear o leito. =O burgomestre est  sua espera na Cmara, 
para a =distribuio dos presentes s crianas, e espera-se 
que a =menina ajude tambm a servir o almoo aos nossos 
pobres. Como se =isto no chegasse, a Rita aleijou-se e o 
Toni teve que a levar ao =endireita. Para alm disso...
Josepha deslizou para fora da cama, enfiou um roupo 
acolchoado e =fechou atrs de si a porta do quarto de banho.

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Klara estava a envelhecer e a tornar-se cada vez mais 
resmungona. Sabia =perfeitamente que tinha pela frente um dia 
de trabalho intenso, mas =no se achava to preguiosa como 
dizia a criada. Dedicara o =sero a escrever uma infinidade 
de cartes de boas-festas a =parentes e amigos.
De Npoles, os Castiglia enviavam-lhe continuamente mensagens 
=afectuosas e presentes, que ela retribua. Passara j um ano 
desde =a morte de Enrico e a famlia do marido era cada vez 
mais assdua =a mandar-lhe testemunhos de estima e afecto. 
Enviavam-lhe primores, =doces, licores, sedas preciosas, 
rendas, bibelots e jias em todas as =datas especiais. O 
calor destas atenes levara-a a mudar =definitivamente a sua 
opinio sobre eles. Ficava feliz por poder =retribuir com 
vinho dourado das suas vinhas, queijos e produtos do 
=fumeiro, brinquedos esculpidos em madeira para os sobrinhos 
pequenos, =rendas de bilros da Alta Anaunia, pinturas em 
vidro de Innsbruck e telas =do pintor Friedrich Wasmann, de 
Merano, que a princesa Carolina, amante =de arte, apreciava.
Tambm Sofia, com a sua caligrafia arrastada, lhe escrevia 
muitas =vezes e tinha saudades dela. Na ltima carta 
comunicara-lhe: =Rosa Avigliano, a mulher da Viela da 
Duquesa, morreu de clera no =passado ms de Agosto. O marido 
casou com uma viva rica e =prepotente. Eu sei isto porque, 
respeitando o desejo da senhora, fui =procurar aquela pobre 
gente e levei-lhes, como me pediu, roupas e =comida. A filha 
mais velha, que tem agora treze anos, anda muito triste. 
=Chama-se Teresa, lembra-se bem da senhora e pede-lhe para 
rezar por =ela.
Josepha escreveu ento  princesa Carolina, pedindo-lhe para 
se =interessar pela rapariga, de quem conservava uma vaga 
lembrana. =Se lhe for possvel, querida maman, peo-lhe que 
a albergue =no palcio, encarregando-a de alguns aposentos. 
Tinha a certeza =de que a sogra havia de satisfazer aquele 
desejo.
A relao epistolar com os Castiglia tinha-se tornado um 
=hbito agradvel.
O naufrgio do casamento com Enrico ajudara-a a crescer. 
Quando =deixara Merano era uma rapariga tmida e esquiva. 
Agora, com dezoito =anos, era uma jovem senhora elegante e 
segura de si - Apesar de Merano =ser apenas uma minscula 
realidade no vasto imprio da ustria =e da Hungria, muito 
distante dos clamores polticos e sociais de =Viena,

146


tinha uma populao cosmopolita e no desprovida de 
interesses =culturais.
As autoridades da cidade consideravam Josepha como um ponto 
de =referncia. Responsvel por algumas actividades de 
=beneficncia, era chamada a participar nas comisses de 
honra para =a recepo de hspedes ilustres. Os chefes das 
comunidades =hebraicas e ortodoxas e os administradores do 
teatro, da biblioteca e do =museu de Histria dirigiam-se a 
ela para conselhos e auxlio. =Chamavam-lhe a nossa pequena 
senhora com respeito e =devoo. O seu tutor tinha muito 
orgulho nela. Porm, mais uma =vez, angustiava-o a solido da 
jovem viva.
Josepha tinha muitas vezes uma sombra de melancolia nos olhos 
e ele =esperava que alguma coisa ou algum conseguisse 
distra-la dos =pensamentos tristes que ela no revelava.
Era jovem, graciosa, rica e cortejada, sem se mostrar vaidosa 
por isso. =Descia at  cidade numa caleche que ela mesma 
conduzia, fazia as =compras no mercado e tomava um chocolate 
no caf por baixo das =arcadas onde se entretinha a ler o 
Meraner Zeitung e a comentar =acontecimentos polticos, 
cientficos e culturais.
s vezes apanhava o comboio e ia at Bolzano ou Innsbruck 
para se =encontrar com as amigas do tempo do colgio, para se 
inteirar das =novidades da moda e para assistir a algum 
espectculo teatral. As =raparigas invejavam-na porque 
Josepha era uma mulher livre, enquanto =que elas viviam ainda 
sob a tutela dos pais, ou dos maridos, que =insistiam em 
consider-las criaturas frgeis e em mant-las =longe dos 
perigos do mundo.
Enquanto se arranjava no quarto de banho, pensava de novo na 
ltima =carta da sogra,  qual no respondera ainda. Carolina 
escrevera, =entre outras coisas: O jovem Lorenzo Valeschi 
foi mandado para a =Lbia, no para combater, mas como 
observador, porque confiam na =sua honestidade e no seu bom 
senso. Pediu-me notcias tuas. =Disse-lhe que ests bem.
Massajou-se com gua de colnia. O olhar risonho de Lorenzo 
=metia-se cada vez mais presente nos seus pensamentos. 
Carolina, mais =uma vez, lanara uma pedrinha no lago 
tranquilo da sua existncia. =Devia apanh-la ou fazer de 
conta que no dera por ela? Pensou no =jovem Heinrich von 
Wedel. Conheciam-se desde crianas, porque =Heinrich, ou 
Heini, era o irmo mais velho de uma amiga muito =querida, a 
baronesa Luise Valentine.

147


Tinha vinte anos e era militar das Standschtzen(1) no 
comando do =Terceiro regimento, na fronteira da Carntia. 
Vinha ter com ela =sempre que lhe era possvel e, com um 
ardor juvenil, declarara-lhe o =seu amor.
Josepha, como todas as mulheres, sentia-se lisonjeada pela 
assiduidade =das suas visitas. Uma vez, durante um baile, 
tinha chegado a =beij-la  traio. Ela zangou-se. No que o 
beijo lhe =tivesse desagradado, mas naquele momento pensara 
em Lorenzo e teria =gostado que, no lugar de Heini, estivesse 
aquele.
Muitas vezes, quando estava sozinha, desejava a presena de 
um homem =ao seu lado. Apesar do firme propsito formulado 
depois da morte de =Enrico, sentia necessidade de um 
equilbrio afectivo.
Penteou-se com cuidado. Vestiu-se e desceu  saleta onde lhe 
tinham =preparado o pequeno-almoo. Klara trouxe-lhe caf a 
ferver, que =ela tomou devagar, depois de o aclarar com uma 
gota de nata. Enquanto =espalhava nozes de manteiga sobre o 
po negro, decidiu que tinha que =escrever rapidamente um 
bilhete  sogra, para o poder enviar com o =correio do 
meio-dia. No final, acrescentou um post scriptum: Diga =ao 
Valeschi que fico muito contente pelo importante encargo de 
que foi =incumbido pelo governo italiano. Gostaria de ter 
notcias directas, =se ele desejar escrever-me. Pois bem, 
tinha lanado ela =prpria uma pedra.
Logo a seguir foi  cozinha. Por cima do vestido de l macia 
de um =bonito cinza-prola enfiou um grande avental azul, 
arregaou as =mangas e virou-se para o fogo.
Comeara mais um dia de actividade frentica. Por vezes, 
=sentia-se to cansada  noite que recordava com saudade os 
longos =meses de cio passados em Npoles. Antes de 
adormecer, pensava: =S queria um dia, um s, todo para 
mim.
Faltavam duas semanas para o Natal e j era tempo de enfeitar 
o =castelo. Toni transportou para a sala de refeies um 
abeto


*1. Associaes locais de soldados armados que existiam no 
Tirol. =Eram chamadas para a defesa do seu pas em caso de 
guerra e tinham o =estatuto de uma milcia territorial. 
(dar.)


148


muito verde que Josepha ornamentou com uma grande quantidade 
de doces =embrulhados em papis coloridos, fitas douradas e 
velas pequeninas. =Depois revestiu a coluna de pedra do 
vestbulo com ramos de pinheiro =entrelaados com cordes 
vermelhos. Decorou o peitoril das janelas =e colocou no 
centro de cada um as velas que seriam acesas na noite de 
=Natal. Foi a Innsbruck,  alfaiataria Innerhofer, buscar o 
casaco =azul forrado de zibelina. A modista entregou-lhe um 
chapu da mesma =pele. Comprou prendas para toda a gente e, 
finalmente, na vspera de =Natal, preparou-se para a missa 
solene da meia-noite, na catedral de =Merano.
Veio busc-la o burgomestre, com uma carruagem. As naves 
gticas =estavam apinhadas de gente. O organista fazia vibrar 
os tubos sobre as =notas de um preldio de Bach. Ela 
atravessou a nave sob os olhares =apreciativos dos seus 
concidados, que viam naquela jovem senhora, =solitria e 
reservada, elegante e bela, um modelo a seguir. Josepha 
=ocupou o seu lugar no primeiro banco, aquele que lhe 
pertencia e onde =estava gravado o nome dos Paravicini von 
Riccabona. Tinha perfeita =conscincia da admirao que a 
rodeava e sentia-se grata a =todas aquelas pessoas porque lhe 
transmitiam uma sensao de =calor. Estava tranquila e, 
enquanto rezava, sorria.
No momento em que o sacerdote recitava o hino dos anjos e na 
nave =ressoava o coro dos fiis que entoavam o Gloria in 
excelsis Deo, =ouviu-se um som apressado de passos que, da 
porta, se aproximavam dos =primeiros bancos. Algum falou em 
voz baixa a outra pessoa. Os =fiis continuaram a rezar mas, 
desta vez, distraidamente, para seguir =o concilibulo do 
empregado do telgrafo com o chefe da =estao. Depois, os 
dois, seguidos pelo secretrio municipal, =deixaram a 
catedral.
Nesta altura, a curiosidade alastrou no meio das pessoas e 
envolveu =tambm Josepha. O sacerdote concluiu a missa e toda 
a gente se =precipitou para a sada,  procura de notcias.
O burgomestre, imperturbvel como sempre, aproximou-se dela.
- Eu acompanho-te ao castelo - disse, ajudando-a a entrar na 
=carruagem.
- O que foi que aconteceu?
- Apenas a chegada de um comboio especial, de Bolzano - 
informou.

149


- Alguma visita importante? - insistiu ela, enquanto a 
carruagem subia =em direco  ponte romana.
- No fao ideia. Deve ser um daqueles doidos dos 
=Stand-schtzen que resolveu passar o Natal em casa - 
concluiu, para =rematar o assunto.
Os criados tinham acendido as tochas frente  entrada do 
castelo. As =velas iluminavam os vidros das janelas. O velho 
Toni estava  espera =dela no porto.
- Muito obrigada, Herr Grossmann. Um bom Natal - disse ela. E 
=acrescentou: - Amanh fico  sua espera para o almoo.
- C estarei - prometeu, e entregou-lhe um embrulho pequeno. 
- = o meu presente para ti.
No vestbulo foi acolhida por uma temperatura agradvel e 
pelo =cheiro do chocolate quente. Entregou a Klara o chapu, 
as luvas e o =casaco. Depois sentou-se no banco e tirou os 
botins forrados de pele. A =criada ajudou-a a calar uns 
sapatinhos de veludo.
- Vai dormir - disse Josepha. - Ests cansada e j ests a 
=p h muito tempo.
- Obrigada, menina - disse a mulher. E acrescentou: - Na 
saleta vais =encontrar o teu chocolate, e tambm uma pessoa 
que est  tua =espera.
A jovem dirigiu-lhe um olhar interrogativo. A criada encolheu 
os ombros =e afastou-se a resmungar: - Italianos. Sempre 
italianos.
Josepha abriu a porta. Ali estava Lorenzo Valeschi, que lhe 
sorriu.

150


Lorenzo abriu os braos e Josepha refugiou-se no seu peito, 
sem =hesitaes.
- Ento s tu o viajante misterioso que chegou num comboio 
=especial! - exclamou, satisfeita.
- Feliz Natal, meu amor - sussurrou-lhe ele ao ouvido.
- Feliz Natal para ti tambm - respondeu.
- Nunca mais vou ter outro melhor do que este - disse 
Lorenzo.
- Queres uma chvena de chocolate? - perguntou-lhe, 
soltando-se =do seu abrao.
- H seis minutos e doze segundos que estou  espera disso - 
=precisou, olhando o relgio.
- Conta-me tudo - pediu, convidando-o a sentar-se no pequeno 
=sof ao lado do fogo. Lorenzo estava bronzeado. Vestia uma 
=camisola de l tosca, de gola alta, cinzenta e branca, e 
calas =pretas de fusto pesado. O cabelo muito curto e o 
bigode fino eram =ainda mais loiros do que se lembrava.
Deitou o chocolate nas chvenas e estendeu-lhe um prato de 
=biscoitos.
- Sa de Tripoli h poucos dias. Viajei de avio at Roma. 
=Apresentei um relatrio ao ministro da Guerra e logo a 
seguir apanhei =o comboio para Brennero. Em Bolzano, como  
evidente, era demasiado =tarde para apanhar a correspondncia 
para Merano. Tive uma longa =discusso com o chefe da 
estao,

151


que no percebe uma palavra de italiano e ainda menos do meu 
=pssimo alemo. Ento, mostrei-lhe as minhas credenciais. 
=No era capaz de as ler, felizmente, mas viu as armas do 
Reino e =imaginou que eu fosse sabe-se l quem. Fez os 
possveis e os =impossveis para eu conseguir partir 
imediatamente. E aqui estou - =explicou.
Schloss Rundegg estava mergulhado no silncio. A atmosfera 
=confortvel daquela sala favorecia a intimidade.
- Agora fala-me de ti - pediu-lhe.
- Estou terrivelmente emocionada - confessou, levando uma mo 
ao =peito, como se tentasse acalmar o ritmo demasiado veloz 
do seu =corao.
- Tambm eu. Desde que saste de Npoles, nunca deixei de 
=pensar em ti. Achei que tive muita sorte em ser mandado para 
frica, =porque esperava esquecer-te. Mas ainda foi pior. 
Escrevia  tua =sogra quase todos os dias, esperando receber 
por ela notcias tuas. =Finalmente, chegou uma carta em que 
me referia o teu convite para te =escrever. Foi o suficiente 
para eu resolver vir logo a correr ter =contigo. Inventei uma 
mentira de que me envergonho. Disse que a minha =me no 
estava a passar muito bem. Sabes, como fazem as =crianas 
quando no estudaram a lio. Puseram-me logo um =avio  
disposio. At ao ministro menti. Em resumo, =Josepha, tens 
 tua frente um rapaz infame - concluiu.
- E fizeste tudo isso por mim - sussurrou, surpreendida.
- Fi-lo por mim. J no aguentava mais a ideia de te saber 
aqui, =sozinha, tentada por sabe-se l quantos galanteadores.
- Muitos, realmente.
- O cime tem as suas regras. Eu sou ciumento.
-  um luxo que ainda no te podes permitir. No h nada 
=entre ns.
- H tudo, Josepha. Tudo aquilo que deve existir entre um 
homem e =uma mulher que se amam - disse com uma voz firme. 
Pousou a chvena =na mesa, foi at junto dela e abraou-a.
Josepha fechou os olhos e pensou que a sua vida de mulher 
comeava =naquele momento, entre os braos de Lorenzo que a 
mantinha apertada =contra si, sussurrando-lhe: - Estou 
perdidamente apaixonado por =ti.
- Anda - disse, libertando-se dos seus braos. Pegou-lhe na 
=mo e levou-o para fora da sala.

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- Vamos tentar no fazer barulho - murmurou, enquanto 
avanava = frente dele ao longo da escada que conduzia ao 
primeiro andar.
Fechou com cautela a porta do quarto de dormir. Foram 
acolhidos pelo =calor da salamandra, enquanto a luz trmula 
das velas projectava =sombras compridas sobre as paredes 
enriquecidas com duas tapearias =napolitanas antigas, 
presente da princesa Carolina. - Cheira bem, aqui =- observou 
Lorenzo. Josepha sentou-se na grande cama de cedro 
=esculpido. Ergueu uma perna, mostrando o sapatinho de veludo 
vermelho e =uma perna enfiada numa meia preta de seda pesada.
- s o primeiro homem da minha vida - disse em voz baixa. 
Lorenzo =pousou um joelho no cho, descalou-lhe o sapato e, 
lentamente, =levantou a saia at encontrar o elstico que 
segurava a meia. =Tirou-a e beijou-lhe a perna.
Amaram-se apaixonadamente e depois ficaram muito tempo 
abraados, em =silncio, saboreando aquela felicidade.
- Quero ajudar-te a esquecer - disse Lorenzo.
- J o fizeste, nesta noite de Natal - respondeu ela. E 
=acrescentou: - O passado j no existe para mim. A partir de 
=agora, s tu existes.
- Ento temos de comemorar - decidiu Lorenzo. Levantou-se da 
cama, =enfiou as calas e a camisola, envolveu o corpo nu de 
Josepha no =edredo e pegou nela.
- Vou levar-te para baixo, para a saleta. Quero comer 
qualquer coisa e =quero ter contigo uma grande conversa.
- Fala mais baixo, seu prepotente - protestou ela, rindo 
baixinho. E =perguntou: - s sempre assim?
- Assim, como?
- Queres comer, queres conversar, queres tudo?
- S te quero a ti - declarou, enquanto descia as escadas.
- No faas barulho. A Petra e a Klara vo acabar por nos 
=descobrir - avisou.
- As duas velhotas j perceberam tudo, ainda antes de tu 
teres =chegado da missa. Olharam para mim de lado e as suas 
expresses eram =muito mais eloquentes do que as palavras.
Lorenzo instalou Josepha no pequeno sof e meteu-lhe um 
biscoito =entre os lbios.

153


- Vai  cozinha. Em cima do balco est uma Sacher-Torte. 
=Tr-la para aqui - ordenou ela.
Comeram embrulhados no mesmo edredo, a rir e a brincar como 
duas =crianas.
- Fala-me de Tripoli. Como ? O que  que fazem as pessoas? 
=Sabes que eu nunca vi um africano? - perguntou Josepha.
-  uma colnia. Est calor e h moscas do tamanho de 
=feijes. Os negros so todos parecidos. Alguns so muito 
=bonitos, e ento distinguem-se dos outros. H muitos 
oficiais. =Alguns mantm as suas negras, outros levam para 
casa rapazinhos, =dispostos a tudo por um prato de sopa. H 
italianos que enriquecem =apesar das leis, porque a corrupo 
 a nica lei no =escrita que funciona s mil maravilhas. A 
violncia, a injria, =a crueldade, a misria e a doena 
constituem a regra. E, no =entanto, encontras l de tudo: 
perfumes franceses, roupa inglesa, =ouro, pedras preciosas e 
cocana. Tudo tem um preo, para tudo se =arranja o dinheiro 
que o nosso governo destinou s ajudas e que vai =parar ao 
bolso dos traficantes. Tu no ias gostar da frica, como =eu 
no gosto - concluiu.
- Foi para descobrires isso que te mandaram para l? - 
perguntou =Josepha, desconcertada com aquela sntese 
terrvel.
- De maneira nenhuma. No descobri nada que no se saiba em 
=Itlia. Mas o governo, que tem sempre necessidade de salvar 
a pele, =manda-me a mim e a outros para as colnias, para 
observar e =informar. Acho que nem sequer chegam a ler os 
nossos relatrios. =Enquanto no tomarem medidas, as coisas 
vo continuar assim. Mas, =meu amor, gostaria que falssemos 
de outras coisas.  noite de =Natal. Tenho-te nos meus braos 
e sou o mais feliz dos homens.
- Olha, est a nevar! - exclamou Josepha, apontando as 
janelas com =o dedo.
- Vamos l fora - props ele, de repente. Josepha 
embrulhou-se =no edredo e saram juntos.
A neve caa, densa e silenciosa. O jardim estava todo branco. 
Eles =puseram-se a danar ao ritmo imaginrio de uma valsa 
=arrebatadora. A neve fresca e seca estalava sob os seus ps, 
=embranquecia os cabelos e os ombros e derretia-se nas faces.
- Amo-te - murmurou Josepha. Aprendera, sofrendo, a ver 
melhor o =interior de si mesma. Lorenzo Valeschi era o homem 
da sua vida.

154


- Finalmente, disseste-o! Posso acreditar em ti? - perguntou. 
Ela =inclinou-se para o cho e, com o indicador, escreveu na
neve: Ich liebe dich(1).
- Nunca mais vais poder arrancar esta folha - brincou ele, 
=aprisionando-a nos seus braos. E murmurou: - Eu sei por que 
te =amo. Mas no sei por que  que tu me amas a mim.
- Porque me divertes. O amor, para se alimentar, precisa de 
alegria - =declarou.
- Ento casa comigo.
Como nica resposta, Josepha libertou-se do seu abrao, 
atirou a =cabea para trs e abriu a boca para saborear os 
flocos =gelados.
- No - respondeu por fim.
- Eu comprometi a tua honra. A lei diz que  necessrio um 
=casamento reparador - objectou Lorenzo.
- Ou ento?
- Posso acabar na priso.
- Ento eu caso contigo.
- Quando?
- No sei. Daqui a um ano, daqui a dois, daqui a dez. Qual  
a =pressa?
- Mas eu tenho de regressar a Roma amanh.
- To depressa? - sussurrou, desconsolada. Depois voltou a 
sorrir: =- Ento vamos outra vez para a cama. Rpido. Preciso 
de fazer uma =proviso de amor para quando c no estiveres - 
decidiu, =arrastando-o para dentro de casa.


*1. Amo-te, em alemo. (N. da T.)


155


NPOLES - VIELA DA DUQUESA JANEIRO DE =1912



- A princesa Josepha pediu-me para continuar a =prestar 
alguma assistncia  Teresa Avigliano e aos irmos - =comeou 
Sofia, dirigindo-se  princesa Carolina.
- Tambm me escreveu a mim, a propsito dessa =rapariga. Se 
achares que est com dificuldades, diz-lhe que venha =ter 
connosco - ordenou a princesa. E acrescentou: - Precisas de 
=dinheiro?
- Dinheiro, no. S alguma roupa. Estava a pensar em procurar 
=alguma coisa no meio daquilo que temos no pedao de 
=eternidade, se a senhora me permite - respondeu a 
empregada.
O pedao de eternidade, no lxico familiar, era o =sto. 
Todos os Castiglia tinham a mania das compras. Quando =saam, 
regressavam cheios de embrulhos. As exposies de arte e =os 
leiles eram um pretexto para adquirir pratas, telas e 
mveis. =Muitas vezes, as aquisies acabavam no sto, mas 
no =eram esquecidas. Quando era preciso oferecer um 
presente, mais ou menos =importante, a princesa Carolina 
subia ao sto com algum criado. =Olhava em volta, abria 
armrios e bas e, entretanto, sussurrava: =- Ora vamos l 
ver o que temos aqui.
Considerava uma paisagem da escola inglesa do sculo XVIII, 
um =servio de ch chins, uma Diana de alabastro, um relgio 
de =pndulo estilo Lus Filipe em bronze dourado, uma 
coleco =de caixas de bombons inglesas estilo Rainha 
Vitria, um tapete =chins, uma srie infinita de caixinhas e 
brinquedos em prata, =pedra, e coral. Observava todos os 
objectos com ar pensativo,

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perguntando a si prpria por que seria que ela e os filhos 
compravam =tantas coisas.
- Talvez para conquistar um pedao de eternidade - conclua 
de =todas as vezes, em voz alta.
No pedao de eternidade, Sofia encontrou camisolas de l, 
=luvas, gorros, sapatos novos, xailes e mantas. Arrumou tudo 
numa cesta =de vime. Da despensa tirou algumas tabletes de 
chocolate, dois pacotes =de caf, uns frascos de mel, um saco 
de farinha, legumes secos, =compotas e conservas de tomate.
Fechou a cesta e pediu ajuda a Saverio, para a transportar 
at  =viela da Duquesa.
O velho Sas morrera e Saverio tinha passado ao servio da 
=princesa. No apartamento onde tinham vivido Enrico e Josepha 
=instalara-se Virginia. A me no tinha gostado daquela 
=iniciativa, mas, perante os amuos da jovem, decidira passar 
por cima =daquilo. Agora era Sofia quem se ocupava dela. No 
era fcil =satisfazer os seus desejos. A pobre mulher fazia o 
que podia, mas s =recebia censuras. Por isso sentia saudades 
do tempo em que estivera ao =servio de Josepha. Virginia era 
muitas vezes grosseira e sempre =muito caprichosa. Quando se 
dava conta de ter passado das marcas, =desculpava-se 
oferecendo-lhe um presente, que Sofia aceitava para =no lhe 
desagradar. Um colar de mbar ou um xaile de seda eram 
=coisas suprfluas que arrumava num stio qualquer, acabando 
por se =esquecer delas. Sofia sentia muito a falta da 
princesa austraca e =esperava sempre que um milagre a 
trouxesse de volta a Npoles. Mas, =entretanto, a senhora 
acabava de exprimir um desejo. Ela tinha de a =satisfazer.
Na companhia de Saverio, chegou de carruagem  viela da 
=Duquesa.
Apesar do ar gelado que soprava do mar, uma prostituta estava 
sentada =nos degraus da sua casa com a blusa desapertada,  
entrada da viela. =Dirigiu a Saverio um cumprimento srio e, 
uma vez que Sofia largou a =cesta para fazer um rpido sinal 
da cruz, a mulher cobriu-a de =insultos.
Os rapazes da viela comearam a fazer barulho. Sofia, nada 
=intimidada, respondeu com palavras ameaadoras.
- Saverio, d a uma boa paulada a estes delinquentes - 
ordenou, =cheia de clera.

160


- S se fosse parvo. Eles esto mas   espera da briga =para 
tomarem conta da nossa cesta - disse ele. E acrescentou: - Tu 
=ests sempre a meter-me nisto. Eu no queria voltar a estas 
=vielas fedorentas.
- Mas tu s mesmo... - replicou, indignada, a ponto de 
pronunciar =um epteto inconveniente. Conteve-se, at porque 
duas mulheres, =embrulhadas em xailes, desataram  sapatada 
aos rapazes, que =dispersaram rapidamente.
- Onde  que vo? - perguntaram logo a seguir.
- A casa dos filhos da Rosa Avigliano - respondeu Sofia.
- Eu conheo-os, j aqui estiveram - interveio uma vizinha, 
=aparecendo  porta do seu baixo. - So benfeitores, no 
=so? - insistiu, com uma ponta de inveja na voz.
-  mulheres, metam-se na vossa vida - disse um velho. Estava 
=sentado num banco, encostado  parede. Tinha o rosto 
encovado, a =barba por fazer, um bon que lhe caa sobre os 
olhos, fumava um =charuto hmido e tossia.
Naquele momento, Sofia viu Teresella que se aproximava 
trazendo pela =mo uma menina que tossia sem parar. Vinham as 
duas embrulhadas em =xailes.
Tambm Teresa viu os dois criados e os reconheceu. Deveria 
sorrir, =sabendo que lhe traziam presentes. Mas, pelo 
contrrio, teve uma =expresso de contrariedade. No gostava 
de chamar sobre si =prpria a ateno da gente da viela. Para 
alm disso, dona =Roslia
no queria que ela e os irmos gozassem da generosidade dos 
=Castiglia.
- Estiveram a incomodar-se - disse, com um ar esquivo.
- A pessoa que me mandou aqui quer que festejem o dia de Reis 
como deve =ser - disse Sofia.
- So os presentes! Que bom! - exultou Annina.
- Muito obrigada - disse Teresa, puxando a irm mais nova. - 
Mas =ns no precisamos de nada. - Passou quase  fora por
entre as mulheres que formavam uma barreira, arrastando 
consigo a =irm renitente.
- Quero os presentes! - gritou a pequena, quase a chorar.
- Sofia, vamos embora - decidiu Saverio. Vinha do campo e 
lembrava-se =bem da misria em que vivera. Na cidade, porm, 
os
pobres pareciam mais agressivos. Na aldeia, a diferena entre

161



riqueza e a pobreza no era to evidente. Os senhores viviam 
=isolados dentro dos seus jardins e ao domingo, quando iam  
missa, =distribuam moedas por toda a gente. Na cidade, pelo 
contrrio, o =confronto era contnuo, inevitvel. - Ouve o 
que eu te digo, =vamos regressar ao palcio - insistiu.
- Ouviram bem? A Teresella no precisa de nada. A dona 
Roslia = rica. Deixem-nos mas  ficar a ns aquilo que 
trouxeram - =interveio outra mulher.
Agora tambm Sofia receou que os habitantes da viela se 
atirassem a =eles para apanhar a cesta.
- No me faas perder mais tempo. Vamos l acima - rematou 
=Sofia, dirigindo-se a Teresa com um tom autoritrio.
A rapariga avanou  frente dela pelas escadas, de m 
vontade, =at ao apartamento da madrasta.
- Seja o que for que tenha trazido, a mulher do meu pai vai 
ficar com =tudo, como fez da ltima vez - preveniu Teresa, no 
momento em que os =dois pousaram finalmente a cesta na 
entrada.
Annina abriu-a e encontrou logo uma tablete de chocolate. 
=Desembrulhou-a e fincou-lhe os dentes.
- Quem  que est ali? - perguntou Saverio, indicando uma 
porta =entreaberta. Tinha visto de relance uma figura que os 
espiava e que se =retirara imediatamente.
- So os filhos da dona Roslia - respondeu a rapariga.
- E so maus que chegue - comentou Annina, com a boca cheia 
de =chocolate.
Num mpeto, Sofia abriu a porta. Encontrou  sua frente dois 
=rapazes de camisola interior e cuecas. Estavam sentados em 
cima das =camas por fazer, com o rosto ainda inchado de sono, 
e riam baixo, =olhando-a com ar de desafio. Sentiu uma 
averso instintiva por eles, =no tanto por causa do 
comentrio de Annina, mas sobretudo por =aquela expresso 
arrogante e ambgua. Olhou para o quarto cheio de =jogos, 
enriquecido com um bonito tapete macu que cobria o cho.
- Livrem-se de tocar numa nica coisa daquelas que trouXemos 
para =os filhos da Rosa Avigliano - preveniu-os, olhando com 
severidade.
Os dois irmos continuaram a rir, trocando cotoveladas de 
=entendimento. Ela voltou a fechar a porta com firmeza.

162


Era evidente que os pequenos Avigliano eram vtimas daqueles 
dois =rapazes, habituados a fazer o que lhes apetecia.
- Ouve bem o que eu te digo - disse, dirigindo-se a Teresa. - 
A =princesa Castiglia em pessoa interessa-se por ti. Sabes 
onde  o =palcio, no sabes? Aparece quando quiseres.
- Tenho quatro irmos que precisam de mim - disse a rapariga 
=baixinho.
- No  verdade. Eles arranjam-se melhor sem ti. Tu tens de 
=deixar esta casa, para sempre - respondeu Sofia, enquanto se 
preparava =para sair.

163


Annina enroscou-se em cima da cama para saborear o chocolate 
em =paz.
- No podes comer isso tudo - disse Teresa, arrancando-lho 
das =mos.
A irm mais nova comeou a gritar.
-  meu. Eu quero!
- Vai fazer-te mal. J comeste que chegasse - respondeu 
Teresella, =com muita pacincia.
- E no, faz-me mas  muito bem. Passou-me a tosse - 
=protestou, lavada em lgrimas. E logo a seguir recomeou a 
=tossir.
- Ests a ver? Se no paras de comer chocolate o catarro no 
=desaparece e temos que te levar ao hospital.
Annina comeou a saltar em cima da cama, aos gritos.
- Hospital no, chocolate sim.
A irm partiu um quadradinho da tablete e com ele fechou-lhe 
a =boca.
- Vou guardar aqui o resto, debaixo do colcho, e ningum lhe 
=toca. Estou a falar a srio, Annina. Vais ficar muito doente 
se =no me deres ateno.
A pequena acalmou.
- Est bem. Posso ir l para baixo brincar?
- No te esqueas que no podes correr nem transpirar ' disse 
=Teresa enquanto a embrulhava num xaile e lhe enfiava na 
cabea um =gorro de l.

164


Annina era generosa, afectuosa, espontnea e fcil de 
contentar. O =pai era doido por ela.
- Tu s um anjo - dizia-lhe. - Se eu te atirar ao ar, comeas 
=a voar.
Ela ria-se e abanava os braos como se tentasse levantar voo. 
- =Ainda no estou preparada. Tenho de treinar - respondia.
Na viela, a sua brincadeira preferida era arrancar numa 
corrida para dar =um grande salto, esperando erguer-se da 
terra. Caa muitas vezes, de =vez em quando magoava-se, mas 
no abandonava a esperana de =voar.
Teresa regressou ao vestbulo. A cesta tinha desaparecido. 
Sabia que =os irmos di Giacomo tinham tomado conta dela. 
Atravs da porta =fechada do quarto, ouvia-os remexer. 
Escancarou a porta. A cesta tinha =sido despejada, o contedo 
estava espalhado pelo cho e os dois =irmos inspeccionavam 
roupas e provises.
- Voltem a pr tudo como estava - disse, esforando-se por 
=parecer calma.
Renato deu uma cotovelada ao irmo mais velho.
- Falou a dona da casa - disse com ironia.
- Ento, temos de obedecer. Parece que a rapariga tem 
amizades ao =mais alto nvel - replicou Vincenzo, a arremedar 
a linguagem =elaborada dos professores do colgio.
Um ano passara desde o ltimo Natal, tristssimo, festejado 
em =casa da madrasta, durante o qual evitara as investidas de 
Vincenzo com =os poucos recursos de que dispunha. Na Pscoa 
os dois irmos foram =retidos no colgio devido ao seu 
escasso rendimento. E ainda por =causa do pssimo 
aproveitamento escolar, foram mesmo obrigados a =estudar 
durante as frias de Vero.
- Hei-de martiriz-los, como fizeram a So Sebastio, mas os 
=meus filhos tm de ser doutores - dizia dona Roslia, com a 
=obstinao de quem tem na ideia uma meta a que no quer 
=renunciar. Entretanto, ia mandando ao reitor, todas as 
semanas, caixas =de Peixe fresco e outras iguarias, para lhe 
aumentar a benevolncia =em relao aos dois rapazes.
Matteo tinha o bom senso de nunca intervir naquele assunto, 
mesmo quando =a mulher lhe pedia a opinio.
- Os filhos so teus - dizia. - S tu sabes o que  bom e o 
=que  mau para eles.

165


Roslia sabia que se o pai ainda fosse vivo os obrigaria a 
trabalhar =com ele no mercado. - O estudo - diziam-lhe os 
professores - no = um direito, mas sim um dever. E os seus 
rapazes no sentem esse =dever. Mais vale p-los a trabalhar.
Quando ouvia estas palavras, Roslia empalidecia, como se 
tivesse =apanhado uma bofetada em plena face, porque sentia 
como uma ofensa =pessoal aquela falta de considerao pelos 
filhos. Quanto mais se =sentia humilhada, mais se obstinava 
em querer fazer deles dois doutores. =Apesar de avarenta, 
seria capaz de dar todo o dinheiro que tinha para =poder 
realizar aquele sonho. Atirava a sua raiva para cima dos 
pequenos =Avigliano, que considerava uns parasitas  
traio. =Racionava-lhes a comida e protestava com o marido 
porque aqueles filhos =todos a iam arruinar. Matteo estava j 
cansado de ouvir as queixas =dela e no lhe ligava 
importncia, furtando-se cada vez mais aos =seus deveres 
conjugais. Ela zangava-se e fazia grandes cenas.
Entretanto, Vincenzo e Renato,  fora de reprimendas e 
presentes, =tinham passado, respectivamente, para o terceiro 
e o quarto ano do =liceu. Mas no tinham melhorado. Ao fim de 
um ano de ausncia =tinham regressado a casa ainda mais 
agressivos e mentirosos.
Naquele momento, olhavam para Teresa com ar de escrnio.
Vincenzo segurava na mo uma saia de l azul que parecia 
feita = medida para ela. Era muito bonita. Tinha bordadas na 
beira papoilas =vermelhas, espigas amarelas e flores-de-lis 
azuis. Era um bordado =feito a ponto cheio, com fios de seda 
que brilhavam sobre o azul opaco =da saia. Por instinto, a 
rapariga estendeu uma mo para pegar nela. O =filho da 
madrasta foi mais lesto do que ela e retirou-a.
- Se a queres, tens de me mostrar as coxas - disse com um 
sorriso que =provocou o nojo de Teresa.
Sabia que no podia pedir ajuda a ningum. S o pai a poderia 
=socorrer, mas estava a trabalhar. Para alm do mais, Teresa 
era =demasiado orgulhosa para envolver Matteo nas muitas 
sevcias de =Roslia e dos filhos. H meses que sobrevivia 
apenas com as suas =prprias foras e no seria a perda 
daqueles presentes =inesperados que a iria fazer quebrar o 
silncio.
- Metes-me nojo - respondeu. - Metes-me tanto nojo que vou 
fazer um =feitio contra ti. Sou filha da Rosa Avigliano e 
aquilo que prometo, =cumpro - acrescentou com um ar gelado.

166

O rapaz atirou-lhe a saia. Tinha medo dos feitios, como toda 
a =gente. E como conhecia, por ter ouvido falar, as artes 
mgicas de =Rosa Avigliano, ficou convencido de que Teresa 
tambm as possua. =Naquele momento comeou a tremer de 
clera e de medo. Olhou para o =irmo, como se dele lhe 
pudesse vir algum auxlio. - Faz-te =respeitar - disse-lhe 
Renato em voz baixa.
- Vou traar a tua figura com alfinetes num limo, e depois 
vou =enfi-lo num espeto e queim-lo no fogo, a repetir o teu 
nome =at cares morto - replicou ela, enquanto se apressava 
a repor na =cesta os presentes espalhados pelo quarto. Nunca 
quereria nem seria =capaz de fazer um feitio, mas estava 
aterrada com aqueles dois =canalhas e esperou que a ameaa 
funcionasse. Com um gesto decidido, =fechou a tampa, agarrou 
numa das pegas da cesta e, arrastando-a, =dirigiu-se para a 
porta. Se conseguisse barricar-se no seu quarto, =ficaria a 
salvo, pelo menos naquele momento.
Tinha quase conseguido quando Vincenzo se lanou para cima 
dela com =todo o seu peso, ao mesmo tempo que Renato fechava 
a porta do quarto. A =necessidade de a humilhar prevalecera 
sobre o medo de um qualquer =malefcio. Desta vez, eram os 
dois que a mantinham esmagada contra o =cho. Era impossvel 
opor-se s foras unidas de dois =adolescentes, animados pela 
frustrao, pela maldade e pela =baixeza. Teresa podia 
gritar, mas os seus gritos no teriam demovido =os vizinhos 
da antiga filosofia segundo a qual  preciso pensar duas 
=vezes antes de interferir nos assuntos alheios. Sabia bem 
que a =histria iria acabar assim, com Renato a segurar-lhe 
os braos e =Vincenzo a levantar-lhe a saia. Depois, com um 
impulso decidido, =penetrou no seu sexo e comeou a menear-se 
como um possesso,  =procura de um prazer que tardava em 
chegar. Teresa chorava baixinho, =no tanto pela dor como 
pela humilhao e pela absoluta =impossibilidade de se 
defender.
- Eu tambm quero experimentar - disse o irmo mais novo, que 
=continuava a rir como um idiota.
- Sossega. No vs que ainda no acabei? - disse o outro, 
=irritado porque no conseguia chegar ao fim.
Naquele momento a porta abriu-se e Teresa viu a madrasta,
qUe olhou para ela e para os filhos durante um breve 
instante. A seguir, =voltou a fechar a porta, sem um 
comentrio, e dirigiu-se  =cozinha. Os seus olhos tinham 
visto qualquer coisa de repugnante que ela =queria ignorar.

167


Apoiou os cotovelos no peitoril da janela e olhou para baixo. 
Pensou que =os filhos tinham feito uma sujeira que afinal no 
era assim to =terrvel, considerando que Teresa devia ter 
feito os possveis =para os provocar. Mas incomodava-a ter de 
enfrentar Matteo quando a =filha lhe falasse naquilo. 
Precisava de encontrar uma justificao =muito plausvel, 
porque Matteo era capaz de massacrar os rapazes  =pancada. 
A ia comear a balbrdia. A viela e o bairro inteiro =iam 
saber o que se tinha passado. O casamento desfazia-se e as 
culpas =recairiam sobre ela.
No podia deixar que acontecesse tudo isto. Mas no ia 
acontecer, =porque Vincenzo e Renato iam negar. Ela prpria 
ficaria do lado =deles, defendendo que Teresa era uma 
mentirosa. Afinal, no tinha =acontecido nada que no se 
pudesse reparar. A rapariga ainda no =era menstruada e no 
haveria consequncias. Enfim, no valia a =pena dar um peso 
excessivo a um episdio que era regra entre =adolescentes que 
brincavam a imitar os adultos, assim, sem malcia. =Ela 
prpria, quando era pequena, tinha sofrido ataques de outras 
=crianas e, s vezes, at tinha gostado. Em suma, antes 
queria =no ter visto, para no saber. Mas, j que tinha 
visto e =sabido, a nica soluo era ignorar.
Naquele momento, Roslia viu a mo de Teresa, que pousava no 
=peitoril uma imagem da Virgem.
- Encontrei-a no cho, por baixo da mesinha do seu quarto - 
disse =a rapariga.
Roslia olhou para a imagem e no respondeu.
- A minha me tinha-me dito que a entregasse  senhora, no 
=Vero de h dois anos, para se lembrar de uma certa 
promessa, no =caso de se vir a esquecer - continuou a 
rapariga.
- Mas, afinal, o que  que tu queres? - perguntou de repente 
a =mulher, que se recusava a deixar-se atacar por sentimentos 
de =culpa.
- Eu? Nada. Pense mas  o que quer a senhora, dona Roslia - 
=respondeu Teresa.
Saiu de casa, chegou a correr ao bairro elegante de Umberto e 
tocou  =porta de servio do palcio Castiglia. Veio uma 
criada abrir.

168


- Venho procurar a Sofia - sussurrou a rapariga.
- E tu quem s? - perguntou a mulher.
- Sou a Teresa Avigliano.
- s a Teresella, a filha da Rosa. Entra. A Sofia estava  
tua =espera, ests com muito m cara, coitadinha.

169


NPOLES - PALCIO CASTIGLIA JANEIRO DE =1913
- ABRIL DE 1914


Teresella recordou o dia em que o pai foi ter =com ela 
ao Palcio Castiglia...
- Teresella, por que foi que fugiste?
Matteo Avigliano estava  porta da cozinha. Segurava na mo o 
=chapu dos dias de festa e amachucava a aba enquanto olhava 
para a =filha com uma expresso de desnimo.
Teresa gostaria de o convidar a entrar, mas no teve coragem. 
Olhou =para o pai e foi como se o visse pela primeira vez. 
Sempre o considerara =um homem estouvado e forte. S uma vez 
o vira chorar, enroscado sobre =si prprio como uma criana. 
Foi quando Rosa estava a morrer. =Agora encontrava um rosto 
marcado pelo sofrimento, um olhar intimidado. ="Trazia 
vestido um casaco liso que no era da sua medida e 
=arrepanhava junto aos botes, uma camisa com o colarinho 
gasto e umas =calas deformadas. Suscitou-lhe uma grande 
ternura.
- Bom-dia, pai - disse. E perguntou: - Como  que soube?
- De uma maneira ou de outra, um pai consegue sempre 
encontrar os =filhos - replicou, quase como se quisesse 
desculpar-se
da intruso. E acrescentou: - Aquilo no era vida, em casa da 
=Dona Roslia, pois no? Eu percebo-te. Mas podias ter dito 
alguma =coisa. - No era uma censura.

173


- Aquilo no era vida - confirmou ela. E prosseguiu: - No 
lhe =queria complicar a existncia.
Se lhe contasse a verdade, o que seria do pai e dos irmos? 
Matteo ia =ser obrigado a abandonar a casa da mulher. Mas no 
tinha outro =refgio para a famlia. Tomando o partido dela, 
acabariam todos na =rua.
- A minha existncia, compliquei-a eu sozinho - sussurrou 
ele. =Sorriu-lhe.
- Sem mim, a sua mulher vai ser melhor para os meus irmos - 
=comentou ela.
- A Annina precisa de ti - disse Matteo.
- Isso faz-me sofrer - murmurou Teresa.
- Aqui respeitam-te? - perguntou ele.
- Os criados gostam de mim. Os senhores protegem-me - 
explicou.
- Posso fazer alguma coisa por ti?
- J fez muito. Veio at aqui. Volte c, se quiser.
Matteo deu um passo atrs. A filha acabava de se despedir.
Naquele momento, os olhos da rapariga encheram-se de 
lgrimas. =Lembrou-se do baixo hmido e sufocante no Vero, 
gelado e =desconfortvel no Inverno. E, no entanto, tinha 
sido feliz naquele =pobre quarto. Recordou as gargalhadas 
francas do pai, os corpinhos =tenros dos irmos, as velas que 
ardiam em frente das imagens dos =santos, o cheiro do 
macarro misturado com scapece, que comiam nos =dias de 
festa, a mo forte de Matteo que lhe despenteava o cabelo e o 
=olhar terno de Rosa, que a via crescer com amor. Tudo 
acabara. Apenas =restava a recordao daqueles momentos 
felizes.
De repente, atirou os braos ao pescoo do pai e soluou-lhe 
=no ombro. Tambm Matteo chorou sem se conter, abraando-a.
- Trago-vos sempre no meu corao. A todos - confessou 
=Teresa.
- Tambm eu te trago no meu corao, Teresella - replicou 
=Matteo. E acrescentou: - Agiste com bom senso. Ainda bem que 
aqui =ests agora.
Teresa enxugou os olhos e deu-lhe um chocolate. Sofia 
dava-lhe um =todos os dias e ela guardava-o para a noite, 
quando se deitava e as =saudades da famlia se tornavam mais 
agudas

174


e devastadoras - Ento metia o chocolate na boca e a doura 
do =acar, ao desfazer-se, consolava-a.
- Isto chama-se honhon. D-o  Annina, da minha parte - 
=disse.
Naquele dia, Teresa Avigliano tornou-se mulher. Deu-se conta 
de ter =cortado o cordo que a mantinha ligada  famlia. 
Agora a sua =vida dependia apenas dela. Os seus passeios pela 
cidade tinham =finalmente uma meta definida. Andava pelas 
redondezas da viela ou do =mercado do peixe. Misturava-se com 
a multido para passar =despercebida e poder observar o pai, 
que trabalhava mais do que uma =mula, Peppiniello, que o 
imitava, Annina, que continuava a tossir e =brincava com os 
irmos e os outros companheiros, e dona Roslia, =que parecia 
ter perdido o ar carrancudo de outros tempos e que tinha 
=muitas vezes um olhar sombrio, alm de muitos fios brancos 
nos =cabelos.
Sofia sabia qual era o objectivo daquelas escapadas. E no 
ousava =censur-la. S lhe ralhava quando ela fazia alguma 
coisa mal no =trabalho. Mas, no fundo, desculpava-a pela sua 
pouca idade e pelas =amarguras que trazia no corao.
No palcio Castiglia no tinha tarefas definidas. Sofia 
definia-a =como a minha assistente. Ensinou-a a tirar as 
ndoas de =vinho, de caf e de molho das toalhas e dos 
guardanapos. Mostrou-lhe =como e quando usar o leo de 
linhaa, a cera de abelha e a =parafina. F-la entender a 
diferena entre um guardanapo bem =engomado e outro apenas 
passado a ferro. Ajudou-a a distinguir a =porcelana da 
cermica, a prata da alpaca, o pano de linho do de =algodo. 
Levou-a at  horta, para l da hassecour, e =mostrou-lhe 
como se devia podar o manjerico para crescer mais =vioso, 
ou como cortar as flores para pr nas jarras e recolher as 
=sementes de tomate para as deixar a secar para a sementeira 
=seguinte.
Ao fim de um ano, Teresa aprendera a conhecer todos os 
mecanismos que =regulavam a vida das duas nicas habitantes 
do palcio: a princesa =Carolina e a filha, Virgnia. E 
apercebera-se de que a limPeza, a =ordem e a eficincia 
requeriam o trabalho e a ateno de muitos =criados, que 
estavam sempre  disposio, de dia e de noite, =no s das 
duas senhoras mas de toda uma multido de =hspedes

175


que alternavam num ritmo contnuo, quase como se no se 
tratasse =de uma residncia privada, mas de um grande hotel 
de luxo.
s vezes, acontecia-lhe cruzar-se com a princesa. Ento 
=fazia-se muito pequenina, como que a tentar anular-se. A 
senhora =apontava-lhe a bengala.
- Tu quem s? - perguntava-lhe de todas as vezes.
- Teresa, ao seu servio - respondia, tal como Sofia lhe 
=ensinara.
- Ah, pois, Teresa. s a protge da minha nora. Est bem, 
=est muito bem - dizia, e os lbios fechavam-se num sorriso 
=ligeiro, enquanto punha os culos em cima do nariz para a 
observar =melhor.
A rapariga corava e o ritmo do seu corao acelerava.
- E, diz-me, tratam-te bem? - queria saber.
- Sim, senhora, ao seu servio - balbuciava.
- Do-te comida que chegue?
- Sim, senhora, ao seu servio - repetia, esperando que 
aquele =exame acabasse o mais depressa possvel.
- Muito bem. Muito bem - terminava Carolina, satisfeita. 
Depois tirava =a lorgnette, fechava-a com um estalido e 
afastava-se.
Sofia confeccionara para Teresa saias e camisas, grandes 
aventais =brancos e lenos para cobrir os cabelos, cuecas de 
pano e camisolas =interiores, aproveitando restos de tecidos 
acumulados nos bas do =sto.
Eram roupas simples, mas Teresa considerava-as preciosas, uma 
vez que =eram novas.
Dormia num pequeno catre aos ps da cama de Sofia, num 
quartinho no =primeiro andar do palcio que tinha uma janela 
virada para a =basse-cour.  noite, quando se recolhiam, 
Sofia rezava o tero e =Teresa salmodiava com ela uma srie 
infinita de ora pr =nobis.
Todas as semanas recebia algum dinheiro do guarda-livros, que 
ocupava =um escritrio no rs-do-cho e administrava todas as 
despesas =da casa. Ficava inchada de orgulho com aquelas 
poucas moedas e =fechava-as numa lata que guardava no meio da 
sua roupa, numa grande =gaveta. Antes de adormecer agradecia 
ao Senhor e  me que, tinha =a certeza, intercedera junto 
dele para a instalar na casa Castiglia, =onde ningum a 
tiranizava.

176


 noite nunca saa, a no ser que houvesse alguma procisso. 
=Ento gostava muito de se misturar no meio dos fiis, com a 
=cabea coberta por um vu de tule branco que lhe chegava aos 
=tornozelos, uma fita azul ao pescoo com uma medalha de 
Nossa =Senhora, uma vela na mo e uma voz clara a cantar: 
Olha para o =teu povo, linda Senhora, que com jbilo novo, 
te venera nesta =hora.... Em Dezembro participava na novena 
do Natal e na montagem do =Prespio no vestbulo do 
apartamento da princesa. A cabana era =enorme, assim como as 
esttuas de porcelana da Sagrada Famlia com =a vaca, o burro 
e os pastores. Saverio conseguia montar um cenrio de 
=papelo pintado e inventar pequenas cascatas de gua e 
fontes =luminosas que tornavam a paisagem sugestiva. 
Monsenhor Jaconis vinha =benzer pessoalmente o prespio, 
assim como as salas do palcio e =os seus habitantes, 
incluindo os criados. Depois, cada um retomava o seu 
=trabalho e a princesa, com os hspedes, ceava na sala de 
jantar.  =meia-noite estavam todos na igreja, para a Missa 
do Galo, que =conclua a novena.
Teresa tinha feito dezasseis anos quando, na noite de Natal 
daquele ano, =voltou a ver Benedetto.
Estava ajoelhado no ltimo banco,  entrada da nave central. 
=Reconheceu-o, apesar de exibir um bigode farto e de estar 
embrulhado =numa grande manta vermelha. Bateu-lhe levemente 
no ombro. O rapaz =ergueu para ela um olhar desconfiado, e 
depois sorriu-lhe. Tambm =ele a reconheceu.
- Feliz Natal, Teresella - sussurrou. Sofia puxava-a por um 
=brao.
- Eu desejo-te um feliz Natal quando a missa acabar - 
respondeu ela, =antes de avanar ao longo da nave, em 
direco aos bancos =reservados aos Castiglia e aos criados 
da casa.
Recitava as oraes em voz alta, mas os seus pensamentos iam 
Para =aquele rapaz que agora se tornara um homem. Esperava 
que ele a tivesse =ouvido e que a esperasse  sada da 
igreja. A missa parecia =interminvel. Durante todo o tempo, 
com as mos juntas e a =cabea inclinada, Teresa repetia 
mentalmente: Meu Menino Santo, tu =que tudo sabes e tudo 
podes, faz com que o Benedetto espere Por mim, =porque lhe 
quero desejar um feliz Natal.
As oraes, os cnticos e a msica solene do rgo =pararam. 
A missa tinha terminado. O Menino Jesus de madeira =esculpida


177


e pintada, com uma aurola de ouro cravejada de pedras 
preciosas, foi =deposto aos ps do altar, dentro de uma 
manjedoura forrada de brocado =brilhante. Os fiis cederam o 
passo  princesa Castiglia, a todos =os familiares e ao 
squito, para que se ajoelhassem em frente ao =Menino e 
pudessem assim dirigir-se, em primeiro lugar, ao longo da 
nave =central, para fora da igreja.
Benedetto estava ao lado da pia da gua benta. Viu-a chegar, 
mas =no se mexeu.
- Sofia, deixa-me ficar um momento com ele - disse Teresa, 
num =sussurro, ao ouvido da mulher.
- Fico  tua espera ali fora - suspirou, conformada. A 
rapariga =aproximou-se do jovem.
- Feliz Natal, Benedetto. Fiquei muito contente por te ver na 
igreja. =Devias c vir mais vezes. Eu estou aqui todos os 
domingos, na missa =cantada - disse.
- Ento, se eu quiser voltar a ver-te, sei onde e quando te 
=encontrar - replicou ele com indiferena.
- Isso mesmo - concordou Teresa com uma breve inclinao de 
=cabea.
- Vou ver se tenho tempo - respondeu.
- Ests muito antiptico. Se calhar venho mas   primeira 
=missa, para no correr o risco de me encontrar contigo - 
concluiu =ela, girando sobre os calcanhares, e saiu ao 
encontro de Sofia.
- Quem  aquele rapaz? - perguntou-lhe, com ar desconfiado.
-  um bom cristo, apesar de no o saber - respondeu Teresa, 
=caminhando com ela em direco a casa.
- No me disseste que tinhas um namorado - censurou-a.
- Quem me dera que assim fosse. Mas receio que ele j tenha 
uma =namorada. Bonito como , v l tu, sabe-se l quantas 
=raparigas o comem com os olhos. Mas talvez ele no as veja. 
Pelo =menos, assim espero. Se calhar no me v nem a mim. E 
isso no =me agrada. Ele  socialista e est sempre a fugir 
de alguma coisa =ou de algum. Tinha doze anos quando o vi 
pela primeira vez. Depois =voltei a v-lo aos treze. Agora 
tenho dezasseis anos e ele tem vinte =e trs. Sabe ler, 
percebes? Eu no entendo o que ele diz, mas =gosto de o ouvir 
falar. A minha me sabia como se fazia para =conquistar o 
amor de um homem. Eu no sei. Mas podia...

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Sofia abanou-a por um brao.
- Muito falas! J estou at s pontas dos cabelos. Esta noite 
= uma noite santa, e tu s pensas em amor. Que vergonha!
- Achas mesmo que o Menino fica ofendido se eu pensar no 
Benedetto? Eu =acho que no. Gosto muito dele e isto no  um 
sentimento =mau.
Falavam em voz baixa, para no serem ouvidas pelos outros 
criados, =que caminhavam  frente delas.
- Tens de contar tudo ao Monsenhor Jaconis. Ele tira 
informaes =do rapaz e depois, se estiver tudo direito, 
podes namorar com ele - =decidiu Sofia.
- No me obrigues a fazer isso. Ele nem sequer se declarou. 
Antes =pelo contrrio, at foi muito antiptico.
- Quem desdenha quer comprar - resmungou a mulher, receando 
por =Teresa, que estava numa idade difcil.
- Se calhar. Nem sequer sei se o volto a ver - rematou 
Teresa.
Voltou a v-lo, no domingo seguinte, na missa solene. 
Benedetto =esperava-a ao lado da pia da gua benta e 
ofereceu-lha, =tocando-lhe as pontas dos dedos.
- Ento sempre vieste - comentou, com um sorriso feliz.
- Ia a passar por aqui, por acaso - respondeu ele, para no 
dar =importncia ao facto.
- s muito palerma! - exclamou Teresa que, pelo contrrio, 
teria =gostado muito mais de lhe ter dito: Amo-te.

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Durante alguns meses andaram a jogar s escondidas. Quando 
Benedetto =parecia disponvel, Teresa retraa-se, para o 
arreliar. Depois ia =a correr ter com Sofia para lhe dizer 
como era bonito aquele namorado, =quando a olhava com os 
olhos turvos porque ficava zangado.
- Tem cuidado, Teresella. Quem brinca com o fogo acaba por se 
queimar =- prevenia-a, preocupada com ela.
- Sofia, eu gosto dele - replicava, acalorada.
- E ele, gosta de ti?
- E muito - garantia a rapariga, levando uma mo ao peito e 
=erguendo os olhos ao cu, numa ingnua imitao das actrizes 
=dos poucos filmes que tinha visto.
- Os homens nunca pensam em ns. Tm outras coisas na cabea. 
=As mulheres, para eles, so s um divertimento. Vi muitas 
=raparigas sofrer por amor.
- Eu sinto que ele gosta de mim de verdade - teimava Teresa. 
Maro =chegou. A princesa, as filhas, o genro e os netos 
foram
para Capri passar a Pscoa. A villa de Positano tinha sido 
fechada =depois da morte de Enrico. Carolina tinha-a posto  
venda, mas =no arranjavam compradores. Os napolitanos ricos, 
supersticiosos como =eram, rejeitavam aquela residncia 
esplndida por causa da morte =violenta do jovem prncipe. 
Finalmente apareceu um nobre da =Lombardia, proprietrio de 
uma fbrica de seda, que se apaixonou =pelo local

180


e comprou a villa. Os Castiglia respiraram de alvio. O 
captulo =da loucura de Enrico estava definitivamente 
encerrado.
Sofia permaneceu em Npoles com o mordomo, para orientar a 
limpeza =geral do palcio. Teresa ficou com ela.
Era um trabalho longo e exigente, que requeria a presena de 
criados =de confiana e a colaborao de pessoal 
especializado.
Trabalharam todos durante uma semana inteira, de manh  
noite. No =domingo, dia de descanso, Teresa obteve de Sofia a 
autorizao =para se encontrar com Benedetto.
Ele veio busc-la  porta de servio e ofereceu-lhe um ramo 
=de violetas. Ela quis lev-las ao cemitrio e pousou-as 
sobre a =campa da me, que estava sempre no seu pensamento.
Depois desceram at  Marina. Benedetto ofereceu-lhe um polvo 
=assado na brasa e temperado com azeite e limo que os 
pescadores =preparavam naquele momento na praia. Teresa 
ouvia, fascinada, a voz do =jovem que lhe contava histrias 
da pequena aldeia onde nascera, numa =encosta dos montes 
Lattari, sobre a vida difcil de uma famlia =numerosa que 
naquela terra spera trabalhava, suava, se curvava e =morria, 
tendo de pagar tributos ao proprietrio, independentemente do 
=resultado das colheitas. Tinha dez anos quando chegaram  
aldeia dois =jovens que vinham do Norte. Giulio, do Piemonte, 
e Marisa, da =Toscnia.
- Disseram assim: Aqui no h escola nem posto mdico. =Ns 
vamos ajudar-vos. Imagina a nossa desconfiana - contou 
=Benedetto. E continuou: - Eram ricos e tinham instruo. 
Desde =quando  que os ricos se preocupavam connosco? No 
estbulo do meu =pai improvisaram uma escola que era tambm 
um posto mdico. Ela =vacinou-nos, ensinou-nos a tomar banho 
e a lavar tudo aquilo que =comamos. Marisa e Giulio 
contaram-nos como era a vida nas grandes =cidades e a 
agitao que as percorria. Falaram-nos de democracia =e de 
socialismo. Explicaram-nos que estvamos ainda enraizados na 
=Idade Mdia, que ns nem sequer sabamos o que era. O padre 
da =aldeia vizinha veio trat-los mal, dizer-lhes que andavam 
a semear =a discrdia, e a ns tambm, por lhes darmos 
ouvidos. Porque os =ouvamos com o mesmo desejo de quem tem 
sede e finalmente recebe uma =oferta de gua. Todos, velhos, 
mulheres e crianas, aprendiam a =ler e a escrever. Eles 
davam-nos cadernos e lpis que ns =molhvamos com a lngua. 
Tantas lnguas negras de lpis e de =tinta,

181


e tanto esforo que ns fazamos, depois de regressarmos 
=exaustos dos campos, quando nos reunamos no estbulo para 
=estudar! Giulio e Marisa abriam os nossos espritos. 
=Comevamos a dar conta de que ramos esquecidos por todos 
os =governos, desde h sculos. Um Inverno, h dez anos, 
resolvi =vir a Npoles. Tinha necessidade de me misturar com 
o mundo, o =verdadeiro, onde nascem as ideias, onde se pode 
fazer o confronto entre =aqueles que tm na mo o poder e os 
que so dominados. =Teresella, ests a ouvir-me?
Caminhavam pela praia, descalos, de mo dada.
-  claro que estou a ouvir - garantiu.
- Mas percebes-me?
- Nem sempre. Mas interessa-me muito aquilo que me ests a 
contar =- declarou, muito sria.
De repente, Benedetto sorriu-lhe, abraou-a e beijou-a com 
=intensidade.
- Estou a aborrecer-te com a minha conversa, at porque no 
=encontro palavras para te dizer que gosto de ti - 
desculpou-se.
- J disseste - observou ela.
- Eu acho que, para uma declarao como esta, so precisas 
=outras palavras.
- Por exemplo? - insistiu.
- Por exemplo, gostava de te dizer que quando te vejo sinto 
no peito um =enxame de borboletas que voam ligeiras - disse 
ele, com ar de =brincadeira.
Teresa, no entanto, olhou para ele com os olhos arregalados 
de =espanto.
- s muito inteligente, Benedetto. Mas tens mesmo a certeza. 
de que =gostas de uma palerma como eu?
- Tu tens um esprito gil e um corao luminoso. E mau 
=feitio - insinuou.
- Como tu. Gosto tanto de ti quando s desagradvel - disse. 
=Depois, num sussurro, continuou: - E quando me beijas.
- Alguma vez fizeste amor? - perguntou-lhe.
Teresa pensou nos dois filhos de Roslia, que a tinham 
violado. Era =uma histria que no queria contar. Por isso 
abanou a =cabea.
- E tu? - perguntou, curiosa.

182


- Durante a recruta, numa cidade do Norte, fui a uma daquelas 
casas. =Todos os soldados l iam. No foi nada divertido, at 
porque =ela cheirava a cebola e tinha os olhos pintados de 
preto. Meteu-me nojo =e tive medo. Tu no podes entender - 
afirmou.
- Posso, sim. Aconteceu-me a mesma coisa - acabou por 
admitir, e =recordou o nojo e o medo. Contou-lhe tudo.
- Queres vir at ao meu palcio? - props Benedetto, 
=pondo-lhe um brao em volta dos ombros num gesto de 
=proteco.
Levou-a at perto de Castel dell'Ovo onde, em frente ao mar, 
se =alinhavam as casas dos pescadores. Ces vadios e gatos 
=esquelticos circulavam por entre as crianas morenas do sol 
que =brincavam no meio de um grande barulho. As casas, de 
dois andares, =estavam descascadas pelo salitre. Numa delas, 
Benedetto ocupava um =quarto que dividia com um amigo.
Era um quarto quadrado, com uma janela virada para o mar. 
Havia duas =camas, uma bacia e um cntaro com gua, um banco, 
um caixote e uma =mesa cheia de livros e jornais. O cho era 
de cimento e o tecto de =traves de madeira. Teresa entrou 
naquele quarto com um passo hesitante e =o seu primeiro 
pensamento foi que seria precisa a mo de uma mulher =para 
criar ali um aspecto de ordem e de limpeza. Ficou 
sensibilizada =quando viu uma lata, no peitoril da janela, 
que continha uns ps de =petnias.
- Ento  este o teu palcio - comentou, aproximando-se da 
=janela. O mar acariciava a areia. Dois barcos afastavam-se 
da praia e, =mais longe, a sirene de um navio rasgou o ar.
-  como dizes. Eu sou um rei. De resto, cada palcio tem o 
rei =que merece. Aqui no h tapearias, estuques, nem 
pinturas a =fresco. Nem sequer h que comer. Mas h os meus 
sonhos, as =esperanas, a vontade de viver e de vencer, o 
prazer de ler, de =discutir com os companheiros e de abraar 
a Teresa.  um =palcio cheio de coisas que no se podem 
comprar, porque no =esto  venda - declarou, atraindo-a a 
si com doura. =Desapertou o n do leno que Teresa trazia ao 
pescoo e =acariciou-lhe a nuca com uma mo leve.
Moveram-se com timidez e embarao. Foram guiados pela 
=determinao de se conhecerem intimamente e o desejo 
recproco =ditou-lhe os gestos, conduzindo-os ao longo de um 
percurso

183


de descobertas felizes que desaguou num prazer infinito. 
Depois =adormeceram, exaustos.
O sol apagou-se. A primeira estrela brilhou no cu. Abriu-se 
a =porta do quarto. Benedetto e Teresa sentaram-se de repente 
na cama. =Estava um homem  entrada. Trazia um embrulho 
bastante volumoso. Por =instinto, Benedetto esticou-se para a 
frente para esconder Teresa.
- Ningum te ensinou a bater  porta? - protestou, 
dirigindo-se =ao visitante.
- Como  que eu havia de saber que estavas em casa? O teu 
turno =j comeou h uma hora - respondeu o outro enquanto 
pousava o =embrulho em cima da mesa.
- Ai que desgraa! Adormeci - praguejou Benedetto, pondo os 
ps =fora da cama.
- Posso saber o que  que se est a passar? - interveio 
Teresa =com um tom autoritrio.
Benedetto apercebeu-se do cmico da situao e desatou a rir. 
=O recm-chegado e Teresa imitaram-no.
- Vou-me apresentar ao trabalho com duas horas de atraso, 
pago a =multa, recebo uma reprimenda e, no prximo descuido, 
sou despedido - =respondeu, entre gargalhadas, e continuou: - 
Teresa, este  o =Pietro, o meu companheiro de quarto. E 
agora que j fizemos as =apresentaes, vira-te para l, 
porque a minha namorada tem de =se vestir - concluiu.
Teresa abenoou aquela obscuridade, apenas esfumada pela lua 
de =Abril, que impediu que Benedetto a visse corar. Tinha 
sido apresentada =como a namorada. Aquelas palavras eram 
uma promessa, uma =investidura oficial. Conferiam-lhe um 
papel, o primeiro da sua =vida.
Benedetto ajudou-a a vestir-se. Depois pousou os lbios nos 
dela e =sussurrou: - Gosto muito de ti.
- Agora j podes acender a luz - disse em voz alta, 
dirigindo-se a =Pietro.
- No - implorou Teresa. - Desta vez no. - Estava demasiado 
=embaraada para conhecer o homem que a surpreendera na cama 
com o seu =apaixonado.
- Conhecem-se para a prxima - decidiu Benedetto, enfiando o 
gorro =na cabea.

184


- Olha que deixei em cima da mesa os panfletos que fui agora 
buscar ao =tipgrafo. Tens de os distribuir no fim do turno - 
avisou Pietro. O =rapaz agarrou no embrulho e levou Teresa 
para fora do quarto. Desceram =at  viela no momento em que 
os sinos da igreja batiam as =nove.
- Eu levo-te a casa - decidiu, dando-lhe o brao.
- Mas j ests atrasado. Eu conheo o caminho melhor do que 
tu =- protestou ela.
- A partir desta noite, no voltas a passear sozinha - 
=declarou.
- O que quer dizer isso de teres que distribuir os panfletos 
no fim do =turno? - perguntou, curiosa, enquanto subiam a 
rua.
-  por causa da greve da prxima semana. Finalmente o 
Giolitti =demitiu-se. Agora queremos o Salandra, mas com as 
nossas =condies, e temos de insistir sobre alguns pontos 
por causa do =congresso socialista de Ancona - explicou, 
sucintamente.
- Mas tu no podias s trabalhar? Por que  que tens sempre 
de =te meter entre as pernas do diabo? - perguntou Teresa, 
que no =percebia nada de poltica, mas temia que Benedetto 
se metesse em =apuros.
-  claro que as tuas so mais bonitas - disse ele. E 
comentou: =-  uma piada estpida. Mas tambm no  assim 
tanto =como isso. Tens umas pernas lindssimas, Teresa. 
Tinha-me esquecido =de te dizer.
Deixou-a nas traseiras do palcio Castiglia, em frente da 
porta de =servio. Viram Sofia que os observava de uma janela 
da lavandaria. =Parecia um co de guarda  espera.
- Eu vou casar-me com esta rapariga - disse Benedetto em voz 
alta, =dirigindo-se a Sofia.
Teresa entrou e fechou a porta. Sabia que no ia passar um 
dia =inteiro sem o voltar a ver.
- Foste para a cama com ele - disse Sofia, agressiva, pois 
estivera =ansiosa por causa dela durante todo o dia.
Teresa confirmou.
- Ele vai casar-se comigo. Ouviste? - explicou, dominada Por 
uma =grande alegria.
- As palavras so como as borboletas. Vm e vo. Entretanto, 
=Se ficares grvida, o que vai ser de ti? - respondeu, como 
um =aviso.

185


MERANO - SCHLOSS RUNDEGG MARO - JUNHO DE =1914


Josepha escreveu uma longa carta  princesa =Carolina 
para lhe falar, com o corao aberto, sobre os =sentimentos 
que a ligavam a Lorenzo Valeschi. Entre outras coisas, 
=confessou-lhe: Reflecti longamente sobre a oportunidade 
desta =escolha, at porque tinha jurado a mim mesma que nunca 
mais na minha =vida voltaria a casar e, ainda por cima, com 
um estrangeiro. Como  =evidente, a Itlia entrou-me no 
sangue. Nos ltimos trs anos, =conheci o peso da solido e 
os meus propsitos foram alterados =pela carga vital de 
Lorenzo Valeschi por quem, sei-o bem, a senhora =nutre 
simpatia e estima. Decidi aceitar a sua proposta de casamento 
e =gostava de saber o que pensa sobre isso. Considere, 
querida maman, que =h trs anos que eu e Lorenzo nos vemos 
raramente, mas que de cada =vez  uma festa para os nossos 
coraes. Para alm do mais, =j tenho vinte anos e desejo 
ter um marido e filhos, se Deus quiser. =Mas considere tambm 
o facto de que, casando-me, perderei o apelido =dos Castiglia 
para assumir o dos Valeschi. Neste aspecto, a sua =aprovao 
seria muito importante para mim. Espero ansiosamente a =sua 
resposta e saiba que serei sempre a sua devota Josphine.
Esta pequena obra-prima de diplomacia tinha-lhe =custado uma 
longa reflexo, uma vez que continha algumas mensagens =muito 
Precisas. Josepha reiterava que tinha sido a prpria princesa 
=Carolina a colocar Lorenzo no seu caminho, depois sublinhava 
a =necessidade de ter finalmente os filhos que Enrico no lhe 
dera, e, =por fim, referia que, pelo menos da parte dela, 
gostaria de continuar as =relaes com os Castiglia,

189


apesar de perder o apelido. O conjunto fora formulado com uma 
=elegncia que a princesa iria certamente apreciar.
Ao fim de dois dias, tocou o telefone em Schloss Rundegg. 
Josepha tinha =decidido instal-lo para permitir a Lorenzo 
telefonar-lhe quando =no conseguia obter uma licena do 
exrcito.
Em Merano, as visitas daquele belo oficial italiano no 
passavam =despercebidas. Os amigos e os conhecidos, porm, 
tinham o bom gosto =de no fazer comentrios. Continuavam a 
trat-la por a =nossa pequena senhora, at porque Josepha 
sabia ter um =comportamento normal e conseguia sempre salvar 
as aparncias. =Oficialmente, Lorenzo Valeschi era um 
hspede, como tantos outros que =se instalavam no castelo. O 
facto de ser italiano no incomodava =muito as pessoas, sendo 
a ustria e a Itlia naes amigas, =unidas por uma aliana. 
No entanto, o jovem oficial das =Standschtzen, Heinrich von 
Wedel, reagiu com violncia perante a =assiduidade de 
Lorenzo.
Informado por alguns companheiros de armas, foi ao encontro 
de Josepha e =enfrentou-a no momento em que estava a tomar 
ch, no jardim do =castelo, com as senhoras da comunidade 
hebraica.
Ela despediu rapidamente as suas convidadas, desfazendo-se em 
=desculpas, e depois olhou-o com severidade.
- Baro, so estas as boas maneiras que lhe ensinam no seu 
=batalho? - disse, tratando-o ironicamente por voc.
- As boas maneiras no interessam quando o que est em jogo  
=a honra - respondeu o jovem.
- A sua honra, baro?
- A sua, senhora.
Josepha reprimiu um sorriso. Aquele rapaz violento e 
apaixonado =enternecia-a. Em conscincia, sabia que nunca 
fizera nada para =encorajar os seus sentimentos, mas sabia 
tambm que os Wedel =consideravam com benevolncia a paixo 
do jovem Heini por ela.
Decidiu, por isso, esclarecer a situao.
- Meu caro Heini, posso garantir-te que as vozes sobre uma 
minha =liaison com o oficial italiano so completamente fruto 
da fantasia =dos teus informadores. Mas...
No a deixou acabar.

190


- Ests a falar a srio, Josepha? Ento posso continuar a 
=esperar?
- Mas no excluo a hiptese de um dia voltar a casar.
- Comigo. Ser comigo, no  verdade?
- No. Considero-te um bom amigo. Isso no chega para um 
=casamento. No estou apaixonada por ti. Sempre o soubeste. 
Como homem =honesto que s, tens de admitir que eu nunca te 
iludi.
Era verdade e Heini no pde deixar de concordar.
- Com o tempo, talvez ainda possas mudar de ideias - tentou 
de novo, =segurando a mo dela entre as suas e beijando-a com 
=devoo.
Com uma astcia muito feminina, Josepha jogou outra carta 
para se =libertar dele.
- Olha bem para mim, Heini. Eu sou viva. Tu precisas de uma 
=rapariga que te ame, que seja dcil e que fique suspensa dos 
teus =lbios. Eu nem sequer tenho bom feitio. Isso j tu 
sabes. Em suma, =mereces uma coisa melhor. Esta  a minha 
opinio sincera. Por =isso, no quero mais ter-te por perto 
at ao dia em que me =apresentares a tua noiva. E no h-de 
faltar muito tempo.
Finalmente, liquidara-o. E, para evitar novos mexericos e o 
perigo de =um novo assomo de paixo por parte daquele jovem 
amigo, decidiu que =chegara o momento de casar com Lorenzo.
Assim, dois dias depois de ter enviado a carta  sogra, o 
telefone =tocou. Ela foi atender a correr, pensando em 
Lorenzo. Era a princesa =Carolina.
- s mesmo uma serrana teimosa - comeou a senhora, com 
aquele =tom severo que j deixara de a assustar. - Pensava 
que tinhas =renunciado a dizer o sim quele pobre rapaz que 
anda a =desfalecer de amor. Nunca poderia negar-te a minha 
bno. =Tenho a certeza de que tu e o Lorenzo so feitos um 
para o outro.
- Obrigada, maman. Muito obrigada, do fundo do corao - 
=sussurrou Josepha, emocionada e reconhecida.
- Espera antes de me agradeceres. H uma condio que eu te 
=imponho. Tens de regressar a Npoles no Outono. Quero-te 
aqui =durante alguns meses. No te vejo h trs anos e j 
sabes =que estou demasiado velha e cansada para ir ao teu 
encontro - =lamentou-se.
- Irei de boa vontade. Eu tambm tenho muita vontade de a 
abraar =- replicou com sinceridade.

191


- Pergunta-me mais uma vez se quero casar contigo - disse 
mais tarde, =quando Lorenzo lhe telefonou.
- Queres casar comigo? - repetiu ele.
- A minha resposta  sim. J - declarou. E como houvesse um 
=longo silncio depois daquela afirmao, acrescentou: - A 
=no ser que tu tenhas alguma objeco. Afinal, temos estado 
bem =at agora, sem casamento. Em suma... quero dizer... 
esquece esta =pergunta estpida e recomecemos onde tnhamos 
ficado.
- Pra, Giuseppina - disse ele de repente. Chamava-lhe assim 
=sempre que perdia a pacincia.
- Est bem, eu calo-me.
-  melhor. Acabaste de me dar uma resposta sensata e no 
=descansaste enquanto no a engoliste outra vez. Eu estava 
sem =flego. No conseguia acreditar que te tivesses 
finalmente =decidido, meu amor. Vou buscar-te. Temos de ir a 
Milo. A minha =famlia quer conhecer-te desde h algum tempo 
e agora vais ter de =passar no exame.
-  isso que eu temo - murmurou ela.
Lorenzo chegou quatro dias depois num GrafStift prateado. 
Desta vez, =Klara e Petra abordaram Josepha ao mesmo tempo.
- Ento vai-se outra vez embora - disse a primeira.
- E mais uma vez com um italiano - acrescentou a outra.
- Por favor, deixem-me ser feliz - suplicou ela. Petra chorou 
e Klara =ficou furiosa.
- No pense que no sabamos que o recebia na sua cama. 
=Estvamos  espera que esta histria acabasse. Mas, afinal, 
=quer casar com ele. Eu estou demasiado velha para ficar aqui 
a guardar o =castelo. Vou voltar para a minha terra. Os meus 
parentes ainda precisam =de mim - decidiu. Os irmos e os 
sobrinhos de Klara viviam numa =quinta, em Naturno. De vez em 
quando vinham visit-la. s vezes =ia ela ter com eles. Mas 
sempre vivera ali, no castelo. Servira os pais =de Josepha e 
tinha-a visto crescer.
- E tu, Petra? Tambm me queres deixar? - perguntou Josepha, 
=exasperada.
- A menina  que nos deixa - lamentou-se a criada fiel,

192


entre dois soluos. As duas pobres mulheres sofriam de 
solido e =estavam assustadas com a ideia de ela se afastar 
para sempre.
Abraou-as e comoveu-se com elas. - Eu volto depressa.  uma 
=promessa. E no vos deixo nem quando estiver casada. Amo 
tanto como =vocs esta cidade, esta casa e estas montanhas. 
Talvez tenha filhos, =e quero que sejam vocs a cri-los, 
como fizeram comigo.
Partiu para Milo. Nunca l tinha estado, e ficou satisfeita 
ao =constatar que no era uma cidade catica como Npoles.
Era o fim de Maio. O clima ameno, o cu sereno, as ruas 
limpas, as =flores nas varandas e no peitoril das janelas, as 
fachadas austeras dos =edifcios e a elegncia sbria das 
pessoas tornavam-na menos =estranha a esta realidade.
Os Valeschi moravam num palcio do sculo XIX, de trs 
andares, =com um grande jardim. Os pais de Lorenzo tinham 
mais seis filhos alm =dele. Trs raparigas, mais velhas do 
que Lorenzo, estavam j =casadas. Dois rapazes e Liliana, a 
mais nova, viviam ainda com os pais. =Nessa mesma casa viviam 
tambm dois tios, irmos do pai Valeschi, =e a tia Clara, 
irm da me.
Havia ainda dez criados com vrias funes e um jardineiro 
que =era tambm chauffeur. Entre hspedes fixos e amigos de 
passagem, o =palcio estava cheio de gente. Josepha surgiu no 
meio de todos eles, =e foi logo acolhida com benevolncia. Os 
Valeschi conheciam a sua =histria porque a princesa Carolina 
e Lorenzo tinham falado muito =nela.
- s exactamente como te tnhamos imaginado - disse Vezia, a 
=futura sogra, com um ar satisfeito.
- Uma crucca de muito respeito - acrescentou o pai de 
Lorenzo. O termo =crucco, na Lombardia, no era um termo 
depreciativo, mas =referia-se a uma etnia que se estendia 
desde o Tirol at ao mar do =Norte e compreendia todos os 
povos de lngua alem, quer fossem =prussianos, bvaros, 
austracos ou do Tirol. Luigi Valeschi era um =homem simples. 
Ignorava de boa vontade o seu ttulo de conde Colonna, 
=estava enraizado em slidos princpios de moldes 
oitocentistas e =gostava de boa comida. As irms de Lorenzo 
Cometeram Josepha com mil =e uma atenes e uma grande 
curiosidade em relao s =suas roupas, aos acessrios e s 
jias. Quando se Sentaram  =mesa, eram vinte pessoas, e 
havia trs criados para os servir.

193


Uma refeio riqussima, com faiso fumado como entrada, 
=risotto amarelo com osso-buco como primeiro prato, carr de 
porco =com mas no forno e arroz pilaf como segundo prato, 
truta do lago =com maionese e batatas cozidas como prato 
intermdio, seguido de =eruditas com anchovas picadas e ovos 
cozidos e, para terminar, um doce = base de caf e 
mascarpone. A refeio durou duas horas. =Cruzaram-se 
conversas vivas e comentrios sobre histrias actuais =e 
passadas.
- Diga-me, princesa, quantos anos tem o vosso Cecco Beppe? - 
=perguntou o pai Valeschi.
Josepha sorriu. Sabia muito bem que os italianos chamavam 
assim ao =imperador da ustria.
- Oitenta e quatro, que Deus o conserve - respondeu ela.
Educada no culto dos Habsburgo, no conseguia compreender por 
que =razo os italianos no nutriam um sentimento anlogo em 
=relao aos Sabia, a quem deviam, ainda que s em parte, o 
=mrito da unidade nacional.
- Quando as tropas austracas foram definitivamente expulsas 
da =Lombardia, sabe o que disse o seu imperador? Livrei-me 
de uma =grande maada. Estes lombardos nunca foram sbditos 
facilmente =governveis. Mas isto passou-se h mais de 
cinquenta anos, =quando eu ainda era criana, e no tenho 
nenhuma lembrana da =dominao austraca - explicou, com ar 
de quem se estava a =divertir muito.
- O imperador teve uma vida difcil com os lombardos. Agora 
imagino =que tenha os mesmos problemas com os eslavos. Eles 
tambm no =so facilmente governveis - replicou ela.
- Os Balcs so desde sempre uma fbrica de lutas internas. A 
=Bsnia-Herzegovina  um pas complexo. Uma rica carga de 
=trabalhos para a ustria - observou Lorenzo.
- Deixemos a poltica e falemos de coisas mais srias - 
=interveio a senhora Valeschi. - Tenho alguns projectos a 
apresentar a =Josepha para os prximos dias.
Foi envolvida num turbilho de actividades mundanas: pera, 
=teatro, cinematgrafo, recepes, passeios nos lagos, 
corridas =de cavalos e visitas a museus. Raramente conseguia 
estar sozinha com =Lorenzo. E ainda menos de noite, uma vez 
que dividia o quarto com =Liliana.

194


- Ouve, vou levar-te de volta a Merano - decidiu Lorenzo, ao 
fim de =uma semana. E acrescentou: - Aqui no h maneira de 
estarmos =juntos.
- Prometi ir ao campo com as tuas irms - observou ela.
- De quem gostas mais? De mim ou delas?
- Ests a fazer chantagem comigo?
Estavam miraculosamente sozinhos, num pequeno escritrio no 
=rs-do-cho, em frente a uma porta envidraada que dava para 
=o jardim de onde chegava o perfume das rosas brancas e de 
outras plantas =em plena florescncia.
- S quero fazer amor contigo. E aqui no  possvel, de 
=maneira nenhuma. A minha me tem em mente uma festa de 
noivado como =mandam as regras para o fim de Junho, e tu 
sabes bem o que tudo isso =implica - explicou Lorenzo.
Sabia, e no lhe agradava.
- Tu  que s o homem.  a ti que compete decidir - declarou. 
=Depois acrescentou: - De qualquer maneira, ficas a saber que 
quanto =mais depressa nos casarmos, melhor. Estou grvida.

195


- E tu, Josepha Sidonia Paravicini von Riccabona, aceitas 
como marido o =aqui presente Lorenzo Filippo Maria Valeschi,
conde de Colonna?
Josepha respondeu com um sim lmpido, que a nave da pequena 
=igreja de San Giorgio, em Maia Alta, amplificou.
A testemunha da noiva era o burgomestre da cidade. O prncipe 
=Vittorio Alliata foi imposto por Carolina como testemunha de 
Lorenzo. =Desta forma, a princesa Castiglia pretendia 
reiterar uma continuidade de =relacionamento com a viva do 
filho. Josepha vestia um traje regional =em brocado de linho 
azul e prateado. Estava no fim do segundo ms de =gravidez e 
ainda se podia permitir apertar as fitas do corpete para 
=fazer sobressair a harmonia da silhueta. No anular trazia um 
anel =contrarie formado por duas prolas, uma branca e uma 
cinzenta, =montadas em brilhantes. Era o presente de Lorenzo. 
O anel pertencia aos =Valeschi h mais de um sculo.
Ela retribura o presente com um poldro baio de pedigree 
ilustre. =Tinha-o arranjado nas cavalarias da villa que os 
Valeschi =possuam em Cernusco sul Naviglio, onde tinham ido 
passar alguns =dias, antes de Josepha regressar a Merano. 
Lorenzo conseguira convencer =a famlia a evitar grandes 
clamores  volta da noiva.
- J teve um casamento com pompa e circunstncia. Aquilo que 
=ambos queremos  apenas uma cerimnia simples, com os 
parentes =mais chegados. Acham que renunciar aos festejos  
assim to =grave?

196


Vezia e Luigi Valeschi tinham suficiente sentido prtico para 
aceitar =a situao. No casamento, estavam apenas eles os 
dois em =representao de toda a famlia, assim como de 
Npoles =vieram unicamente o prncipe Vittorio Alliata e a 
mulher, =Marianna.
Naquele momento, o sim pronunciado pela noiva foi a 
expresso =de uma convico profunda, amadurecida ao longo 
daqueles anos e =cimentada por uma atraco recproca que no 
conhecia =momentos de cansao.
Era o dia 28 de Junho de 1914. A igreja estava enfeitada com 
flores, e, =no adro, por entre os canteiros de gernios e 
trepadeiras, =juntava-se a gente do lugar, curiosa por causa 
dos automveis =estacionados na rua. Uma rapariga tinha 
contado que na igreja se estava =a realizar uma cerimnia.
- Parece-me que  o casamento da pequena senhora de Rundegg 
com um =italiano - disse  me, que a mandara ver o que se 
passava. - O =padre Klaus est a dizer a missa em italiano - 
explicou.
- Outro italiano. Por isso  que fizeram tudo em grande 
segredo - =foi o comentrio da me  amiga que foi com ela 
at  =igreja, atrada pelo som do rgo naquela hora 
inslita de =um dia de trabalho.
- Se decidiu assim, l ter as suas razes - comentou a =me.
Quando os noivos e as testemunhas saram da igreja, tinha-se 
juntado =no adro uma pequena multido de camponesas que 
queriam ver a noiva. =Eram caras conhecidas de Josepha que, 
pelo brao de Lorenzo, sorriu e =cumprimentou toda a gente. 
Algumas crianas chegaram-se  frente, =estendendo-lhe ramos 
de flores do campo acabadas de colher. Josepha =agradeceu e 
inclinou-se para lhes dar um beijo a todas. Atrs dela, =o 
burgomestre, o prncipe Alliata com a mulher, os sogros e o 
padre =Klaus saboreavam aquele momento de alegria e 
preparavam-se para =regressar ao castelo, onde se preparara 
uma recepo simples. O =velho Toni montou na bicicleta e 
Pedalou at casa para anunciar a =chegada dos noivos. Naquele 
momento, apareceu, ofegante e corado, o =director dos 
Correios, clamou para o Presidente da Cmara, mas era 
=evidente que aquilo que tinha para dizer se dirigia a toda a 
gente.
- O arquiduque Francisco Fernando foi assassinado em 
Sarajevo.

197


Naquela doce tarde de Junho, acariciada por uma tpida brisa 
=primaveril, os sorrisos apagaram-se e instalou-se o 
silncio. =Lorenzo reforou a presso no brao da mulher. Os 
homens =tiraram os chapus e as mulheres fizeram o sinal da 
cruz.
- A arquiduquesa Sofia tambm sucumbiu aos tiros de pistola 
do =srvio Gavrilo Princip - continuou o funcionrio do 
telgrafo. =E concluiu, retendo um soluo: - Os irredentistas 
eslavos privaram o =nosso imperador de um herdeiro.
H muito tempo atrs, na ustria como em Itlia, 
=difundira-se um clima de tenso preocupante depois de anos 
de =relativa serenidade.
Na Itlia, com o nascimento das primeiras grandes indstrias, 
os =trabalhadores organizaram-se para fazer ouvir a sua voz. 
O partido =socialista e o movimento catlico recolhiam os 
seus protestos e =apoiavam-nos. O governo conseguira devolver 
ao pas uma aparncia =de equilbrio atravs da aprovao de 
uma srie de =reformas de sentido liberal. Apagara os 
incndios, mas no as =brasas.
Na ustria, a situao no era melhor. Desde h algum =tempo 
que os Habsburgo tinham de enfrentar os movimentos operrios 
=que apanhavam de surpresa uma velha aristocracia, incapaz de 
acompanhar =o passo de uma sociedade em evoluo.
- Atingiram o nosso imperador no corao - sussurrou
Josepha.
- Regressemos a casa - decidiu o marido, envolvendo-lhe os
ombros com um ar protector.
Os automveis dirigiram-se ao castelo. - Que outra catstrofe 
se =ir abater sobre ns? - perguntou Josepha, angustiada.
- Tem calma, Josphine - ordenou o prncipe Alliata, que ia 
com =eles no carro. - No vamos ter uma tarde de alegria, mas 
no =podes transformar num banquete fnebre a tua festa de 
casamento.
- Tu s italiano. No podes entender - protestou ela. E 
=acrescentou: - Sei muito bem que ns no temos o melhor dos 
=governos. Mas tambm sei que a mo deste srvio foi armada 
por =uma organizao de fanticos. Hoje atingiram-nos a ns, 
=amanh podem atingir-vos a vs e a toda a Europa.
- Agora acalma-te, meu amor - pediu Lorenzo, apesar de saber 
que o =assassinato de Sarajevo era tambm uma provocao

198


gravssima para a Itlia, que tinha formado uma aliana com a 
=ustria.
Foi uma recepo tranquila. Os homens discutiam entre si as 
=consequncias do atentado.
- Acho que me vo revogar a licena - disse Lorenzo.
- O telgrafo e o telefone contam-se entre as piores 
calamidades do =nosso tempo. As notcias voam e j ningum se 
salva - comentou =o prncipe Alliata.
As senhoras, reunidas na sala de visitas, conversavam entre 
si.
- O governo vai dar mais um aperto s coisas. Os primeiros a 
pagar a =factura disso vo ser os operrios - lamentou 
Josepha.
- Francamente, no te compreendo - interveio Marianna 
Alliata. - =Choras pelo imperador e abraas a causa dos 
revoltosos.
Mais do que uma vez, ao longo dos ltimos anos, Josepha 
pedira aos =Castiglia para acolher em Npoles algumas 
famlias de =operrios, com mulheres e filhos, despedidos 
pelos patres porque =haviam difundido moes para o dia de 
oito horas de trabalho, ou =para a assistncia mdica 
obrigatria. Os Castiglia tinham =sempre realizado os seus 
desejos, para a agradar.
- A casa reinante no tem nada a ver com a falta de viso dos 
=nossos polticos. Se ns tambm tivssemos nascido pobres, 
=se fssemos obrigados a lutar para sobreviver, no achas que 
=procuraramos por todos os meios obter os direitos mais 
fundamentais? =- inquiriu.
- Mas  claro, minha querida. Fazes muito bem em defender 
essas =necessidades. Todos ns o fazemos. Mas deixemos para 
os homens as =questes polticas - interveio a sogra.
Mais tarde, quando Josepha e Lorenzo se encontraram sozinhos 
no quarto, =olharam-se longamente nos olhos, incapazes de 
exprimir os pensamentos =que os afligiam.
- Vais regressar a Npoles muito em breve - comentou ela.
- Ainda no me convocaram - disse ele.
- Podem faz-lo ainda esta noite - observou a mulher.
- Eu no sou assim to importante. O poder est muito 
distante =do meu quartel.
- Vai chegar uma mensagem. Sinto-o - profetizou Josepha.

199


-  a nossa noite de npcias. Gostava que fosse especial - 
=replicou Lorenzo, acariciando o ventre da mulher. E 
acrescentou: - Como = que est o nosso menino?
- Ele no sabe de nada. Por isso est bem - tranquilizou-o.
- Se eu tiver de partir, tu vens comigo - disse Lorenzo.
- Antes queria que nos refugissemos numa montanha perdida, 
onde =ningum nos encontrasse. Diz-me que  uma boa ideia.
- Acalma-te, minha querida. A Srvia vai expiar o gesto de um 
louco =e tudo voltar a ser como antes. Os Habsburgo vo 
encontrar outro =herdeiro para o trono.
- Tu achas? - perguntou ela, agarrando-se a esta esperana.
- Espero.
- Lorenzo, diz-me uma coisa: vais continuar no exrcito? -
perguntou-lhe,  queima-roupa.
- O que  que o exrcito tem a ver com isto? - replicou, 
=desorientado.
- No sei, mas alguma coisa ter, uma vez que te estou a 
=fazer
esta pergunta.
Estavam sentados no canap, aos ps da cama. As janelas, 
=totalmente abertas sobre a noite, deixavam entrar no quarto 
lufadas =de
ar tpido.
Lorenzo levantou-se, pegou num cigarro, acendeu-o, 
aproximou-se da =janela e aspirou longamente o fumo.
-  a nossa noite de npcias. Devamos falar de amor - 
=repetiu, e na sua voz havia uma nota de censura.
- Uma mulher tem o direito de conhecer os projectos do
marido.
- Mas de que projectos ests tu a falar? - perguntou, 
aborrecido, =voltando-se para olhar para ela.
- No te zangues - reagiu Josepha.
- Est bem. Desculpa. - Lorenzo apagou o cigarro e voltou 
para =junto dela. - O facto  que, de repente, me parece que 
j no =te conheo. Quando estvamos no adro da igreja, eu 
era o homem =mais feliz do mundo. Depois chega a notcia do 
assassinato de =Francisco Fernando e muda tudo. Eu tento 
consolar-te e tu olhas-me com =hostilidade, quase como se 
tivesse sido eu quem matou o teu herdeiro ao =trono. Depois 
sais-te com um interrogatrio sem sentido. Assim, sem =mais 
nem menos, queres saber se vou continuar a ser soldado. Mas 
qual = a ideia?

200


Eu sou um militar. Conheceste-me de farda. Este assunto nunca 
foi posto =em questo. Esperas pela noite de npcias para 
reclamares o teu =direito de me interrogar sobre as minhas 
decises. Permites-me que =me sinta um pouco desorientado?
- No h motivo para te zangares - disse Josepha, irritada.
- A srio? Tenho a sensao de que alguma coisa est a =mudar 
entre ns, e no sei porqu.
- Mas alguma coisa mudou realmente. Eu estou aflita por causa 
da minha =gente, da minha terra, dos nossos inimigos - 
balbuciou ela.
- Giuseppina, por amor de Deus, no digas disparates. Eu sou 
a tua =gente e a tua terra. E no tenho inimigos, portanto tu 
tambm =no tens. Tu no s a ustria. s apenas a minha 
mulher. =Ou no?
- Ests a ser muito limitado. Esta noite no me divertes.
- Nem tu me ests a divertir - replicou Lorenzo. Escancarou a 
porta =do quarto e saiu. Antes de voltar a fech-la, disse: - 
Vou dormir =na saleta. Amanh de manh regresso a Npoles. 
Enquanto =reflectes sobre os teus direitos de mulher, 
reflecte tambm sobre =aquilo que queres fazer. Podes optar 
por vir comigo. Mas tambm podes =decidir ficar entre a tua 
gente, na tua terra, s voltas com os teus =inimigos.
Era uma discusso propriamente dita. O primeiro confronto, ao 
fim de =anos de um entendimento perfeito. E fora ela a 
provoc-lo. Estava =furiosa consigo prpria. Sentiu os passos 
do marido sobre o soalho do =vestbulo. Abriu a porta do 
quarto. Ele ia a descer as escadas.
- E no nosso filho, no pensas? - gritou Josepha, decidida a 
no =se deixar abater.
- Ests a fazer tudo sozinha. E ests a fazer tudo mal - 
=replicou ele, antes de bater com violncia a porta da sala.
Do quarto onde dormiam, Petra e Klara tinham ouvido o tom 
elevado da =discusso e as portas a bater.
- O que foi que ns lhe dissemos? Ela nunca nos quis dar 
ouvidos. =Sempre com aqueles italianos - lamentou Petra.
- Pobre menina - disse Klara, compadecida. -  falta de 
melhor, =c estamos ns para tomar conta dela.

201


NPOLES - PALCIO CASTIGLIA JULHO DE =1914


No jardim do palcio Castiglia, os netos =Alliata e os 
primos brincavam s guerras.
 sombra de um caramancho recoberto por uma =viosa passi-
flora de flores violeta, Josepha pregava com pontos 
=minsculos uma renda a toda a volta de uma camisinha. Era 
para o =beb que deveria nascer, segundo os seus clculos, no 
fim de =Dezembro.
Era o fim do ms. Dentro de alguns dias, toda a famlia 
Castiglia =se mudaria para Capri. Josepha, que, juntamente 
com o marido, era =hspede dos Castiglia h algumas semanas, 
ficaria em Npoles a =viver no apartamento que Lorenzo 
alugara em Posilippo. As ex-cunhadas, =Marianna e Virgnia, 
tinham-se disponibilizado para ajudar o casal a =arranj-lo. 
O apartamento estava quase pronto.
O isolamento dourado entre as paredes do palcio Castiglia 
era muito =cmodo para ela, sobretudo por causa das 
frequentes deslocaes =do marido entre Npoles e Roma.
O conflito, logo a seguir ao casamento, tinha-se concludo 
com uma =reconciliao apaixonada naquela mesma noite.
Josepha tinha recitado o acto de contrio, confessando o 
receio =de uma guerra e o medo de ver o marido envolvido 
nela, uma Vez que a =ustria, a Alemanha e a Itlia estavam 
ligadas por uma fiana. =Preferia que o marido deixasse o 
exrcito e se mudasse para Milo, =para trabalhar com o pai.

205


- Eu s sei ser soldado - disse ele. - No sou um homem de 
=negcios nem nunca poderia vir a s-lo, mesmo que te 
quisesse =agradar. Parece-te uma perspectiva assim to 
terrvel?
- S espero que no rebente uma guerra - murmurou ela, 
=abraando-o.
- E eu espero que rebentem mais discusses, se for este o 
preo =da reconciliao - brincou ele, cobrindo-a de beijos.
Alguns dias depois, partiram para Npoles e aceitaram a 
hospitalidade =da princesa Carolina.
A ustria declarou guerra  Srvia a 28 de Julho. No dia 1 de 
=Agosto, a Alemanha entrou na guerra, contra a Rssia. A 
Itlia, =at quele momento, mantinha-se neutral.
Quando os Castiglia, os Alliata e os Valeschi se reuniam para 
o jantar, =a guerra era um assunto inevitvel. Cada um dizia 
de sua justia. =Todos pediam informaes a Lorenzo, que 
frequentava as altas =esferas do exrcito e lhes conhecia os 
humores.
-  tudo por culpa do Kaiser.  um fantico, um homem 
sequioso =de poder. Conseguiu incompatibilizar-se com a 
Rssia e com a =Gr-Bretanha e puxar para o seu lado o velho 
Francisco Jos - =explicou, referindo substancialmente uma 
opinio comum a muita =gente.
Naquela manh de Agosto, enquanto o marido estava em Roma e 
os =sobrinhos brincavam, tranquilos, ela repensava as 
notcias =transmitidas pela imprensa e, por mais que se 
esforasse por olhar o =futuro com optimismo, no encontrava 
nada de tranquilizador.
Os jornais falavam de grandes desdobramentos de foras. A 
Alemanha =armara cinco milhes de soldados, os combatentes 
franceses eram =quatro milhes, e por a adiante. Aquilo que 
um ms atrs =parecia uma pequena contenda nos limites 
srvios, transformara-se =numa guerra que estava a envolver 
toda a Europa.
- Andava mesmo  tua procura - comeou Marianna, com uma voz 
=ansiosa. - Tentei telefonar-te, mas a Teresella disse-me que 
no =estavas em casa.
A cunhada vinha a subir os degraus do caramancho e deixou-se 
cair =sobre uma poltrona de vime, agitando nervosamente o
leque.
Trazia um vestido branco, muito leve, apertado na cinta com 
uma fita de =seda azul. As faces estavam rosadas por causa do

206


calor, dos cosmticos e da aflio. Depressa se sentiu o 
aroma =ligeiro do seu perfume.
- A Teresella seguiu as minhas ordens. Recomendei-lhe que no 
me =incomodasse - replicou Josepha em defesa da rapariga que 
prestava =servio na casa Castiglia.
- Espero no estar entre as pessoas que querias recusar, uma 
vez que =no sossego enquanto no te contar tudo - disse 
Marianna.
Josepha sorriu e pousou a camisinha sobre o cesto da costura.
- Queria defender-me da invaso do prncipe Dentice. Manda-me 
=flores, bilhetes, e telefona-me constantemente - 
justificou-se. =Conhecera-o num jantar em casa dos Alliata. 
Era um jovem alto, moreno, =com um rosto um pouco equdeo, 
maneiras aristocrticas e uma =verbosidade irreprimvel. 
Confiara-lhe imediatamente a amargura da =sua ltima 
desventura sentimental, contando-lhe com uma voz =amargurada 
o fim de um amor que julgara eterno. Os seus grandes olhos 
=azuis encheram-se de lgrimas. Josepha escutara-o com 
pacincia, =sem imaginar que o jovem pretendia fazer-lhe a 
corte. Assim que se deu =conta disso, decidiu evitar qualquer 
contacto.
- Mas  mesmo dele que te quero falar. Veio ter comigo hoje 
de =manh, muito cedo. Aquele pobre rapaz morre de vontade de 
te voltar a =ver. Sers assim to cruel, ao ponto de lhe 
negar um encontro? - =perguntou Marianna.
- Mas  claro. Ele sabe muito bem que eu tenho um casamento 
=feliz.
- Isso no importa. Um flirt terno nunca manchou a felicidade 
de um =casamento - sentenciou a outra com ar leviano.
- Marianna! Imagina s que o meu marido estava aqui a ouvir - 
=protestou.
- Os maridos! Por amor de Deus! Os homens so todos 
maravilhosos =enquanto so amantes ou namorados. Quando 
passam a maridos, =transformam-se, e a desgraada da mulher 
acaba por encontrar entre =os lenis um desconhecido 
enfadonho, cheio de exigncias, que =quer dela aquilo que ele 
j no lhe sabe dar - lamentou a =dama.
Josepha estava a divertir-se. J conhecia h algum tempo a 
=mentalidade de Marianna e de muitas outras jovens senhoras 
=entediadas.

207


No se escandalizava, mas no queria de maneira nenhuma 
=parecer-se com elas.
- Sei que te vou fazer sofrer uma desiluso, mas tenho de te 
dizer =com franqueza que Lorenzo no  um desconhecido 
enfadonho entre os =meus lenis. O casamento no alterou a 
nossa relao. Eu =s tenho olhos para o Lorenzo, e os meus 
pensamentos vo todos =para ele e para o nosso filho. O teu 
jovem amigo  procura de consolo =vai ter de arranjar outro 
ombro para chorar.
- Receio que tenhas uma doena crnica. Quanto a mim, resulta 
do =facto de seres austraca. Se fosses francesa, ou inglesa, 
ou russa, =havias de conhecer bem a leveza da vida. Mas s 
crucca. Para =ti, tudo tem de ser rigoroso, ordenado, sem 
imperfeies. E depois =admiras-te que estes pases se tenham 
unido contra os prussianos e =os austracos.  um confronto 
entre mentalidades diferentes - =declarou Marianna.
- Eu, de qualquer maneira, no me vou virar contra ti - 
garantiu =Josepha, divertida.
- Mas no colaboras com as minhas pequenas intrigas amorosas. 
Agora =que o Ruoppolo me deixou, sinto-me to s - lamentou 
=Marianna.
A desero do brilhante jornalista Ciro Ruoppolo deixara-a 
muito =infeliz, chegando mesmo a suscitar comentrios mais ou 
menos =venenosos em muitos sales napolitanos. O prncipe 
Alliata =tinha-se empenhado de todas as maneiras para 
consolar a mulher aflita. =At a levou com ele a Paris, na 
tentativa de a fazer sair da =depresso em que se precipitara 
depois de o amante ter sido chamado a =Roma, para trabalhar 
no Messaggero. Como  evidente, o novo cargo =tinha sido 
solicitado pela mulher de um senador do Reino, que a =prpria 
Marianna lhe apresentara, mais nova do que ela e igualmente 
=bonita. O jornalista desembainhou o seu fascnio napolitano 
e subiu =mais um degrau, esquecendo de um dia para o outro 
aquela amante e =benfeitora. Agora voava mais alto. Em Roma, 
com o apoio influente da =senhora senadora, fez a sua 
entrada no grande mundo da =poltica.
- Por que no te ofereces tu para consolar o prncipe 
Dentice? - =sugeriu Josepha, maliciosamente.
- J no sou uma menina, minha querida Josphine. Tenho de me 
=conformar com o meu papel de mulher submissa e de me.

208


J  tempo de me ocupar dos meus filhos - afirmou, 
=melanclica. - Olha para eles, ali. O mais velho tem dez 
anos e =ainda brinca com os mais novos. A minha me estraga 
aqueles netos com =mimos.
- A vem ela - observou Josepha. A princesa Carolina surgiu  
=entrada da alameda.
Trazia um vestido de seda ligeira de um azul intenso, quase 
lils. Os =cabelos acobreados, apanhados numa trana enrolada 
sobre a cabea, =estavam escondidos por um chapu de aba 
larga de uma organza =engomada, levssima, da cor do vestido. 
Para caminhar, apoiava-se =numa bengala. Envelhecera bastante 
naqueles ltimos quatro anos. =Depois da morte do filho, 
tinha ido  Sua para assistir, em =solido,  morte do 
marido. Provavelmente fizera,  cabeceira =do marido, um 
balano da sua vida. A consequncia disso foi uma =ligao 
ainda mais forte aos netos e  viva do filho. =Sofria de 
dores na anca, que acalmavam apenas quando estava sentada ou 
=deitada. Mas no se deixou abater pela melancolia. Insistia 
em pintar =o cabelo e usar vestidos exuberantes. Para evitar 
a hora de maior calor, =tinha sado muito cedo para fazer 
compras. Naquele momento, o =chauffeur seguia atrs dela, 
transportando uma pilha de caixas e =embrulhos.
Os netos viram-na e correram ao seu encontro, muito 
contentes.
- Av, av, os rebuados! - gritaram.
- No h bonbons se no respeitarem as regras da boa 
=educao - avisou, com o ar zangado do costume.
- Bonjour, grand-maman. Pode-nos dar os bonbons"? - disseram 
em =coro, esboando primeiro uma vnia e estendendo depois as 
=mos.
- Assim est melhor - disse ela a sorrir. Abriu a bolsa, 
pescou uma =mo-cheia de doces envolvidos em papel de estanho 
e distribuiu-os. =O chauffeur pousou os embrulhos num banco 
de pedra,  sombra de uma =grande magnlia. A filha e a nora 
desceram do caramancho para a =cumprimentar.
- Tenho de ir embora. Tenho hora marcada na modista - 
anunciou =Marianna, contrariada pelo facto de a chegada da 
me ter interrompido =as suas confidncias. - Maman, por 
favor, no fique com os =meninos para o almoo. Quero-os em 
casa comigo - recomendou antes =de se afastar.

209


- Ests a ver, bastou que aquele jornalista a deixasse para 
lhe =despertar o instinto maternal - comentou a princesa. E 
acrescentou: - =Enquanto durar, como  evidente. - Apoiou-se 
no brao da =rapariga e continuou: - Fui fazer umas compras 
para o teu beb. E =para ti tambm.
- Est a estragar-me com mimos. Agradeo-lhe infinitamente - 
=disse ela.
- Ento chega-me a a poltrona e despacha-te a abrir estas 
=caixas. O prazer de dar presentes est todo em ler a alegria 
no rosto =de quem recebe.
Josepha ajudou-a a sentar-se e comeou a desapertar fitas e 
=cordes. Dos embrulhos saram guizos de lata esmaltada, 
caixas de =msica escondidas no interior de pequenos animais 
de madeira, =lenis bordados, toucas e babetes 
impecavelmente brancos. Para =ela havia camisas de noite de 
seda e chinelos de pele guarnecidos com =penas de avestruz.
Eram peas de uma elegncia extrema, que Josepha nunca 
=compraria.
- Ser que algum dia lhe vou poder agradecer tudo isto, 
querida =maman! - disse, abraando-a com afecto.
-  claro que podes. Vai procurar algum e diz para me 
trazerem =um bom caf - pediu-lhe, e comeou a lamentar-se 
porque, depois =da morte de Sas, no tinha mais nenhum 
criado em condies =para o substituir.
A rapariga percorreu a alameda e entrou em casa. Teresa vinha 
a descer =as escadas e transportava um saco de tela que 
parecia muito pesado.
- Larga tudo e vai depressa preparar um caf para a princesa. 
=Serve-lho no jardim - ordenou Josepha.
- No posso - disse a rapariga com um ar triste. - Vou-me 
=embora.
- No percebo - respondeu, admirada.
- Muito obrigada por tudo, minha senhora. O que acontece  
que =no posso continuar aqui - insistiu Teresa tristemente.
- Foste despedida?
- Vou ser, em breve. Estou grvida e no tenho marido - 
=sussurrou.

210


- Conta-me tudo - pediu Josepha. E acrescentou: - No se v 
=que ests grvida.
- Apertei o mais que pude as fitas do corpete - respondeu 
Teresa.
- Isso no faz nada bem ao teu beb - observou.
- Mal saia daqui, deito-o fora.
- Como? - perguntou, horrorizada.
- Deito fora o corpete.
- Quando nasce?
- Em Novembro.
- E ele no casa contigo.  isso?
- No pode. Est na cadeia - confessou. - No tive coragem 
=de contar nem sequer  Sofia. Sei que a ia desiludir, porque 
fez =muito por mim e me avisou muitas vezes. Mas quem podia 
imaginar que o =iam meter em San Francesco?
- Roubou? Matou algum? - quis saber Josepha.
- Envolveu-se numa rixa entre militantes polticos e deu um 
murro a =um dirigente socialista que o denunciou - explicou 
Teresa. E continuou: =- amos casar em Maio. Eu ainda no 
sabia que estava grvida. =Ele, o Benedetto, tem este 
bichinho da poltica, da justia. O meu =pai dizia: Nascemos 
miserveis e assim havemos de morrer. O =Benedetto diz: 
Nascemos miserveis e devemos lutar pela =justia. O 
resultado  que agora sou obrigada a ir embora, =porque uma 
criada grvida  despedida, como deve ser.
- Vai tirar esse corpete e continua a fazer o teu trabalho. O 
teu =menino vai nascer aqui e eu vou ser a madrinha - afirmou 
Josepha.
Teresa enxugou as lgrimas e olhou-a, hesitante. Depois 
disse: - =Muito obrigada. No posso aceitar. - Baixou os 
olhos e acrescentou: =- Da senhora, da princesa e da Sofia 
recebi muito. No  justo =que me aproveite mais do que  
devido de tanta generosidade.
- E para onde vais? - perguntou Josepha, preocupada.
- Para a terra do Benedetto. A me dele e as irms esto  
=minha espera. Ali fora est o Pietro, um amigo do Benedetto, 
que me =vai acompanhar durante a viagem. Peo-lhe que diga  
Sofia que =gosto muito dela e que lhe agradeo por tudo - 
concluiu. Pegou o =saco e dirigiu-se  porta.
- Teresella! - Josepha gritou o seu nome, estendendo-lhe a 
mo.

211


A rapariga voltou-se para ela.
Josepha queria dar-lhe a certeza de que, se fosse precisa 
alguma ajuda, =ela estaria sempre disponvel. Mas disse: - 
Posso vir a precisar de =ti. - No percebeu o que a levara a 
pronunciar aquelas palavras. =Talvez fosse a dignidade 
daquela jovem rapariga do povo que lhas tivesse =sugerido.
- Nesse caso, c estarei - prometeu Teresa, antes de fechar a 
porta =atrs de si.


212


MONTES LATTARI JULHO DE 1914


Bello Fiore era o nome da minscula aldeia =abrigada nos 
montes Lattari, nas proximidades da Ponta delia Campanella, 
=em frente a Capri. Teresa ia sentada numa carroa puxada por 
um burro =que Pietro tinha arranjado sabe-se l como. A 
estrada trepava ao =longo da costa rochosa e,  medida que 
iam subindo, o ar tornava-se =mais fresco.
- No tens nada a temer por ti nem pelo teu filho. =Ns, os 
companheiros, juntmo-nos e conseguimos arranjar este 
=dinheiro
- disse Pietro, entregando-lhe um leno cheio de moedas. - E 
=h-de haver mais, quando precisares.
Teresa aceitou o dinheiro e guardou-o no bolso da saia. Nunca 
tinha =sado de Npoles e nunca teria imaginado nem desejado 
subir =aqueles montes para se juntar a uma famlia que no 
conhecia. A =carta que Benedetto lhe escrevera a esse 
propsito no chegava =para a tranquilizar. Enfiou uma mo no 
bolso, pegou num papel dobrado =e estendeu-a a Pietro.
- L outra vez, se fazes o favor - pediu.
- Teresa, tu tens de aprender a ler - suspirou o homem, 
reSignado por =ter de repetir as palavras de Benedetto, que a 
rapariga no se =cansava de ouvir.
- E vou aprender. Juro que vou - prometeu. Era humilhante ter 
de =recorrer aos outros para comunicar com o seu apaixonado.
- Em Bello Fiore h escola. E eu vou para l - decidiu. E 
=acrescentou: - Entretanto, l tu.

215


- Diz assim: Minha Teresella, deste-me um presente que  o 
=maior que pode haver. Os meus dias na priso so menos 
pesados por =saber que vou ser pai. No te deves angustiar 
por minha causa nem por =causa do beb que vai nascer.
- Repete l o que quer dizer angustiar - pediu-lhe.
- Quer dizer que no te deves preocupar - disse Pietro, sem 
=pacincia.
- Isso mesmo. Eu j sabia. Mas se ele tivesse escrito: No 
te =preocupes, tinha sido mais claro. Ou no?
- Ento, o que fao? Continuo a ler ou preferes discutir as 
=palavras ?
- L, l. O Benedetto  um literato, isso no se discute. 
=Mas no conhece as coisas da vida. Eu estou grvida e ele 
escreve =que, por causa disso, os dias dele so menos 
pesados. Parece-te =possvel?
- Teresella, mas o que  que tu queres que eu te faa? - 
Pietro =era avaro de palavras e, sobretudo, estava convencido 
de que Teresa =tinha razo.
- Nada, d-me outra vez a carta - decidiu.
Em qualquer caso, sabia-a de cor. Benedetto dizia que os 
pais, as =irms e os cunhados a receberiam como uma filha. Na 
sua simplicidade, =Teresa no parava de se perguntar por que 
razo Benedetto, que =tinha fugido de Bello Fiore, lhe 
impunha a ela ir para l viver. =Deduziu que essa era a 
maneira que ele tinha de a ajudar. Mas ela antes =queria ter 
ficado em Npoles, a viver no quarto de Benedetto, na 
=Marina. Essa seria uma soluo mais correcta, porque ficava 
a =dormir na cama do seu homem e sentir-se-ia menos s. Era 
quase como =estar junto dele. Talvez conseguisse at arranjar 
uma licena para =ir visit-lo a San Francesco. Porm, ele 
decidira mand-la =l para cima. Porqu?
- Ests um bocado nervosa - observou Pietro.
- Estou desesperada - declarou, e desatou num pranto.
Pietro tirou o bon e passou um leno pela testa e pelo 
=pescoo, cobertos de suor. Quando a vereda saa da zona de 
sombra, =o sol de Julho cortava a respirao.
- J percebi que ests desesperada. Toma, bebe que est 
fresca =e faz-te bem - disse, oferecendo-lhe uma bilha de 
gua. E =continuou: - Eu no sou capaz de consolar ningum. 
Se continuares =a chorar, deixo-te o burro e a carroa e 
regresso a p. Raios me =partam a mim e quele doido do 
Benedetto,

216


que me mete sempre nestas coisas.
- Deixa l o Benedetto. Ele sabe sempre o que faz e o que diz 
- =censurou Teresa, deixando imediatamente de chorar.
- Se pensas assim, por que  que te lamentas? - observou 
Pietro, =irritado.
Olharam-se nos olhos, um claro brilhou no olhar de cada um e 
=explodiram juntos numa gargalhada libertadora. Em seguida 
viram, do lado =direito, uma pequena casa em runas e, depois 
de fazerem a curva, =apareceram as formas brancas de mais 
algumas casas. Entraram na aldeia. =Ouviram-se vozes de 
crianas. Um campons que empurrava uma =carroa cheia de 
feno atravessou a rua e parou a olhar para eles, =curioso.
- Isto  Bello Fiore? - perguntou Pietro.
-  sim. O que querem? - quis saber o homem, desconfiado.
- Estou  procura da casa do Benedetto Zicri - disse o rapaz.
- Porqu? O que foi que ele fez? - perguntou o campons com 
uma =voz esganiada.
- Ele sabe muito bem tratar dos assuntos dele - respondeu 
Teresa, =aborrecida.
- Que tambm so meus - replicou o homem. E berrou: - 
Carmela, =Innocenza, Delfina, Giacomo! Chegou a rapariga! E
tem uma lngua comprida.
- J falei de mais! - exclamou Teresa, descendo da carroa.
- Assustaste-o. Foi pedir ajuda s mulheres - sussurrou 
Pietro, =com ar de quem estava a divertir-se.
A pequena aldeia ganhou alma nova. As mulheres chegaram-se s 
portas =e s janelas para observar Teresa, que avanava 
lentamente, =transportando um saco que continha todo o seu 
guarda-roupa.
Ento era aquele o lugar de onde Benedetto fugira. No era 
=diferente daquilo que ele lhe tinha descrito. E no lhe 
agradou. =Talvez ainda estivesse a tempo de voltar a subir 
para a carroa e =regressar a Npoles. Pensou em Benedetto, 
nas palavras dele. Decidiu =que tinha de ser forte, porque 
estava sozinha a enfrentar toda a =famlia Zicr e a aldeia 
inteira que a observava, a avaliava e =certamente conhecia a 
sua histria.
Contou os homens, as mulheres e as crianas que estavam 
reunidos em =frente a uma espcie de grande casebre por baixo

217


de um afloramento de rocha. Eram dezanove. Pousou o saco no 
cho, =libertou-se do leno que lhe cobria os cabelos e 
recordou que era a =filha de Rosa Avigliano, uma mulher forte 
que nunca se deixara ir =abaixo.
- Sou a Teresa - disse com uma voz segura. - A noiva do 
Benedetto - =acrescentou.
Aguentou-lhes o olhar e, por sua vez, avaliou um a um aqueles 
rostos =sem expresso, curtidos pelo sol. Percebeu que devia 
ainda dizer mais =alguma coisa. - O Benedetto mandou-me vir 
ter convosco. E no =cheguei de mos vazias - continuou. 
Tirou do bolso o leno com o =dinheiro que Pietro lhe tinha 
dado e deu dois passos em direco = mulher mais velha, que 
era parecida com Benedetto. - Isto  da =parte do seu filho. 
Para o que for preciso - concluiu, entregando-lhe =o leno.
A mulher enfiou-o rapidamente no colarinho da camisa e depois 
estendeu =os braos.
- Vem c, aqui junto ao meu peito, minha filha! - exclamou. 
=Ento toda a famlia se juntou  volta dela e todos a 
=quiseram
abraar. As crianas esconderam-se atrs das saias das 
=mulheres e Teresa deu um suspiro de alvio. Apresentou 
Pietro, que se =afastou imediatamente para falar com os 
homens, mas que antes conseguiu =sussurrar-lhe: - 
Conseguiste. Vais ver que no vai ser assim to =terrvel.

218


NPOLES - ESCRITRIO DE ADVOGADOS JULHO =DE 1914


Languidamente abandonada sobre as almofadas do =canap, 
Virgnia fumava um cigarro e ouvia sem interesse as =palavras 
de Franco Fasulo, o seu novo amante.
- Virgnia, ests a ouvir-me? - perguntou ele, =que acabara 
de lhe expor um discurso que devia proferir na assembleia 
=distrital.
- Mas  claro! Tenho vinte e sete anos e ainda no estou 
surda - =replicou.
- Ento, o que foi que eu disse? - provocou o homem. Era um 
jovem =advogado, bonito e de boa famlia, que esperava 
conquistar uma =poltrona no parlamento. Estava absolutamente 
convencido de que =Virgnia conhecia bem a actual situao 
poltica. Por isso, =quando tinha de fazer uma interveno 
importante, pedia a =opinio dela. Ela acabava por fazer uma 
observao ou uma =crtica que lhe davam alguma ajuda.
- Quanto a mim - comeou Virgnia, devagar, porque daquela 
longa =exposio no apanhara uma nica palavra -, quanto a 
mim, =neste momento  melhor no assumir discursos muito 
comprometidos. =Ouve, Franco, pensa mas  em divertir-te e em 
fazer amor mais vezes =- aconselhou.
- J percebi. O meu discurso  um fiasco. No gostaste - 
=concluiu, enfiando-lhe uma mo por baixo da saia e 
acariciando-lhe =uma perna.
Virgnia tinha ido ter com ele a sua casa, na Piazza 
Plebiscito, e =encontrara-o sentado  secretria, em mangas 
de camisa, a =trabalhar.

221


Estendeu-se num canap, esperando pacientemente que ele 
acabasse. =Durante algum tempo, folheou os jornais do dia, 
sem encontrar =notcias interessantes, a no ser a de um 
cirurgio francs =que conclura com sucesso uma interveno 
no corao de =um cachorro.
Por fim acendeu um cigarro e, observando o fumo que ondeava 
sobre =uma lmina de sol, apercebeu-se de uma forma aguda de 
toda a =infelicidade que lhe pesava no corao. Virgnia 
Castiglia, =princesa da Calbria, era vtima de uma me 
autoritria, =escrava do cio, incapaz de fazer o que quer 
que fosse, at de =decidir sobre a prpria vida. Vingava-se, 
desprezando toda a gente e =procurando como amantes homens 
casados, pelo prazer de dar um desgosto =s mulheres. Mas, ao 
fim e ao cabo, no tirava nenhum prazer =destas maldades. 
Pelo contrrio, sentia-se ainda mais infeliz.
A me, quando falava dela, soltava um suspiro de resignao. 
A =irm, Marianna, tratava-a com condescendncia. O cunhado e 
outros =parentes consideravam-na uma solteirona caprichosa. 
Os criados =detestavam-na. S Josepha, a crucca, lhe 
dedicava um pouco =de ateno. s vezes pedia-lhe uma 
sugesto ou uma ajuda. =Virgnia gostaria de lhe ficar grata 
por essa considerao, mas =um demnio que no conseguia 
controlar impelia-a a reagir com =grosseria. Depois 
arrependia-se, pedia desculpa e, por fim, =recomeava a 
detestar toda a gente. Mais do que uma vez lanara =sobre a 
me o seu descontentamento, atirando-lhe  cara uma 
=paternidade incerta.
- Ser que alguma vez vai chegar o dia em que acabas por 
admitir que =no sou filha do meu pai? Toda a gente conhece a 
histria do teu =amor por aquele mocho horroroso - 
atirava-lhe com dio, =referindo-se ao ento director das 
destilarias da famlia.
A me acariciava-lhe a face e acompanhava o gesto com um 
sorriso. O =mocho horroroso era um homem honesto e 
empreendedor que, ao =longo dos anos, transformara uma 
empresa artesanal numa indstria =rentvel. Carolina amou-o 
pela sua inteligncia, pela modstia =e, sobretudo, pela 
total dedicao a ela e ao trabalho. Ao =contrrio de Enrico 
e Marianna, concebidos por dever, Virgnia =fora o fruto de 
um grande amor que s a passagem do tempo diluira =numa 
afectuosa amizade. Mas ela nunca admitiria, nem no segredo do 
=confessionrio, a verdadeira paternidade desta filha. 
Deixava =espao aos sussurros e s bisbilhotices, sem se 
preocupar com =isso.

222


Por isso respondia-lhe, pacatamente: - Tu s uma Castiglia e 
nunca =me fars admitir uma verdade diferente que no existe. 
De resto, =s mesmo tu quem me vai assistir na minha velhice.
At certo ponto, esta estratgia tinha funcionado. Virgnia 
=parecia ter aceitado o papel de filha devota, sacrificada ao 
egosmo =materno. Depois comeou a revoltar-se. Aconteceu 
quando Enrico se =matou e Josepha voltou a viver na ustria. 
Um escritor arruinado =deitou-lhe os olhos e pediu-a em 
casamento.
- Leve-a - disse Carolina. - Mas fique sabendo que no vai 
casar =com o patrimnio dela. A minha filha s se leva a ela 
prpria =como dote.
O homem desapareceu com a velocidade de uma lebre. - Gostaria 
de te ter =poupado a esta humilhao - disse em seguida a 
Virgnia. - Eu =sei que s infeliz, mas ias ser ainda mais 
infeliz se te casasses com =aquele falso apaixonado que, 
ainda por cima, no amas realmente.
Virgnia exigiu uma compensao.
- Quero viver sozinha. O apartamento de Enrico passa a ser 
meu e eu =recebo quem me apetecer.
Teve alguns amantes distrados e rigorosamente casados para 
evitar =posteriores desiluses. O advogado Franco Fasulo era 
o mais recente. =O desencanto, pago a peso de ouro, agradava 
aos homens habituados s =comdias femininas representadas em 
tons de desapego, de =subentendidos, de falso pudor. Virgnia 
era arguta e impiedosa nas =relaes que mantinha com eles. 
Esta caracterstica levava-os =a esquecer a sua escassa 
formosura.
Agora, em frente ao homem que lhe mendigava uma opinio, 
Virginia =sorriu.
- O teu discurso  um fiasco porque tu s um fiasco - disse 
com =o prazer sdico de pronunciar uma verdade e de aliviar o 
seu =Prprio descontentamento.
O homem estremeceu, como se tivesse recebido uma bofetada. 
ela =sorriu-lhe e resolveu dourar a plula.
- Politicamente falando, entenda-se - precisou. E 
acrescentou: - =Tens de te libertar das tuas ideias 
socialistas. Volto a dizer-te, =Franco: fica calado, pelo 
menos durante algum tempo. Depois J podes =alinhar com os 
republicanos. Entretanto,

223


por que no te distrais um pouco? - props num sussurro, 
enquanto =lhe desfazia o n da gravata com um gesto ligeiro.
O advogado encaixou o golpe, que podia ser tambm um aviso 
=precioso.
- Propes-me que traia os meus companheiros - comentou, 
porque =precisava de tempo para assimilar o conselho de 
Virginia e para o =avaliar.
- Mas j os traste. Mandaste para San Francesco um 
desgraado =que teve o azar de te assentar um murro bem 
merecido - disse ela, =recordando ento um pedido de Josepha.
A ex-cunhada, alguns dias antes, tinha-lhe pedido um favor.
- Trata-se do noivo da Teresa. Agrediu, durante uma 
discusso, o =advogado Fasulo. A Teresa est grvida e foi-se 
embora. Ele =est na priso. A Sofia explicou-me que foi uma 
desavena =entre companheiros, porque so todos socialistas. 
Se o Fasulo retirar =a denncia, aquele infeliz pode sair da 
priso e casar com a =rapariga - explicou-lhe.
- Vou ver o que posso fazer - prometeu-lhe. E esqueceu-se 
logo a =seguir. S agora voltou a lembrar-se.
- Ests a falar daquela cabea quente do Zicr - disse o 
=homem.
- Ele mesmo. Seria realmente caso para uma denncia?
- Ests a pedir-me um favor - constatou ele, com um ar 
=satisfeito.
- Exactamente - anuiu Virginia.
- E eu fao-to com prazer. Alguma vez te poderia negar alguma 
=coisa?
Virginia pensou que lhe negava uma dedicao total. Mas isso 
nunca =tivera de ningum.
Os seus amantes pensavam raramente nela. Virginia 
compreendera h =algum tempo que a distraco era uma 
caracterstica comum aos =homens. Conhecera apenas um homem 
capaz de uma dedicao total. =Era Lorenzo Valeschi, o marido 
de Josepha. Estava perdidamente =apaixonado pela mulher e, 
quando era forado a deix-la s =durante alguns dias, 
enchia-a de telegramas, de telefonemas e de =flores.
O advogado Fasulo esqueceu a promessa que tinha feito, 
arrastado por =outras preocupaes. S ao fim de alguns meses

224


se voltou a lembrar, por acaso. Correu ento at ao tribunal, 
deu =gorjetas a toda a gente para que se encontrasse 
rapidamente o processo =referente a Benedetto Zicri e 
esforou-se por o pr em liberdade =o mais depressa possvel.

225


MONTES LATTARI NOVEMBRO DE 1914


Era como se uma fora maligna lhe dilacerasse =as 
vsceras. As dores tinham comeado durante o sono, com uma 
=pequena punhalada que a obrigou a acordar. Depois tinham-se 
tornado =cada vez mais frequentes e intensas, continuaram 
durante todo o dia e =agora, a meio da noite, Teresa lanou 
um grito.
Carmela, uma cunhada com perto de trinta anos que dera = luz 
dez filhos, cinco ainda vivos, enfiou-lhe na boca um pedao 
=de madeira. - Morde, que a dor passa - prometeu.
Estava no quarto do rs-do-cho, num colcho de palha 
=improvisado, ao p do lume onde as mulheres aqueciam panelas 
de =gua. Uma parede de tbuas separava o quarto em dois. Do 
outro =lado era o estbulo da vaca, do burro, das cabras e 
das galinhas.
O tempo tinha estado bom at h dois dias atrs, mas de 
=repente, na noite em que entrou em trabalho de parto, 
comeou a =soprar uma nortada fortssima que assobiava 
atravs das frestas =mal vedadas e deixava os animais 
nervosos. Os homens e as crianas =estavam nos quartos do 
andar de cima. Os mais pequenos dormiam. As =mulheres estavam 
todas em baixo, aflitas e atarefadas. Cada uma dizia a =sua 
sentena para enganar o tempo e o medo. O parto nunca era um 
=acontecimento simples. Nunca como naquela ocasio a vida e a 
morte =estavam to estreitamente ligadas. Quando a vida 
prevalecia, era um =milagre. Quando vencia a morte, era uma 
fatalidade aceite. Filomena, uma =velha que curava todas as 
doenas e assistia as Parturientes e os =moribundos, tinha 
ido ter com elas.

229


No tinha dentes, e a sua face era um reticulado de rugas. De 
vez em =quando, em intervalos regulares, massajava o ventre 
nu e inchado de =Teresa com um leo que extraa de certas 
ervas e que parecia =aliviar a dor.
Tinham acendido velas em frente  imagem de Nossa Senhora. As 
=mulheres, uma de cada vez, ajoelhavam-se e rezavam, porque a 
ajuda de =Filomena no seria eficaz sem as oraes.
Teresa espetou os dentes na madeira. Do seu ventre saiu um 
fio de sangue =rosado no momento em que Filomena, com a ajuda 
de uma vela, verificava a =situao. A velha sorriu, 
satisfeita.
- Agora tens de respirar pouco e depressa, e entretanto deves 
pensar =numa coisa que te agrade muito. Assim, o teu filho 
entra neste mundo =bem-disposto - ordenou  rapariga.
Teresa estava fraqussima. Um dia e duas noites de trabalho 
de =parto tinham-na esgotado. Se Benedetto ali estivesse, a 
acariciar-lhe =o ventre, se o beb sentisse a mo forte e 
firme do pai, em vez =daquela seca e rugosa de Filomena, 
talvez j se tivesse decidido a =sair.
Nos quatro meses passados naquela montanha spera, Teresa 
tinha =aprendido a escrever por amor dele. S ela sabia 
quanto trabalho lhe =custara aprender a segurar a caneta com 
a mo, a gui-la com os =dedos leves sobre uma folha, tendo 
cuidado com a quantidade de tinta, a =no subir nem descer, 
mas a seguir a linha pacientemente traada =pelo professor 
que, a cada erro, lhe dava uma reguada nas mos. =No era 
fcil traduzir em letras os sons de cada palavra. - 
=Nha-nhi-cha-chi-lho-lhi, escrevem-se assim - dizia o homem, 
que =era tambm sacristo da igreja de Sant'Angelo.
Teresa encheu um caderno com sinais que reproduziam os sons 
da sua voz. =Todas as folhas estavam salpicadas de manchas de 
tinta e buracos da =borracha, e depois j no se lembrava 
quando se usava a letra =maiscula e a minscula, quando era 
preciso o h e quando =no era preciso. A pontuao era um 
mistrio insondvel, =assim como a conjugao dos verbos, a 
escolha dos artigos e os =acentos.
- Por que  que  to fcil falar, e escrever  um =drama? - 
perguntava ao professor. - Quem foi o desgraado que 
=inventou a escrita? No me diga, Sr. Professor, porque eu j 
sei. = algum que me odeia bastante, apesar de eu no lhe 
ter feito =nada.
-  algum que te quer bem e que te diz: Teresella, o teu 
=marido est na priso. Apesar de estarem longe um do outro,

230


eu vou ensinar-te uma magia para estares perto dele. Por 
isso, aprende =a escrever e a ler, para no precisares de 
recorrer a mim para =decifrar as cartas do Benedetto.
Foi um cansao de semanas. No fim, porm, Teresa conseguiu 
mandar =a Benedetto a sua primeira carta. Ela mesma a 
entregou ao carteiro que =passava em Bello Fiore todas as 
semanas. Depois ficou a contar os dias =que a separavam da 
resposta. O carteiro viajava num carro cheio de =encomendas 
que tinha que distribuir ao longo do percurso. Era uma pessoa 
=respeitada por toda a gente, at porque, para alm de 
entregar as =cartas, lia-as e escrevia as respostas. 
Anunciava a sua chegada com uma =trombeta de lato reluzente 
e conhecia todas as pessoas daquelas =montanhas.
Teresa no coube em si de alegria quando o carteiro lhe 
entregou um =envelope.
- Queres segur-la junto ao peito durante algum tempo, ou 
queres =que ta leia j? - perguntou o homem.
- Deus o abenoe, Sr. Ignazio. Desta vez vou l-la sozinha - 
=respondeu com orgulho.
Estava sentada numa pedra, na beira da estrada, e comeou a 
soletrar =as palavras escritas no envelope:  gentil menina 
Teresa =Avigliano, ao cuidado da famlia Zicri, Bello Fiore.
Era esta a magia de que falava o professor. Pela primeira 
vez, no =precisava de partilhar com ningum as palavras do 
seu homem. Rasgou o =envelope e abriu o papel dobrado. 
Benedetto comeava assim: Minha =Teresella, chorei de 
alegria. Aprendeste a escrever e sei que o fizeste =por 
amor....
No teve em conta os inmeros erros, a falta de pontuao, 
=as maisculas espalhadas aqui e ali pelo prazer de as 
traar, a =incapacidade de seguir as linhas. Nem uma palavra 
sobre tudo isto. =Apenas a comoo por aquela incrvel prova 
de amor. Com uma =pacincia mfinita, Teresa conseguiu ler a 
carta inteira, que continha =uma notCia importante.  
incrvel, Teresella querida, mas =aconteceu um Milagre. O 
companheiro socialista a quem bati retirou a =denncia, agora 
tenho a certeza de que no vou continuar a ver o =sol aos 
Quadrados. Seguiam-se cinco linhas apagadas pela censura da 
=prso. A carta acabava assim: Espera por mim, porque vamos 
=voltar a ver-nos em breve. Benedetto.

231


A jovem repetiu em voz baixa: Agora tenho a certeza de que 
no =vou continuar a ver o sol aos quadrados. O que quereria 
ele dizer =com aquelas palavras? Ela conhecia o sol a 
pique, o sol =baixo, o sol de Julho. Enfiou a carta 
junto ao peito e, com =o andar pesado pela iminncia do 
parto, foi at  escola.
Abriu a porta da sala de aula, avanou rapidamente por entre 
os =bancos dos alunos e aproximou-se do professor, que estava 
sentado  =secretria.
- O que queres, Teresella?
- O que  o sol aos quadrados? - perguntou em voz baixa.
- No  preciso sussurrar.  uma expresso que toda a gente 
=pode ouvir e aprender. O sol aos quadrados  o que entra na 
=priso
- respondeu.
Esta explicao ainda a confundiu mais.
- Mas o que  que o sol tem a ver com quadrados? - insistiu.
- Teresella, acorda! A janela da priso tem barras. Ests a 
ver? =- respondeu o maestro, impaciente. - Os raios de sol, 
atravs da =grade, projectam na parede tantos quadrados 
quantos os que formam as =barras.
Ento compreendeu e ficou furiosa.
- Aquele homem  sempre o mesmo. Podia escrever: Tenho a 
certeza =de que vou sair da cadeia. - Oh, Senhor Jesus, o 
Benedetto vai =voltar, livre! - gritou, saindo rapidamente da 
sala de aula, e correu =at casa para ir ter com a sogra e 
dar-lhe aquela boa notcia. =Foi ento que chegou a primeira 
contraco. Ela quase no se =deu conta.
Agora, Filomena tentava convenc-la a pensar numa coisa que 
lhe =desse prazer. A imagem mais bonita que lhe veio  cabea 
foi =Benedetto  porta de casa. Uma lufada de ar gelado 
entrou no =quarto.
Teresa cuspiu o pedao de madeira que apertava com os dentes, 
=lanou um grito e chorou de alegria enquanto o menino, com 
um jorro, =saa do seu ventre. Benedetto estava l para o 
receber.
Teresa abriu os braos e apertou contra si o filho e o seu 
homem.

232


NPOLES - CASA JUNTO AO MAR DEZEMBRO DE =1914


Finalmente regressava a Npoles com Benedetto =e com o 
filho. Pusera-lhe o nome de Giuseppe, em honra daquela linda 
=princesa austraca. Apertava-o bem nos seus braos, 
embrulhado em =xailes de l; e comparava a melancolia da 
viagem para Bello Fiore com =a alegria daquele regresso  sua 
cidade, onde a esperava a casa de =pescadores e a esperana 
de um futuro em famlia.
Dera  luz trs dias atrs e sentia-se ainda =um pouco fraca. 
Benedetto opinara timidamente que seria melhor ficar em 
=Bello Fiore durante mais algum tempo. Teresa no quis saber 
das suas =razes.
- Vim at aqui por obedincia e por necessidade. Mas no 
quero =ficar nem mais um dia - disse-lhe, num dos raros 
momentos em que =conseguiram ficar sozinhos.
- Sentiste-te assim to mal aqui? - perguntou-lhe ele.
- S porque tu c no estavas. E tambm porque me faltavam 
=as ruas de Npoles, o rudo dos mercados, os palcios e as 
=igrejas. Nasci pobre, mas citadina. Entendes-me? - tentou 
=explicar.
Benedetto entendia perfeitamente. Embalaram os seus pertenCes 
e =amarraram o burro  carroa que a famlia Zicri enchera de 
=lenha para o fogo, marmelos, azeitonas, farinha de trigo, 
queijos, =tomates secos, ovos frescos e fraldas e faixas para 
o pequeno Pinuccio. =A Teresa ofereceram um caderno novo e um 
estojo de madeira, continha =lpis e penas.
Este presente encheu-a de orgulho.

235


Benedetto contou-lhe a ela e aos outros o milagre daquela 
imprevista =autorizao de sada da priso. O homem que ele 
agredira, e =por quem fora denunciado, esperou-o  sada da 
priso, =apertou-lhe a mo e disse-lhe: No me agradeas. 
Foi tudo =graas  princesa Virgnia Castiglia.
Ento Teresa disse: - Vais ter de lhe ir agradecer.
- J o fiz por intermdio do advogado Fasulo - respondeu 
=ele.
- Mas no chega. Tens de lhe agradecer pessoalmente - 
insistiu =Teresa. - E vais faz-lo j, assim que chegarmos a 
casa.
- Assim que chegarmos a casa tenho de procurar trabalho, pois 
se no =for assim no temos de que viver - objectou, porque a 
ideia de se =apresentar no palcio Castiglia deixava-o pouco 
 vontade.
Mas Benedetto conhecia aquela jovem companheira. Sabia
como era teimosa. No lhe daria trguas enquanto no lhe 
=fizesse a
vontade.
No quarto que ocupara com Pietro encontraram uma dzia de 
=companheiros, com mulheres, namoradas e filhos, que os 
esperavam para =comemorar o regresso. Ofereceram-lhes fraldas 
e casaquinhos para =Pinuccio, um xaile para Teresa, garrafas 
de vinho e panelas de =macarro mergulhado num molho com 
muita carne.
Teresa chorou, em parte pela comoo e em parte porque o
parto a enfraquecera.
As duas camas, que tinham pertencido a Pietro e a Benedetto, 
=estavam encostadas, e os espaldares de ferro estavam atados 
com fitas =brancas de tule. Quando os amigos foram embora, 
Teresa e Benedetto =improvisaram um bero para o beb, 
juntando duas cadeiras. Puseram =uma almofada por cima e ali 
instalaram Pinuccio. Teresa, exausta, =estendeu-se na cama 
depois de ter pousado em cima da mesa o dinheiro =que 
entregara  sogra e que lhe fora restitudo no momento da 
=partida. Guarda-o. Podes vir a precisar dele. O meu filho  
=instrudo mas no  muito esperto. Agora que se vo casar, 
=v se consegues mudar-lhe a cabea, recomendou a
mulher.
Benedetto, naquela noite, foi prdigo em atenes com ela e
com o pequenino.
- Amanh vou regist-lo e digo que nasceu em Npoles -
disse.


236


- Dizes que nasceu em Bello Fiore - corrigiu Teresa.
- No  um bom stio para se nascer - objectou Benedetto.
- Para ele foi. Se comeamos com uma mentira, toda a vida 
dele =ser uma mentira - sentenciou. E continuou: - Depois 
temOS de nos =casar. Mas, antes de mais, tens de agradecer  
princesa.
No havia maneira de a fazer mudar de ideias.
Na manh seguinte, Teresa levantou-se cedo. Deu de mamar ao 
menino e =depois preparou o caf. Deitou-o lentamente na 
chvena, =adoou-o e sentou-se na cama.
- Amor, acorda - sussurrou, pousando um beijo nos lbios de 
=Benedetto. Ele abriu os olhos e sorriu.
- Que cheiro to bom a caf - constatou, com uma voz 
=ensonada.
- Bebe, enquanto est quente - disse ela.
- No ouo o Pinuccio - disse, assustado.
- Est a dormir. Ele j comeu - tranquilizou-o. Benedetto 
=esvaziou a chvena quase de um s trago, pousou-a
no cho e puxou a rapariga para si, apertando-a entre os 
=braos.
- Ao fim de seis meses em San Francesco j me tinha esquecido 
de =como  bom abraar uma mulher - murmurou, desejando-a.
- Eu no sou uma mulher. Sou a tua mulher. Exprimiu-se mal, 
senhor =professor - comentou, irnica. - Seja como for, agora 
vai cumprir o =teu dever - ordenou-lhe.
- Eu obedeo, patroa - brincou Benedetto. Mais tarde, tocava 
 =porta de servio do palcio Castiglia. Foi Saverio quem 
abriu.
- Queria falar com a Sofia - disse.
- E tu quem s? - perguntou o criado.
- O noivo da Teresella - apresentou-se, tirando o gorro. O 
homem que =estava  sua frente era um proletrio como ele, 
mas parecia um =privilegiado. Via-se logo que nunca falhara 
uma refeio, que =tinha certamente uma cama confortvel e 
vestia um fato feito  =medida, apesar de ser uma farda de 
criado.
- A Sofia j c no est.
- Morreu? - perguntou, assustado.
-  como se tivesse morrido. Foi l para cima, para a 
ustria, =com a princesa Josepha - respondeu, e acrescentou: 
- Como est a =Teresella?

237

- Est bem, e disse que eu tenho de agradecer pessoalmente  
=princesa Virginia - explicou Benedetto.
Naquele momento, Saverio gostaria de lhe fazer algumas 
perguntas, mas =no quis ser bisbilhoteiro.
- Escreve uni bilhete. A princesa l - sugeriu.
Era um bom conselho. No lhe apetecia encontrar-se perante 
uma =senhora altiva que, quase de certeza, era amante daquele 
Fa-sulo que o =tinha mandado para a priso. Em qualquer caso, 
uma vez que com certas =pessoas  melhor ser prudente, 
decidiu mentir.
- No sei escrever - afirmou.
- Espera aqui - ordenou Saverio com ar de autoridade. Voltou 
depressa. =- Segue-me. A princesa vai receber-te -
anunciou.
Acompanhou-o at ao vestbulo do apartamento no primeiro 
andar. A =jovem princesa parecia prestes a sair. Vestia um 
casaco azul-celeste =com uma gola ampla e deixava  sua volta 
um intenso perfume de =jasmim.
Benedetto ficou em sentido, sem conseguir pronunciar uma 
nica =palavra. Teresa tinha-lhe contado que Virginia tinha 
um corpo bonito =mas um rosto feio. Ele, pelo contrrio, 
achou-o estranho e severo, =como o de uma rainha.
- Ento s tu o namorado da Teresa - disse ela com uma voz 
=lmpida, medindo-o da cabea aos ps.
Benedetto corou. Pensou que uma senhora de bem no olha para 
os =homens daquela maneira. Talvez as senhoras da nobreza se 
pudessem =permitir essas coisas.
- Ao seu dispor, minha senhora - replicou. E acrescentou: - 
Vim =agradecer-lhe porque me disseram que a minha sada da 
priso se =deve  senhora. - Logo a seguir retrocedeu um 
passo. Cumprira o seu =dever, obedecera a Teresella, e agora 
s queria ir embora.
- A Teresa arranjou um bonito rapaz - comentou Virginia, 
glida. E =acrescentou: - Imagino que agora vo casar.
Benedetto anuiu.
- Temos um filho.
- Diz  tua noiva que pode voltar para nossa casa, se quiser. 
E tu, =j tens trabalho? - interrogou.
Benedetto sentia-se sobre brasas. Aquele perfume todo, aquele 
olhar =inquisidor, aquele interrogatrio cerrado sem a sombra

238


de um sorriso punham-no pouco  vontade.
- Ainda no. Tenho de procurar. - Recuou outro passo, pronto 
para =se pr em fuga.
Naquele momento Virginia sorriu de um modo estranho.
- Parece que eu te meto medo - sussurrou. Foi at junto dele 
e =tocou-lhe com os dedos a face barbeada de fresco.
- V-se que sabes bem da tua vida. Mas mentiste-me. Sei que 
=andaste na escola e que no s nenhum palerma. Na destilaria 
andam = procura de um bom mecnico. Sabes, aquelas mquinas 
de =engarrafar estragam-se muito. Vai ter com o director, em 
meu nome. =Recebers um bom salrio. - Soprou-lhe esta oferta 
no rosto. =Depois pousou os lbios nos dele e beijou-o. - E 
no fiques =to nervoso - disse. Abriu a porta do vestbulo e 
foi-se =embora.
Benedetto ficou ali, transtornado. No compreendia o que 
estava a =acontecer.

239


MERANO - SCHLOSS RUNDEGG JANEIRO DE 1915


Sofia entrou na sala de estar empurrando o =carrinho do 
ch. Estava outra vez ao servio de Josepha. =Seguindo-a at 
Merano, renunciara  sua farda habitual. O traje =regional do 
Tirol era um fato que lhe agradava muito mais, porque era 
=severo, mas gracioso. Josepha ofereceu-lhe dois, com 
pequenos aventais =floridos e casacos de l.
Desta vez, a chegada de Sofia foi acolhida com um =sentimento 
de alvio da parte de Pietra e Klara, que acusavam cada =vez 
mais o peso dos anos. As duas criadas ocupavam-se apenas da 
=cozinha. Ela, com a ajuda de uma mulher do lugar, tratava de 
tudo o =resto.
Josepha estava sentada ao piano com a jovem Irmgard Kessler e 
tocavam a =quatro mos uma valsa de Strauss, para regozijo 
dos dois homens que =as escutavam: Lorenzo e Heinrich von 
Wedel.
Por fim, o apaixonado ardente de Josepha tinha uma noiva, 
exactamente =como ela tinha prognosticado. O jovem oficial 
das Standschiitzen =encontrara a bela Irmgard, que tinha 
entrado na sociedade pouco tempo =antes, ao fim de trs anos 
passados em Florena, no colgio de =Poggio Imperiale. 
Tinham-se conhecido durante uma festa no palcio =dos Kessler 
Mengele em Bolzano, apaixonaram-se e decidiram casar.
Heinrich quis que Josepha conhecesse a futura esposa e as 
duas Jovens =simpatizaram imediatamente uma com a outra.
Tambm Heinrich e Lorenzo se tornaram amigos.

243


Sofia demorou-se um pouco  entrada da sala de visitas, 
pensando se =deveria ainda esperar um pouco para servir o 
ch. Josepha limitou-se =a um imperceptvel movimento de 
cabea. A criada encostou o =carrinho  mesa e pousou ali um 
tabuleiro cheio de bolachas de =manteiga cobertas de glace 
aucarada. As duas raparigas terminaram a =valsa, os 
companheiros aplaudiram e Lorenzo estendeu uma mo  =mulher 
enquanto se levantava da cadeira. No que ela precisasse de 
=ajuda, apesar de agora se mover com a lentido de uma mulher 
=prxima do parto, mas o marido considerava-a frgil e 
carente de =cuidados.
Sofia serviu o ch enquanto os jovens retomavam uma pacata 
conversa =sobre os temas preferidos das mulheres: o enxoval 
de Irmgard, =confeccionado em Itlia pelas Manifatture 
Fiorentine, o =arranjo de um castelo dos Kessler Mengele em 
Vai Pusteria, que se iria =tornar a residncia do casal, e a 
descrio do enxoval do =pequeno Valeschi que ia nascer 
dentro de alguns dias.
- Antes querias um rapaz ou uma rapariga? - perguntou 
Irmgard.
Quantas vezes ela prpria se tinha feito aquela pergunta, 
para a qual =no tinha resposta.
- A Sofia diz que vai ser uma menina, porque tenho a barriga 
=bicuda. Vivi em Npoles o suficiente para saber que h 
sempre uma =pequena verdade na base de tantas crenas 
populares - explicou =Josepha.
Por respeito a Lorenzo, que conhecia pouco a lngua alem e 
se =recusava obstinadamente a aprend-la, falavam todos 
italiano.
- Vai ser uma menina, porque eu quero que seja assim. Vai 
parecer-se =com a me, a mulher mais encantadora que eu 
jamais conheci, e vai =chamar-se Dorothea, porque a minha 
mulher gosta de recordar a av =Rost - declarou Lorenzo. 
Gostaria de acrescentar: Espero que no =seja teimosa como a 
Josepha, que me obriga a fazer deslocaes =constantes entre 
a Itlia e o Tirol porque prefere estes vales =austracos ao 
meu lindssimo pas. No o disse, mas a =mulher bastou um 
olhar para perceber.
Pousou uma mo na dele e sorriu.
- Obrigada, Lorenzo - sussurrou. Tambm ela gostaria de 
=acrescentar: Sabes bem quanto te amo, mas tambm sabes como

244


me sinto profundamente austraca. Amo a minha terra e esta 
casa e =quero um ninho seguro para o nosso filho.
At quele momento, os quatro tinham cuidadosamente evitado 
=qualquer referncia  guerra e  poltica. As notcias =que 
chegavam todos os dias eram terrveis. Na frente ocidental, 
os =alemes tinham sido derrotados pelos franceses na batalha 
do Marne, e =em compensao tinham vencido os russos, na 
frente oriental na =batalha dos lagos Masuri. Mas agora a 
ustria e a Alemanha tambm =estavam contra a Turquia. Era 
uma guerra medonha, e milhares de homens =morriam em frentes 
opostas. O governo italiano insistia em manter-se =fora do 
conflito, sobretudo como represlia em relao  =ustria 
que, no momento do ultimato da Srvia, no o tinha 
=interpelado. Mas havia fortes tenses em Itlia e o 
movimento =intervencionista fazia-se sentir com uma 
insistncia cada vez maior. =Na tranquilidade da sala de 
visitas de Schloss Rundegg, a alegria dos =quatro jovens, que 
se tinham reunido pelo prazer de estarem juntos, =apagou-se 
assim que chegou o momento de falar da guerra. - De soldado 
=para soldado, como consideras a nossa situao? - perguntou 
=Heinrich a Lorenzo, que no tinha nenhuma inteno de se 
=pronunciar. Por isso se esquivou indecentemente  pergunta.
- O melhor possvel - respondeu. - Encontrmos duas 
=companheiras extraordinrias que no nos fazem sentir a 
nossa =deselegncia de militares, no pedem que as 
acompanhemos a festas =e recepes e suportam pacientemente 
as nossas longas =ausncias.
Heinrich von Wedel soltou uma gargalhada libertadora, deu uma 
palmada no =ombro de Lorenzo e concordou. O que quer que o 
futuro reservasse aos =seus destinos, haveriam de salvar a 
amizade e a lealdade.
- Est a nevar - anunciou Irmgard, com o olhar voltado para a 
=grande janela da sala.
Levantaram-se os quatro, pousaram os cotovelos na almofada do 
peitoril =e encostaram o nariz ao vidro para verem os flocos 
de neve - Naquele =momento, o velho Toni, com o gorro de l 
enterrado at aos olhos e =o avental azul que lhe chegava s 
botas, atravesSava o ptio a =empurrar a carroa cheia de 
erva para os coelhos.
Viu aqueles rostos jovens e risonhos e perguntou-se quanto 
tempo ainda =duraria a serenidade naquela casa. Naquele 
momento, Josepha sentiu uma =guinada nos rins. Mas no disse 
nada.
245


- Temos de ir j embora, ou ficamos aqui bloqueados toda a 
noite - =anunciou Heinrich.
- O Lorenzo acompanha-vos at  estao - decidiu =Josepha. 
Na hiptese de um parto iminente, preferia no ter =hspedes. 
- O comboio para Bolzano parte daqui a meia hora.
Enquanto se despediam, encostou os lbios ao ouvido do 
marido. - =Quando voltares, passa pelo Dr. Capello e tr-lo 
aqui -. =sussurrou.
Dietmar Capello era um jovem mdico natural de Vai Stubai. O 
pai =tinha corrido a Europa inteira a vender esculturas de 
madeira que fazia =durante o Inverno e, com isso, conseguira 
pr de parte o dinheiro =suficiente para manter os estudos do 
nico filho homem, que se formou =em Medicina em Innsbruck e 
se especializou em Obstetrcia em Viena. =Chegou a Merano 
quando acabou os estudos e abriu um consultrio na =Piazza 
Teatro. Os bons modos e a competncia decretaram o seu 
=sucesso. Tornou-se um profissional rico que no esquecia a 
humildade =das suas origens e tratava gratuitamente as 
mulheres mais pobres.
- Est tudo bem? - perguntou Lorenzo, preocupado com o pedido 
da =mulher.
Josepha anuiu e escondeu por trs do sorriso a dor provocada 
pela =segunda guinada.
Assim que ficou sozinha, escancarou a porta da cozinha onde 
as trs =criadas preparavam o jantar.
- Comearam as dores - anunciou. E acrescentou: - Vou para o 
meu =quarto.
Estava assustada, como todas as mulheres na proximidade do 
parto, mas =esforou-se por parecer calma enquanto Sofia a 
ajudava a despir-se =e a vestir uma camisa de noite comprida. 
Entretanto, Klara enchia de =lenha o fogo de majlica para 
aquecer ao mximo o quarto. =Petra, que j assistira outras 
parturientes, sugeriu-lhe: - Ande =para trs e para a frente, 
porque assim o parto  mais =rpido.
Josepha percorreu o quarto de um lado para o outro, at 
chegou o =mdico e fechou a porta do quarto na cara de 
Lorenzo.
- Deite-se j na cama - ordenou. - No se deve cansar 
=explicou, contradizendo o conselho da criada. - Vai precisar 
de todas =as suas foras quando a criana nascer.

246


Josepha obedeceu. O homem mediu-lhe o pulso, controlando-o 
com o =relgio de bolso.
- Muito bem - disse. E, depois de ter ouvido o batimento 
cardaco, =acrescentou: - Tambm est tudo bem com o beb. 
Tem um =coraozinho muito forte.
- Estou to mal - lamentou-se ela, nada reconfortada com o 
=optimismo do mdico. - E estou muito enjoada. Se calhar 
exagerei com =as bolachas de manteiga.
O tempo passava e as contraces tornavam-se cada vez mais 
=prximas. Algumas horas mais tarde, Josepha lanou um grito 
e, =poucos instantes depois, nasceu o beb.
-  uma menina - anunciou o mdico, que a agarrou pelos ps e 
=a fez oscilar de cabea para baixo enquanto cortava o cordo 
=umbilical. A menina soltou um gemido. Josepha, exausta, 
sorriu.
- Bem-vinda, Dorothea - murmurou. E naquele momento 
lembrou-se de =Teresella, se teria tido um rapaz ou uma 
rapariga.

247



NPOLES - CASA JUNTO AO MAR FEVEREIRO DE =1915


Estava sentada num barco em cima da areia. O =xaile de 
l macia envolvia-a a ela e ao menino, que mamava o leite =do 
seu seio imenso, muito branco, sulcado por uma rede de 
pequenas veias =azuis. s vezes Teresa perguntava-se de onde 
viria todo aquele leite =que lhe ensopava a camisa. 
Acontecia-lhe s vezes pr ao peito =outros bebs de mes 
jovens que no tinham leite suficiente =para os filhos. 
Obrigada, Teresella. Deus te abenoe =diziam-lhe, quando 
recebiam dos braos dela os meninos finalmente =saciados.
O sol de Fevereiro era ainda fraco, mas suficiente =para 
aquecer o ar do princpio da tarde. Os dias comeavam a ficar 
=maiores com a proximidade da Primavera. Pinuccio tinha feito 
trs =meses e estava a ficar cada vez mais bonito. Mamava e 
dormia. Ao =embal-lo, Teresa falava-lhe de Rosa, que 
repousava no alto da =colina, de Benedetto, que era um pai 
terno e um marido amvel, do =av Matteo, que entristecia ao 
lado de uma mulher seca e m e da =tia Annina, que tinha 
morrido porque acreditou que podia voar.
- Era boa de mais para viver neste mundo - disse-lhe Matteo a 
chorar, =quando foi ter com ele ao mercado. - Annina era um 
anjo. Com aquela =tosse que nunca passava, crescia com 
dificuldade, era leve e macia como =um passarinho. Subiu para 
a janela e anunciou s crianas que a =olhavam da viela: 
Olhem para mim. Agora vou voar. Um salto, e =depois o 
mergulho.
- Agora tem mesmo umas asas. Passou a ser um anjo - comentou 
ela, =sentindo uma fisgada no corao.

251


A desgraa tinha acontecido em Novembro, quando ela estava s 
=voltas com as dores, em Bello Fiore.
Uma mo delicada pousou-lhe no ombro. Teresa estremeceu e o 
mamilo =fugiu dos lbios de Pinuccio, que franziu a testa e 
comeou a =chorar.
Era Benedetto, que se inclinou sobre eles envolvendo-os com 
um olhar =terno, cheio de amor.
- O que  que ests aqui a fazer a esta hora? - perguntou 
=Teresa, admirada. Voltou a agarrar o menino ao seio. 
Benedetto =sentou-se no barco, ao lado deles.
- Precisava de estar convosco - disse em voz baixa.
- E deixas assim o trabalho, por um capricho?
- No  um capricho,  uma necessidade.
S ento Teresa reparou que o marido tinha os olhos hmidos 
de =lgrimas. - O que foi que te aconteceu?
- Passei por casa. Vocs no estavam l. Ento desci at = 
praia e vi-vos. Tu no imaginas quanta beleza e quanta poesia 
=consegue exprimir uma me com um filho ao colo. Eu olho-vos 
e fico =comovido - sussurrou.
- Tu dizes sempre coisas to bonitas! Cada dia ests mais 
=instrudo, enquanto eu me afogo num mar de ignorncia - 
replicou =Teresa, grata ao marido por tanta doura. Mas o 
sentido prtico =prevaleceu. - Vo despedir-te por causa 
disto - retorquiu.
- No h perigo. Precisam de mim. Os patres, enquanto formos 
=teis, no nos despedem - comentou asperamente.
- No  verdade. Os Castiglia receberam-me na casa deles por 
=piedade. No precisavam de mim - reagiu.
Pinuccio, j saciado, afastou-se do peito da me. Ela abotoou 
a =blusa e desceu do barco. Pinuccio tinha adormecido e, com 
ele ao colo, =dirigiu-se a casa seguida pelo marido.
- Isso  o que tu queres pensar. Na realidade, os patres 
nunca =do nada de graa - teimou Benedetto.
- No percebo. Tm-te a trabalhar com um salrio de =operrio 
do Norte. E agora no me venhas dizer que s tu que =lhes 
permites produzir. Conheo as tuas teorias. S servem para te 
=meterem em complicaes e para no fim te mandarem para a 
cadeia. =No te percebo mesmo. De resto, eu sou ignorante.

252


Mas vejo algumas coisas. Vejo que acabaram as reunies com os 
teus =companheiros, por exemplo. Evita-los. Quando o Pietro 
vem ter contigo, =parece que j no tens argumentos para ele. 
H qualquer coisa =que no est bem. Mas eu no sei o que  - 
disse tudo de um =flego, enquanto subiam as escadas de casa.
O quarto estava frio. Para poupar, Teresa deixara apagar o 
lume. Deitou =o menino na cama, cobriu-o com o xaile e 
comeou a meter mais lenha =no fogo.
Benedetto estendeu-se na cama, ao lado do menino.
- O Pinuccio est molhado - anunciou.
- Eu sei. No o posso mudar se no aquecer o quarto primeiro. 
E =v se tiras os sapatos quando te estendes na cama - 
censurou, =enquanto soprava a chama. E continuou: - J que 
estamos a falar =deste assunto, gostava de saber onde  que 
foi parar o rapaz por quem =eu me apaixonei. No sei se foi a 
priso que te fez mudar, ou se =h mais alguma razo. Desde 
h algum tempo, falas pouco, quase =nada. Depois, vens para 
casa quando devias estar na fbrica e =pes-te a chorar. 
Posso saber porqu?
Teresa estava zangada tambm por outra razo, que no ousou 
=expor: o marido esquivava-se demasiadas vezes aos deveres 
conjugais. =Quando estavam na cama, ele apertava-a contra si 
e dizia: - Gosto =tanto de ti, Teresella. s pura e fresca e 
boa como a gua do =Serino -; depois virava-lhe as costas e 
adormecia. Tinha de ser ela a =tomar a iniciativa. Ento 
Benedetto fazia-lhe a vontade.
- Tenho os meus problemas - disse ele.
- E por que no falas comigo? - perguntou-lhe. A lenha j 
=estava acesa e ela ps em cima do fogo uma panela de gua 
para =preparar o jantar.
- Nem eu sei muito bem - resmungou ele. Tirou os sapatos e as 
=calas tambm. Ficou em ceroulas. Eram de flanela pesada, 
=cinzentas, e cobriam-lhe as pernas at aos tornozelos. 
Teresa =observou-o e riu-se.
- Ests cmico - comentou.

253


- O que  que te d vontade de rir? - perguntou, 
=desconfiado.
- Os homens em ceroulas so cmicos.
- Porqu? Quantos  que viste mais? - perguntou, metendo-se 
=debaixo dos cobertores.
- Muitos - brincou, e pegou em Pinuccio ao colo, para o lavar 
e =mudar.
- Vou  fonte lavar a roupa - disse ao marido, depois de ter 
=instalado o menino.
-  quase noite. No podes fazer isso amanh? - observou 
=Benedetto.
- As fraldas nunca chegam. Eu venho j. Toma conta do 
Pinuccio - =recomendou-lhe antes de sair.
Quando regressou, Benedetto e o menino tinham adormecido e 
ela sorriu a =olhar para eles. Mas foi um sorriso triste. 
Havia qualquer coisa =estranha naquele marido terno e 
afectuoso. Foi at junto dele e =pensou que gostaria de 
entrar na sua mente para saber o que o =perturbava. Tocou-lhe 
no rosto e Benedetto arregalou os olhos, =olhando-a 
assustado.
- Est sossegado, sou eu - tranquilizou-o.
- Desculpa - disse ele. Levantou-se, vestiu-se e sentou-se  
=mesa.
Ela encheu dois pratos de massa temperada com alho, azeite e 
sal. =Comeram em silncio. Teresa espreitava o marido de vez 
em quando, =porque sabia que Benedetto queria dizer alguma 
coisa, mas no se =decidia a falar.
- Esta noite sonhei que me oferecias um ovo - disse ela.
- Devia oferecer-te cem, de chocolate e massa de amndoa - 
=respondeu ele.
- D azar, sonhar que o marido nos oferece um ovo - murmurou. 
- =Quer dizer que nos vai dar um desgosto.
Benedetto esvaziou o prato sem fazer comentrios.
- Mas tu no me vais dar nenhum desgosto, pois no?
- J chega de supersties. Estamos no sculo xx e tu ainda 
=acreditas nessas histrias - disse, irritado.
O menino acordou e comeou a chorar. Teresa pegou nele ao 
colo, =sentou-se na cama e embalou-o.
- Benedetto, j estou a ficar farta. Diz o que tens a dizer e 
vamos =acabar com isto.
Como nica resposta, Benedetto ajoelhou-se aos ps da mulher, 
=abraou-lhe os joelhos e comeou a soluar como um rapazinho 
=desesperado.

254


- Arranjaste uma amante - comentou Teresa, com um fio de voz. 
No =sabia de onde lhe tinham sado aquelas palavras mas, no 
momento em =que as pronunciou, teve a certeza de que eram 
verdadeiras.

255


Ezio Burgio, o director das Destilarias de Santa Roslia, era 
=siciliano como a marquesa Carolina Mortillaro, Castiglia de 
casamento. =Tinha nascido no bairro pobre da Zisa, em 
Palermo, e comeara a =trabalhar como moo de recados ao 
servio do marqus =Mortillaro, quando a destilaria era ainda 
uma pequena empresa artesanal. =Tinha dez anos e era um rapaz 
dbil e mal alimentado, mas inteligente =e voluntarioso.
De vez em quando, a jovem Carolina ia  destilaria com o pai, 
que lhe =apresentou aquele rapazinho cheio de talento e 
vontade de trabalhar.
- Eu acho que, acima de tudo, ele tem necessidade de comer - 
observou =ela, que tinha quinze anos, era uma flor a 
desabrochar e sobressaa =pela cabeleira farta e acobreada 
que lhe vinha da me, Isadora =Fitzgerald, uma irlandesa que 
tinha chegado  Siclia em =frias. Apaixonou-se pela ilha e 
pelo marqus e ali ficou para =sempre.
O marqus Mortillaro acolheu o rapazinho em casa. Comia e 
dormia com =a criadagem. No foi preciso muito para que, com 
uma boa =alimentao, o seu fsico se transformasse. 
Tornou-se um rapaz =alto, robusto e forte. Trabalhava o dobro 
dos outros e aos quinze anos =j tinha aprendido 
perfeitamente os processos da destilao e =da venda do 
elixir. De moo de recados transformou-se num =colaborador 
precioso.
s vezes cruzava-se com a jovem marquesa, que fora prometida 
ao =prncipe da Calbria. Olhava-a como se fosse uma viso

256


celeste. Adorava-a. A raiva e a determinao com que 
enfrentava o =trabalho e a vida desvaneciam-se. Sentia-se 
fraco, indefeso, =envergonhava-se pelo seu rosto sem 
atractivos, balbuciava um =cumprimento e fugia.
Foi ele quem convenceu o marqus a adquirir uma nova mquina, 
=produzida na Alemanha, para engarrafar o elixir, e a 
desenhar uma nova =etiqueta de cores vivas para as garrafas. 
Explicou s operrias, =que eram contra a mecanizao porque 
temiam que isso as privasse =de trabalho, o valor daquela 
novidade que aliviava o cansao e =permitia uma maior 
produo e, portanto, novas admisses de =pessoal. Teve a 
ideia de difundir o produto  escala nacional e de 
=incrementar a produo, diversificando-a. Ao elixir foram 
=juntar-se outros licores.
Carolina casou-se e transferiu-se para Npoles. Ele acalentou 
a =ideia de implantar uma fbrica no continente e falou nisso 
ao =marqus.
-  um grande investimento. Pode resultar num grande prejuzo 
- =observou o patro.
Ezio Burgio preparou um projecto que calculava os custos ao 
=centsimo, incluindo a aquisio de novas mquinas e a 
=ampliao da fbrica, uma rede de vendas adequada e a 
=propaganda comercial. Apresentou-lho. O marqus Mortillaro 
pensou =que o amor pode criar empresas sublimes. Mas no fez 
nenhum =comentrio nesse sentido. No sabia nem queria saber 
o que existia =entre aquele jovem empregado e Carolina, 
partindo do princpio de que =alguma coisa existia entre 
eles. Mas sabia que Ezio Burgio queria aquele 
=estabelecimento em Npoles para estar mais perto da filha. 
Aprovou o =projecto, porque via nele condies para um grande 
sucesso. =Nomeou-o director da nova destilaria e garantiu-lhe 
um salrio =elevado. No seu testamento, entregou a Carolina a 
empresa da famlia. =Quando morreu, Virgnia tinha pouco 
tempo de vida. Viu a Pequena e =comentou: -  muito parecida 
com o pai. - Carolina sussurrou: - =Espero que seja to boa e 
inteligente como ele.
Os anos passaram e Virgnia fez-se mulher. Era seguramente 
=inteligente, mas aquele temperamento desconfiado e difcil 
no =Permitia perceber se tambm era boa.
No dia a seguir a t-la conhecido no palcio Castiglia, 
Benedetto =apresentou-se ao director das destilarias.

257


Demorou uma hora a chegar. Ficou impressionado com a 
imponncia das =instalaes e com o cheiro acre que vinha do 
sector de =rectificao do lcool. Mas ficou sobretudo 
impressionado com o =director, uma espcie de gigante de 
rosto quadrado, com um nariz =imponente, bicudo. Era parecido 
com a princesa Virgnia.
- A menina Virgnia - comeou o director - garantiu-me que 
=s um bom mecnico. Vamos l ver. Os turnos de trabalho so 
=de doze horas, com um intervalo de meia hora de quatro em 
quatro. O =salrio  duplo, relativamente aos que correm, mas 
no queremos =operrios sindicalizados. Quando um empregado 
tem alguma necessidade, =vem ter comigo e fala sobre o 
assunto. Arranjamos sempre uma =soluo. Ningum  despedido, 
a no ser que esteja =manchado por um erro grave. Se fizeres 
o teu trabalho, vais sentir-te =bem - concluiu. Depois 
confiou-o ao vice-director do estabelecimento =para que lhe 
explicasse todas as fases do fabrico dos destilados.
 noite, quando regressou a casa, Benedetto contou tudo a 
Teresa.
- Se quiser manter o lugar, tenho de renunciar  luta 
poltica - =anunciou.
- J era tempo de o fazeres. Somos uma famlia e temos de 
pensar =no Pinuccio - comentou ela.
- Sabes o que  que isso significa para mim? - perguntou 
=Benedetto.
- Claro que sei. Significa que ds conta das tuas 
responsabilidades, =que no vou ser obrigada a ir trabalhar e 
deixar o menino com outras =pessoas, que vamos poder pr de 
parte algum dinheiro e que, de vez em =quando, me podes levar 
ao cinematgrafo, que  uma coisa de que eu =gosto muito. 
Isto quer dizer que a minha me, l em cima, nos =est a 
ajudar e a proteger - disse ela, entusiasmada.
Benedetto no lhe disse que aquilo era o fim das suas 
esperanas =num mundo melhor. Teresella sabia-o muito bem.
Ao fim de uma semana de trabalho, quando ia a sair da 
destilaria,  =meia-noite, encontrou Virgnia  sua espera.
- Eu levo-te a casa - disse-lhe, saindo de um automvel para 
ir =ao seu encontro.
Benedetto sentiu-se envolvido por um forte perfume de jasmim.

258


- No  preciso, princesa - respondeu, retrado. Pensou que 
=uma senhora de bem, quela hora, deveria estar em casa, em 
vez de =andar a passear com o chauffeur e a provocar um pobre 
homem cansado ao =fim de doze horas de trabalho e que s 
desejava regressar a casa.
- Desculpe. Estou cansado. Perdoe-me - acrescentou.
Ela agarrou-lhe um brao. Era uma presso forte e doce. O 
perfume =de Virgnia perturbou-o.
Foram parar a uma casa no porto, o escritrio de Enrico 
Castiglia =que, depois da sua morte, ningum voltara a 
habitar nem ningum se =preocupara em desmanchar. S Virgnia 
se fechava ali, de vez em =quando, em solido. Remexia os 
papis do irmo e estudava os =desenhos.
No sabia muito bem o que procurava, mas parecia-lhe que ali 
dentro =poderia existir uma soluo para o descontentamento 
que a =atormentava. Naquela noite decidiu levar um homem com 
ela.
Que estou eu a fazer aqui, perguntava Benedetto a si 
prprio, =enquanto Virgnia, que tinha j tirado o casaco, 
observava pela =janela os navios no porto.
Pairava uma atmosfera inquietante naquela grande sala onde se 
espalhava =o perfume de Virginia.
- O meu irmo morreu louco. Sabias? - disse ela.
- Por que  que me est a contar isso? - perguntou, 
=encostando-se a ela.
- Se fssemos filhos do mesmo pai, eu pensaria que tambm sou 
=louca. - E continuou: - A loucura  hereditria.  =terrvel 
no saber quem  o nosso pai. Ou saber, como no meu =caso, e 
ter de fazer de conta que se ignora.
- H coisas piores na vida.
- As inquietaes da mente so to graves como as do corpo =- 
sentenciou ela.
- Ns, os pobres, no temos tempo para esse tipo de 
problemas. =Para ns, j  um sucesso conseguir comer duas 
vezes por dia - =replicou Benedetto.
Virgnia virou-se para ele e sorriu-lhe.
- J me esquecia de que tenho  frente um defensor dos 
direitos =do proletariado. A diferena entre ns no  tu 
seres homem =e eu mulher, nem tu seres pobre e eu rica.  que 
tu no me =compreendes, enquanto eu te compreendo 
perfeitamente

259


- afirmou Virginia. Aproximou o rosto do de Benedetto e 
beijou-o =longamente, com paixo, vencendo-lhe as 
resistncias.
Ele segurou-a pela cintura e deitou-a num div. Amaram-se com 
o =ardor e o desejo de quem faz amor pela primeira vez. Ele 
descobriu como =Virginia era meiga, dcil, envolvente, 
sublime. O perfume e o calor =daquele corpo aturdiam-no.
Quando regressou a casa, Teresa estava sentada junto ao fogo 
a dar =de mamar a Pinuccio. Uma vela, no centro da mesa, 
iluminava o quarto com =uma luz tnue. Sobre o fogo estava o 
macarro para ele, ainda =quente. Sentia-se no ar o habitual 
perfume de fraldas lavadas, =estendidas a secar, e da lenha 
que ardia devagarinho.
- Gosto tanto de ti, Teresella - sussurrou, beijando-lhe os 
cabelos. =Sentia-se culpado.
- Come, meu amor - disse ela. - E vai j dormir. Deves estar 
muito =cansado.
Virginia adquiriu o hbito de ir ter com ele  meia-noite. 
Quando =no a via, ficava preocupado. No estava apaixonado, 
mas fascinado =por aquela mulher estranha que no tinha nada 
que partilhar com a sua =vida. O escritrio no porto tinha-se 
tornado o local daqueles =encontros amorosos. De cada vez, 
Benedetto prometia a si prprio =acabar com aquela relao 
que o deixava pouco  vontade. E, de =cada vez, adiava para 
outra altura. Com Virginia era duro, violento, =como se 
quisesse descarregar os seus sentimentos de culpa em cima 
dela. =Vivia aquilo como uma obsesso de que era incapaz de 
se libertar.
- Mas o que queres tu de mim? - perguntava-lhe, s vezes, 
=sacudindo-a com raiva.
Ela respondia com uma ironia doce: - Tu s um homem a srio, 
sem =grandes complicaes.
- No  verdade, princesa. Tu trataste de me complicar a 
vida. =Benedetto estava confuso. Tinha casado com Teresa 
porque a
amava. Tinha uma mulher bonita, honesta e simples. Virginia 
era =exactamente o contrrio. Mas por isso mesmo havia 
qualquer coisa de =misterioso que o atraa. Debatia-se entre 
as duas mulheres, sabendo =que Teresa representava a solidez, 
enquanto a princesa desapareceria de =um dia para o outro.

260


- Se eu te garantisse uma renda para a Teresa e para o vosso 
filho, =viverias comigo? - perguntou-lhe ela, uma noite.
- Tu no podes garantir nada a ningum, nem a ti prpria. 
Para =ti, eu sou uma experincia de laboratrio - constatou 
ele.
- Pensa nisso, Benedetto. Parece-me que te fiz uma proposta 
honesta - =insistiu.
Agora, Teresa dissera-lhe simplesmente: arranjaste uma 
amante. =Ele gostaria de poder negar, mas isso seria um 
insulto  dignidade da =mulher. Teresa no merecia mentiras.
- Gosto muito de ti - repetiu.
- Deve ser uma mulher rica. Chegas sempre com o perfume dela, 
que  =muito caro.  o mesmo que usa a princesa Virginia - 
observou Teresa =com uma voz calma.
- Cala-te - ordenou-lhe. Deitou-se na cama com os olhos fixos 
no =tecto.
- Porqu? H vrias semanas que morres de vontade de me 
=confessar.
Pinuccio tinha voltado a adormecer e ela deitou-o nas duas 
cadeiras que =lhe serviam de bero.
-  verdade - sussurrou o marido.
Teresa despiu-se, vestiu a camisa de noite e meteu-se na cama 
ao lado =dele. - Meu pobre marido - murmurou com ternura. - 
Devia fazer-te =uma cena de cimes, devia cobrir-te de 
insultos. No o vou fazer. =A minha me fez muitas cenas ao 
meu pai, sempre que ele se =entusiasmava com uma mulher. No 
valeu de nada. Depois morreu. Mas eu =no vou morrer como 
ela. Tenciono viver por muito tempo, porque o =nosso filho 
precisa de mim. Mas tu, Benedetto, arranjaste realmente um 
=problema, e eu no te posso ajudar. No sei como  que vais 
=resolver isso sozinho. E agora dorme, porque amanh vais ter 
de =recuperar as horas de trabalho que no fizeste hoje. 
Podem =despedir-te quando quiserem, sabias? Claro que sabias. 
Boa-noite, meu =pobre marido - concluiu. Estendeu uma mo 
para fora do cobertor e =pousou-a na cabea do menino.
Benedetto foi acordado por um silncio inslito. O quarto 
estava =frio, a janela ainda fechada. Teresella no estava 
l. Nem sequer =J estava o menino. O ba que continha as 
roupas da mulher e de =Pinuccio estava vazio.

261



Em cima da mesa encontrou uma folha de caderno em que Teresa 
escrevera: =Querido Benedetto, j no s um bom marido, nem 
um bom pai =para o Pinuccio, que agora  s meu. Deixo-te e 
levo o Pinuccio =comigo. Vou para a ustria porque a princesa 
Josepha precisa de uma =ama. No quero voltar a ver-te. 
Fizeste-me muito mal ao =corao.

262


DE NPOLES A MERANO FEVEREIRO DE 1915


- Menina, enganou-se na carruagem. As de =terceira 
classe so l ao fundo - disse o revisor, que era um 
=homenzinho magro com uns bigodes to densos e grandes que 
lhe tapavam =o rosto.
- Olhe que eu sei ler - replicou Teresa com um olhar 
=enrgico. - Aqui diz: primeira classe, Signora Zicri e filho 
- =acrescentou, mostrando o bilhete de comboio e o filho que 
tinha ao =colo.
O homem dos bigodes olhou primeiro para o bilhete e depois 
para ela, com =desconfiana.
- Tem algum documento de identidade? - perguntou.
- Eu depois mostro-lho. Agora ajude-me a subir para a 
carruagem - =decidiu.
- No, senhora. Tem de mo mostrar imediatamente - insistiu 
ele.
- Ento segure aqui - disse, irritada, passando-lhe para os 
=braos o menino, que comeou a berrar. Abriu o saco em que 
tinha =metido a roupa, encontrou um documento e entregou-lho. 
- Verifique, e =depois trate do meu saco. O que  que julga? 
Eu no sou nenhuma =miservel.
Voltou a pegar no menino e entrou na carruagem. O revisor 
Seguiu-a, =levando-lhe o saco.
- Desculpe, minha senhora - balbuciou enquanto abria a Porta 
do =compartimento. Parecia uma salinha. Havia dois divs de 
Veludo =carmesim, com paninhos brancos de renda nas costas

265

e nos braos, um tapete vermelho, cortinas na janela e uma 
=mesinha de madeira com uma garrafa de gua fresca e copos. 
Teresa =olhou  volta, intimidada.
- Pode instalar-se, minha senhora - disse o revisor. - O 
comboio =parte daqui a um quarto de hora. Se precisar de 
alguma coisa, pode tocar =esta campainha. O funcionrio de 
servio tratar do que =necessitar. - Fez uma espcie de 
vnia, saiu e fechou a =porta.
Teresa quase no ousava sentar-se. Sentia-se deslocada 
naquela =salinha to confortvel. Viu passar no corredor 
pessoas elegantes =a conversar e esperou que nenhuma delas 
fosse ocupar os outros lugares =livres do compartimento. J 
tinha problemas que lhe chegassem e =no lhe apetecia 
enfrentar o sarcasmo e o desprezo daquelas pessoas =pela 
humildade da roupa que tinha vestida. Temia ainda que os 
vagidos de =Pinuccio pudessem perturbar os outros 
passageiros. Se dependesse dela, =teria viajado em terceira 
classe. Mais do que isso, nem se teria metido =a fazer aquela 
viagem. No tinha nenhuma vontade de deixar a sua =cidade 
para ir at to longe, para um stio que no =conhecia, no 
meio de gente que no falava a mesma lngua que ela. =Mas 
desta vez Benedetto tinha armado uma grande confuso. Tinha-a 
=ferido e humilhado.
Agora, porm, perguntava a si prpria se aquela fuga seria a 
=melhor soluo. A me nunca teria agido assim. Se ainda 
fosse =viva, ter-lhe-ia dito: Deixa l, Teresella. Acaba por 
lhe =passar, e vai voltar para ti mais cedo do que tu 
pensas. Mas Rosa =j no existia e ela estava a sofrer 
demasiado por causa daquela =afronta. Estava a fugir para 
longe de um homem que ela idealizara, =considerando-o 
sincero, slido, honesto e generoso. No entanto, =Benedetto 
era exactamente como todos os outros homens: infantil, fraco 
e =egosta. Durante semanas sufocou as suspeitas. Quando 
recebeu uma =carta de Sofia a pedir-lhe para ir ter com ela  
ustria porque =Josepha no tinha leite suficiente para a 
menina, Teresa =respondeu-lhe que no podia deixar o marido. 
Depois chegou uma carta =de Josepha. Tinhas-me dito que, se 
eu precisasse de ti, me =ajudarias - Agora a minha pequena 
Dorothea precisa do teu leite. Vem =com o teu menino, por 
favor. Dou-te de comer e instalo-te da melhor =maneira. 
Mandou junto dinheiro e o bilhete de comboio.
Teresa no falou em nada com o marido, porque estava 
firmemente =decidida a recusar o convite. Mas no sabia como

266


havia de formular uma resposta corts. Mais cedo ou mais 
tarde, =acabariam por lhe vir  cabea as palavras certas. 
Assim se =passaram alguns dias e, naquela noite, percebeu que 
tinha feito bem em =adiar. Da estao mandou um telegrama 
para Merano a anunciar a sua =chegada. Provavelmente, se no 
tivesse aquela possibilidade, no =teria partido. Mas tinha 
na gaveta da mesa a carta de Josepha, o bilhete =de comboio e 
o dinheiro. Agiu por um impulso.
Naquele momento tocou o apito que anunciava a partida do 
longo comboio =em direco ao norte. Em Bello Fiore, o 
professor tinha-lhe =mostrado um mapa geogrfico da Europa. 
Assim aprendeu que a Itlia =tinha o formato de uma bota, que 
era uma pennsula estreita e =comprida e que l em cima, onde 
a bota se abria como um leque, =ficavam as fronteiras com 
outras naes: a Frana a oeste, a =Sua no meio e a ustria 
a este. O sul do Tirol no era =muito longe da fronteira com 
a Itlia. Mas ainda lhe faltava =percorrer centenas de 
quilmetros. Chegaria a Merano no dia seguinte. =No tinha a 
certeza de que o po e o queijo que trazia de casa =fossem 
suficientes para aquela longa viagem. No entanto, no soube o 
=que responder ao empregado que se apresentou, dali a pouco 
tempo, para =lhe perguntar se queria ir at ao 
vago-restaurante, onde iria =ser servido o pequeno-almoo. 
Ela estava a dar de mamar ao menino, =cobriu rapidamente o 
seio com o xaile e a primeira resposta que lhe veio = cabea 
foi: - No preciso de nada, obrigada.
O comboio corria velozmente ao longo de campos desolados, 
bosques e =prados. Embalava Pinuccio enquanto, atravs da 
janela, via passar =algumas aldeias do outro lado da linha 
frrea e outras empoleiradas =no cimo dos montes.
Acariciava o menino enquanto o pensamento lhe fugia ao 
encontro de =Benedetto, que estava com certeza desesperado 
por a ter Perdido. Desejou =que a amante do perfume caro no 
conseguisse consol-lo, porque =ele no merecia. Odiava-o 
profundamente por a ter obrigado a fugir. =Amava-o porque era 
o nico homem que conhecera, porque lhe devia a =ele o facto 
de ter aprendido a ler e a escrever, porque era o pai de 
=Pinuccio e porque a tinha ensinado a acreditar num mundo 
melhor.
O menino comeou a chorar e ela chorou com ele.
- As lgrimas fazem azedar o leite - disse o homem dos 'gods 
=grandes ao chegar  porta daquele compartimento.

267


E acrescentou: - A senhora tem de rir, porque isso  que faz 
bom =sangue e bom leite. E tambm precisa de se alimentar. Eu 
j disse =ao chef para lhe mandar aqui uma refeio completa, 
e tambm =vou arranjar maneira de no vir mais nenhum 
passageiro para este =compartimento.
Foi uma viagem longa. O comboio parava nas estaes de 
grandes =cidades das quais Teresa no conhecia sequer o nome. 
Chegavam os =carregadores com carrinhos puxados  mo para 
trazerem ou levarem =bagagens. Aos passageiros, que se 
debruavam nas janelas, eram =entregues jornais, almofadas e 
cestos de viagem. Parecia que o comboio =nunca mais voltava a 
andar. De repente ouvia-se um silvo agudo e a =locomotiva 
punha-se de novo em movimento, devagar. Foi assim durante 
=todo o dia e toda a noite. Teresa ouvia passos ao longo do 
corredor, =ordens que eram dadas, queixas de passageiros 
porque o compartimento =estava demasiado frio ou demasiado 
quente. Pinuccio chorava s vezes =e, para o fazer calar, 
dava-lhe o peito. Era quase madrugada quando o =revisor lhe 
anunciou que estavam a chegar  fronteira. O comboio iria 
=ficar ali parado durante uma hora e o pessoal italiano ia 
sair para dar =lugar ao austraco. Um guarda da fronteira 
quis ver o bilhete dela, =assim como os documentos, e depois, 
num italiano que se parecia muito =com o de Josepha, 
disse-lhe que devia descer em Bozen. Nasceu da =uma pequena 
discusso, porque Teresa sabia que tinha de descer em 
=Bolzano. Por fim percebeu que Bozen era o nome alemo de 
Bolzano, =onde encontraria algum  espera dela.
Com efeito, ali estava Sofia, que foi ao seu encontro, a 
abraou e =lhe ps um casaco sobre os ombros porque estava 
muito frio. Estava =l tambm um velho, vestido de uma 
maneira cmica. Trazia uns =cales de couro, uma jaqueta com 
botes de prata e um =chapu guarnecido com um penacho. Era 
Toni.
Entraram noutro comboio que tinha apenas duas carruagens: uma 
de =primeira classe e uma de terceira.
- Daqui a duas horas estamos em casa - anunciou Sofia. - O 
comboio =seguia ao longo da margem de um rio. Da janela, 
Teresa via passar =pequenas casas de madeira escura e tectos 
pontiagudos e, em cada =estao, ouvia a voz retumbante de um 
ferrovirio que anunciava =nomes estranhos: Burgstall, 
Postal, Gargazon.

268


A estao de Merano era minscula. Havia uma caleche  
=espera deles. O cavalo comia aveia de dentro de um saco que 
tinha =pendurado ao pescoo. Toni fez-lhe uma festa no 
focinho, libertou-o =do saco e soltou as rdeas. As mulheres 
subiram para a caleche =enquanto Toni ocupou o lugar do 
cocheiro. O cavalo comeou a andar e =atravessaram a cidade.
Teresa viu as montanhas cobertas de neve, as lojas cujos 
letreiros =no conseguia ler e as pessoas que caminhavam pela 
rua vestidas de =uma maneira estranha.
- O que vai ser de mim e do menino? - perguntou a si prpria, 
em =voz baixa. Sentia-se projectada para um mundo 
desconhecido.
- Vamos ter muito tempo para conversar - disse Sofia. - No 
tinha =insistido para vires se no tivesse a certeza de que 
esta era =tambm uma boa soluo para ti.

269


MERANO - SCHLOSS RUNDEGG FEVEREIRO DE 1915


A notcia tinha chegado at Merano. A =histria da 
princesa Virgnia Castiglia e o operrio Benedetto =Zicri era 
conhecida de toda a gente,  excepo de Teresa.
Ezio Burgio, o director da destilaria, sentiu-se na 
=obrigao de informar Carolina, porque aquela situao lhe 
=parecia muito pouco conveniente.
Carolina encontrava-se com Burgio todas as semanas, quase 
sempre ao =sbado de manh, em Posillipo, na casa de dois 
andares onde morava =h muitos anos. Descia-se at l por um 
pequeno jardim mantido =com cuidado e cheio de flores. Por 
baixo da prgola, que corria ao =longo da fachada da casa, 
havia uma mesa redonda com um tampo de =mrmore colorido e 
poltronas de vime onde a princesa se sentava, =mesmo de 
Inverno, desde que houvesse um pouco de sol que a 
=acariciasse.
Ezio ia ao encontro dela a meio do jardim, beijava-lhe a mo 
e =conduzia-a atravs de um caminho de tijoleira at  
=prgola. Os encontros de sbado de manh eram um ritual que 
se =repetia h mais de vinte anos, desde o tempo em que 
Virgnia ainda =era pequena e eles deixaram de se ver s 
escondidas. Mal acabavam de =se sentar  mesa, saam de casa 
duas criadas, uma mais velha, que =era a governanta e estava 
h trinta anos ao servio de Ezio, e uma =jovem, que era uma 
criada para todo o servio.
Traziam almofadas, bebidas frescas ou quentes, conforme a 
estao =e, assim que entravam em casa, a princesa e o 
director

273


comeavam a conversar tranquilamente. Falavam da empresa, da 
=famlia, de investimentos e de poltica econmica, e 
trocavam =mexericos sobre as pessoas mais notveis da cidade.
Em Dezembro, pouco antes das festividades natalcias, Ezio 
revelou = princesa a nova relao de Virgnia.
- Temos um problema, Carolina - comeou ele.
- E eu tenho de ser informada? - defendeu-se ela,  espera de 
=evitar algum desgosto.
- Sim, uma vez que se trata da Virgnia - replicou Ezio. E 
=contou-lhe a histria com Benedetto Zicri.
- Eu segui-os. Vo para o porto, para o escritrio do Enrico. 
= claro que foi ela quem o foi procurar. Ele  um bom 
operrio. = inteligente e curioso, como eu era na idade 
dele. Mas  =tambm um bonito rapaz, ao contrrio de mim. Eu 
at tinha =considerado a possibilidade de o mandar tirar um 
curso de qumica. No =trabalho, quando aparece um elemento 
precioso,  sempre preciso =ajud-lo. Gostaria de investir 
nele, at porque  honesto.
- Despede-o - disse ela.
- No ia adiantar. E tu sabes isso melhor do que eu.
- A Virgnia no se pode perder com um operrio - protestou a 
=princesa.
- E s tu quem me vem dizer isso?
- A culpa  minha. Sempre fui muito ciosa daquela rapariga. 
Tem fogo =nas veias.
- Como ns, quando ramos novos.
- Como tu. Eu j estou sossegada h muito tempo - esclareceu 
=ela.
- Eu tambm. No te preocupes. J passei os sessenta anos e, 
=quando me deito, s preciso de dormir.
- Estamos a ficar velhos, Ezio - comentou Carolina, com um 
suspiro de =resignao.
- Manda-a fazer uma viagem, e para longe - sugeriu o homem.
- E tu achas que eu a consigo manobrar assim com tanta 
facilidade?
-  ingovernvel. Eu sei.
- S nos resta esperar que se canse depressa, como j 
aconteceu =com outros.

274


- Isso no vai acontecer, porque ele foge dela. Acho que 
gosta muito =da mulher - comentou Ezio.
- No sabia que era casado - disse a princesa.
- Tinha-me esquecido de te dizer. A mulher  uma rapariga que 
=esteve em vossa casa desde pequena. Ficou grvida e foi-se 
embora, =como devia ser.
O rosto de Carolina iluminou-se.
- A pequena protge da josphine! - exclamou. - Chama-se 
=Teresa. Teve um filho. E a Josphine tem pouco leite. Vai 
ser =imediatamente recambiada para a ustria. Se o marido 
gosta dela, vai =segui-la - concluiu, com um suspiro de 
alvio.
Tinha pressa de regressar ao palcio. Precisava de telefonar 
=imediatamente a Josepha para lhe anunciar a oportunidade de 
ter =Teresella como ama, e para lhe dizer que recebesse 
tambm o marido, =se ele fosse ter com ela.
Quando Teresa fez a sua entrada no castelo, toda a gente a 
recebeu =alegremente.
Tinha-lhe sido destinado um quarto na torre, que dividiria 
com Pinuccio =e Dorothea.
No quarto de banho encontrou uma tina j cheia de gua 
quente. O =banho atenuou o cansao daquela longa viagem e 
Sofia ajudou-a a =lavar o cabelo.
- A nossa patroa, como sabes, gosta de limpeza. Tens de tomar 
banho =todos os dias. E o Pinuccio tambm - informou.
J havia roupa interior preparada para ela, assim como 
vestidos =novos, muito diferentes da roupa a que estava 
habituada. Estava =demasiado confusa e infeliz para apreciar 
aquelas novidades to =agradveis. A nica consolao 
veio-lhe de Sofia, com quem =podia falar a mesma lngua e a 
quem contou, a soluar, a =traio do marido.
- O Benedetto merecia este castigo - comentou a criada, que 
lhe =escondeu o facto de j saber de tudo. - Depressa vai 
perceber que =errou e vem  tua procura.
- Tu no ests a perceber, Sofia, eu gosto dele, mas j no 
=o estimo. Ainda que se viesse pr  minha frente de joelhos, 
eu =no Podia perdoar-lhe - disse, com amargura.

275


- D tempo ao tempo. As coisas vo acabar por se compor - 
=replicou Sofia sem acreditar nela, uma vez que Teresa, 
apesar de ser =to teimosa como a amante de Benedetto, era 
generosa e sabia =perdoar.
Entretanto, para a distrair da melancolia, deu-lhe instrues 
=relativas s tarefas que tinha de desempenhar. Todos os dias 
tinha de =dar banho s crianas, lavar fraldas e camisolas e 
pass-las a =ferro, manter o quarto limpo e arejado e fazer 
as camas, batendo as =almofadas e virando os colches.
- No precisas de te preocupar com as refeies. O almoo e 
=o jantar vo estar sempre prontos para ti. Assim como tu 
deves estar =pronta para levar a menina Dorothea  senhora 
sempre que ela te =pedir. Ficas a saber que a menina  a luz 
dos olhos dela. Porta-te =de acordo com isso - preveniu.
Chamavam-lhe Thea, tinha dois meses, e Teresa comparou-a com 
a =esttua de cera de Nossa Senhora Menina que repousava num 
bero de =ouro, embrulhada em seda e em rendas, na igreja da 
Imaculada =Conceio. Teve medo de pegar nela ao colo.
- Que linda que ! - sussurrou, enlevada.
- Espera at a ouvires berrar. E deve estar quase, porque tem 
muita =fome - disse Josepha.
Tinha-a levado ao quarto dela e pegava-lhe ao colo, enquanto 
olhava em =volta para verificar se estava tudo em ordem. A 
menina abriu a boquinha =de lbios finos e rosados, bocejou e 
comeou a choramingar e a =agitar os braos. Pinuccio, que 
dormia no bero, acordou e =comeou tambm a chorar.
Teresa agiu instintivamente. Pegou na menina, desapertou o 
corpete e =ofereceu-lhe o seio. Depois sentou-se num banco e, 
com um p, =comeou a abanar o bero do filho. Calaram-se os 
dois. Josepha =sorriu-lhe.
- Muito bem - comentou. E continuou: - Eu vou ficar aqui,  
espera =que a Thea acabe de mamar. Depois vamos pes-la. - 
Indicou-lhe uma =balana esmaltada de branco que estava em 
cima de um armrio. - =At agora, a menina nunca tomou mais 
de oitenta gramas de leite. O =mdico diz que devia tomar 
pelo menos o dobro. Vamos ver quanto =consegue mamar de ti.

276


- Pesou-a quando Thea demonstrou que j estava satisfeita.
- Muito bem - repetiu a senhora. - Tomou cento e quarenta 
gramas.
- Que so menos vinte do que devia ser - desculpou-se Teresa.
At quele momento no fazia ideia de que era preciso pesar 
os =bebs para saber quanto tinham comido.
- Assim est bem - decidiu Josepha. - Na prxima refeio 
=h-de correr melhor. J podes tratar do teu filho. Lembra-te 
que =agora tens de alimentar dois meninos e vais ter de comer 
muito.
- Sim, senhora - respondeu ela, intimidada.
- Passa-me a menina. Daqui a trs horas trago-ta outra vez. 
Teresa =pegou em Pinuccio ao colo e chorou. Parecia-lhe t-lo
defraudado de uma parte de si.
- Pobre pequenino - sussurrou. - Sem pai e com meia me. O 
que vai =ser de ti? - Consolou-a apenas o facto de o seu 
filho, finalmente, =dormir num bero, em lugar das duas 
cadeiras encostadas. Mas ela =sentiu-se como um animal de 
leite arrancado do seu prprio =estbulo e posto num pasto 
rico, mas estranho.

277


Estava h cinco dias no castelo quando Benedetto chegou. - 
Est =l em baixo, na cozinha. Chegou ao meio-dia, quando tu 
estavas a =descansar. A senhora no quis que te incomodassem. 
Agora podes ir =l ter com ele.
Benedetto estava plido. Tinha os olhos marcados pelo 
cansao.
- Bom-dia, Teresa - disse-lhe, levantando-se do banco onde 
=permanecera durante algumas horas.
Ela no conseguiu responder-lhe. Baixou a cabea.
Petra disse qualquer coisa a Sofia em alemo, e ela traduziu: 
- =Podem ir para o jardim, se quiserem.
Teresa embrulhou-se no xaile e avanou  frente dele, ao 
longo da =alameda que ia at ao palheiro. Reparou nas botas 
cheias de lama, no =casaco gasto e no chapu amarrotado. 
Pensou que devia ter feito uma =viagem horrvel. O sol 
desapareceu por detrs da montanha. =Entraram no palheiro e 
Teresa convidou-o a sentar-se em cima de um =tronco de 
rvore, pronto para ser rachado e partido aos =pedaos.
- O menino onde est? - perguntou ele, com uma voz cansada.
- Est l em cima. - Teresa apontou para a torre do castelo. 
=Benedetto viu uma luz tnue que vinha das duas janelas que
ficavam por baixo de um telhado alto e pontiagudo.
- Como  que vos tratam? - perguntou.

278


Teresa no se deu ao trabalho de lhe responder.
- Como foi que chegaste aqui? - quis saber.
- Como todos aqueles que no tm um salvo-conduto. Depois da 
=fronteira atravessei as montanhas a p. Vim para te levar 
para casa =- respondeu ele.
- Se te apanham, vais parar outra vez  cadeia - comentou 
Teresa. E =logo depois atacou: - O que  que a outra tem de 
especial?
Finalmente conseguira formular a pergunta que a assaltava 
desde h =dias. Benedetto era um homem leal, inteligente e 
corajoso, nunca poderia =deixar a famlia por uma mulher 
qualquer. Na sua imaginao, a =outra era uma espcie de 
criatura divina que ela nunca seria capaz de =enfrentar.
- Nada - sussurrou o marido.
Teresa levantou-se e olhou-o de alto a baixo.
- O que queres dizer com isso? - perguntou.
- Que no se parece contigo nem num cabelo. E uma mulher que 
no =se parece contigo, para mim no  nada - explicou ele.
No estava  espera da bofetada que o atingiu entre o olho e 
o =ouvido, repentina e violenta. Perdeu o equilbrio e, de 
sentado que =estava, deu por si no cho, aturdido e magoado.
- E tu destruste a tua famlia por causa de uma mulher que 
=no  nada? Ento s mesmo idiota - disse Teresa com 
=desprezo. E acrescentou: - No voltes a vir ter comigo. - 
Virou-se =e foi-se embora. Mas apetecia-lhe refugiar-se nos 
braos daquele =homem que amava e reconstruir a famlia. 
Gostaria de regressar =quele pequeno quarto, por baixo de 
Castel dell'Ovo, ver por cima =dela o cu da sua cidade e 
partilhar o leito com o marido.
Benedetto foi ao encontro dela, prendeu-a nos braos e 
beijou-a. =Foi um beijo infinito, mais eloquente do que 
qualquer =explicao.
- E agora, o que  que eu fao?
- Ouve apenas o teu corao, Teresella - disse ele.
- Tenho de ir ver os meninos. Vou pedir para te darem 
qualquer coisa de =comer e um stio para dormires.  isso que 
me diz o corao =- murmurou.
Voltou ao castelo a correr. Josepha estava  espera dela no 
=vestbulo.

279


- Anda, preciso de falar contigo - disse-lhe, abrindo a porta 
da =saleta.
Teresa, que j estava inquieta, comeou a tremer. Talvez 
tivessem =denunciado Benedetto, ou algum os tivesse visto 
quando se beijavam, =e agora iam mand-la embora.
- Est na hora da mamada - defendeu-se, sem se mexer da 
entrada da =saleta.
- Eles esperam mais uns minutos. A Sofia est com eles - 
insistiu =Josepha.
Teresa, vencida e resignada, entrou na sala.
- Sabes em que  que o teu marido se meteu ao entrar neste 
pas =sem autorizao, no sabes? - comeou a senhora.
Sem querer olh-la nos olhos, Teresa fixou o pequeno alfinete 
=redondo, feito com pequeninas folhas de ouro e cclames de 
esmalte =colorido, que fechava a orla da camisa de organza de 
Josepha. =Limitou-se a anuir.
- Eu j falei sobre o assunto com o coronel - continuou a 
senhora, =referindo-se ao marido, que tinha sido promovido. - 
Est a tratar =de resolver esta situao - concluiu.
- Em que sentido? - perguntou Teresa, em voz baixa.
- Muito em breve vai ter todos os documentos em ordem. Poder 
viver =aqui, como cidado estrangeiro. Vai ficar com o Toni, 
no quarto =atrs do palheiro, e vai dar-lhe uma mo. O Toni 
precisa de =ajuda. Agora podes ir - despediu-a, a sorrir.
Teresa subiu as escadas a correr e entrou no quarto da torre 
onde =Pinuccio e Dorothea berravam, porque tinham fome. Deu 
de mamar  =menina primeiro. Depois passou-a a Sofia e 
dedicou-se a Pinuccio.
- O pap voltou - sussurrou-lhe. - Amanh vais v-lo. =Come, 
querido.
Nem Teresa nem Benedetto poderiam imaginar o papel que a 
princesa =Carolina tinha desempenhado naquela nova situao 
em que se =encontravam. Se Benedetto tivesse sido preso na 
fronteira, provavelmente =no o teria podido salvar. Mas, uma 
vez que conseguira chegar at =Merano, empenhou-se para que 
ele ficasse ali, longe da filha, durante o =mximo de tempo 
possvel.
Teresa levava sempre o menino com ela quando ia ter com o 
marido. Podiam =encontrar-se uma vez por dia, antes do 
jantar.

280


Trepavam para cima da palha, isolavam-se naquele imenso leito 
=perfumado, conversavam, faziam festas ao menino e, se 
Pinuccio =adormecia, faziam amor. Dia aps dia, Benedetto foi 
aprendendo com =Toni o dialecto do sul do Tirol, enquanto 
Teresa se recusava a =pronunciar uma nica palavra naquela 
lngua difcil.
- Eu sou s a ama. A nica linguagem que as crianas conhecem 
= a do amor. Eu amo-os e alimento-os. Falo napolitano com 
eles e =eles entendem-me perfeitamente - defendia-se.
Ao fim de anos de contestao, Benedetto reencontrou em 
Merano as =suas origens camponesas. Rachava lenha, trabalhava 
a terra e tratava dos =animais. Trabalhava do nascer ao 
pr-do-sol e fazia-o com alegria. =Havia sempre para ele uma 
sopa quente e uma carne bem cozinhada. =Tambm havia a 
guerra, mas ningum parecia dar-se conta disso, =excepto as 
famlias cujos homens estavam a combater na frente. A =vida, 
naquela pequena cidade, mantinha os ritmos habituais. O sol 
nascia =e desaparecia, a terra oferecia pasto e fruta, as 
vacas pariam e davam =leite. As ausncias do coronel 
Valeschi, no entanto, tornavam-se =cada vez mais longas e 
Josepha estava muitas vezes triste.
Ao fim de um ms de permanncia no castelo, a senhora chamou 
=Teresella  saleta. Entregou-lhe uma caixinha de veludo.
- Ama,  para ti - disse.
Teresa abriu-a e viu um fio e uns brincos de ouro e granadas.
- Para mim? - perguntou, espantada.
- A Thea engordou oitocentos gramas. Tens direito a este 
presente. =Podes p-los j, se quiseres - explicou Josepha. E 
prosseguiu: =- Quando deixares de a amamentar, para alm do 
dinheiro que te toca, =vais receber um alfinete de ouro e um 
anel.
Teresa no sabia como lhe agradecer. Corou de prazer e baixou 
os =olhos. Em cima de um banco, ao lado do fogo, por cima 
dos jornais em =lngua alem, estava um italiano com um 
grande ttulo: A =guerra est decidida e iminente. Trieste 
levanta-se, gritando: Morte =ao imperador'.
- J chegmos a isto - murmurou. - Se no houver um milagre, 
=o meu marido vai ter de combater contra ns - sussurrou 
Josepha, e =os olhos encheram-se-lhe de lgrimas.

281


- Como  possvel que os italianos se tenham virado contra a 
=ustria? - perguntou Teresa, e percebeu, naquele momento, 
que j =no era hspede de um pas amigo.
Josepha sorriu-lhe tristemente.
- Nem todos os italianos pensam como tu. O meu marido vai 
para a =guerra, e o teu tambm vai.
- Eu nunca vou ser sua inimiga, minha senhora - afirmou a 
ama.
- Eu tambm nunca vou poder considerar o meu marido como um 
inimigo. =Mas as guerras no querem saber dos sentimentos.
- Eu no vou poder continuar aqui - sussurrou Teresa.
- Claro que vais. No podes regressar a Npoles com o menino. 
Iam =ficar sozinhos, porque o teu marido j recebeu um 
convite para deixar =este pas. Foi chamado. Vai combater - 
informou a senhora.
- Mas por quem? Para qu? - perguntou Teresa, desesperada.
- No faas demasiadas perguntas, ama. No adianta nada. S 
=temos de ter confiana.
- Em qu, minha senhora?
- Em Deus, na sorte, num milagre. De qualquer maneira, no 
podemos =desesperar. Ainda no houve uma declarao de 
guerra. - Tentou =consol-la, apesar de saber que aquelas 
palavras no significavam =nada.
Naquele fim de tarde, no palheiro, Teresa e Benedetto no 
tiveram =tempo para as efuses habituais.
- A senhora diz que, uma vez que ainda no houve uma 
=declarao de guerra, pode ser que no acontea nada. - 
=Teresa agarrava-se quela esperana.
- Teresella, no tenhas iluses. De qualquer maneira, eu 
tenho de =regressar a Itlia.
- Eu sei. E quero ir contigo.
- No. Aqui, mesmo estando sem mim, no te vai faltar nada. 
Em =Npoles ias estar completamente s.
- Os soldados tm licenas. De vez em quando podamos 
=encontrar-nos. Se eu ficar aqui, num pas inimigo, nem 
sequer nos =poderemos escrever.

282


- No vai ser durante muito tempo. A guerra j dura h um 
ano. =Se ns, italianos, ajudarmos os franceses e os 
ingleses, as coisas =podero resolver-se em poucos meses.
- Tens a certeza?
- Ficam-te bem esses brincos - observou Benedetto, para no 
lhe =responder.
Teresa tirou um e meteu-lho na mo.
- Leva-o contigo. Devolves-mo quando voltares.
- Juro que to trago - prometeu ele, abraando-a.
No dia 24 de Maio as tropas italianas passaram a fronteira 
sobre o =Piave. Benedetto Zicri seguia entre elas. O 
comandante era Lorenzo =Valeschi.

283


MERANO - SCHLOSS RUNDEGG AGOSTO DE 1915


Pinuccio fez nove meses. Thea fez sete. As duas 
=crianas cresciam bem e requeriam atenes contnuas, que 
=impediam as respectivas mes de se abandonarem demasiadas 
vezes  =preocupao pela sorte dos maridos.
Da frente chegavam poucas notcias. Os jornais =publicavam 
informaes confusas e contraditrias. Todos os dias =parecia 
que a guerra estava prestes a terminar, a favor de um ou de 
=outro lado. Josepha e Teresa confiavam uma  outra as suas 
=angstias.
- Somos milhes de mulheres, de mes, de irms ansiosas por 
=causa dos nossos homens, sem distino de pas ou de 
=condio social - disse Josepha -, mas a minha situao = 
ainda mais terrvel, porque o Lorenzo foi combater pelo pas 
=dele, contra o meu.
Teresa no compreendia a obstinao de Josepha em 
=considerar-se uma sbdita austraca. Afinal, estava casada 
com um =italiano e a filha chamava-se Valeschi. Era italiana. 
Por que razo =no se decidia a estar s de uma parte? No 
ousava, porm, =exteriorizar estas consideraes.
- Qual  a necessidade de se matarem uns aos outros, quando 
bastava =juntarem-se, discutirem e chegarem a um acordo? - 
observou Teresa.
- Olha, ama - respondeu Josepha -, as solues encontram-se 
=sempre. Muitas vezes apresentam-se sozinhas. Mas, antes 
disso, toda a =gente se quer impor pela fora. Emergem velhos 
rancores, vm  =tona questes por resolver e desencadeia-se 
a agressividade.

287


Eu sei que o nosso imperador no queria a guerra, mas o rei 
da =Prssia sim. Nem todos os italianos a queriam, mas muitos 
deles sim. =E queria-a o czar, para recuperar credibilidade 
no seio da sua gente, e =a Frana, para equilibrar uma velha 
dvida para com a ustria. =E por a fora. Um dia, dentro de 
alguns meses ou alguns anos, a =guerra vai acabar e os 
verdadeiros derrotados vo ser os soldados de =todas as 
naes que morrerem. Deus queira que o teu marido e o meu 
=no faam parte desse grupo. Sofia apareceu a correr.
- Um telefonema para si, minha senhora - anunciou, aflita. 
=Josepha precipitou-se para responder. Uma voz masculina que 
no =conhecia disse-lhe para apanhar o comboio do meio-dia.
- O chefe da estao tem um envelope para a senhora. Siga as
instrues - ordenou o interlocutor, que se expressava em 
=alemo.
Ela levou as mos  cara. Estava alarmada e confusa. Pensou 
no
marido. Perguntou a si prpria se aquela ordem misteriosa 
poderia
ter alguma relao com ele.
- E o senhor, quem ?
A comunicao foi interrompida. Josepha saiu para o jardim e 
=chamou Toni.
- Atrela o cavalo. Tens de me levar imediatamente  estao 
=-
anunciou.
Depois abraou a menina.
- Tenho de ir. Toma conta da Thea - recomendou a Teresa. 
Pegou no =pequeno saco de viagem que tinha sempre pronto
para qualquer eventualidade. Subiu para a caleche. Chegou  
=estao quando faltavam poucos minutos para a partida do 
comboio =para Bolzano. O chefe da estao viu-a e foi ao 
encontro dela. =Tirou o bon em sinal de respeito e 
entregou-lhe um envelope.
- Algum o entregou ao maquinista que partiu de Bolzano com o 
=comboio das oito. Era um militar. Recomendou que fosse 
entregue  =senhora - explicou.
Josepha conhecia o chefe da estao desde pequena. Antes de o 
=caminho-de-ferro ter chegado a Merano, tinha uma drogaria. 
Quando ia =com a me  loja, ele abria um grande boio de 
rebuados de =anis, ela enfiava a mo no frasco e tirava um.

288


- S um? - perguntava ele. Josepha tirava outro e dizia: 
Danke, =Herr Pretzel. A sua drogaria ainda existia. Era 
gerida pelos =filhos.
- Danke, Herr Pretzel - disse, antes de entrar no comboio. 
Havia =outros passageiros no compartimento. Conhecia-os de
vista. Cumprimentaram-se. Ela abriu o envelope.
Hotel Greif leu. No dizia mais nada.
O Hotel Greif ficava na Piazza Walther, em Bolzano. No sabia 
quem ia =estar  espera dela, nem para qu. No entanto, era 
evidente que se =tratava de um encontro com algum que tinha 
alguma coisa de =importante para lhe dizer. Rezou para que 
fosse uma boa notcia.
A Piazza Walther ficava muito perto da estao. Assim que 
desceu =do comboio, percorreu a rua quase a correr. Quando ia 
a aproximar-se do =porteiro do hotel, ouviu chamar o seu 
nome. Virou-se. Viu um jovem =militar que se ps em sentido.
- Tenha a bondade de me seguir - disse-lhe.
Havia um automvel estacionado. O jovem abriu a porta 
traseira.
- Faa o favor de entrar, minha senhora - convidou. Josepha 
=inclinou-se para olhar para dentro do carro.
- Heini! - exclamou.
- Entra. Temos de ir embora - ordenou ele.
- Um momento. Explica-me o que se passa - disse ela, sem se 
decidir a =entrar no carro.
O baro Heinrich von Wedel estava vestido como um homem da 
montanha: =camisa de algodo escocs, cales de couro, 
sapatos pesados =e chapu com penacho.
- Entra. Depois explico-te - repetiu o jovem.
O militar voltou a fechar a porta, sentou-se ao volante e o 
carro =arrancou, seguindo a estrada que percorria o vale do 
dige.
- Tenho de te levar  fronteira italiana - revelou o amigo.
- Mas  impossvel - objectou ela.
As fronteiras tinham sido fechadas a 23 de Maio. Ela j no 
podia =entrar em Itlia, assim como nenhum italiano podia 
entrar em =territrio austraco.
- O teu marido quer ver-te. Nada  impossvel a um homem 
=aPaixonado.

289


- E o que tens tu a ver com isto tudo? Combatem os dois em 
frentes =opostas - tentou perceber.
- No te posso dizer como nem porqu nos encontrmos h =trs 
dias. Pediu-me para te levar at ele. A amizade no quer 
=saber da guerra. Arrisco-me a ser julgado em tribunal 
marcial, porque =inventei uma srie de mentiras para te vir 
buscar. Mas  uma =questo de honra. Prometi-lhe.
Josepha no sabia se havia de rir ou de chorar. Ao longo da 
estrada =que serpenteava no fundo do vale havia movimento de 
tropas austracas =e alems. Mas havia tambm carroas de 
camponeses cheias de =feno e, no sop das montanhas, os 
pomares estavam tratados como de =costume.
- Como est a tua noiva? - perguntou ela.
- H meses que no a vejo. Escrevemo-nos.
- Achas que a guerra vai acabar depressa?
- No, infelizmente. No Isonzo acaba de comear. E  
=horrvel, a maneira como os nossos conseguem matar os 
italianos. =Mandaram-nos para a frente sem armas, ou quase. 
s vezes no =disparamos contra eles por piedade - revelou, 
com amargura. O sol =punha-se j quando avistaram do alto a 
extenso do lago
de Garda.
O automvel abrandou, deixou a estrada principal e meteu por 
uma =pequena estrada secundria que entrava num bosque.
- Pra aqui - disse Heini ao intendente.
- O que vamos fazer? - perguntou ela.
- Vamos esperar que fique escuro, e depois descemos a p at
ao lago.
O intendente tirou da mala do carro um grande cesto de 
piquenique. =Beberam ch quente e comeram po com toucinho, 
enquanto esperavam =que anoitecesse. Depois vestiram 
camisolas e comearam a descer em =direco ao lago. No 
havia luzes. S a lua que, ao =reflectir-se na gua, 
desenhava sulcos de prata. Sentaram-Se na =margem pedregosa. 
Chegou, silencioso, um barco a remos.
- Vai - disse Heini.
- Onde? - perguntou ela.
- O barqueiro sabe onde deve levar-te. Espero aqui por ti at 
s =quatro. Se a essa hora no tiveres voltado, terei de ir 
embora de =qualquer maneira.
- C estarei - prometeu, e abraou-o. Depois agarrou a mo 
=do barqueiro, que a ajudou a subir.
Aquele pequeno barco largo e raso deslizava sem rudo  
=superfcie da gua. Uma nuvem cobriu a lua. O homem remou 
durante =um tempo que a Josepha pareceu infinito. Finalmente, 
chegaram  =margem.
- Fico aqui  sua espera, minha senhora - disse o barqueiro. 
- =s trs e meia - precisou. Comeou a chover. Ela subiu 
para um =pequeno ponto oscilante. Lorenzo estava ali para a 
receber. =Escondeu-se entre os braos do marido e comeou a 
soluar.

290 - 291


- Isto  o mximo que te posso oferecer - disse Lorenzo. 
Estavam =numa espcie de herdade por detrs de um penhasco. 
Cheirava a =lenha queimada e a toucinho ranoso. O candeeiro 
a petrleo =iluminava a sala onde havia uma mesa, algumas 
cadeiras de palhinha, um =armrio, uma lareira apagada, uma 
prateleira onde estavam algumas =panelas e roupas penduradas 
em pregos ao longo das paredes =enegrecidas.
- Onde estamos? - perguntou Josepha.
- Entre Torbole e Malcesine. Estamos em Itlia. No estamos 
=ss. Esta  a casa do barqueiro, e a famlia dele est l 
=em cima. Esto a dormir. Pelo menos, espero - explicou 
Lorenzo. =Puxou uma cadeira para ela e outra para ele, do 
outro lado da mesa.
- Fizeste uma loucura - disse ela.
- Pequena - precisou o marido. - A loucura maior foste tu que 
a =fizeste, com a tua obstinao. Se h dois meses tivesses 
vindo =para Itlia, no estaramos reduzidos a isto.
Era uma censura que ela aguentou, baixando os olhos sem 
replicar. Teria =podido dizer-lhe que, um ano atrs, na noite 
de npcias, ela lhe =implorara que deixasse o exrcito. Por 
isso tinham discutido. Se =Lorenzo se tivesse decidido a 
trabalhar com o pai, no teria sequer =sido chamado para 
combater. Ter-se-iam estabelecido em Milo, com a =pequena 
Thea. Mas no disse nada. Aquele momento no era para =falar 
disso.
Lorenzo acariciou-lhe uma mo.

292


- Como est a menina? - perguntou-lhe.
- Est a crescer bem e agora j tenta gatinhar. Diz Apu e 
=ri-se.
- E o que quer dizer Apu?
-  um segredo que para j no quer revelar - disse ela, e 
=acrescentou: - Como ests?
- J conheci melhores momentos. s vezes,  como se no 
=conseguisse respirar. Faltas-me tu e sinto-me sufocar.
- Como  que esto a correr as coisas na frente?
- Um desastre. Entre Junho e Julho morreram mais de cem mil 
dos nossos. =Estas notcias no as ls nos jornais, que s 
falam do nosso =avano inexorvel que, na realidade,  de 
poucos quilmetros =- desabafou Lorenzo.
Josepha levantou-se, aproximou-se do marido, abraou-o pelos 
=ombros e beijou-lhe os cabelos com ternura. Estavam speros.
- No te quero perder - sussurrou.
Ele virou-se, agarrou-a pela cintura e f-la sentar-se sobre 
os =seus joelhos. Beijou-a durante muito tempo.
- Apetece-me fazer amor - disse em voz baixa.
- Vamos sair desta sala - props ela.
A noite estava escura. No havia estrelas. Para l do prado, 
em =frente  herdade, estava estacionado o pequeno camio do 
=exrcito em que Lorenzo viera at ali.
Entraram. Ele estendeu um cobertor sobre o banco traseiro.
- No so propriamente umas instalaes luxuosas - 
=desculpou-se o marido.
- Estou muito feliz por estar contigo - replicou ela, 
comovida.
- Josepha, amo-te como nunca poderia amar mais ningum - 
murmurou, =acariciando-a.
Entrou nela com toda a doura de que foi capaz.
Choraram e riram juntos. Durante escassos momentos, 
esqueceram a guerra, =o facto de pertencerem a dois povos 
inimigos, a angstia de um futuro =imprevisvel. Eram apenas 
um homem e uma Mulher apaixonados.
- Nunca mais me deixes - suplicou Lorenzo. - No voltes a 
=Merano.

293


- E a menina? No pensas nela? - A pergunta era uma chamada 
de =ateno tambm para si prpria. Nos braos do marido 
=esquecera a pequena Thea.
Ele acendeu um fsforo e olhou para o relgio.
- Tenho de te levar de volta ao ponto - disse. Comearam a 
=andar debaixo de chuva. Viram a silhueta escura
do barqueiro, que os esperava abrigado por um coberto de 
madeira. =Lorenzo meteu a mo no bolso do casaco e tirou de 
l um envelope =dobrado. Entregou-lho.
- O que ? - perguntou Josepha.
-  uma rosa selvagem. Cresceu, sabe Deus como, no meio das 
pedras =do rio. Apanhei-a para ti.
- Quando te volto a ver? - perguntou, abraando-o. Da 
=prxima vez pensou trago a menina comigo e ficamos juntos, 
=nunca mais regresso  ustria. Era um tormento, ter de o 
=deixar e enfrentar as extenuantes esperas de notcias.
- A sorte protege os inconscientes, como ns - respondeu ele, 
=ajudando-a a subir para o barco.
- Quando te volto a ver? - repetiu.
- No fao ideia. Desta vez foi o Heini quem nos ajudou. Da 
=prxima vez vai depender do acaso.
- Arranja maneira de o senhor Acaso nos dar uma ajuda -
recomendou ela.
Lorenzo deu dinheiro ao barqueiro. Depois ficou ali, no 
ponto, a =olhar para Josepha, que se afastava no barco.
Heini esperava-a na pequena praia pedregosa. A chuva parara e 
havia =luar outra vez.
- Vamos embora daqui, depressa - disse ele, nervoso, quando 
ela =chegou.
- O que foi que aconteceu? - perguntou ela.
- Os nossos esto irrequietos. Andam a patrulhar a zona. 
Entraram no =automvel e o condutor saiu do bosque com os
faris apagados. S os acendeu quando j estavam na estrada 
=do
dige.
- Tenho uma dvida muito grande para contigo - afirmou 
Josepha.
- Quando a guerra acabar, havemos de arranjar uma maneira
de saldar as contas - brincou ele.

294


J estavam na ustria e Heini sentia-se mais seguro. - Vou 
=levar-te a Bolzano. Depois continuo por Vai Passiria. 
Entrega esta =carta a Irmgard antes de voltares a Merano - 
disse, entregando-lhe um =envelope.
- No conseguiste v-la por minha culpa. Lamento muito - 
=desculpou-se ela.
Havia movimento de tropas ao longo do percurso. Ningum se 
preocupou =com eles.
- Olha para aquilo. Parecem todos doidos. Eu no sei o que  
que =est a acontecer. Esta guerra que se trava em tantas 
frentes, da =Rssia ao Atlntico, tem em si qualquer coisa de 
tenebroso. J =tentei inutilmente encontrar uma explicao 
para tudo isto. S =me resta uma nica certeza: a amizade. 
Por isso, no te sintas em =dvida para comigo - afirmou ele.
Quando Josepha chegou ao castelo, j era dia. Do jardim 
chegavam as =vozes da ama, de Sofia e das crianas. Toni 
transportava para a =cozinha um balde de leite acabado de 
tirar. Klara batia um tapete na =varanda. Petra foi ao 
encontro dela com uma expresso carregada.
- Pode saber-se onde  que foi? - perguntou. - Estvamos 
todos =preocupados. O chefe da estao viu-a partir para 
Bolzano. Ontem, = claro. E depois? O que eu digo  que est 
a ficar tola - =censurou.
Josepha nem a ouvia. Dez horas antes estava nos braos do 
marido. =Agora, no relvado, a sua menina estendia na sua 
direco os =braos pequeninos e soltava gritos de alegria.
Josepha pegou nela, apertou-a contra si e sussurrou: - Fui 
ter com o =teu pap.  um segredo s entre ns as duas.
Thea olhou-a a sorrir e disse: - Apu.

295


MERANO - SCHLOSS RUNDEGG NOVEMBRO DE 1918


Inclinada sobre o lavatrio, com a ajuda de =Sofia, 
Josepha lavava o cabelo com algumas lascas de sabo.
Era um perodo difcil. No se arranjava =carvo e a lenha 
para queimar escasseava. A electricidade faltava =muitas 
vezes e o telefone funcionava aos soluos. No havia 
=farinha, o acar era uma raridade. Cevada, batatas e couves 
=chegavam ao mercado a conta-gotas e desapareciam 
imediatamente.
Os militares que circulavam pelos vales saqueavam tudo. 
Alguns =camponeses, desesperados, obrigavam-nos a fugir 
debaixo de tiros de =espingarda. Mas eles eram como as 
formigas: expulsos por um lado, =voltavam a aparecer do 
outro.
No castelo Rundegg, Josepha conseguia ainda distribuir pelos 
=pobres leite, ovos e alguma fruta.
Sofia no aprovava aquela generosidade e dizia-lho. Agora, 
enquanto =lhe deitava gua no cabelo, aproveitou para 
recomendar mais uma vez =que no oferecesse as poucas 
provises de que dispunha. - A fome = igual para todos - 
respondeu Josepha.
Sofia no ousou insistir. Esfregou-lhe energicamente o cabelo 
com =uma toalha, para o enxugar.
Depois, ajudou-a a pentear-se e a vestir-se. Josepha viu-se 
ao =espelho.
- Estou a envelhecer - disse, dirigindo-se a Sofia.
- Mas o que  que a senhora est a dizer? Ainda s tem vinte 
e =Cinco anos. O que hei-de dizer eu, que j tenho quarenta e 
=cinco?

299


Josepha no respondeu. No lhe apetecia explicar-lhe que no 
=se referia  passagem do tempo, mas ao cansao de viver e ao 
=desmoronamento de tantas iluses.
Era o ms de Novembro de 1918. A guerra tinha acabado e os 
italianos =saram dela vencedores. Os austracos estavam de 
tal maneira =exaustos que no se importavam de ter perdido a 
guerra.
Josepha via  sua volta um mundo destrudo. Os valores em que 
=sempre acreditara j no existiam.
A velha Petra tinha morrido no ano anterior, no fim de 
Outubro, deixando =um grande vazio naquele corao j 
dilacerado de ansiedade por =Lorenzo.
Naqueles trs anos de guerra, durante os quais as fronteiras 
entre a =Itlia e a ustria se deslocavam continuamente para 
cima e para =baixo em poucas centenas de metros, tinha 
conseguido encontr-lo =vrias vezes, assim como receber e 
enviar cartas.
Numa destas, logo a seguir  derrota de Caporetto, o marido 
=escreveu-lhe: A nossa retirada no foi um acto de cobardia, 
mas =sim a runa de um exrcito posto de rastos por uma 
disciplina =absurda.
Naqueles ltimos meses de 1918, os jornais publicaram 
notcias =muitas vezes contraditrias. Espalharam-se vozes 
completamente =infundadas. Dizia-se tambm que todo o sul do 
Tirol tinha sido =devastado. Felizmente no era assim. 
Sobretudo em Merano, a atmosfera =era relativamente 
tranquila, apesar de faltar comida para os civis, para =as 
tropas em retirada e para os prisioneiros de todas as 
nacionalidades, =sobretudo russos, que andavam esfomeados e 
desorientados.
Josepha estava a arrumar o quarto dela e estremeceu. Uma 
rabanada de =vento repentina fechou as portadas de madeira 
das janelas. Tentou =segurar a portada com o gancho, mas a 
fora do vento impediu-a. A =porta abriu-se e apareceu Thea.
- Servus, Mutti - disse.
- Servus, Thea - respondeu Josepha, inclinando-se sobre ela 
para a =beijar.
Quando via a filha, a angstia dissolvia-se em ternura. A 
menina =tinha quase quatro anos, e os olhos sorridentes eram 
os de Lorenzo. A =pele, de uma brancura quase transparente, 
era dos Paravicini. Josepha, =como todas as mes, no 
conseguia ser imparcial em relao a =ela e considerava-a 
particularmente inteligente.

300


- A ama diz que o pequeno-almoo est pronto - anunciou.
- Ento vamos depressa para baixo, antes que arrefea - 
decidiu =Josepha, dando a mo  menina.
A mesa da saleta estava posta com o cuidado de sempre: uma 
toalha de =linho cru com as orlas bordadas, os pratos e as 
chvenas de =porcelana, os talheres de prata, a cafeteira de 
leite e a da cevada. O =caf verdadeiro, assim como o ch, 
tinham desaparecido daquela =mesa h algum tempo, tal como da 
mesa de todas as outras famlias. =Mas ainda havia o po 
cozido no forno da casa, a compota de frutos =silvestres, o 
mel produzido pelas suas abelhas e a manteiga que a ama 
=preparava com a batedeira.
Me e filha comiam sempre ss. Normalmente, era Sofia quem 
servia =as refeies, enquanto a ama se ocupava da cozinha. 
Desde que =Petra morrera, Klara sentava-se habitualmente ao 
lado do fogo, numa =cadeirinha forrada de veludo vermelho, e 
dava ordens, conselhos e =sugestes  jovem napolitana. Thea 
sentou-se  mesa ao lado da =me. O vento infiltrava-se, 
assobiando, pelas frestas das =janelas.
- Mutti, de onde vem o vento? - perguntou a menina, enquanto 
=mergulhava no leite um pedao de po com manteiga.
- Este vem do norte. Sentes como  gelado?
- Parece que tem alfinetes dentro - observou Thea. - Para que 
serve o =vento? - perguntou.
- Para limpar os telhados e despir as rvores - explicou 
=pacientemente a me, indicando-lhe, para l dos vidros, os 
=redemoinhos de p e de folhas que o vento criava.
- Mas este vento  fortssimo. Parece zangado. No gosto dele 
=- afirmou Thea.
- Eu tambm no gosto dele. Mas vai passar - disse, para a 
=acalmar.
A menina pousou a chvena de leite, juntou as mos e, 
baixando os =olhos, sussurrou: - Oh, Signore, facite buon 
tempo, quanto busca denari =pap. Poi accattammo nu 
ciucciariello e mettimmo a cavallo =mamm*.

301


Josepha olhou para ela, divertida.
- O que  que ests a dizer?
-  uma orao para fazer parar o vento. Foi a ama que me 
=ensinou. Vai funcionar, vais ver. A ama sabe muitas coisas 
mgicas - =explicou.
- A ama  mais astuta que uma raposa, mas no era pior se tu 
=aprendesses a falar tambm alemo, para alm do dialecto 
=napolitano. E agora agasalha-te bem e vai ao jardim com o 
Pinuccio. =Schnell(2) - recomendou-lhe, enquanto comeava a 
levantar a =mesa.
- Primeiro posso ir ver a Klara? - perguntou a pequena. Klara 
estava =de cama havia j alguns dias, atacada por uma
bronquite incomodativa. O mdico, que viera v-la, aconselhou 
a =aplicao de emplastros de linhaa e mostarda no peito, 
para =dissolver o catarro. Thea foi encontr-la encolhida por 
baixo do =edredo, com a cabea tapada por um gorro de l. 
Estava a =tremer. Foi at junto dela e fez-lhe uma festa na 
face.
- Por que  que ests a tremer?
- No sentes o velho? Mete-me tanto medo - disse a mulher.
- Bernhardus? - sussurrou a pequena.
- Ele mesmo. Est l fora a ulular como um demnio. Mau 
sinal, =Thea, quando o velho se zanga assim.
A menina sabia que Klara tinha medo do conde Bernhardus, mas 
a me =tinha-lhe explicado que era s sugesto.
- Eu fiz uma orao para fazer parar o vento. Assim, o conde 
=tambm se vai acalmar. Agora dorme. Eu tenho de ir brincar 
-disse =ela. Enquanto descia as escadas, ouviu o toque 
insistente do telefone. =No se importou. Ps em cima dos 
ombros a manta de l e saiu, =enquanto Josepha atendia a 
chamada. Pinuccio estava a brincar com os =ces, um 
perdigueiro e um so-bernardo, que deixaram =imediatamente de 
correr atrs dele assim que viram Thea. O =so-bernardo 
atirou-se a ela a ganir para a saudar e o perdigueiro 
=comeou a abanar a cauda com muita fora, a ladrar, para 
captar a =sua ateno.
Willy saiu do estbulo e acalmou os ces. Era um jovem que 
tinha =chegado ao castelo por acaso e ali tinha ficado.


*2. Depressa, em alemo. (N. da T.)


302


Substitura o velho Toni, que havia mais de um ano se 
recolhera no =lar de terceira idade em Maia Bassa. Josepha ia 
visit-lo todas as =semanas e levava-lhe roupa limpa e 
comida. Toni agradecia-lhe, =comovido at s lgrimas, e 
depois dizia: - No perca tempo =comigo. Tem muito que fazer, 
no castelo.
Os ces e as crianas acalmaram porque Willy no desistia 
=to facilmente como o velho Toni. Pinuccio e Thea temiam-no. 
Era um =jovem silencioso. Nunca sorria e no temia o calor 
nem o frio. Ainda =agora, apesar do vento gelado que soprava 
no vale, vestia umas calas =de couro e uma camisa de 
flanela. Levantava-se antes de o sol nascer e =trabalhava 
todo o dia sem descanso. s vezes ia at s =montanhas e 
regressava com o cesto cheio de cogumelos, bagas, razes =de 
arnica e ervas medicinais com que tratava de si prprio, dos 
=animais e das plantas. No falava o dialecto local, mas uma 
linguagem =com inflexes estranhas.
- Quanto a mim,  um desertor do exrcito russo - sussurrava 
=Josepha.
No tinha documentos e declarava que nunca tivera. No queria 
=sequer ser pago.
- Willy no quer dinheiro. S palha para dormir e po para 
=comer - dizia. Quando regressava dos seus passeios pelas 
montanhas, =entregava a Josepha aquilo que tinha colhido. Ela 
agradecia-lhe, e =ento o seu olhar profundo ficava mais doce 
e, corando, oferecia-lhe =um sorriso infantil.
- Vou apanhar flores para o meu pap - decidiu Thea, 
inclinando-se =sobre um grande tufo de ris que floria entre 
Novembro e =Fevereiro.
- Eu tambm - imitou Pinuccio.
Na sala de visitas, por cima do piano, e no quarto de Josepha 
havia =fotografias de Lorenzo. Thea, seguindo os ensinamentos 
maternos, =apanhava flores que punha ao lado dos retratos 
daquele homem sorridente, =de bigode brilhante e farda de 
militar, que ela no conhecia mas que =sabia ser o pai.
Tambm Pinuccio no se lembrava do pai e Teresa no tinha 
=fotografias para lhe mostrar. No entanto, se Thea decidira 
apanhar =flores para o pai, ele faria a mesma coisa. Pinuccio 
imitava-a em tudo =e ela obrigava-o a fazer tudo aquilo que 
queria. Exercia sobre aquele =irmo de leite uma espcie

303


de tirania que Josepha no aprovava, mas que na verdade 
tornava feliz =o filho da ama.
- H urze branca, ali ao fundo. Vai apanhar - ordenou Thea, 
com um =ar magnnimo.
Regressaram a casa com os ramos de flores.
- O meu  mais bonito - disse Thea.
- O meu  maior - disse Pinuccio, como consolao. Josepha 
=estava no vestbulo a falar ao telefone. Ou melhor, a
gritar.
- No ouo nada. Este telefone danado no parou de tocar 
=durante toda a manh e eu s ouo rudos.
Estava zangada. As crianas sentaram-se, compungidas, no 
primeiro =degrau da escada. Ela no se apercebeu da presena 
delas. Pousou o =auscultador e um novo toque quebrou o 
silncio.
- Est! - repetiu.
Finalmente chegou at ela, bem ntida, uma voz conhecida.
- Querida, j vou ao teu encontro - anunciou Lorenzo. O rosto 
de =Josepha iluminou-se.
- Lorenzo! s mesmo tu? Ests bem? Diz mais qualquer coisa, 
por =favor.
- Est tudo bem, Josepha. Eu tambm estou a ouvir muito mal. 
O =burgomestre explica-te. Espera por mim esta noite - disse 
ele. Depois =a chamada caiu.
Ela enfiou outra vez o auscultador no gancho e s ento notou 
a =presena da filha e de Pinuccio.
- O teu pai voltou da guerra - sussurrou, com os olhos cheios 
de =lgrimas.
- E o meu? - perguntou Pinuccio.
- Tambm vai voltar - tranquilizou-o, abraando-os aos =dois.

304


Pinuccio parecia desiludido. Libertou-se dos braos de 
Josepha e foi =a correr pelas escadas acima, a chamar pela 
me. Thea no disse =nada.
- No ests feliz, minha filha? - perguntou Josepha, que 
chorava =com a alegria de voltar a ver o marido.
- Por que  que o pap vai voltar? - perguntou, curiosa.
- Porque a guerra acabou e os soldados voltam para casa. O 
teu pai  =um soldado, bem sabes.
- E aqueles que morreram tambm voltam? - quis saber. Tinha 
uma =amiguinha que vivia num castelo prximo. O pai dela 
tinha morrido em =combate.
- Esses no, infelizmente - respondeu Josepha. - Mas o teu 
vai =estar aqui esta noite. E vai poder finalmente ver-te e 
abraar-te, =como eu estou a fazer.
- E tambm te vai abraar a ti? - perguntou.
- Claro que vai. Estou muito feliz por ti e por mim. O pap  
um =homem maravilhoso e eu amo-o infinitamente - disse. E 
continuou: - =Tenho de ir ter com o burgomestre. Mas primeiro 
quero enfeitar o castelo =para festejar este regresso.
Josepha chamou Sofia que, da cozinha, tinha ouvido tudo, mas 
esperava =que a chamassem.
Naquela manh tinha descido cedo at  cidade. Havia uma 
grande =agitao pelas ruas. Algum distribua panfletos, 
assinados =Pelo burgomestre, que anunciavam a chegada dos 
italianos. Carros e =camies eram empurrados ao longo da 
margem

305


do Passirio. Armas e canhes eram lanados abaixo das pontes.
Tentando o mais possvel no se fazer notar, Sofia regressou 
=rapidamente ao castelo. Em Schloss Rundegg, protegido por 
muros altos a =toda a volta, sentia-se a salvo. De qualquer 
modo, tinha-se assustado, =e recomendou a Willy que estivesse 
atento.
Agora, ao ouvir dizer que o coronel Valeschi estava a chegar, 
sentiu-se =mais tranquila.
- O ba dos enfeites est no sto. Temos de dar um ar de 
=festa  entrada e  saleta. Traz tudo para baixo - ordenou 
=Josepha.
Tentou telefonar para o municpio, mas a linha estava outra 
vez =cortada. No sabia por que razo Lorenzo lhe pedira para 
entrar em =contacto com Herr Grossmann, mas no duvidava de 
que deveria haver =uma razo vlida. Seria obrigada a descer 
at  cidade, se =no conseguisse falar com ele.
- Ama! - berrou.
Estava agitada e tinha pressa de deixar as ordens. Teresa 
apresentou-se =com os olhos vermelhos de chorar.
- Pode dizer, minha senhora - disse.
- Tens de tratar da cozinha. Prepara legumes, anho estufado e 
torta de =ma. O coronel Valeschi chega esta noite. - Deu as 
=informaes todas de um s flego. Depois apercebeu-se de 
=que a rapariga estava a sofrer. - O teu marido tambm vai 
voltar, =vais ver. Se lhe tivesse acontecido alguma coisa, j 
sabias - disse, =para tentar anim-la.
- Como? No sei mais nada dele, desde que partiu para a 
frente.
- As ms notcias chegam depressa. O Benedetto vai voltar em 
=breve. No te preocupes. Entretanto, contenta-te em pensar 
que os =meus perderam a guerra e os teus a ganharam. Apesar 
de estarmos todos na =mesma alhada, como tu dizes.
-  um remdio muito amargo - murmurou Teresa.
- Temos de o engolir, quer gostemos quer no - concluiu. E 
=acrescentou: - Tenho de me arranjar para sair. Trata dos 
meninos.
Olhou em volta,  procura da filha.
- Onde est a menina? Ainda agora aqui estava.

306


Teresa encontrou-a na cozinha. Recomendou-lhe que se portasse 
bem, =enfiou um avental e comeou a atarefar-se  volta do 
=fogo.
- Oh, meu Deus, suplico-vos, devolvei-me o meu marido. Eu 
depois =no peo mais nada - rogou, enquanto pegava numa 
frigideira.
Thea saiu silenciosamente da sala e subiu as escadas at  
torre. =Entrou no quarto, empurrou um banco para junto de uma 
janela, ps-se =em cima dele e ficou ali, por trs dos 
vidros, a olhar o cu.
O vento tinha acalmado e brilhava um tmido sol invernal. 
Sobre o =cume recortado do monte San Zeno viu uma guia. 
Planava lentamente em =grandes crculos, em direco a um 
bosque de abetos.
- Der Adler fngt keine Mucken - sussurrou, repetindo uma 
=expresso da me. A guia no apanha insectos. Talvez 
=tivesse investido contra um carneiro.
Willy, ao fundo do jardim, rachava lenha.
Viu a me, que seguia ao longo da alameda, quase a correr.
- Schnell, schnell - disse Thea, enfadada. Nem =sequer lhe 
pedira que a acompanhasse. Detestou-a. Voltou a olhar para o 
=fundo do jardim. Willy j l no estava. Viu-o seguir a 
=me, de longe, como um co de guarda. Caminhava com um andar 
leve =e hesitante. De vez em quando virava-se para olhar para 
trs.
Thea desceu do banco, esgueirou-se para fora do quarto e foi 
ao quarto =de Klara.
A criada estava a vestir-se.
- Ests a ver, Klara? A minha frmula mgica acalmou o vento 
=- anunciou, satisfeita.
- Fizeste bem - agradeceu Klara, que tinha vestido uma saia 
preta =apertada na cinta. - Chega-me aquele casaco - pediu  
menina, =indicando um casaquinho preto, de l, cuidadosamente 
dobrado e =pousado sobre a cabeceira da cama. Thea 
entregou-lho e quis =ajud-la a apertar os grandes botes de 
prata que o fechavam =at ao pescoo. A velha calou umas 
pantufas de feltro, tirou a =touca e penteou o cabelo.
Depois instalou-se numa pequena cadeira aos ps da cama. - 
Vai =l abaixo buscar o jornal - pediu-lhe.

307


Todas as manhs, o carteiro entregava no castelo o jornal 
dirio =da cidade, o Meraner Zeitung. Josepha lia-o e depois 
deixava-o em cima =de um mvel do vestbulo. Em tempos, Klara 
passava-lhe os olhos =com Petra e, juntas, comentavam as 
notcias. Era um momento =importante do dia. Agora que Petra 
j no existia, Klara lia-o a =Thea, quando no tinha que 
fazer.
A menina chegou com o jornal que a mulher, depois de ter 
posto os =culos, comeou a folhear. A pequena sentou-se na 
beira da cama, =pronta para ouvir. Entretanto contemplava a 
orla da sua saia vermelha, =que tinha bordada uma srie de 
meninos estilizados, um rapaz e uma =rapariga, de mos dadas, 
como se estivessem a brincar numa grande =roda.
Ringelreihen(3), pensou. Fazia Ringelreihen com Pinuccio e 
com outros =amigos que, de vez em quando, apareciam no 
castelo.
Klara leu em voz alta: Acolhemos com firme dignidade os 
italianos =que vo entrar na cidade. Temos a certeza de que 
lutmos com =perseverana. Os nossos inimigos devem 
reconhec-lo. Voltou a =dobrar o jornal, pousou-o em cima da 
cama, assoou ruidosamente o nariz =e limpou uma lgrima.
- Vi uma guia por cima do monte San Zeno. Se calhar estava a 
atacar =um carneiro - disse a menina.
- Houve um tempo em que ns ramos guias. Agora somos 
=carneiros - constatou tristemente Klara.
- Os inimigos so as guias? - perguntou Thea.
- Os inimigos so os italianos. No sei se so guias - 
=comentou a velha criada.
- O meu pai chega esta noite. Ele  italiano.  teu inimigo? 
- =perguntou, curiosa. Na realidade, no tinha bem claro o 
conceito de =inimigo, mas sabia que o amigo era uma pessoa 
que se devia amar.
A mulher olhou a menina com ternura.
- s tal e qual a tua me. Ela tambm, quando era pequena, me 
=fazia muitas perguntas a que eu no sabia responder. Mas 
posso =dizer-te, com certeza, que deves estar contente por o 
bom Deus ter =poupado o teu pai. Vais conhec-lo e vo gostar 
muito um do =outro.


*3. Rodinha, em alemo. (N. da T.)


308


Thea desceu da cama, aproximou-se de Klara e perguntou-lhe: - 
A =mam  do Tirol. O pap  italiano. Eu o que sou?
- Tu s uma pequena mula: metade cavalo e metade burro - 
=respondeu.
- No percebi nada - concluiu a menina, aborrecida.

309



Josepha teve um dia frentico e Thea fez o que pde para o 
tornar =ainda mais difcil. Arrancou as fitas que 
ornamentavam a coluna do =vestbulo, partiu dois pratos e, 
quando foi repreendida, gritou: =Me feia e m. Depois 
desapareceu e tiveram de a procurar =durante muito tempo, 
antes de a encontrarem no depsito da lenha, =onde se 
escondera. O que a transtornava, e Josepha sabia-o, era a 
=notcia da chegada do pai. Por fim, foi a ama que tratou de 
a =acalmar.  noite, finalmente, adormeceu.
O burgomestre veio buscar Josepha para a acompanhar  
estao. =Durante o percurso, informou-a dos ltimos 
desenvolvimentos da =situao: Lorenzo Valeschi tinha partido 
de comboio de Spondigna =com trezentos alpinos. Chegaria a 
Merano s nove e meia da noite.
- Acabou mesmo, minha querida Josepha - disse, dando-lhe uma 
=palmadinha na mo, como fazia quando ela era uma mida e ele 
=no encontrava as palavras exactas para lhe explicar alguma 
=coisa.
- Tenho pena que os italianos tenham vencido esta guerra. Mas 
tambm =tinha pena se a tivessem perdido. No quis deixar a 
minha cidade, =correndo todos os riscos que o senhor conhece. 
Agora no sei muito =bem se estou a ir ao encontro do meu 
marido ou de um vencedor - =sussurrou ela.
- Ns nunca seremos italianos, Josepha. S temos de mostrar 
boa =cara, e isso no te vai custar muito, porque amas o 
Lorenzo.

310


- Este  um momento muito difcil para mim. Estou-lhe grata 
mais =uma vez por ter estado comigo.
O burgomestre parou o carro no largo da estao, de onde 
saam =as tropas austracas. O comando italiano tinha 
telegrafado ao major =Tietze e ao doutor Grossmann, para 
ordenar a evacuao da =estao. Os militares estavam ali 
acampados h horas,  =espera de um comboio que os levasse 
para o outro lado da nova fronteira. =O major Tietze, que 
Josepha no conhecia, cumprimentou-a com um =beija-mo 
respeitoso.
- Peo-lhe que fique no carro, signora Valeschi - disse. - 
Neste =momento, o comboio est parado em Postal. Ao longo da 
linha =frrea, os sobreviventes das Standschiitzen acenderam 
fogueiras para =se aquecerem e acamparam. Ainda vai demorar 
algum tempo at que saiam =dali e o comboio com os inimigos 
possa retomar a viagem.
Os inimigos. Era assim que consideravam os italianos. Poderia 
no =lhes dar razo?
- Espera aqui, Josepha - interveio o burgomestre, saindo do 
carro. E =acrescentou, dirigindo-se ao major Tietze: - O 
coronel Valeschi  =um grande amigo nosso, e vem de novo 
abraar a famlia, que vive =aqui.
O major ps-se em sentido e depois afastou-se. Josepha no 
=conseguia estar quieta dentro do carro. Estava muito nervosa 
devido =quele longo dia de espera, ansiosa por voltar a 
abraar o marido, =mas preocupada com a hostilidade que 
sentia no ar.
Os soldados austracos tinham abandonado a estao que, 
agora, =estava deserta e mergulhada no silncio. Viu o major 
e o burgomestre =dirigirem-se  linha frrea. Saiu do carro e 
foi atrs deles. =Estava muito escuro. Os militares acampados 
a uma centena de metros =formavam uma imensa mancha negra. 
Estava frio. De vez em quando via-se =brilhar a ponta de um 
cigarro ou ouvia-se algum tossir. A seguir, =um silvo e o 
toque da campainha da estao anunciaram a chegada do 
=comboio.
Reinava uma atmosfera surreal sobre a plataforma deserta. Os 
frisos =liberty que corriam ao longo do telhado pareciam 
rendas cheias de =p.
Os faris da locomotiva iluminaram aquela escurido opaca. O 
=comboio parecia um monstro de grandes olhos brilhantes,

311


que cuspia fumo e vapor. Josepha recordou de repente o 
submarino de =Enrico Castiglia, o primeiro marido. Ficou 
aterrada e sentiu um desejo =irreprimvel de fugir. Recuou 
alguns passos, ao mesmo tempo que o =comboio se imobilizava 
com um chiar metlico. O tutor agarrou-lhe o =brao com 
firmeza.
- Sossega, minha menina - tranquilizou-a.
Da primeira carruagem saram quatro oficiais. Traziam 
vestidos os =casacos cinzentos-esverdeados do exrcito 
italiano. Josepha =reconheceu o marido imediatamente. O major 
Tietze, o burgomestre e ela =no se mexeram. Os quatro 
chegaram  frente deles e fizeram uma =saudao militar. 
Lorenzo s olhava para ela. Josepha tinha =sonhado com um 
encontro diferente, mas aquele foi um momento de grande 
=comoo.
- Eu sou o general de brigada Ponzi - apresentou-se o oficial 
mais =graduado. E acrescentou: - S o coronel Valeschi fala 
alemo. =Portanto, ser ele a expor a situao.
- Eu sou Friedrich Grossmann, burgomestre desta cidade. O 
major Tietze, =comandante do nosso exrcito, a signora 
Josepha Valeschi, esposa do =coronel Valeschi - disse o homem 
com ostensiva frieza. Depois =continuou: - Com que direito 
est o exrcito italiano em vias de =ocupar Merano?
-  o direito dos vencedores - respondeu Lorenzo, com uma voz 
=cansada. Depois, com pesar, acrescentou: - Estou 
verdadeiramente =amargurado, Herr Grossmann. Gostaria de ter 
regressado como amigo.
- Os meus concidados vo comportar-se disciplinadamente - 
=afirmou o burgomestre.
- Conheo a vossa rectido e peo desculpa desde j se =algum 
dos nossos se comportar de forma arrogante. Na realidade, 
estamos =exaustos e no somos responsveis pelas decises dos 
governos. =Vamos fazer todos os possveis para no interferir 
nas suas =decises, e o senhor burgomestre poder continuar a 
exercer as =suas funes como antes - replicou Lorenzo, dando 
voz aos =prprios sentimentos, mais do que aos do general 
Ponzi.
- Coronel Valeschi, diga ao seu superior que lhe ficaria 
grato se, pelo =menos, renunciasse a mandar iar a bandeira 
italiana no municpio. =No gostaria de ter de me desculpar 
por qualquer gesto imponderado =dos meus concidados - pediu 
o burgomestre.


312


Lorenzo falou brevemente com os trs oficiais. Por fim 
dirigiu-se a =Herr Grossmann e a Josepha com um brilho nos 
olhos.
- Ser feita a sua vontade. Devo confessar que nem sequer 
temos uma =bandeira connosco.
Tietze e o burgomestre sorriram-lhe. Josepha chorava 
=silenciosamente.
- Os seus homens - concluiu o burgomestre - podero por esta 
noite =instalar-se nas salas do rs-do-cho do hotel Andreas 
Hofer. Os =oficiais sero alojados no Hausbergerhof.
Lorenzo pensou na ironia do destino. Andreas Hofer era o 
smbolo do =Tirol, o homem que lutara e morrera pela 
independncia da sua terra. =Em Merano, para o recordar, 
havia uma rua, um monumento e um hotel onde =iam dormir os 
vencedores. Ps-se em sentido e comunicou as =directivas. Era 
quase meia-noite quando as carruagens do comboio se =abriram 
para deixar sair os alpinos que, exaustos e desorientados, se 
=espalharam no exterior da estao. Foram surpreendidos pelo 
=silncio e pela escurido que envolviam a cidade.
- Vou lev-los ao castelo - disse ainda o burgomestre, 
=avanando  frente de Lorenzo e Josepha, em direco ao seu 
=automvel.
- No estamos ss - informou Lorenzo. - Tenho comigo um 
soldado =de infantaria que vai ficar em Rundegg.
Josepha quase no reconheceu Benedetto Zicri, que se afastara 
do =grupo dos alpinos e vinha agora na direco deles.
- Como foi que conseguiste que ele viesse contigo at aqui? - 
=perguntou, espantada.
- Pergunta-lhe a ele como fez para me encontrar e para se 
apresentar =na estao de Spondigna. A nossa nica fora, 
nesta guerra =tremenda, foi a coragem e a fantasia dos 
italianos - respondeu =Lorenzo.

313


Klara estava sentada ao p do fogo. Tinha na mo uma malga 
=cheia de sopa de cevada, melhorada com toucinho e batatas. 
De vez em =quando comia um bocado e olhava para aqueles 
italianos que estavam =sentados  mesa na qual, durante anos, 
fizera as refeies com =Petra e Toni. Eram Teresa, o marido 
e Pinuccio. Trs pessoas que lhe =tinham sido queridas e que 
agora via com outros olhos.
A hostilidade de Klara era largamente partilhada pelos seus 
=concidados, depois que o exrcito italiano se apoderara de 
=Merano. Teresa apercebia-se disso e decidiu que tinha 
chegado o momento =de partir.
- Hoje de manh fui  estao. Regressar a Npoles vai =ser 
uma aventura - anunciou. - S h um comboio para civis de 
=Merano at Bolzano. Parte s dez horas da manh. A linha 
=frrea est interrompida entre Bolzano e Trento, e por isso 
h =um servio de carro de transporte.
- Chama-se camio - emendou Benedetto.
- Eu no sou estpida. O empregado que me atendeu, que era 
=italiano, disse carro de transporte. Portanto,  este 
carro =que parte de tarde e chega a Trento  noite. Ali no 
se sabe muito =bem o que acontece. Mas, com pacincia, 
havemos de arranjar um =comboio at Verona. Em Verona muda-se 
e apanha-se outro comboio =para Bolonha. De Bolonha at 
Npoles  um passeio. Se tudo =correr bem, em trs dias 
estamos em casa - explicou Teresa.

314


- A Thea tambm vai connosco? - interrompeu Pinuccio.
- A Thea fica aqui, com os pais dela - rematou.
- No  verdade. Disse-me que tambm vai para Npoles - 
=protestou o pequeno.
- Ento quer dizer que vais voltar a v-la - condescendeu a 
=me.
- Quando queres partir? - perguntou Benedetto.
- Amanh de manh, se estiveres de acordo.
Pinuccio encostou-se a Klara, pousou-lhe as mos nos joelhos 
e =disse: - Ns, morgen, abreisen nach Npoles(1). 
Percebeste?
Klara fez-lhe uma festa na cabea com a mo ossuda. - Sim, 
=percebi. - Abanou a cabea e sorriu. Depois disse: - Eu no 
=passo de uma velha resmungona. No consigo adaptar-me a 
estas =mudanas. Gostaria que o mundo fosse como h vinte 
anos atrs. =Mas entendo que no  possvel. Por isso  que 
vocs se =vo embora. A minha senhora tambm vai acabar por 
ir, com o =italiano e com a pequena Thea. Eu vou para o p da 
minha famlia. =Schloss Rundegg vai ficar fechado. Findou uma 
era. - Falou em =alemo. Eles no perceberam todas as 
palavras, mas captaram-lhe a =melancolia.
Teresa passou o dia a juntar as coisas que lhe pertenciam: 
roupa, =pequenos presentes e uma proviso de alimentos para 
trs dias. =Deitou-se, pela ltima vez, no quarto ao lado 
daquele onde Thea =dormia desde os dois anos. Pensou que na 
noite seguinte a pequena =Valeschi iria estar sozinha. Sabia 
que, quanto a isso, Josepha seria =inabalvel. Tudo dependia 
dos pontos de vista e da educao =recebida. Teresella estava 
habituada  promiscuidade, e a solido =metia-lhe medo.
De manh, ajudou o filho a vestir-se.
- Agora vai  cozinha e avisa o teu pai, que eu deso j para 
=preparar o pequeno-almoo - disse. Depois entrou no quarto 
de =Thea.
A pequena, empoleirada numa cadeira, penteava-se em frente do 
=espelho.
- Mas que ideia foi que te deu? Hoje  sexta-feira. No podes 
=fazer as tranas - avisou, a sorrir.


*1. Amanh, partimos para Npoles, em alemo. (N. da =T.)


315


- Maladitta chitta trizza, ca da venniri s'intrizza(2) - 
recitou a =menina. - Mas a mam diz que eu no devo acreditar 
nestas =coisas.
- A tua me tem razo. Mas nunca se sabe. Mais vale estar 
sempre =preparado. At porque um homem prevenido...
- Vale por dois - concluiu Thea, a rir; e continuou: - Mas eu 
no =sou um homem.
Teresa pegou nela e sentaram-se as duas na cama.
- Agora ouve-me com ateno. Temos de nos despedir, porque eu 
=vou voltar a Npoles - explicou.
- Eu sei. A mam j me disse. Porqu? No ests bem =aqui? 
Teresa gostaria de dizer que naquele momento se sentia a 
mais.
Que em breve Thea seria entregue aos cuidados de uma 
preceptora inglesa. =Que em Merano no havia futuro para ela 
e para Benedetto. Que queria =voltar para o p da sua gente e 
ter uma casa pintada de cor-de-rosa =s para eles. Mas Thea 
no ia entender tudo aquilo. Por isso, =respondeu: - Npoles 
 uma cidade lindssima.  a minha =cidade. Fica em Itlia, 
percebes?
- Mas aqui tambm  Itlia, agora - explicou Thea. Teresa 
=torceu os lbios.
-  uma maneira de dizer. Porque foi assim que os governos 
=decidiram. Mas isto no  Itlia. Nem nunca vai ser, acho 
=eu.
- Ns tambm vamos para Npoles, com o pap - disse =Thea.
- Ento vamos voltar a ver-nos muito em breve - respondeu, 
apesar =de saber que a sua tarefa junto daquela famlia 
estava concluda. =Os Valeschi j no precisavam dela. Thea 
ia esquec-la =depressa. No entanto, ela mant-la-ia no 
corao para sempre. =Tinha-a alimentado com o seu leite, 
embalado, velado, consolado e =acariciado, tratado quando 
estava doente e encorajado nas primeiras =aprendizagens. - 
Agora deixa-me ir, porque o Benedetto e o Pinuccio =esto  
minha espera.
- Vamos conversar mais um bocadinho - disse a pequena, na 
tentativa de =a reter, apertando-lhe os braos  volta do 
pescoo.


*2. Maldita trana essa, que se enria  sexta-feira 
=(provrbio siciliano). (N. da T.)


316


- As conversas s' come se cerase, una esce e Valtra trase(3) 
- =replicou Teresa, a sorrir.
- Essa no sabia. O que quer dizer?
- Que no  preciso falar mais do que o necessrio.
- Vou tentar lembrar-me - disse a menina. Estava quase a 
chorar. =Teresa tambm tinha os olhos brilhantes.
Naquele momento Lorenzo apareceu  porta do quarto.
- Vai l, Teresella - disse. - Eu e esta linda menina temos 
de =fazer uma coisa urgente - acrescentou, tirando a filha 
dos braos da =ama.
Teresa arrumou rapidamente, pela ltima vez, o quarto de 
Thea. Sentiu =Lorenzo descer as escadas e a voz da pequena 
que dizia: - Estou muito =zangada. Mais, estou zangadssima.
Lorenzo levou-a at ao bosque. No queria que a menina visse 
=partir a ama.
Josepha, pelo contrrio, esperava-a na caleche. Ia acompanhar 
a =famlia Zicri  estao. Sofia encharcou um leno de 
=lgrimas. Inesperadamente, a velha Klara entregou  ama com 
um ar =solene a colcha que ela mesma confeccionara tantos 
anos atrs, quando =era rapariga, pensando que um dia teria 
marido. -  para a tua casa =nova - disse-lhe em italiano, e 
acrescentou: - Pittata rosa(4). =-No sabia o que aquilo 
queria dizer, mas tinha a certeza de que =aquelas duas 
palavras haviam de agradar a Teresa.
Quando chegaram  estao, Josepha deu-lhe dinheiro. Teresa 
=corou.
- Pega. Vais precisar dele.
- Mas isto  de mais - respondeu a mulher.
- Foste uma boa ama. Nunca mais me vou esquecer de ti. Teresa 
recordou =tudo aquilo que Josepha fizera por ela desde o
tempo em que era uma criana maltrapilha e vivia na viela da 
Duquesa. =No sabia como exprimir a sua gratido.
- Um dia, se eu puder, gostaria de retribuir tanta 
generosidade - disse =simplesmente.
Josepha viu-os entrar no comboio e disse-lhes adeus com um 
=leno.

*3. As conversas so como as cerejas, vm umas atrs das 
=outras, em italiano. (N. da T.)
4. Pintada de cor-de-rosa, em italiano. (N. da T.)


317


Sabia que em breve tambm ela ia partir com Lorenzo e com a 
menina, =para regressar a Npoles. Desta vez no haveria 
lamentos. Aquela =terra ocupada pelos italianos j no lhe 
pertencia. Tinha chegado =o momento de se considerar italiana 
e de viver em Itlia, na =verdadeira Itlia.

318


EM VIAGEM - NORTE-SUL NOVEMBRO DE 1918


Em Bolzano, no exterior da estao, havia =uma longa 
fila de camies militares transformados, por necessidade, =em 
meios de transporte para civis. Os camies no tinham uma 
=cobertura para proteger os viajantes, mas os condutores 
ofereciam =cobertas militares de pssima l e limpeza 
duvidosa. Teresa =recusou. Ficariam protegidos os trs pela 
bela colcha oferecida por =Klara. O cho do camio tinha sido 
coberto com palha seca. Os =volumes que os passageiros 
transportavam consigo serviam-lhes de =bancos.
Apesar do frio e do desconforto, os camies estavam =cheios 
de passageiros.
Benedetto, Teresa e o menino refugiaram-se num canto, por 
trs do =condutor. Ao lado deles instalou-se uma camponesa. 
Vinha de Renon, onde =uma bomba destrura a sua quinta. Ia 
para Rovereto, para casa da =filha que estava casada com um 
farmacutico. Contou tudo isto num =italiano imperfeito, 
enquanto chorava a morte de dois filhos homens, na =guerra, 
em Montello. Havia um caixeiro-viajante representante de 
=sabes desinfectantes, que recebera encomendas em todo o 
lado e =defendia que aquele produto era um remdio fantstico 
contra =qualquer tipo de doena. Estava tambm Um capelo 
militar que =regressava  sua diocese, numa aldeia da 
Provncia de Brescia. =Havia msicos com os respectivos 
instrumentos. Tinham alegrado alguns =momentos das tropas 
italianas estacionadas nas vrias frentes e agora =iam at 
Milo,  procura de novos contratos. Com eles estavam =duas 
mulheres. Eram as cantoras da companhia.

321


Uma chamava-se Lul Landi e a outra Marisette. Lul era 
=jovem, tinha uns grandes olhos negros maltratados e lbios 
pequenos e =escarlates. Marisette, apesar do nome, era uma 
mulher grande,  volta =dos trinta anos, que respirava com 
dificuldade e tinha febre h dois =dias. - Tudo por causa das 
correntes de ar dos teatros - explicou. O =camio ps-se em 
movimento. Ia ser uma viagem cansativa. Teresa =recordou o 
percurso inverso, quatro anos atrs, num compartimento de 
=primeira classe, quando fugira do marido que a traa.
Nunca quis saber quem fora a mulher por quem Benedetto a 
tinha trocado. =Durante os anos de guerra acabou mesmo por 
esquecer aquela infidelidade. =A recordao apresentou-se-lhe 
naquele momento, enquanto =viajavam para Npoles. E sentiu o 
receio de que o marido pudesse =reencontrar aquela pessoa. 
Olhou para ele. Trazia o menino ao colo, =preocupado com a 
possibilidade de o ar frio daquele fim de Novembro =conseguir 
penetrar atravs da colcha que os envolvia aos trs. =Teve um 
rasgo de ternura por ele. Estendeu uma mo para lhe fazer uma 
=festa na face. Depois deteve-se. Os filhos e os maridos s 
se beijam =quando esto a dormir, pensou. Recordou, da sua 
viagem de ida, a =tranquilidade das paisagens que viu passar 
atravs da janela do =comboio. Agora, atravessavam zonas 
destroadas pela guerra. Viam-se =casas bombardeadas, pontes 
derrubadas, aldeias destrudas, filas de =soldados vestidos 
de farrapos a marchar desordenadamente em =direco a uma 
meta qualquer. Quanto horror e quanta pena nos =rostos das 
pessoas desesperadas que caminhavam a p, pela berma das 
=estradas, levando s costas aquilo que tinham conseguido 
salvar: um =bero, um colcho, um conjunto de panelas, uma 
cadeira sem tampo. =E, no entanto, Teresa era por vezes 
percorrida por lampejos de =felicidade. O marido estava com 
ela, apertava-a bem contra ele e ela =sentia-lhe o batimento 
regular do corao. Pinuccio dormia ao seu =colo - Juntos, 
haviam de construir uma nova vida.
Algum cantou a cano do Piave. Nunca a tinha 
=ouvido-Comoveu-se.
- Estou muito contente por regressar a Npoles - disse ao 
=marido.
- Tambm eu - sussurrou ele, reforando o abrao.

322


- O Pinuccio tem de aprender a nossa lngua, que  to 
bonita. =Ests a ver como ele fala, coitadinho?
- As crianas aprendem depressa.
- Ele tem de estudar. No vai ter dificuldade nenhuma, porque 
 =inteligente como tu.
- De ns os dois, a mais inteligente s tu, Teresella.
- Eu tenho muitas esperanas, Benedetto. Sinto que tu vais 
arranjar =um bom emprego, que vamos ter mais filhos e que nos 
vamos amar para =sempre.
Comeou a chover. O camio no tinha toldo de proteco. 
=Alguns passageiros abriram guarda-chuvas. Outros 
protegeram-se com =mantas. Mas ao fim de meia hora estavam 
todos encharcados. O camio =parou por baixo do coberto de 
uma pequena estao dos correios =abandonada.
- Onde  que estamos? - perguntou Teresa.
- No me perguntes a mim. No consigo ler estes letreiros - 
=respondeu o marido.
Desceram todos do camio. A chuva no parava. Estava frio, o 
vale =do Adige apresentava-se com as suas montanhas agrestes, 
nuvens baixas e =uma humidade que penetrava at aos ossos.
- Estamos perto de Neumarkt - anunciou o condutor. - Ali ao 
fundo = Trento.
- Tenho de mudar o menino. Tem a roupa molhada - disse 
Teresa.
-  melhor abrigarem-se aqui dentro - sugeriu o condutor, 
=indicando a estao. - No  um grande hotel, mas ao menos 
=no se apanha chuva.
Entraram. Tinham l estado outras pessoas, antes deles, que 
deixaram =um cheiro azedo de sujidade.
- Mas isto  um nojo - protestou Lul, libertando-se de um 
=tango xaile que a cobria da cabea aos ps. Trazia um casaco 
de =l cinzento e um abafo vermelho, de penas de avestruz,  
volta do =Pescoo.
- Deixa l - aplacou-a a sua amiga Marisette. - D-me outra 
=manta. Tenho frio. - Deixou-se cair extenuada em cima de um 
monte de =palha suja.
- Tem pacincia, Marisette. Assim que chegarmos a Trento 
arranjamos =um hotel - disse um dos elementos da orquestra.

323


- E tomas um ch quente. Dormes um grande sono e amanh ests 
=fina - prometeu Lul.
- Tenho de regressar a Milo convosco. No posso perder um 
novo =contrato - objectou ela, com um fio de voz.
A presena da mulher doente tornava mais amarga aquela viagem 
=horrvel.
- Se calhar devamos ter esperado melhores dias, antes de 
sairmos do =castelo - sussurrou Benedetto.
- Nem pensar. Lembra-te mas  do sol de Npoles e dos teus 
=companheiros, que esto  tua espera. Temos dinheiro 
suficiente =para pagar um ano de aluguer numa boa casa, s 
para ns. Eu no =vejo a hora de l voltar - replicou ela.
- Mam, tenho sede - choramingou Pinuccio.
Teresa tirou do saco dos mantimentos um termo cheio de leite 
quente. =Deu-lhe um copo. O pequeno bebeu dois goles e depois 
rejeitou-o.
- No me apetece - decidiu.
- Queres uma bolacha, meu amor? - props ela.
- Di-me a cabea - anunciou Pinuccio. Teresa ps-lhe uma 
=mo na testa.
- Felizmente no tens febre - constatou. - Tens a certeza de 
que =te di a cabea?
O pequeno confirmou.
-  o desgosto - sorriu ela. - Falta-te a tua irmzinha de 
=leite. Se calhar ela tambm sente a tua falta. Quando 
estivermos em =Npoles, daqui a alguns dias, vais voltar a 
estar com ela - =consolou-o. Depois tirou-lhe a manta porque 
lhe pareceu um pouco =hmida e embrulhou-o num xaile de l 
macia.
- Parece-me um bocadinho plido - sussurrou o marido.
- Sabes como so as crianas. To depressa esto mal como =no 
momento seguinte j esto bem. Esperemos que esta chuva pare, 
=para podermos continuar depressa a viagem. No comboio vamos 
estar muito =melhor.
Naquele momento saram dos sacos dos viajantes pedaos de 
po, =embrulhos com queijo, salsichas, toucinho, garrafas de 
vinho e ovos =cozidos.
Cada um fez questo de oferecer aos outros. Comeram todos,  
=excepo de Marisette, que se queixava e tossia. E Pinuccio,

324


que tinha adormecido no colo da me. Alguns dos companheiros 
de =viagem eram mais loquazes do que outros. O representante 
de sabo e =um violinista idoso contaram histrias da guerra 
e de bombardeamentos =de que tinham sado ilesos.
Benedetto, que vivera pessoalmente aquelas e outras 
experincias, =estava calado. Preferia guardar para si aquilo 
que tinha visto e =sofrido.
- Sabiam que os austracos chegaram mesmo a bombardear 
Npoles? =- revelou outro dos msicos.
Teresa e Benedetto ficaram logo cheios de curiosidade.
- Um dirigvel, cheio de munies, chegou at  encosta =do 
Vesvio e descarregou umas bombas em Via Santa Erigida. 
Quarenta =feridos e dezasseis mortos.
- Oh, meu Deus! E quando foi isso? - perguntou Teresa.
- Ento vocs so napolitanos e no sabem de nada? Foi no 
=ano passado, em Julho. Todos os jornais falaram disso - 
explicou.
Ela fez o sinal da cruz. Pensou no pai, nos irmos e em todos 
os =outros parentes de quem nunca mais tivera notcias.
Por fim deixou de chover. O condutor e alguns passageiros 
secaram o =melhor que puderam o cho do camio. Tiraram do 
estbulo =algumas braadas de palha seca e espalharam-na. 
Entraram todos de =novo e retomaram a viagem.
A artista de variedades estava cada vez pior.
- Parece-me que est com um febro de cavalo - disse a amiga. 
O =caixeiro-viajante ofereceu-lhe um comprimido de quinino.
- Trago sempre isto comigo, para qualquer eventualidade - 
explicou. - = remdio santo para a febre,
Lul obrigou a amiga a engolir a pastilha com um gole de 
gua. - =Esperemos que funcione. C para mim, esta desgraada 
est a =morrer - sussurrou. Em poucas horas, a mulher tinha 
piorado muito. Os =passageiros olharam uns para os outros e 
todos pensaram numa doena =que naquela altura alastrava por 
todo o lado: a gripe espanhola.
Nos dias que antecederam a partida de Merano, dizia-se que o 
hospital =de Piseck para doenas infecciosas estava 
superlotado com doentes =atacados por aquela gripe maligna. 
Eram sobretudo militares mas, ao que =parecia., muitos civis 
tinham sido tambm contagiados. Muitos =morriam. 
Instintivamente, Teresa levou uma mo  testa.

325


No estava quente. Mas Pinuccio pareceu-lhe um pouco quente. 
Talvez =o tivesse agasalhado demasiado.
- Como ests? - perguntou ao marido.
- Pra de te preocupares - disse Benedetto.
- Esta pobre mulher tem de ser levada depressa para o 
hospital - =interveio a senhora de idade que viajava com 
eles.
- Vamos perder o comboio - protestou um dos passageiros. - 
Primeiro, =foi a chuva, agora,  esta que est doente.
- Por favor, um pouco de caridade crist - interveio 
Benedetto.
- No h nenhum hospital antes de Trento - gritou o condutor, 
=que estava cansado e com pressa de descarregar aquela gente 
toda.
O camio continuava entre saltos e solavancos atravs da 
=escurido do vale do dige. Estavam nas proximidades de 
=Salorno.
- H uma hospedaria, depois daquela curva - informou o 
=caixeiro-viajante, que conhecia toda a zona. - Podemos parar 
ali para =ela descer.
Toda a gente concordou.
O camio abrandou. Seguindo as indicaes do homem, o 
condutor =chegou junto de um edifcio de dois andares que 
tinha um letreiro de =madeira pintada onde se lia: GASTHOF 
SPRINGEL.
A mulher foi levada em peso para o interior da hospedaria. 
-Eu fico com =ela - disse Lul.
O camio voltou a partir e ela despediu-se da porta, com um 
aceno de =mo. O abafo de avestruz despontava, como uma nota 
fora de tom, do =longo xaile negro. Teresa sentiu um aperto 
no corao.
- Pobres criaturas - sussurrou. E comeou a rezar. Estava 
triste e =inquieta. - Quanto tempo falta at Trento? - 
perguntou.
- Se tudo correr bem, chegamos daqui a uma hora - respondeu o 
=caixeiro-viajante.
Quando finalmente chegaram  estao de Trento, o comboio 
para =Verona estava quase a partir.
Os passageiros apressaram-se ao longo da linha. Benedetto 
estava =carregado de bagagem. Teresa levava o menino ao colo. 
Tinham comprado =bilhetes para uma carruagem de segunda 
classe para viajarem mais =comodamente.

326


- Rpido, rpido - disse o revisor. Teresa parou.
- Ento? - perguntou Benedetto, com um ar impaciente.
- O Pinuccio est doente - sussurrou ela.
- Tens a certeza?
Tinha cado a noite. Debaixo do coberto da estao, o vento
feria a pele.
- Temos de ir ao hospital - decidiu Teresa, esforando-se por
esconder o medo que a invadira.
Pinuccio morreu de gripe espanhola enquanto Teresa, internada 
na =enfermaria das mulheres, delirava por causa da febre. O 
seu menino =partiu no dia em que completava quatro anos.

327



PALERMO - MOSTEIRO DE SANTA BRIGIDA NOVEMBRO DE =1918


Isadora empurrava sobre a relva uma cana =vermelha em 
cuja extremidade havia um rolo que, ao girar, emitia as 
=notas de uma caixa de msica. A pequena ria, feliz, e 
reforava o =impulso correndo mais depressa  volta do 
claustro octogonal, =delimitado por um prtico em arcos 
sustentados por pares de colunas =delgadas revestidas de 
cermica pintada. Calava uns sapatinhos =pretos de verniz, 
meias brancas de algodo e trazia um vestido de =l vermelho 
que lhe cobria os joelhos. A trana de cabelo muito =negro 
tinha-se soltado e a fita de seda que a atava caiu ao =cho.
- Regardez-moi, grand-maman - gritava com uma =vozinha 
entusiasmada, aumentando a seguir o impulso do brinquedo.
- Estou a ver. Fazes isso muito bem - felicitou Carolina, a 
=sorrir.
Sentada por baixo do prtico, a princesa Castiglia era uma 
av =paciente e afectuosa. Desde algum tempo atrs deixara de 
pintar os =cabelos, que agora despontavam em madeixas 
cndidas desde a raiz.
O sol inundava o claustro do convento de Santa Erigida. Do 
Ulterior da =capela chegavam vozes de um hino ao Senhor.
- Tem cuidado para no cares - recomendou Ezio Burgio, que 
=estava sentado na base do poo, no centro do claustro.
Estava, como sempre, vestido de cinzento escuro, e a aba do 
chapu =protegia-lhe os olhos daquele sol de Novembro.

331


Isadora deixou de empurrar o rolo, aproximou-se dele e 
entregou-lhe a =cana.
- Queres brincar agora tu um bocadinho, grand-papa? - 
perguntou.
- Muito obrigado, minha querida Dod. - Ezio sorriu-lhe. - J 
=sou muito velho para te imitar. E as minhas pernas esto 
=cansadas.
- A Irm Crocefissa disse-me que, fora do convento, h outras 
=meninas que gostavam de brincar comigo - revelou a pequena.
- E  verdade - confirmou ele. Depois voltou-se para a 
princesa e =acrescentou: - At quando  que vamos ter de a 
manter =reclusa?
Carolina levantou-se do banco e, apoiando-se na bengala, foi 
at =junto de Isadora. Pousou uma mo por baixo do queixo da 
menina e =levantou-lhe o rosto.
- s uma menina muito bonita - disse-lhe.
-  verdade. Sai ao pai - sussurrou Ezio.
- As meninas saem sempre ao pai - concordou a princesa, com 
um suspiro =de resignao.
- A maman diz que o pap voou at ao cu e que de l do =alto 
olha para ns as duas - afirmou a pequena. - Um dia vamos 
=apanhar um navio muito grande e vamos para a Amrica.
- Se a tua me diz,  porque  assim - replicou Carolina, com 
=uma voz conformada.
O canto na capela terminou com os ltimos acordes do rgo. 
Uma =fila de freiras vestidas de branco saiu da igreja e 
atravessou o =claustro. Virginia estava com elas. 
Cumprimentou a me, beijando-a =na face. Fez o mesmo com Ezio 
Burgio. Isadora agarrou-se-lhe  saia =e quis que ela lhe 
pegasse ao colo.
- Os avs trouxeram-me um brinquedo que toca - disse, 
=mostrando-lho com orgulho.
- Mostra-me depressa como funciona - props Virginia, 
voltando a =pr a filha no cho.
A pequena recomeou a correr, fazendo rolar na relva o 
cilindro =musical. Ela aplaudiu a sorrir.
Carolina observou a filha, pensativa. Virginia estava 
=profundamente mudada. Tudo nela expressava serenidade e 
compostura. =Tinha-se tornado quase bonita. Trazia um vestido

332


simples de flanela cinzento-prateado, avivado com um colete 
curto de =piquei branco, que fazia sobressair o corpo esguio. 
Ia fazer trinta anos =e nunca fora to feliz. Parecia uma 
rapariga. A princesa nunca =imaginara que ela tivesse nascido 
para ser me.
- A Irm Crocefissa preparou-nos o pequeno-almoo - anunciou 
=Virginia.
- Vo andando. Eu quero aproveitar um pouco deste sol - 
sugeriu a =princesa.
Na verdade, no tinha fome. Viu-os afastarem-se por baixo do 
=prtico. Isadora, que tinha dois anos e meio, dava uma mo  
=me e outra a Ezio. Pai, filha e neta, sussurrou ela, e 
=sorriu. Tinham sido precisos anos e muito sofrimento para 
encontrar um =pouco de verdade e de equilbrio.
Ezio deixara o sobretudo na base de mrmore do poo. Carolina 
=dobrou-o e fez uma almofada com ele. Sentou-se no degrau e 
tirou o =chapu. Ofereceu o rosto ao sol da manh e fechou os 
olhos. Assim =como os tinha fechado trs anos antes, no 
jardim do palcio =Castiglia, sob o sol de Fevereiro, quando 
Virginia lhe anunciou: =Estou grvida. Nessa altura, fechou 
os olhos para no a =ver. Se no a visse, talvez pudesse 
anular aquela declarao =tremenda. Depois enfrentou a 
realidade.
-  a primeira confidncia que recebo de ti - replicou. Tinha 
=conseguido afastar de Npoles Teresa Avigliano e, 
felizmente, o =marido fora ter com ela.
Com a ajuda de Josepha, conseguiu que nenhum dos dois 
voltasse a =Npoles. O comeo da guerra fizera o resto. Com 
isso, acreditou =que podia pr Virginia ao abrigo de outros 
disparates.
- No te fazia to inexperiente - acrescentou, enquanto 
=imaginava o escndalo que dali ia derivar. A princesa 
defendia que os =Castiglia estavam acima de qualquer 
mexerico. Mas havia um limite para =alm do qual o escndalo 
era inevitvel. -  =inadmissvel - disse. E apercebeu-se 
imediatamente da inutilidade =daquelas palavras.
Virginia estava sentada  frente dela.
- Maman, por favor, olha para mim - implorou, tratando-a 
=insolitamente por tu.
Muito devagar, pousou sobre ela um olhar triste. - Estou a 
ver que =ests desesperada - sussurrou.

333


- Ele evaporou-se. Procurei-o por todo o lado, porque o amo. 
Tenho =vinte e sete anos e, pela primeira vez, estou 
verdadeiramente =apaixonada. Pensei que fosse um jogo que eu 
conseguia dominar. E fui =apanhada como uma borboleta numa 
teia de aranha. Ele no passa de um =operrio. E, no entanto, 
no chegam cem dos nossos amigos para o =igualarem. Com ele 
compreendi o vazio que existe no nosso mundo, feito =de 
homens entediados, muitas vezes inteis, e de mulheres 
=superficiais, que apenas conseguem alinhavar confuses 
amorosas e =conversas de salo. Encontrei um homem 
verdadeiro, honesto e =inteligente, e perdi-o - concluiu 
Virgnia, com um ardor que a =me no lhe conhecia.
- No percebo, porm, como foi que esse raro exemplo de 
=honestidade foi capaz de trair a mulher. - A observao 
=escapou-lhe e agora teria de ir at ao fundo daquele jogo da 
=verdade.
- Como  que sabes que  casado? - perguntou Virginia, 
=estupefacta.
- Toda a gente te viu. Parece mesmo que tu no fizeste nada 
para =esconder esta histria.
- Foi o Burgio que te disse. A princesa confirmou.
- Ezio Burgio, o amigo fiel. O homem ntegro com quem me 
concebeste =e que nunca mexeu um dedo para restabelecer a 
verdade - =insurgiu-se.
- Deixa de emitir juzos sobre aquilo que no conheces.
- E tu no ponhas em causa a honestidade de Benedetto Zicr.
- Ele sabe que ests grvida? - indagou Carolina.
- Claro que no - sussurrou. - Como  que pode, se tu e o 
=Burgio o fizeram desaparecer?
- Apenas arranjmos uma maneira de ele poder estar com a 
famlia. =Ao fim e ao cabo, ia acabar por te deixar. Tu 
ofuscaste-o, =enredaste-o, usaste-o. Parece que se trata de 
um jovem realmente =inteligente. Depressa se ia soltar dos 
teus laos. Sabes isso muito =bem - observou Carolina.
Virginia no tinha argumentos para contrapor. Sabia que a me 
=tinha razo.
- O que devo fazer? - perguntou, ao fim de um longo silncio.

334


- Estou cansada e comeo a sentir frio. Anda comigo at l 
=acima. Entretanto, vou pensando nisso. Lembra-te de que na 
vida h =sempre uma soluo para cada problema. Tudo tem 
remdio - =tentou confort-la.
Naquela noite, contrariando um hbito consolidado ao longo 
dos anos, =fez-se acompanhar a Posillipo, a casa de Ezio 
Burgio. O homem estava a =jantar, uma refeio solitria e 
frugal, como era seu =costume.
- Por que no me avisaste da tua chegada? Tinha mandado 
preparar =qualquer coisa especial - comeou, levantando-se da 
mesa para a =receber.
Carolina sentou-se ao lado dele, enquanto Sarina punha  sua 
frente =pratos e talheres. A princesa agradeceu-lhe e, com um 
gesto, deu-lhe a =entender que se afastasse, e que fechasse a 
porta da sala de jantar.
Era uma sala austera, enriquecida com dois quadros do sculo 
XVIII de =um pintor napolitano desconhecido. Representavam 
duas paisagens =marinhas: uma tempestuosa e outra solar.
- Qual  o problema, desta vez? - comeou Ezio.
- As culpas dos pais caem inevitavelmente sobre os filhos - 
sentenciou =ela, servindo-se de umas anchovas em azeite.
- Essa j ouvi - replicou Ezio.
- Ento espera at ouvires o resto. Vem a um beb.
- E no h um noivo que case com ela imediatamente - 
continuou o =velho. Era claro que Carolina estava a falar de 
Virginia.
- Espero que no se queira desfazer do menino - acrescentou 
=ele.
- Pediu-me que a ajudasse.
- E qual  a tua ideia?
-  preciso evitar o escndalo, obviamente. - Carolina partiu 
a =meio um po pequeno e a fragrncia da massa, feita em 
casa, =proporcionou-lhe um lampejo de prazer.
- Em minha casa no consigo ter um po assim to bom - 
=observou.
-  a gua do Serino e o ar de Posillipo. Por que no vens 
=viver para aqui?
Para Carolina foi como um raio de luz. Ezio era o homem mais 
importante =da sua vida e estava cansada de o esconder de si

327


prpria e do resto do mundo. Sentia-se cada vez mais 
melanclica =naquele velho palcio, que requeria um batalho 
de criados e =cuidados constantes. Estava cansada daquele 
vaivm de hspedes =que, desde h anos, j no a divertiam. 
Tinha fechado o =salo e raramente frequentava os de outras 
pessoas. Estava tudo a =mudar muito depressa  volta dela. As 
pessoas menos afortunadas =pediam verdade e justia. Ela 
tambm, a partir de agora, queria =deixar de mentir.
- O que achas de nos casarmos? - Carolina lanou ali aquela 
=pergunta antes de reflectir e, no instante em que a 
formulou, percebeu =que aquela era a deciso mais justa.
- Se calhar j somos demasiado velhos para isso - observou 
Ezio em =voz baixa.
- Finalmente, a Virgnia ia ter um pai, e o menino um av. A 
=nossa filha precisa de verdade. Andmos a mentir-lhe durante 
=demasiado tempo.
Ento Ezio pegou-lhe na mo e inclinou-se para lha beijar. 
=Depois tocou  campainha e Sarina entreabriu a porta da sala 
de =jantar.
- Traz uma garrafa de champanhe - ordenou Ezio.
- Gostava que o meu neto nascesse na Siclia - disse, mais 
tarde, =enquanto acompanhava a princesa ao longo da alameda 
at ao =automvel que a ia levar de volta ao palcio 
Castiglia.
Foi Virginia quem pediu para passar o perodo da gravidez no 
mosteiro =de Santa Erigida, numa rea que pertencia  
famlia. Era um =convento de clausura na provncia de 
Palermo. H mais de cem anos =que prosperava graas s ajudas 
da famlia de Carolina, cujos =membros eram as nicas pessoas 
que podiam passar a porta da entrada. =A princesa dispunha a 
de um apartamento privado. Nunca ningum o =tinha usado. Foi 
ali que Virginia deu  luz uma menina,  qual =quis chamar 
Isadora, em memria da av materna; porm, aquele =nome 
pomposo foi imediatamente abreviado para Dod. Recebeu o 
apelido =Burgio, que foi tambm assumido por Virginia. Dod 
tinha agora =dois anos e meio e a me ainda no se tinha 
decidido a abandonar o =convento.
A princesa recordou tudo aquilo. E pensou: Podia ter sido 
pior. =Pegou no chapu, levantou-se, pousou no brao o 
sobretudo do =marido e atravessou o claustro, envolvida pelo 
perfume das rosas que =continuavam a florir generosamente.

336


Entrou no vestbulo do apartamento de Virginia. Pousou o 
sobretudo, o =chapu e a carteira num div. Chegaram at ela 
as vozes da =pequena Dod e do av, que recitavam juntos umas 
lengalengas.
- Ouviste, maman, as coisas que o Ezio ensina  minha filha? 
- =disse Virginia quando viu aparecer Carolina.
A princesa sentou-se ao lado da neta.
- S o velho Sas era capaz de pr uma mesa como esta - 
=observou, admirada. Uma toalha com bordados preciosos, 
flores frescas =dispostas com sabedoria, o brilho da loua, o 
aroma do caf e o =perfume delicado dos doces de amndoa eram 
obra da Irm =Crocefissa, que gostava tanto da arte da 
decorao como das =oraes. Depois voltou-se para a filha: - 
A guerra acabou, e =j comeou um novo flagelo: a gripe 
espanhola. As notcias que =recebemos de Npoles so 
aterradoras. Como se isto no =bastasse, a clera e a 
tuberculose fazem o resto.  uma debandada =para o campo, 
onde se julga que estas doenas no conseguem =chegar. Os 
Alliata refugiaram-se com os filhos e outros parentes no 
=castelo de Putignano. Os Valeschi saram de Merano e 
isolaram-se num =refgio de montanha com a pequena Thea. Eu e 
o teu pai decidimos =no sair destas terras, pelo menos para 
j. Por que no vens =connosco para a villa?
- Agora, mais do que nunca, sinto-me segura dentro destas 
paredes. =Alis, o que eu pergunto  por que no ficam aqui 
os dois. O =isolamento  total. A nica relao com o mundo 
exterior =vem-nos dos jornais. Para j, parece-me mais do que 
suficiente. E =depois h o telefone. Consegui obter uma 
linha, vencendo a =hostilidade da abadessa. O Ezio podia 
trabalhar com ele - props =Virginia. Contou que tinha lido, 
numas revistas americanas, que o =telefone j tinha 
revolucionado o mundo do trabalho. Ezio Burgio, sem =ter lido 
os jornais americanos, j o utilizava h algum tempo, =tanto 
nos escritrios de Npoles como nos de Palermo. Mas no 
=disse nada. Aos trinta anos, Virginia fazia as suas 
descobertas dentro =das paredes de um convento. Assim estava 
bem. O que o preocupava, =porm, era o isolamento da neta.
- Dod precisa de se aproximar de outras crianas - disse.
- Esta epidemia no vai terminar to depressa. No somos os 
=nicos atacados por ela.  uma calamidade mundial.
- Na Amrica e na Inglaterra pulverizam as ruas com 
desinfectantes. =Parece que funciona para tranquilizar as 
pessoas. Pois bem,

337


neste momento h que respeitar certas prioridades. Deixaremos 
o =mosteiro quando a vida se tiver tornado mais segura - 
anunciou =Virgnia.
- E vamos para a Amrica, num navio muito grande - disse a 
=menina.
- Que histria  essa que a tua filha anda a repetir? - 
=perguntou a princesa.
-  um projecto concreto. Quero que a Dod cresa num mundo 
=novo e, em muitos aspectos, fascinante. J contactei um 
jornal de =Nova Iorque, o Globe. Vou ocupar-me da vida dos 
imigrantes italianos. =Vou ser jornalista. Em suma, vou 
trabalhar.
- Na histria dos Castiglia, serias a primeira mulher a 
trabalhar - =disse Carolina, admirada.
- Mas eu no sou uma Castiglia, maman. Sou uma Burgio. E os 
Burgio =sempre trabalharam - replicou Virgnia, olhando para 
o pai com =ternura.

338


NPOLES - VIELA DA DUQUESA JANEIRO DE =1919


Teresa e Benedetto regressaram a Npoles em =Janeiro de 
1919. Naquela longa viagem de Norte a Sul foram acompanhados 
=pelo espectro da misria. Viram campos por cultivar, 
camponeses =reduzidos  fome, cidades subvertidas pela 
desordem. A gripe =espanhola, a tsica, o sarampo e a 
desnutrio engoliam as =vidas que a guerra tinha poupado. O 
profundo desgosto pela morte do =filho, que agora repousava 
num pequeno cemitrio de Trento, =dilua-se perante as 
desgraas que os rodeavam.
Em Npoles j no existia a pequena casa  =beira-mar. 
Pietro, o amigo de sempre, acolheu-os na sua famlia. =Tinha 
casado, voltara da frente sem uma perna e o governo tinha-lhe 
=concedido uma penso por invalidez. Com isso, e com uma 
banca de =suvenirdenapoli(1)  porta da estao de 
caminho-de-ferro, =vivia com a mulher, um filho e um segundo 
que vinha a caminho, duas =irms e os pais. Viviam em trs 
quartos sem casa de banho nem luz =elctrica.
- Onde cabem sete, cabem nove - disse aos dois amigos, que se 
=instalaram em casa dele enquanto procuravam alojamento.
De noite, quando as crianas, os velhos e as mulheres 
adormeciam, =Pietro e Benedetto arranjavam coragem para 
confessar um ao outro o =desnimo de homens derrotados.
- A quantidade de sonhos que alimentavam as nossas 
esperanas! - =murmurava Pietro.


*1. Lembranas de Npoles. (N. do E.)


341


- Eu ainda acredito naqueles sonhos - replicava Benedetto.
- Tu dizes isso porque ainda tens duas pernas para fugir, se 
as =brigadas negras te agredirem.
- Perdi o meu filho e, se calhar, a minha mulher tambm. A 
Teresa =nunca mais se aproximou de mim. Olha-me como se eu 
tivesse culpa de =tudo.
- Vai passar-lhe. O tempo compe muitas coisas. A minha perna 
=no, infelizmente. Tenho vergonha de ser um vendedor de 
=suvenirdenapoli. Olhem aqui um belo corno, senhores. Ou at 
dois. =Fazem parelha e afastam o mau-olhado. Que tristeza, 
Benedetto! =Lutei contra estas supersties, contra o 
folclore desta cidade. =Arrisquei a vida para salvar a minha 
dignidade e a dos meus =companheiros. Acreditei em Marx e no 
socialismo. Mandaram-me combater =numa guerra pela Ptria e 
pelo rei. E eles, o que fizeram por mim? =Quando estou na 
cama com a minha mulher, fico cheio de vergonha por =mostrar 
este coto. s vezes, durante o sono, sonho que ainda tenho a 
=minha perna. Quando acordo, choro como uma criana. 
Lembras-te =daqueles seres, das noites que passmos a ler, a 
discutir e a =estudar os textos do socialismo e as actas dos 
congressos? As =discusses, as brigas, e depois a esperana 
no sol do =futuro. Ora aqui est ele, o sol do futuro. E 
eles, os nossos =chefes, que nos diziam: Temos que fazer 
assim e assado. Havemos de =nos libertar da explorao, da 
sujeio e do servilismo a =que reduziram o nosso Sul. E eu 
acreditei. Que idiota!
- Eu ainda acredito. Vamos juntar-nos outra vez e voltaremos 
a =combater. No pela Ptria nem pelo rei, mas por ns, que 
somos =milhes, pelas nossas mulheres, pelos nossos filhos, 
para termos =trabalho e dignidade. Para que os nossos filhos 
possam ir  escola em =vez de trabalhar, para que possamos 
ter casas para vivermos como seres =humanos, salrios justos, 
uma assistncia mdica adequada. Eu =ainda acredito nisso, 
Pietro - insistia Benedetto.
Teresa foi procurar o pai ao mercado do peixe. No o 
encontrou. Nem =sequer viu o irmo, Peppino. Na banca mais 
bonita, a de dona =Roslia, havia gente nova. Mas reconheceu 
o velho guarda-livros no =escritrio de vidro. Bateu  porta 
e entrou.
- Viu o Matteo Avigliano?

342


O velho levantou os olhos de uma montanha de papis. 
=Reconheceu-a.
- Teresella! H quantos anos no te vejo?
- H muitos, senhor. Estou  procura do meu pai - rematou. - 
=J no reconheo ningum neste mercado.
- A guerra levou os mais fortes, a gripe espanhola os mais 
fracos, e os =mais espertos foram-se embora. A dona Roslia 
morreu debaixo das =bombas. O teu pai mudou de profisso.  o 
que dizem. Eu nunca mais =o vi.
- Muito obrigada pela informao. Fique muito bem - disse 
=ela.
O velho reparou no xaile gasto, no rosto plido. Escreveu 
qualquer =coisa num papel e estendeu-lho.
- Vai quela banca ali ao fundo. Diz para te darem uma boa 
dourada. =Entregas esse papel e fica paga.
Teresa agradeceu. Depois dirigiu-se  viela da Duquesa. 
Estava  =espera de tudo, at de ouvir dizer que o pai estava 
morto. Mas nunca =poderia imaginar que a morte tivesse levado 
aquela mulher forte e =enrgica, cheia de vitalidade. Mas 
ser que  verdade?, =perguntava-se, incrdula.
Algumas mulheres da viela reconheceram-na. No estava com 
vontade de =se encontrar com elas. - Viram o Matteo? - 
perguntou, =simplesmente.
Disseram-lhe que estava em casa, l em cima, onde ela tinha 
morado =antes de fugir. Subiu os degraus dois a dois, sem 
responder ao =interrogatrio cerrado que lhe faziam.
Quando chegou ao ltimo andar, ao patamar onde ficava a porta 
da =entrada, teve um instante de hesitao. H anos que no 
=voltava quela casa. Recordou a violncia de Cenzino e 
Renato, os =ralhos de dona Roslia. Recordaes horrveis que 
nunca mais =a abandonaram, como nunca mais esqueceria as 
afrontas recebidas da =madrasta, o rosto anglico da irm 
Annina e a resignao do =pai.
Bateu  porta. No obteve resposta. Baixou o fecho e a porta 
=abriu-se. Havia silncio, uma grande desordem por toda a 
parte e =muita imundcie. No quarto que tinha sido ocupado 
por ela e pelos =irmos havia camas desfeitas, lenis sujos 
e roupa espalhada =por todo o lado. A cozinha estava 
impraticvel. A porta da diviso =mais bonita, a sala, estava 
fechada. Abriu-a.

343


Tudo tinha ficado como se lembrava, coberto por uma camada de 
p. =Tambm o quarto que a madrasta partilhava com o pai 
estava intacto =como se no tivesse sido usado durante anos. 
Com o corao na =garganta, parou em frente do quarto dos 
dois rapazes. A porta estava =entreaberta. As portadas das 
janelas estavam fechadas.
- Entra - disse a voz do pai. Ela hesitou.
- Abre a janela - disse ainda o homem.
Estava estendido numa das camas iguais. Completamente 
vestido. Nem =sequer tinha tirado os sapatos. O ar estava 
impregnado de fumo e o =cho salpicado de pontas de cigarro.
Teresa escancarou as janelas e encostou as gelosias. Depois 
virou-se =para ele e sorriu-lhe. No se viam desde antes da 
guerra. Da =ltima vez, tinha ido ter com ele ao mercado e 
levava Pinuccio ao =colo. O pai oferecera-lhe um cartucho de 
amijoas e camares.
Matteo olhou-a durante muito tempo, sem se mexer. Depois 
levantou-se =da cama, foi at junto dela e abraou-a. No 
disseram =nada.
Teresa afastou-se do pai e props-lhe: - Tenho aqui uma 
dourada =bem grande. Vou arrumar a cozinha e depois 
preparo-a.
Trabalhou durante duas horas para conseguir alguma ordem e 
poder =cozinhar o peixe. Depois sentaram-se juntos  mesa da 
cozinha. =Quando acabaram de comer, tomaram um caf.
- Pai, quantos anos tem? - perguntou-lhe.
- Quarenta e nove. Estou velho - respondeu.
- Onde esto os meus irmos?
- Trabalham os trs. Peppino tem um bom emprego nas cozinhas 
do =Hotel Excelsior. Teve sorte. Esteve como soldado durante 
um ano, nas =linhas da retaguarda, a distribuir comida. Pode 
dizer-se que nem chegou =a ver a guerra, s a ouviu. Agora  
cozinheiro. Traz das cozinhas =restos de comida: coisas boas, 
requintadas. Tambm tem uma namorada, =que faz luvas. 
Chama-se Marisella Liguoro. No  bonita, mas  =muito 
simptica - explicou Matteo.
- E o que me diz dos outros irmos? - perguntou Teresa.
- Esses so mecnicos. Trabalham juntos, em Vomero, numa 
grande =oficina. Querem ir para o Norte. Ouviram dizer que l 
se ganha =melhor. Talvez seja verdade.

344

Matteo tinha um ar cansado e infeliz. Estava magro e tinha o 
rosto =escurecido por uma barba de muitos dias. Fez-lhe 
lembrar a av Lina. =Faltavam-lhe alguns dentes.
- E o pai j no trabalha?
- Estou velho - repetiu. - Passou-me a vontade de trabalhar, 
mas sou =obrigado. Aquela vbora da Roslia estourou debaixo 
de uma bomba e =eu no voltei a ter nenhuma razo para viver.
- Gostava assim tanto dela?
- Odiava-a assim tanto. O amor, se chegou a existir, j tinha 
ido =embora h muito tempo. O dio tinha-se tornado uma razo 
de =viver para ela e para mim. Acusvamo-nos  vez da nossa 
=infelicidade. Eram grandes cenas. Voavam bofetadas e 
insultos. Mas ela =nunca teve a coragem de nos pr na rua, a 
mim e aos teus irmos. E =eu nunca arranjei foras para me ir 
embora. At porque depois =j no nos poderamos morder como 
ces raivosos - confessou =o pai.
- Quando fugi de casa, no me parecia que se estivesse a dar 
assim =to mal com ela e com os filhos - observou Teresa.
- Vou dizer-te uma coisa, Teresella: a Roslia era mentirosa. 
Todas =as mulheres o so, mas aprenderam a mentir para se 
defenderem. Ela, =no entanto, mentia para atacar, para ferir, 
para despedaar
- comentou.
Teresa anuiu. - Ela s o queria a si. Tinha cimes do amor 
que o =pai tinha por ns - disse.
- E era cega com os filhos - continuou Matteo. - Dois 
desgraados. =Tiraram-lhe tudo. Queria fazer deles dois 
doutores, e tornaram-se dois =delinquentes.
Nem sequer lhe contou de que maneira Roslia tinha ficado na 
=misria para os manter, tendo vendido aos poucos as terras, 
as casas, =o ouro e as bancas do peixe. No estudavam nem 
trabalhavam, apenas =gastavam s mos-cheias o dinheiro da 
me, que tinha acabado =at por subornar algum para que 
ficassem livres da chamada s =armas. Antes de morrer, 
Roslia tinha tambm vendido a casa na =viela. De 
proprietria, tinha passado a inquilina do apartamento em 
=que vivia com Matteo.
- H dois meses, o Cenzino foi assassinado. Degolado como um 
frango =nas proximidades do Lavinaio. Ao que parece, no 
honrou umas =dvidas de jogo. O Renato meteu-se com aqueles 
que tratem os =grevistas  cacetada. Matou um pobre 
ferrovirio,

345


na Porta Capuana. Esteve dois dias na cadeia e voltou livre e 
mais =prepotente do que antes. H gente nova por a. 
Mal-encarados que =gozam de proteco.
Como toda a gente, Teresa sabia destes novos grupos que 
castigavam os =socialistas. Chamavam-se camisas negras e 
definiam-se como =defensores da ordem. Tinham do lado deles 
patres e polticos. =Agora que Benedetto tinha arranjado um 
emprego e estava outra vez =inscrito no sindicato, ela tremia 
com a ideia de que aquela gente =pudesse mat-lo.
- No pense nisso, pai - disse. - Aqueles dois sempre foram 
uns =delinquentes. Um j foi. O outro...
- No tardar a segui-lo - concluiu Matteo.
- No desejo a morte a ningum - disse ela. - Pense mas  um 
=pouco em si e nesta casa desarrumada e suja.
- Falta aqui a mo de uma mulher - sussurrou, a pensar em 
Rosa. E =acrescentou: - Continuo a ir ao cemitrio falar com 
a tua me, =com a Annina e com o pequenino que morreu de 
clera.
- E a campa da dona Roslia? No a procura? - indagou.
- A ela j no tenho mais nada a dizer. E no quero voltar a 
=ouvir aquelas mentiras - rematou. - Nem sequer voltei a 
entrar no =quarto dela.
- O meu Pinuccio tambm foi para o cu. Apanhou a gripe 
espanhola =quando estivemos l em cima, no Norte. Mas eu fui 
poupada - contou, =num fio de voz.
Matteo assentiu com ar grave.
- Vais ter mais filhos - disse.
- No quero mais filhos. Amei muito o Pinuccio, e aquela 
morte =despedaou-me o corao. Cansei-me de sofrer.
- Isso  a mesma coisa que dizer que te cansaste de viver.
- Como queira, pai.
- No  justo que tu digas essas coisas. Tens apenas vinte 
anos. =Vem viver para aqui, com o teu marido. A casa  grande 
e luminosa. A =renda, pago-a eu. Trabalho de noite. Foi o 
Peppino que me arranjou este =emprego, no Hotel Excelsior. 
Limpo as cozinhas e umas panelas to =grandes como poos. E 
tambm engraxo os sapatos dos hspedes. =Filas e filas de 
sapatos ao longo dos corredores. Em frente a cada porta =h 
um ou dois pares. Descobri outro mundo. Tanta coisa que 
contam os =sapatos! Atravs dos sapatos percebo as pessoas,

346


apesar de no as ver nunca. H alguns de marca estrangeira, 
=robustos e leves como uma luva. H os italianos: tm formas 
=bonitas, mas estragam-se logo. H uns bicudos, com taco 
curvo e =fivelas engraadas... Ento sei que quem os usa  
uma mulher =jovem e elegante. Outros so largos como barcos e 
tm a sola =gasta. A proprietria  com certeza uma mulher 
gorda, com =tornozelos inchados, e custa-lhe caminhar, 
coitada. Algumas pessoas =deixam umas moedas dentro dos 
sapatos.  a minha gorjeta. D-me =para comprar os cigarros.
No dia seguinte, Teresa e o marido mudaram-se para casa de 
Matteo. Ela =no quis dormir na cama da madrasta, que foi 
desmontada e arrumada =num canto da sala, com outros mveis 
que tinham pertencido a =Roslia.
Dois meses depois, Teresa estava outra vez grvida. Quase se 
sentiu =feliz.

347



NPOLES - VIELA DA DUQUESA 1919-1922


Era o fim de um bonito domingo de Abril. =Npoles 
parecia uma grande me protectora, com uns braos =imensos e 
doces que envolviam o golfo e a cidade, os palcios e os 
=casebres, as avenidas, os jardins, as vielas e todos os 
habitantes. Do =mar chegavam perfumes de grande doura. 
Ento, sem se saber como, =com tanta beleza, o rudo 
ensurdecedor do trfico extinguia-se, =acalmavam-se as 
discusses, os latidos dos ces e os gritos das =crianas. 
Nascia um sorriso at nos lbios mais duros e as =pessoas 
sentiam-se melhor. Eram momentos de paz absoluta.
Uma vez por semana, ao domingo  noite, a =famlia Avigliano 
reunia-se ao jantar. Com os restos que Peppino =trazia da 
cozinha do hotel, Teresa preparava uma grande panela de carne 
=com molho para juntar ao macarro e misturava tudo numa 
terrina de =barro que punha no centro da mesa. Cada um 
servia-se, enquanto ela =andava  volta dos comensais a 
servir o vinho. Depois sentava-se = mesa, ao lado do marido, 
e observava satisfeita os seus homens, que =Se arranjavam 
para o jantar, e que conversavam tranquilamente, naquela 
=noite, ao olhar para eles, sentiu-se tocada por um arrepio 
de =felicidade. Naquela casa, quando era pequena, passara 
momentos de =terror. Agora parecia-lhe purificada do dio e 
da violncia que =ali se tinham instalado. Nunca se cansava 
de limpar os quartos, fazer as =camas, lavar a roupa, 
cozinhar, passar a ferro, arrumar. No era =obrigada a 
trabalhar. Fazia-o pelo prazer de tratar dos seus cinco 
=homens: o marido, o pai,

351


e trs irmos, que a respeitavam e tinham para com ela 
pequenos =gestos de gratido.
As janelas e a porta de casa estavam abertas para receber o 
ar fresco da =noite. E, de repente, surgiu  entrada Renato 
di Giacomo. Teresa foi =a primeira a v-lo. Quase no o 
reconheceu, de tal maneira estava =gordo, com os cabelos 
negros luzentes de brilhantina e um cacete na =mo. Quando 
percebeu quem era, engoliu lentamente a comida que tinha =na 
boca.
A recordao da violncia sofrida reapareceu, deixando-a 
=aterrada.
Naquele momento tambm os outros o viram, e fez-se silncio. 
=No estava sozinho. Havia mais dois homens com ele. Os 
Avigliano =no perderam a compostura. Limitaram-se a olh-los 
friamente. =Teresa inclinou-se para sussurrar ao ouvido do 
marido: -  um dos =dois di Giacomo. - Viu a mo de Benedetto 
fechar-se com fora e =a boca do outro abrir-se num sorriso 
de escrnio.
- Estou a ver que esto muito bem instalados, em minha casa - 
=disse. E prosseguiu: - Comem nos meus pratos, sentam-se  
minha =mesa e dormem nas minhas camas. - Depois virou-se para 
os dois amigos =que estavam atrs dele: - Os Avigliano so 
como os chatos: =agarram-se s pessoas e chupam at no haver 
mais sangue.
Riram-se os dois. Ele no. Observava aqueles cinco homens com 
um ar =de nojo. Depois pousou um olhar lascivo em Teresa. 
Ela, instintivamente, =agarrou-se ao brao de Benedetto e 
sentiu que o marido estava tenso =como um animal prestes a 
saltar e a lanar-se sobre a presa.
- J me tinham dito que ela tinha regressado. Um destes dias 
=venho buscar-te e vamos divertir-nos um bocado. Estou a ver 
que =continuas a fazer de criada. Precisas de distraco e de 
alguns =vestidos bonitos. D mais gozo despir uma mulher 
vestida de seda. Tu =entendes-me, no  verdade? - Era uma 
provocao. =Procurava um pretexto para desencadear a rixa. 
Os companheiros riram-se =e desta vez, riu-se ele tambm, 
enquanto fazia oscilar o cacete com =um ar ameaador. Os 
homens da casa, que at quele momento =tinham continuado 
sentados  mesa, levantaram-se de um salto, todos =ao mesmo 
tempo. Os companheiros de Renato avanaram dois passos e 
=colocaram-se

352


ao lado dele, empunhando os cacetes e batendo com eles na 
palma da =mo, com ar ameaador.
- Devia ter-te matado, a ti e ao teu irmo, h muitos anos. 
Pede =desculpa  minha filha por aquilo que lhe disseste - 
ordenou Matteo =Avigliano com uma voz firme.
Era j um homem fraco, mas armado com a sua prpria 
honestidade e =com a necessidade implacvel de fazer justia.
Renato di Giacomo poderia derrub-lo com uma s mo. Olhou o 
=padrasto e os rostos impassveis dos Avigliano. Empalideceu. 
=Apercebeu-se de que aqueles cinco homens estavam em vantagem 
sobre os =cacetes.
- Pede desculpa  minha filha - repetiu Matteo, com um tom 
=ameaador.
O rapaz baixou os olhos.
Precisava de se afirmar pela prepotncia. Gostava de esmagar 
os =fracos e de atormentar os desesperados, aterrando-os com 
as pancadas do =cacete.
Mas agora os Avigliano eram mais fortes do que ele. - 
Desculpa, =Teresella - balbuciou com os dentes cerrados.
Os amigos recuaram e saram do apartamento.
- Vai-te embora. Nunca mais apareas nesta casa. Queres a 
=moblia da tua me? Vais lev-la j - decidiu Matteo. 
=Voltou-se para os filhos e para o genro: - Atirem pela 
janela fora =todas as coisas da Roslia.
Peppino debruou-se da janela e gritou para as pessoas da 
viela:
- Afastem-se, que vamos descer as coisas da falecida dona 
=Roslia.
- A cabeceira da cama voou no vazio.
- Agora desce e apanha as tuas coisas - ordenou Matteo.
- Isto no fica assim - gritou ele, procurando com os olhos 
os =amigos que j tinham ido embora. - Vou fazer com que se 
arrePendam =de terem nascido. E tu, em primeiro lugar - 
acrescentou, apontando o =indicador a Benedetto Zicri. - s 
um subversivo. Eu =conheo-te.
A casa foi esvaziada de tudo o que pertencera a Roslia. 
Acabou tudo =na viela, incluindo toalhas, pratos e copos. - 
Agora  que estamos =mesmo em nossa casa - comentou com uma 
voz cansada.


353


- E agora  que vo comear as complicaes - =profetizou 
Benedetto.
A beleza absoluta daquele fim de dia de Abril extinguiu-se 
numa noite =de pressgios tenebrosos.
Os meses passaram. Teresa deu  luz uma menina a quem chamou 
Rosa, =para recordar a figura inesquecvel de Rosa Avigliano.
Peppino casou com a namorada, que estava j grvida de quatro 
=meses. Foi morar com os sogros e no voltaram a entrar em 
casa os =restos da cozinha do Hotel Excelsior.
Os outros dois irmos apanharam um comboio para o Norte. 
Disseram que =iam  procura de um trabalho melhor.
Passaram os anos e Teresa teve mais dois filhos: um rapaz, 
que se chamou =Pinuccio para recordar o irmo falecido, e uma 
menina, que se chamou =Iosefa para recordar a mulher que 
tanto a tinha ajudado.
Tudo tinha mudado naquela cidade. J no havia greves, nem 
=desordens, nem manifestaes. Agora mandavam os fascistas. 
=Faziam-no usando o terror e infiltrando espies nas 
fbricas, =faltando s promessas feitas s pessoas que tinham 
acreditado ver =neles uma fora capaz de resolver finalmente 
os graves problemas =econmicos e de ordem pblica herdados 
dos governos =anteriores.
Tinha acabado a liberdade de imprensa, de expresso e de 
pensamento. =Benedetto foi preso durante uma reunio secreta, 
processado e mandado =para muito longe, para a Sardenha.
Teresa ficou sozinha com os trs filhos e com o pai que, 
naquela =altura, estava j realmente velho e doente.

354


DO SUL AO NORTE MAIO DE 1931


O comboio viajava de noite, em direco ao =Norte. Na 
carruagem de camas, os passageiros dormiam. Josepha ouvia 
=desde h horas o montono rudo metlico das rodas nos 
=carris e no conseguia conciliar o sono. Andava h muito 
tempo =inquieta e, sobretudo de noite, assaltavam-na a 
angstia do presente =e o medo do futuro.
Depois do trgico eplogo do casamento com =Enrico Castiglia, 
casara com Lorenzo, que a fez esquecer muitas =amarguras. 
Acreditou poder finalmente viver com ele dias serenos, 
=construindo uma famlia que para ela, filha nica e rf de 
=pais, era sinnimo de amor, de ternura e de calor. A guerra 
=separou-a do marido e comearam ento as angstias e os 
=receios sobre o amanh.
Assistiu  runa do seu pas, ao desmoronamento dos ideais de 
=que se alimentara. Ao Tirol, que agora se chamava Alto 
dige, voltava =raramente. De vez em quando ia  ustria, na 
esperana de =reencontrar a atmosfera da infncia. Tudo 
estava mudado. Em Merano, =as pessoas estavam descontentes e 
os italianos faziam o melhor que =podiam para se tornarem 
odiosos.
O governo fascista tinha imposto a censura e proibido a 
leitura de =jornais alemes, chegando ao ponto de pretender a 
italianizao =dos apelidos austracos, mesmo nos epitfios. 
O italiano tinha-se =tornado lngua oficial e as crianas 
eram obrigadas a aprender =s escondidas a lngua dos pais. 
Uma vez, Josepha foi ao Registo =Civil de Merano para 
requerer um documento e descobriu que o seu lugar =de 
nascimento j no era

357

Schloss Rundegg, mas Castel Ango-lotondo. Naquele dia, fechou 
=definitivamente o castelo e regressou a Npoles.
Com o tempo, acabou por se resignar a estas e a outras 
mudanas. =Afinal, tinha um marido que a amava e dois filhos 
a crescer. Queria =sobretudo ser uma boa esposa e uma boa 
me.
Evitava frequentar os novos sales, to diferentes daqueles 
que =lhe eram familiares quando jovem. O fascismo tinha 
criado uma classe =dirigente muitas vezes vulgar e ignorante.
Um dia foi obrigada a levar os filhos a um palcio romano 
para um =lanche com os filhos de altos funcionrios. Foi um 
tormento.
- Ofereceram um lanche horrvel. E aquelas crianas so 
=completamente mal-educadas - lamentou-se a Lorenzo.
O marido acalmava-a com um sorriso que a desarmava e aquelas 
palavras =que ela j sabia de cor: - A seguir  guerra, 
tnhamos um =governo incapaz de enfrentar qualquer tipo de 
problema. As greves =impediam todas as actividades. Corramos 
o risco de paralisar. Agora, =na Europa, estamos melhor do 
que outros pases. No te preocupes =com coisas pequenas.
No gostava de ver os filhos de farda negra, a fazerem a 
=saudao romana, e preocupavam-na os caprichos de Thea, que 
se =recusava a estudar e s queria andar a cavalo, porque 
nutria uma =paixo irracional pelo instrutor, um oficial de 
ordenana =ignorante que tinha mais trinta anos do que ela, 
uma mulher e sete =filhos.
Josepha perdia o sono e irritava-se com Lorenzo, que parecia 
no se =aperceber de nada do que acontecia dentro e fora da 
famlia.
- Lorenzo, tu s um sonhador. Passas a vida entre quartis e 
=ministrios e no te apercebes daquilo que se passa  nossa 
=volta. Garanto-te que a misria, em Npoles,  pior do que a 
=de antigamente. E depois, o que  esta histria de fazer 
filhos a =todo o custo - No h comida que chegue, no h 
trabalho, a =mo-de-obra  mal paga. Para alm disso, quem 
ousa reclamar = mandado para muito longe. Pergunta  pobre 
da ama. Ela sabe =alguma coisa sobre isso - Tem trs filhos e 
o Benedetto foi =desterrado para a Sardenha por causa das 
suas ideias de subversivo, como = chamado. Como pode aceitar 
um regime que at te impede de =pensar?

358


Eram palavras deitadas ao vento. De todas as vezes, o marido 
sorria, =abraava-a e dizia-lhe: - Agora sossega. As coisas 
vo correr =melhor no futuro. Eu acredito nisso e tu tambm 
deves acreditar.
Josepha olhava para os filhos e perguntava-se o que teria o 
futuro =reservado para eles. Giovanni, a quem chamaram logo 
Nino, tinha apenas =doze anos. Entretinha-se com a Juventude 
Fascista, mas no tinha =esprito de combatente. Era 
introvertido, tmido e temia a =violncia. Thea, com 
dezasseis anos feitos, s pensava no amor e =escrevia 
bilhetes melados ao instrutor. Num destes bilhetes 
=props-lhe fugirem juntos, abandonando tudo e todos. Josepha 
=interceptou-o e foi o fim do mundo.
Agora viajavam a caminho de Milo, onde o marido ia 
oficialmente =assumir o cargo de general do Corpo da Armada 
de Milo, Brgamo e =Brescia. Josepha no ficou 
particularmente contente com o novo cargo =do marido, mas 
sentiu-se feliz por deixar Npoles, onde j no =tinha laos 
afectivos, para alm dos que conservava com a =famlia 
Alliata. A princesa Carolina tinha falecido depois de uma 
=doena prolongada, assistida at ao ltimo instante pelo 
=segundo marido. Virgnia vivia nos Estados Unidos com a 
filha Isadora =e trabalhava com sucesso em Nova Iorque, para 
o Globe. Uma parte dos =inmeros amigos dos Castiglia 
tinham-se integrado no novo regime, =outros tinham ido para o 
estrangeiro, outros ainda retiraram-se para as =suas casas de 
campo, cedendo o lugar aos novos patres do =pas.
Nunca mais volto a Npoles, prometeu a si prpria, enquanto o 
=comboio avanava no meio da noite e ela no conseguia 
conciliar o =sono.
Acendeu a pequena lmpada na cabeceira da cama, enfiou uma 
mo na =bolsa que continha escovas, pentes, sabo, creme e 
perfume e =identificou pelo tacto o frasco da valeriana. 
Pegou nele e depois saiu =da cama. Moveu-se com cuidado para 
no acordar o marido, que dormia =na cama por cima da dela. 
Em cima da mesinha encontrou a garrafa da =gua e o copo. 
Contou vinte gotas de valeriana, Juntou um pouco de =gua e 
bebeu com um esgar de nojo, porque aquele remdio tinha um 
=sabor horrvel. O mdico tinha-lhe receitado aquilo quando 
ela =lhe falou da insnia.

359


- O sono  indispensvel ao organismo. A senhora precisa 
=absolutamente de dormir. Tome vinte gotas de valeriana todas 
as noites, =antes de se deitar - receitou o mdico.
Josepha no gostava de remdios e apenas recorria a eles 
quando =lhe parecia indispensvel. O comboio chegaria a Milo 
s oito =horas da manh. Precisava realmente de dormir porque 
a esperava um =dia muito cansativo.
Iam morar no quartel-general do Comando do Corpo da Armada. 
Sofia =estava j em Milo h dez dias, e todas as noites lhe 
=telefonava para a manter ao corrente sobre as condies da 
nova =residncia. Tinha reforado as ajudas para limpar os 
quartos de =cima a baixo e torn-los habitveis quando a 
famlia ali =chegasse. Mas havia tarefas que s a ela diziam 
respeito, como a =escolha do pessoal, porque Sofia lhe tinha 
falado mal dos criados que =serviam o antecessor de Lorenzo. 
Para alm disso, precisava de entrar =em contacto com o 
director do liceu onde Nino estava j inscrito. =Pensou no 
filho com ternura.
Desejou que a valeriana produzisse rapidamente efeito. O 
comboio parou. =Olhou atravs dos vidros mas no viu mais do 
que a escurido da =noite.
Ento, na penumbra criada pela pequena lmpada por cima da 
cama, =espreitou para o compartimento ao lado, ocupado pela 
filha. A cama =estava vazia. Josepha ficou alarmada. Thea era 
fonte de contnuas =preocupaes, que ela no sabia dominar. 
Apercebia-se de que =fora sempre uma me ansiosa, mas tinha 
tambm conscincia de =que Thea era uma filha muito difcil.
Quando partiu, teve de sofrer, sem responder,  acusao de 
ter =efectuado manobras traioeiras para a afastar de Npoles 
e do =instrutor. Na carruagem-restaurante, durante o jantar, 
suportou em =silncio o seu jejum de protesto. Esperava que 
Lorenzo interviesse, =mas o marido ignorou-a.
s onze horas tinham regressado aos respectivos 
compartimentos. =Aproximou-se da filha para lhe desejar uma 
boa noite. A rapariga nem =sequer lhe deu um beijo. Agora 
tinha desaparecido -
Felizmente, o sedativo comeava a fazer-se sentir. Apesar de 
estar =preocupada, Josepha no perdeu a calma. Enfiou um 
roupo  =abriu a porta que dava para o corredor. Thea estava 
ali, em roupo' e =fumava um cigarro com ar de dona do mundo.

360


Junto dela estava um jovem, vestido da mesma maneira. Tambm 
ele =estava a fumar. Josepha ficou sem palavras.
Thea viu-a e sorriu-lhe.
- Anda c, mam. Parece que somos muitos a sofrer de insnia, 
=esta noite. Apresento-te um dos nossos companheiros de 
viagem.  =Guido Battellieri.
Tudo o que Josepha conseguiu dizer num sussurro foi: - 
Boa-noite. - =Estava escandalizada e com sono. Mas agora 
ningum, nem mesmo a =filha, a ia impedir de dormir. A 
valeriana j tinha surtido =efeito.

361


MILO, COMANDO DO CORPO DA ARMADA MAIO DE =1931


Era meio-dia e Josepha deixou-se cair, =extenuada, em 
cima de uma pequena poltrona forrada de brocado branco e 
=dourado. Sentiu uma leve cedncia no encosto e a madeira 
rangeu.
- Seria esta a famosa salinha Radetzsky? - perguntou =ao 
marido.
Dois carregadores atravessaram a sala transportando um ba 
que =continha livros e documentos.
- Levem-no para o escritrio. Segunda porta  direita - 
ordenou =Lorenzo, indicando um corredor a seguir  salinha. 
Depois sentou-se =ao lado da mulher, num pequeno div de trs 
lugares. Sentiu a =chiadeira de uma mola. - No gostas? Eu 
acho-a to cheia de =atmosfera - afirmou com convico.
- Talvez fosse nos tempos do marechal Radetzsky. Mas desde 
ento =nenhum estofador trabalhou aqui nem em lado nenhum - 
observou ela, com =o habitual sentido prtico. Estava cansada 
e zangada com a filha, mas =aquele no era o momento mais 
oportuno para contar a Lorenzo o =episdio da noite anterior. 
Desapertou o casaco do tailleur cor de =baunilha, que 
comprara em Paris, no atelier de Coco Chanel, libertou-se 
=dos sapatos cor de mostarda e estendeu um p que pousou no 
joelho do =marido.
- Faz-me uma massagem nestes pobres dedos entorpecidos - 
=Pediu-lhe.
Continuava a remoer os seus pensamentos sobre Thea. s oito 
da =manh, quando desceram do comboio, confiou-a  mulher

365

do oficial de ordenana. Era de Milo. Uma boa senhora 
disposta a =desdobrar-se em esforos por eles. - Leve-ma, por 
favor, a casa ao =meio-dia - pediu Josepha.
- Esta senhora no me vai levar. Vai-me acompanhar. Nunca 
vais =aprender a falar correctamente o italiano - sublinhou a 
filha.
Josepha sorriu, fingindo mais uma vez ignorar o sarcasmo da 
rapariga. =Gostaria de lhe ter pregado uma bofetada, mas era 
uma maneira de admitir =a sua prpria impotncia. Pela mesma 
razo, considerava =oportuno calar essa dificuldade mesmo ao 
marido. Em qualquer caso, havia =de falar mais tarde com 
Lorenzo sobre o assunto. Tanto mais que, j o =sabia, ele 
iria minimizar a questo. Mas Thea era, de facto, um 
=problema. Agora at tinha comeado a fumar.
Lorenzo massajava-lhe suavemente as extremidades entorpecidas 
e ela =comeava finalmente a relaxar. Olhou em volta. Nos 
ltimos dois =meses, Lorenzo tinha estado diversas vezes em 
Milo, para se inteirar =de todos os problemas que o novo 
cargo comportava. E tinha-lhe elogiado =a salinha em que 
agora se encontravam. - H um lustre de Murano do =sculo xvm 
de uma beleza incrvel. Foi um presente das senhoras de 
=Milo ao marechal austraco que, quando abandonou a Itlia, 
o =deixou ali. H tambm dois grandes espelhos da mesma 
poca. =So uma maravilha. Por trs de um deles h um 
segredo, =to secreto que s foi descoberto h poucos anos, 
quando =revolveram toda a sala, para a limparem.  claro que 
estava vazio. =Quando foi embora, Radetzsky levou consigo 
todos os papis que lhe =pertenciam.
Josepha olhou o marido com uma ternura quase maternal.
- Ento? Gostas ou no gostas desta sala? - insistiu ele.
Ela no quis desiludi-lo. -  fantstica. Basta arranjar os 
=divs e as poltronas - respondeu.
- Tu tambm s muito bonita. Bastava arranjar o teu feitio - 
=replicou Lorenzo, insinuando uma mo por baixo da saia dela.
- Querido, por favor, agora no  boa altura - tentou 
=defender-se.
- Oh, claro que  - murmurou ele, tocando-a ainda mais 
=intimamente. E acrescentou: - S h uma maneira de inaugurar 
esta =casa: fugir imediatamente para o quarto de dormir.

366


Tinha o rosto ao p do dela. Lorenzo era irresistivelmente 
belo e =apaixonado. Beijaram-se. Tinham passado vinte anos 
desde o primeiro =encontro e ainda se desejavam como naquele 
tempo.
- Vocs os dois, o que  que esto a a fazer? - perguntou 
=uma voz masculina.
Nino estava  porta da sala e observava-os.
- Rigorosamente nada - respondeu Josepha, embaraada, 
enquanto =ajeitava a saia.
- No meu quarto, a luz elctrica no funciona. Anda ver, 
=pap
- disse.
Lorenzo abriu os braos e olhou para a mulher com um ar 
desconsolado. =Depois foi atrs do filho. Josepha, descala, 
dirigiu-se devagar =ao quarto de dormir.
A cama e o resto dos mveis foram expedidos de Npoles. Eram 
=mveis ao estilo do sculo XX que tinham sido executados por 
um =marceneiro de Npoles, quando regressara ao Sul com 
Lorenzo e a =pequena Thea, vindos do Tirol. Nino fora 
concebido naquele grande leito =confortvel, logo abandonado 
porque ela teve de acompanhar o marido a =Trpoli. 
Felizmente, a estadia africana durou poucos meses e Nino 
=nasceu em Npoles.
- Ser que alguma vez na minha vida vou ter uma residncia 
=estvel? - interrogou-se em voz baixa, deixando-se cair, 
=desamparada, em cima do colcho.
Fechou os olhos e passou em revista as coisas que j estavam 
feitas e =aquelas que ainda faltava fazer.
Logo que chegou, admitiu o pessoal domstico, depois de 
Sofia, muito =eficiente, ter j feito uma primeira triagem.
Iam entrar ao servio no dia seguinte e era preciso tratar 
das =fardas. Havia ainda a questo do jardim para resolver. 
S o tinha =visto de relance e no lhe parecera muito bem 
cuidado. Finalmente, =tinha de enfrentar a filha. Essa era a 
tarefa mais difcil, que ela =conseguira esquecer durante 
algumas horas. Ouviu bater  porta.
- Pode entrar - disse, com uma voz cansada. A porta abriu-se 
e Thea =entrou.
Vestia um fato de duas peas, em malha de l violeta. A saia 
de =Pregas e a blusa de decote em bico faziam realar a 
silhueta esguia, =um fio de ouro de malha fina oscilava-lhe 
no peito. O cabelo loiro, =curtssimo e encaracolado,

367


emoldurava um rosto de mas bem marcadas. Tinha os mesmos 
olhos =sorridentes do pai. s vezes conseguia ser de uma 
doura =comovente, apesar de assumir muitas vezes 
comportamentos masculinos que =muito irritavam Josepha. 
Cavalgava como uma possessa. Andava de =bicicleta sempre no 
limiar do acidente. s escondidas, sentou-se ao =volante do 
automvel do pai, sem saber conduzir, e amolgou a 
=carroaria. Abandonou os estudos antes de obter qualquer 
diploma, =alegando que o Sacro Cuore no era um colgio, mas 
uma priso. =Deixou de estudar piano, porque os exerccios 
eram demasiado =aborrecidos. Mas jogava tnis com paixo e 
passava horas =extenuantes a atirar bolas, sem se aborrecer.
Josepha gostaria muitas vezes de saber o que se escondia 
dentro daquela =cabecinha to graciosa. Thea era um livro 
fechado.
- Se ao menos eu soubesse o que ela pensa - lamentava-se 
Josepha ao =marido.
- Aquilo que pensam todas as raparigas de dezasseis anos. 
Aquilo em que =tu pensavas: no amor - respondia Lorenzo. E o 
assunto ficava =encerrado.
- Senta-te aqui ao p de mim - disse-lhe ento, dando-lhe 
=espao em cima da cama.
- Tenho de te dizer que gosto muito de Milo. Felizmente, as 
=senhoras aqui so alegres e cheias de vivacidade. Sabias que 
h um =baloio muito grande no jardim? Fui ao picadeiro 
coberto. Chama-se =Raggio di Sole. E tambm h um belssimo 
campo de =obstculos. Vi o Indo. Est ptimo - disse. Indo 
era o poldro =rabe que Lorenzo lhe oferecera alguns meses 
atrs. - Tambm =conheci o marechal Molin. Vai andar a cavalo 
comigo. Sossega, porque = suficientemente velho para ser meu 
av - continuou.
- E tambm porque entretanto conheceste um tal Guido 
Battellieri que =te oferece cigarros no corredor de um 
comboio, a meio da noite - =comentou Josepha. - Gostava de 
saber mais qualquer coisa sobre essa =histria.
- Queres a verdade?
- Digamos que estou  espera disso.
- No h histria nenhuma. Esta noite no conseguia 
=adormecer. Durante algum tempo li aquele romance que me 
aconselhaste, O =Grande Gatsby. J te digo que a leitura em 
ingls  =bastante

368


cansativa. Um dia ainda aceito o convite da Virgnia e vou a 
Nova =Iorque. Assim passar a tornar-se um prazer ler 
romances na =lngua original.
- Dorothea, no fujas ao assunto. Estamos a falar de outra 
coisa - =interrompeu Josepha. Quando se zangava tratava a 
filha pelo nome =inteiro.
- No estou a fugir. Quando muito, estou a divagar - 
corrigiu-a =com a preciso habitual.
Josepha deixou escapar um suspiro que parecia um lamento. - 
Est =bem. No divaguemos, e continua.
- A certa altura, levantei-me, enfiei o roupo e sa do 
=compartimento. Encontrei aquele rapaz que estava a fumar um 
cigarro. O =que  que eu devia fazer? Fugir com o corao aos 
saltos a =gritar: Oh meu Deus, um homem de roupo? 
Cumprimentei-o. =Estamos em 1931. As pessoas j no viajam de 
caleche. Os avies =rasgam os cus. Na Amrica dana-se o 
charleston. As mulheres =tm os mesmos direitos que os 
homens. Ele ofereceu-me um cigarro e =eu aceitei. Ele 
apresentou-se e eu tambm. Fim de uma histria =inexistente. 
Depois chegaste tu, como sempre, para estragar tudo - 
=concluiu Thea.
A me observou-a com um ar pensativo. - As mulheres tm os 
=mesmos direitos que os homens. Gostavam de ter, mas nem 
sequer lhes  =permitido votar. H quanto tempo comeaste a 
fumar?
- Foi a primeira vez. Achei agradvel.
- Uma rapariga de bem no fuma. S fumam as canonetistas, as 
=actrizes e as prostitutas.
- No perteno a nenhuma dessas categorias e fumei. Devo 
esperar =que me fuzilem? - perguntou com ar de provocao.
- s muito estpida, se pensas que me ds a volta com essa 
tua =ironia grosseira. - Josepha fazia um esforo para no se 
sentir =atingida pelas provocaes da filha, mas estava 
irritada.
Sofia apareceu  entrada da porta. - Daqui a dez minutos o 
almoo =est na mesa - anunciou. E precisou: - Por hoje vo 
ter que se =contentar com aquilo que a cantina servir.
Thea torceu o nariz. Depois olhou para a me com um ar 
divertido. - =As mesmas palavras que a Sofia repetia em 
Tripoli, quase todos os dias. =Lembras-te? Eu era pequena, 
mas no me esqueci. Vo ter de se =contentar com aquilo que 
a cantina servir.

369

E era sempre um po peganhento e queijo de cabra. Metia-me 
nojo e =mesmo assim tu obrigavas-me a comer. Ainda me lembro 
do nosso =apartamento do primeiro andar daquela rua comprida. 
Como  que se =chamava? Rua Azizi, acho eu. Lembro-me 
daquelas nuvens de moscas =que acabavam por ir morrer numas 
tiras compridas de papel com =insecticida penduradas nos 
candeeiros e do zumbido das ps das =ventoinhas, e das camas 
com mosquiteiros e do pequeno engraxador no =fundo da rua que 
punha a brilhar as botas do pap e os meus sapatos. =Havia um 
ano com uma cabea enorme, vestido com um saco de 
=serapilheira. Eu julgava que era o Maom, sabe-se l porqu. 
O =deserto comeava onde acabava a rua. Lembro-me dos 
cheiros, das =vozes daquele lugar horrvel. E do teu 
nervosismo. Estavas grvida =do Nino e tinhas uma barriga 
deste tamanho. Mas eu no devia saber =disso. Disseste-me que 
a barriga te tinha crescido muito porque tinhas =apanhado uma 
indigesto de tmaras. No querias que eu as =comesse. Mas 
por que  que te estou a contar isto tudo? - perguntou, 
=levantando-se da cama.
- No sei, mas gostei muito de te ouvir - disse Josepha, 
=sorrindo-lhe com ternura. Levantou-se tambm e sentou-se ao 
p =do toucador. Tinha a forma de um feijo e era coberto at 
ao =cho por uma cascata de organza branca. No tampo estavam 
alinhados =alguns frascos de cristal, escovas e pentes de 
vrias dimenses =com cabos de prata e tartaruga, caixas de 
talco e p-de-arroz e =boies de creme.
Tinha chegado da Amrica a moda do verniz para as unhas em 
todos os =tons de vermelho. Josepha no o usava, assim como 
no usava rouge =nem rimmel para as pestanas. Thea, pelo 
contrrio, no via a hora =de chegar aos dezoito anos para se 
poder pintar. Por enquanto, ainda =no lhe era permitido.
Josepha arranjou o cabelo com umas escovadelas enrgicas.
A filha, em p ao lado dela, olhava a sua prpria imagem 
=reflectida no espelho oval oscilante.
- Querias que te dissesse a verdade. Agora vou dizer-te. 
Gosto do =Guido Battellieri. Acho que estou apaixonada por 
ele - confessou.
- Mas no o conheces, nem sequer sabes quem  - objectou 
=Josepha.

370


Depois lembrou-se da primeira vez que tinha encontrado Enrico 
=Castiglia. Tinha a idade de Thea. No sabia quem era. Mas 
bastou que =ele olhasse para ela, que lhe pousasse os lbios 
nas costas da =mo, para se apaixonar imediatamente.
- Tem um olhar magntico. E um perfume de morrer - disse a 
=filha.
Ela abanou a cabea, voltou a suspirar e pensou que Thea j 
era =uma mulher. Era preciso arranjar-lhe marido o mais 
depressa =possvel.

371


NPOLES - VIELA DA DUQUESA SETEMBRO DE =1931


Teresa entrou em pontas de ps no quarto do =pai. 
Atravs das persianas entravam lminas de luz. O ar estava 
=escaldante. Aquele Setembro napolitano, abafado e sem chuva, 
cortava a =respirao, sobretudo aos idosos.
Aproximou-se da cama. Matteo, coberto apenas com um =lenol, 
tinha os olhos abertos e olhava para ela.
- Como est, pai? - perguntou-lhe, inclinando-se para ele. 
Trazia =na mo uma chvena de caf.
- Estou bem - respondeu, com uma voz dbil.
- Arranjei-lhe um bom caf, com bastante acar. Veja s =que 
aroma. Quer? - O caf era um luxo que Teresa lhe permitia 
apenas =a ele. Para ela, fervia os restos e juntava-lhes 
chicria.
Matteo concordou. Teresa levantou-lhe a cabea e encostou a 
=chvena aos lbios do pai. Ele bebeu um gole. Escorregaram 
algumas =gotas ao longo do queixo. Teresa limpou-o com o 
avental.
- Mais um bocadinho? - insistiu com doura.
- J chega. Obrigado.
Fez-lhe uma festa no rosto. - Est com a barba muito 
comprida. Vou =fazer-lha agora - decidiu.
- Trata dos teus filhos - disse ele.
- Eles j so grandes - tranquilizou-o, enquanto fazia espuma 
=com duas lascas de sabo e um pouco de gua dentro de uma 
tigela =de barro. Depois pincelou-lhe o rosto e comeou a 
barbe-lo.

375


Quando acabou o trabalho, lavou-lhe as faces com um farrapo 
hmido, =penteou-lhe o bigode e o cabelo, bateu o travesseiro 
e arranjou o =lenol.
- J est - sorriu-lhe, com um ar satisfeito.
- Il becco all'oca e la barba al podest(1) - respondeu ele, 
=retribuindo o sorriso.
- Desde pequena que o ouo repetir essas palavras depois de 
fazer a =barba. No me quer explicar o que querem dizer? - 
perguntou, =curiosa. Entretanto, ia arrumando a tigela, o 
pincel e a navalha.
- Aprendi com o meu pai. Na verdade, ele dizia: Ecco fatto il 
becco =all'oca e le corna al podest. E olhava para a mulher, 
ou seja, para =a tua av Lina, com um olhar feroz, porque se 
dizia que ela o =enganava - explicou.
- E era verdade? - perguntou, incrdula, recordando aquela 
velhinha =desdentada, preguiosa, sempre  beira do choro.
- Como  que eu hei-de saber? Sei que ele a enganava a ela. 
Mas =para um homem, j se sabe, isso  s um motivo de 
orgulho =-afirmou.
- No, senhor. Um bom marido no engana a mulher - protestou, 
e =voltou-lhe  ideia a dor provocada pela j distante 
infidelidade =do marido. Ento, anunciou: - Chegou uma carta 
do Benedetto.
- O que  que diz?
- Quem me dera a mim saber. A censura, como sempre, cortou 
tudo. =Comea como de costume, com minha querida mulher, 
depois =h duas pginas apagadas e acaba com o teu marido 
Benedetto =Zicri. Nem sequer sei se recebeu os sapatos com 
as solas novas e as =camisolas para o Inverno - lamentou.
- s uma grande mulher - disse Matteo, e estendeu uma mo 
para =lhe fazer uma festa no rosto. Mas parou a meio do 
caminho. Era muito =cansativo. Por isso acrescentou, com um 
suspiro: - Agora j no =passo de um velho intil.
Matteo Avigliano tinha ficado de cama durante a Primavera, 
dizendo que =j estava com os ps para a cova. Nunca mais se 
quis levantar. =No voltou a ir trabalhar. Quando Teresa no 
lhe levava a comida = cama,


*1. Expresso napolitana que significa que est tudo pronto e 
em =ordem. (N. da T.)


376


passava sem as refeies. Uma vez chamou o mdico, que o 
=observou cuidadosamente e depois disse: - No tem nada. A 
nica =coisa que tem  cansao. Trabalhou toda a vida. 
Deixem-no =descansar.
Ele respondeu: - No estou cansado. J no tenho  vontade 
=de viver.
Para o espevitar, Teresa censurava-o s vezes asperamente. - 
No =pensa nos seus netos? Ns aqui precisamos do seu 
salrio. Vamos =morrer  fome por sua culpa. - A resposta 
foi: - No me venhas =dizer isso a mim. Vai ter com aquela 
cabea quente do teu marido. Se =tivesse tratado s da vida 
dele, no o tinham mandado para os =confins. - Ela explodiu: 
- Se no se tivesse casado com a =Roslia di Giacomo, aquele 
fascista reles do filho dela no tinha =denunciado o 
Benedetto. - Matteo comeou a chorar como uma =criana. Ela 
envergonhou-se por ter dito, pela primeira vez, aquilo =que 
pensava desde sempre. - Desculpe, pai - suplicou, 
=abraando-o.
-  por isso que eu quero morrer. J no consigo aguentar o 
=peso de todas as confuses que armei, sobretudo a ti.
A tempestade passou. Ele no mudou de ideias. Estava a ficar 
cada vez =mais fraco. J quase no comia. No iria ver outro 
Inverno. Ela =s podia assisti-lo com amor. E trabalhar mais. 
Fazia ambas as =coisas de boa vontade. Tinha inventado, quase 
por acaso, uma =profisso em que tinha muito orgulho: 
cozinheira  tarefa.
Mais uma vez, era Josepha quem estava na origem desta nova 
profisso, =porque, quando vivia em Npoles, se lamentava 
pelo facto de o =cozinheiro no saber preparar as almndegas 
nem os sonhos com =compota de papoila.
- Tu tornaste-te uma grande cozinheira das nossas receitas - 
=disse-lhe.
- Se quiser, uma destas noites preparo-lhe um jantar  moda 
do =Tirol - props ela, quase por brincadeira.
- E a Sacher-Torte? Ainda te lembras como se faz? - indagou 
=Josepha.
-  ver para crer - garantiu ela.
Os Valeschi tinham vinte convidados para o jantar e a 
refeio =Preparada por Teresa foi um verdadeiro sucesso. As 
mulheres de alguns =dos convivas quiseram conhecer a 
cozinheira para lhe proPorem trabalhar =para elas tambm. 
Josepha apresentou-a
377


e definiu a remunerao, que a Teresa pareceu exorbitante. As 
=senhoras que, depois daquele jantar, a convocaram, 
acharam-na =aceitvel. Assim, em poucos meses, Teresa alargou 
a roda de clientes =e, desde h anos, conseguia com o seu 
trabalho sustentar toda a =famlia.
- Pai, agora tenho de ir para casa do Dr. Malgioglio. Tem 
quinze =convidados hoje  noite. Vou descer e mandar os 
meninos para cima. A =Rosa trata de aquecer o jantar e de lhe 
dar um bocado de sopa. =Prometa-me que come sem inventar 
histrias - disse.
Ele assentiu. Ambos sabiam que no ia cumprir a promessa. 
Teresa =meteu na saca um vestido de algodo azul com 
colarinho branco e dois =aventais: um para trabalhar na 
cozinha e outro, de renda, para servir = mesa. O Dr. 
Malgioglio era um jornalista de Il Mattino. Era =solteiro e 
tinha uma criada idosa que mal se aguentava nas pernas. 
=Teresa j tinha estado outras vezes em casa dele e sabia que 
=tambm teria de servir  mesa. Por isso, de qualquer modo, 
teria =uma remunerao suplementar. Depois teria de lavar 
pratos, copos e =talheres. No regressaria a casa antes da 
meia-noite. Saiu de =casa.
Na viela, as crianas brincavam e faziam muito barulho. 
Pinuccio e =Iosefa estavam no meio dos midos mais enrgicos. 
Teresa =chamou-os e repreendeu-os por fazerem muito barulho. 
Depois perguntou: =- Onde  que est a vossa irm?
- J a conheces. Vai sempre dar uma volta - respondeu Iosefa, 
=encolhendo os ombros.
Rosa tinha doze anos. Seis dias por semana, depois de acabar 
a escola =primria, trabalhava na oficina de uma rendeira. 
Teresa esperava que =ela aprendesse o ofcio: as boas 
rendeiras eram trabalhadoras com =sorte, porque ganhavam bem 
sem estragar as mos, antes pelo =contrrio, tinham umas mos 
muito bonitas, to sedosas como os =tecidos que bordavam. A 
menina Claretta, que as trabalhadoras tratavam 
=respeitosamente por mestra, era uma das mais requeridas da 
cidade. Da =sua oficina saam os enxovais mais preciosos. 
Rosa trabalhava com ela =havia j um ano. No recebia nenhuma 
remunerao, porque =ainda no lhe era permitido pegar na 
agulha. Lavava o cho da =oficina, punha os vidros a brilhar 
para que nenhum fio de luz se =perdesse, enrolava as 
dobadoiras, afiava as tesouras, ia a compras, =preparava o 
caf, aquecia a comida que cada uma trazia de casa

378


lavava pratos e chvenas e massajava os ombros entorpecidos 
das =bordadeiras.
- Nem o ponto aberto te deixa fazer? - perguntava Teresa 
quase todas =as noites.
- A mestra diz que ainda no estou preparada - desculpava-se 
a =filha.
- Nem nunca vais estar, se no pegares na agulha - desabafava 
ela, =irritada. Sentia-se ludibriada por aquela mestra que 
explorava uma =rapariga e no lhe ensinava nada.
Nos Reis e na Pscoa, as trabalhadoras levavam presentes  
mestra. =Rosa tambm queria fazer como elas.
-  um acto de servilismo inaceitvel. Devia ser a mestra a 
=dar-te um presente a ti, e no o contrrio. Um destes dias 
vou = oficina e digo-lhe como ,  tua mestra - disse, 
=furiosa.
- Me, no faas isso, peo-te. Ia ficar envergonhada para 
=sempre. - Rosa chorou e Teresa suspirou. No era fcil 
impor-se. =Mas revoltava-se contra certas formas de 
explorao que =prejudicavam sempre quem no era capaz de se 
defender.
- A questo  que tu tambm tens de comear a trazer algum 
=dinheiro para casa. Ests a ver em que situao ns estamos. 
=O av est doente, o teu pai est desterrado, os teus tios 
=foram-se embora e esto muito bem, muito obrigado. Se eu 
ficasse =doente, como  que conseguiramos viver? - 
Esforava-se por =incutir responsabilidade quela mida, que 
deveria viver a =adolescncia com serenidade. Teresa sabia 
como era cansativo o =caminho para adquirir os direitos mais 
elementares. Tinha tido uma vida =de fadigas, dores e 
humilhaes. Esperava que o mundo se tornasse =melhor para os 
filhos. Partilhava h muito tempo as ideias do marido =e 
quase sentia orgulho por o fascismo o ter condenado. Teresa 
no =detestava o regime por no ter cumprido as promessas. Os 
outros =governos tambm se tinham comportado da mesma 
maneira. Nem sequer o =detestava pelas mentiras que contava 
todos os dias. Os governos =Precedentes eram igualmente 
mentirosos. A averso que sentia nasCia =do clima de terror 
que se respirava por todo o lado.
Tinha conhecido o marido durante uma manifestao afogada em 
=sangue. Tinha havido outras ainda piores. Mas, nessa altura, 
as pessoas =podiam protestar. Agora s se podia calar e 
obedecer.

379


As crianas continuavam a ser exploradas, as mulheres eram 
ainda =pagas abaixo do razovel e os homens recebiam salrios 
de =fome.
- Me, arranja-me um trabalho com um ordenado - disse Rosa, 
=sentindo-se humilhada.
- No te preocupes. Eu estou de boa sade e por enquanto no 
=nos falta o necessrio - tranquilizara-a.
Agora olhou para o topo da viela,  espera de a ver chegar. E 
=viu-a.
Recordou ento a rapariga estranha e vagabunda que tinha sido 
quando =era da idade da filha. Sorriu e foi ao encontro dela.
- Onde estiveste? No, no me digas. Quero adivinhar. Foste 
dar =uma volta - disse.
Rosa assentiu.
- O que  que fazes, quando vais dar uma volta?
- Olho para as pessoas, para os palcios, para as igrejas - 
=explicou a rapariga.
- De quem terias tu herdado isso? - suspirou Teresa, 
recordando os =suspiros da me. E acrescentou: - O av est 
sozinho em casa e =sente-se triste. Vai para cima com os teus 
irmos. E no voltem a =sair - ordenou.
- Mas eu queria ir ao cinematgrafo com as minhas amigas - 
=protestou a rapariga.
- Esquece o cinematgrafo. No h dinheiro. No meu quarto 
=esto os livros do teu pai. Pega num e l-o.
- Mas eu tenho dinheiro - disse Rosa, mostrando uma nota de 
cinco =liras que tinha no bolso do vestido.
- Oh, meu Deus! Quem te deu esse dinheiro? - perguntou a me, 
=alarmada.
- Foi um senhor. Chama-se Renato. Disse-me que  meu tio, que 
tu o =conheces, que gosta muito de ns todos e que nos pode 
ajudar, se =ns precisarmos - disse ela de enfiada, com um ar 
inocente.
Teresa empalideceu. O seu corao comeou a galopar, 
=enlouquecido. Sentiu rios de suor que lhe ensopavam o 
vestido de =algodo. Estava aterrorizada.

380


- Pai! O senhor tem de sair j dessa cama. No quero ouvir 
dizer =que est com os ps para a cova. Aqui toda a gente 
acaba por ir =parar  cova - berrou Teresa, abanando o pai 
com a fora do =desespero.
Os filhos,  entrada da porta, olhavam-na sem perceber.
- Teresella, enlouqueceste? - perguntou Matteo.
- Sim! Enlouqueci. Renato di Giacomo abordou a minha filha. 
Disse-lhe =que  tio dela e meteu-lhe isto na mo - gritou, 
agitando em =frente dos olhos do pai a nota de cinco liras.
- Desgraado! - exclamou o pai, esbugalhando os olhos. E 
=levantou-se da cama com uma agilidade inesperada.
- Eu tenho de ir trabalhar. E estou atrasada. Aquele 
delinquente =espia-nos desde sempre. Tenho a certeza de que 
anda por estes lados e =que sabe que os midos esto 
sozinhos. O senhor sabe o que tem a =fazer - avisou Teresa, 
dominada pelo medo. Era claro que o enteado do =pai tentava 
corromper Rosa e no se admirava nada que ele a quisesse 
=violentar. - Mas ser possvel que nunca cheguemos a ter um 
=momento de paz? - explodiu, olhando as trs Crianas com 
=desespero.
- Vai trabalhar - ordenou Matteo, que j tinha enfiado as 
calas =e a empurrava para fora de casa.
 Tem de trancar bem a porta da entrada, e no abra a ningum, 
por =nenhuma razo - preveniu. E acrescentou: - Quando eu 
descer, aviso =os vizinhos.

381


Pinuccio pegou-lhe num brao e falou tambm para os irmos: - 
=Me,  como a histria dos trs porquinhos e do lobo =mau?
- Tal e qual - assentiu Teresa. - Estas cinco liras so 
=malditas.
Desfez a nota em pedaos e mandou Pinuccio deit-la nas 
brasas. =Foi obrigada a apanhar o elctrico para chegar a 
tempo a casa do =jornalista Malgioglio. E durante o trajecto 
cresceu-lhe a ira e o medo. =O que poderia ela fazer para 
proteger os filhos? Renato era um homem do =regime, muito 
poderoso. O fascismo servia-se de personagens como ele =para 
as tarefas mais sujas. E protegia-os. Nem sequer o podia 
=denunciar, porque, no fim de contas, o que  que ela podia 
dizer? Que =um tio tinha dado cinco liras  sobrinha pequena?
Na cozinha do jornalista encontrou em cima da mesa os 
ingredientes para =o jantar. Comeou a lavar os legumes e a 
cort-los. De cada vez =que enterrava a lmina numa cabea de 
aipo ou num tomate era como =se estivesse a cortar a cabea 
quele malvado.
O dono da casa apareceu  porta para se certificar de que 
estava tudo =a postos e viu o rosto transtornado de Teresa.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou-lhe.
Era um homem com cerca de cinquenta anos. Devia ter mais ou 
menos a =idade do pai dela, mas parecia muito mais novo.
- Doutor, no me ligue, porque eu hoje tenho o diabo na 
cabea - =respondeu secamente, continuando a dar golpes com a 
faca.
O jornalista olhou para Peppina, a velha criada que estava 
sentada ao =lado da janela a descascar ervilhas, com um ar 
interrogativo. A mulher, =com um gesto eloquente de cabea, 
deu a entender que Teresa estava =realmente furibunda, mas 
mais do que isso no sabia.
- Posso ajudar-te a expulsar esse diabo? - perguntou, 
sentando-se =junto  mesa. Tinha na mo o colarinho engomado 
da camisa e =abanava-o em frente  cara, para aliviar o calor 
daquele dia abafado =e dos foges acesos.
Teresa frequentava aquela casa h trs anos e, mais do que 
uma =vez, tinha acontecido trocar algumas palavras com o 
jornalista, e sabia =que ela tinha um marido na priso, um 
pai doente e trs filhos =para criar.

382


- Consegue limpar os fascistas da face da terra? - perguntou 
Teresa, =passando um brao pela testa para limpar o suor.
- Teresa! Percebes aquilo que ests a dizer?
-  isso mesmo. Portanto, doutor, no pode fazer nada. E, 
=ento, para que estou eu a falar consigo? V-se embora, por 
=favor, porque no tenho tempo para perder em conversas - 
replicou =secamente.
O jornalista, no entanto, parecia disposto a suportar o calor 
da cozinha =e o mau humor da cozinheira para saber mais. A 
curiosidade era uma =doena profissional, tal como a 
capacidade de distorcer =informaes.
Ela acabou por lhe contar tudo, ou quase, enquanto recheava 
as lulas com =po ralado, salsa, sal, azeite e alho.
- Agora estou aterrada com a ideia de que ele possa abordar a 
rapariga =- concluiu.
-  melhor no te meteres com os fascistas. Aquele j era um 
=delinquente mesmo antes de vestir a camisa negra - comentou 
ele. E =continuou: - Disseste bem: no o podes denunciar. Mas 
deves estar =atenta. Se te voltar a incomodar, tu dizes-me, e 
eu penso no assunto - =tranquilizou-a.
Quando chegaram os convidados, ela j se tinha lavado e 
mudado e =apresentou-se na varanda com o tabuleiro dos 
aperitivos.
O sol estava a pr-se. Soprava do mar uma brisa ligeira que 
=suavizava o calor. Por baixo da prgola coberta de roseiras 
em flor, =os amigos do Dr. Malgioglio discutiam temas que no 
interessavam a =Teresa.
Falavam de poltica, de literatura e de espectculos. 
Pronunciavam =nomes de artistas, de escritores e de 
parlamentares, sempre os mesmos. =Para ela no significavam 
nada. Para eles, eram fonte de disputas, de =brincadeiras, de 
mexericos e de risota.
Os homens vestiam todos da mesma maneira: fato de linho 
claro, colete =cinzento e camisa branca. Tinham os cabelos 
reluzentes de brilhantina =perfumada. As senhoras eram 
decididamente mais 'imaginativas. Usavam =vestidos de seda de 
cores vivas, com decotes Pronunciados no peito ou =nas 
costas, o corpo descido at  anca ou aPertado na cinta e as 
=saias ligeiramente abaixo do joelho. Tinham todas o cabelo 
curto, como =exigia a moda do momento. Muitas fumavam 
cigarros enfiados em longas =boquilhas

383


de bano, tinham as faces coradas pelo rouge, os olhos 
escurecidos =pelo lpis e as unhas pintadas de vermelho. Uma 
das senhoras =distinguia-se das outras. Trazia um vestido 
simples de linho branco, =tinha o rosto bronzeado, sem 
maquilhagem, e os cabelos compridos =apanhados na nuca. 
Estava sentada num div, ao lado de uma rapariga =lindssima, 
e falava pacatamente com o Dr. Malgioglio.
- Ests a ver, Dino - dizia ela, enquanto Teresa se 
aproximava com =o tabuleiro dos aperitivos -, se tentas 
compreender as =reivindicaes das feministas atravs das 
actas do congresso, =perdes-te. Usam uma linguagem empolada e 
estril capaz de =desencorajar qualquer pessoa. No entanto, 
se leres o romance de Sibila =Aleramo Una Donna, encontrars 
a sntese sofrida das =discriminaes, das injustias e da 
escravido a que o =sculo XIX condenou as mulheres.  uma 
denncia =extraordinria, lcida e eficaz. E a situao, 
hoje, no = muito diferente. Mesmo na Amrica, onde as 
mulheres so =sensveis... - No acabou a frase. Tinha visto 
Teresa e um vago =tom de vermelho espalhou-se-lhe no rosto.
Tambm Teresa olhou para ela e, naquele momento, no a 
reconheceu. =Recordava que a princesa se vestia de um modo 
extravagante e que, quando =falava, tinha sempre um tom 
irnico e enjoado.
Soubera por Sofia que Virgnia vivia em Nova Iorque, onde 
trabalhava =e onde adoptara uma menina.
- Tu s a Teresella! - exclamou a princesa.
- Ao seu dispor - replicou a mulher, baixando o tabuleiro 
para que ela =se pudesse servir.
- Como ests? - perguntou.
Teresa pensou que, com o passar dos anos, as pessoas 
melhoram, s =vezes.
Aquela rapariga to bonita que estava ao lado dela devia ser 
a filha =adoptada. Olhou-a com curiosidade, porque aquele 
rosto tinha alguma =coisa de familiar. Virginia levantou-se e 
props-lhe de repente: - =Acho que ao fim de tantos anos 
podemos conversar um pouco.
Segurou-a por um brao e empurrou-a para dentro do escritrio 
do =dono da casa. Teresa pousou o tabuleiro em cima de uma 
mesa.

384



- Peo-te perdo por te ter feito sofrer - comeou, 
=simplesmente.
Teresa olhou-a e empalideceu.
- Passou j muito tempo e, no entanto, o meu sentimento de 
culpa em =relao a ti nunca me deixou. Eu estava apaixonada 
pelo Benedetto =e ele, pelo contrrio, s te amava a ti. 
Desapareceu de um dia =para o outro e no o voltei a ver. 
Sofri muito por causa disso, mas, =a custo, comecei a 
compreender o que queria da vida. H muito tempo =que estou 
tranquila e Isadora, a minha filha, tornou-me feliz. Era isto 
=que eu te queria dizer, durante estes anos todos.
Teresa levou uma mo  testa. Sentiu a cabea andar  roda e 
=deixou-se cair sobre uma cadeira.
Recordou o perfume que Benedetto levava sempre com ele quando 
regressava =a casa,  noite. Sempre se recusou a saber quem 
era a mulher com quem =a enganara, ainda que o marido, em 
diversos momentos, tivesse tentado =falar-lhe sobre isso. 
Portanto, era Virginia.
- Eu no sabia que era a senhora - balbuciou. Depois voltou a 
=pensar no rosto da rapariga, e acrescentou num sussurro: - 
Ento, a =sua filha...
-  minha - afirmou Virginia decidida, interrompendo-a. - 
Isadora = s minha - repetiu com fora, e prosseguiu: - 
Adoptei-a. =Lamento muito, Teresa. Nunca te teria dito nada, 
nem esta noite nem =nunca, se soubesse que o Benedetto no te 
tinha falado de mim. Por =favor, no lhe contes esta nossa 
conversa.  uma histria =antiga, sem consequncias, pertence 
a um passado distante. No =estraguemos aquilo que temos de 
mais precioso nas nossas vidas, as =nossas famlias e os 
nossos afectos. Concordas comigo?
As duas mulheres olharam-se nos olhos durante muito tempo, 
sem falar. =Teresa inclinou a cabea em sinal de 
assentimento. No ia voltar a =abrir aquele captulo da sua 
vida, que se tinha concludo =definitivamente com a confisso 
de Virginia. Era o presente que a =aterrorizava. E tinha o 
rosto ameaador de Renato di Giacomo. =Voltou-se e saiu.

385


Teresa regressou a casa. Tinha uma pedra no corao que no 
=conseguia remover e sentia-se sufocar. O filho da madrasta 
era um =pesadelo que no lhe dava sossego.
Os filhos j tinham jantado e arrumado a cozinha. Ficou-lhes 
grata =por isso. Agora estavam os trs a dormir. O pai estava 
acordado.
- Vieste cedo - constatou.
- Desculpe-me por eu hoje estar muito nervosa - pediu ela, em 
voz =baixa.
- Tens boas razes para isso - replicou ele.
- As crianas portaram-se bem? - perguntou.
- Muito bem. J lhes expliquei quem  aquele cavalheiro 
chamado =Renato di Giacomo. Eles perceberam - sussurrou.
Teresa andou s voltas pela casa silenciosa e escura, como 
uma alma =penada. Estava com problemas e no sabia como havia 
de os =resolver.
Mais uma vez, s tinha uma possibilidade: a fuga. Era uma 
=estratgia testada, que j tinha funcionado. Salvara-se da 
=madrasta dos filhos dela, fugindo. A seguir, recuperara o 
marido da =mesma maneira. Tinha de ir embora outra vez.
Pegou num papel e numa caneta, sentou-se  mesa e comeou a 
=escrever: Queridos irmos.... A elaborao da carta 
=obrigou a algumas alteraes. Depois transcreveu-a com uma 
bonita =caligrafia.

386


Era um pedido de ajuda a Ciro e Salvatore. O corao e a 
=inteligncia diziam-lhe que no ia cair no vazio.
Quando se estendeu na cama, respirava melhor, como se a pedra 
que a =oprimia estivesse a desfazer-se. Na manh seguinte, 
decidiu =acompanhar Rosa at  oficina da rendeira.
- No quero que aquele homem feio te atormente - 
explicou-lhe. - =E logo  noite venho buscar-te. Vou dizer  
tua mestra para =no te mandar  rua.
- Por favor, me, no faas isso. Ia sentir-me humilhada - 
=suplicou Rosa.
- No deves ter vergonha pelo facto de um homem te perseguir. 
Quando =muito, ele  que devia ter vergonha.
A rapariga inclinou a cabea, resignada. No podia contrariar 
a =vontade da me. s vezes perguntava-se como seria a sua 
vida, se =o pai vivesse com eles. Teresa no era meiga com os 
filhos. Uma vez, =Pinuccio pediu-lhe um beijo e ela 
perguntou-lhe: - Porqu? O que =fizeste de to especial para 
o mereceres? - Uma noite, porm, =Rosa surpreendeu-a a tocar 
com os lbios a testa de Iosefa, que =dormia profundamente. 
Perguntou-lhe: - Porqu a ela e no a mim? =- Ela 
respondeu-lhe: - Os filhos s se beijam quando esto a 
=dormir. - Assim Rosa ficou a saber que tinha recebido a sua 
parte de =ternura durante o sono. Benedetto, pelo contrrio, 
enchia-os de =mimo. Divertia-se a brincar com eles e 
fazia-lhes ccegas que os =punham a rir at s lgrimas. 
Andava com eles em cima dos =ombros, um de cada vez. Ela 
sentia-se altssima quando se segurava =com as pernas ao 
pescoo do pai e lhe apertava a cabea com os =braos.
- Spallarm - dizia Benedetto, usando aquela palavra da gria 
=militar para os convidar a trepar-lhe para os ombros.
- Quando  que o pai volta? - perguntou Rosa.
- Daqui a um ano, j sabes.
- Aquele tio mau disse-me que, se eu lhe pedir, pode escrever 
Uma =carta para faz-lo voltar j - revelou Rosa com um fio 
de =voz.
Estavam perto da oficina, a meio do Corso Garibaldi, entre o
rudo metlico dos elctricos, o movimento dos automveis e 
=a
Passagem de carroas e bicicletas. Teresa estacou, no meio da 
rua, =arriscando-se a ser atropelada por um motociclista que 
fez uma travagem =sbita e foi contra a carroa de um 
vendedor

387


ambulante cheia de alhos e limes. Parte do contedo 
entornou-se =na calada e dois automveis foram obrigados a 
uma travagem =brusca. Um elctrico parou de repente e o 
condutor comeou a tocar =a campainha. O motociclista lanou 
alguns improprios contra =Teresa, enquanto era insultado 
pelo vendedor ambulante. Armou-se uma =balbrdia. Rosa 
conseguiu arrastar a me e p-la a salvo em =cima do passeio. 
Recebeu uma estalada como recompensa.
- E s agora  que me dizes? Mas por que  que falas a 
=conta-gotas?! - gritou Teresa. E perguntou: - O que  que eu 
=hei-de fazer com uma filha como tu?
- Ontem no me deste tempo de te dizer. Estavas furiosa e eu 
fiquei =confusa - defendeu-se.
- Rosa, ouve bem - disse Teresa, baixando a voz -, todas as 
palavras =daquele homem so mentira. Nesta altura, no sei o 
que  que =ele tem na ideia, mas o que quer que seja  uma 
coisa m. O teu =pai foi desterrado por causa dele. Foi ele 
quem o denunciou. Se no =fosse assim, o pai estava aqui, 
connosco, tinha um trabalho e um =salrio honesto e os homens 
como o Renato di Giacomo estavam na =cadeia. Percebeste?
- Sim, me, mas acalma-te, porque ests a olhar para mim de 
uma =maneira que me mete medo.
- No tenhas medo da tua me. Eu nunca te vou fazer mal. s 
=minha filha e quero-te mais do que  prpria vida - afirmou, 
=subitamente mais calma.
Entregou a filha  rendeira e depois foi ao correio mandar a 
carta =para os irmos, que viviam numa pequena cidade perto 
de Milo: =Cernusco sul Naviglio.
Apanhou o elctrico e foi at Posillipo. Tinha de acertar com 
=Sofia os ingredientes para um jantar que os Valeschi iam 
oferecer por =ocasio da visita de uma personalidade 
poltica, vinda de =Roma.
Sofia tinha-lhe dito que os Valeschi tinham sido transferidos 
para =Milo. Mas durante o Vero alugaram uma villa em 
Posillipo numa =zona que Teresa conhecia bem, porque j ali 
tinha sido chamada =vrias vezes para preparar refeies.
Era uma bonita construo do sculo XIX, rodeada por um 
grande =jardim. Sofia veio ao encontro dela e conduziu-a para 
as traseiras, em =direco  cozinha, que ficava numa meia 
cave.

388


Do jardim chegou um rumor de passos ligeiros sobre o saibro 
e, logo a =seguir, no vo em arco da porta perfilou-se a 
figura esguia de uma =mulher jovem vestida de cavaleira.
- O meu pequeno-almoo, Sofia. Leva-o para o jardim. Quero 
duas =sfogliatelle(1) quentes. Estou esfomeada - disse Thea, 
e s nesse =momento se apercebeu da presena de Teresa. Ento 
desceu de um =salto os trs degraus e agarrou-se a ela num 
grande abrao.
- Ama! Ningum me disse que estavas aqui. Como  que vais?
- Bem, menina. Ests cada vez mais bonita - constatou, 
=sorrindo-lhe. De cada vez que via Thea pensava no seu 
Pinuccio. Teria a =mesma idade que ela, se fosse vivo.
- Sabes, ama, vou a Nova Iorque com a tia Virgnia e a minha 
prima =Dod. A tia Virgnia  uma delcia. Dod tem menos um 
ano =do que eu e j tem um boy-friend - anunciou.
- E o que  isso, um co? - perguntou Teresa, curiosa. Thea 
=explodiu numa gargalhada.
- No,  uma espcie de namorado. Sabes, as raparigas 
=americanas so muito mais livres do que ns. E as mes delas 
=no so como a minha, que v tudo vermelho de cada vez que 
um =rapaz me sorri.
- E faz muito bem. Tu no deves ter inveja daquela gente sem 
=princpios - advertiu-a, como se Thea fosse ainda uma 
=criana.
Thea no ouviu aquelas palavras. J tinha regressado ao 
jardim, e =Sofia seguiu-a com o tabuleiro do pequeno-almoo, 
a resmungar =contra aquela desgraa.
- Aquela rapariga  o desespero da senhora - confiou depois a 
=Teresa, enquanto ela anotava numa lousa a lista dos legumes 
e das carnes =para o jantar. - Todos os dias se apaixona por 
algum. E nunca =nenhum  comida prpria para aqueles dentes.
-  da idade. Aos dezasseis anos o sangue ferve - observou 
=Teresa.
- Pensaram bem em mand-la para a Amrica, porque este Vero 
=apaixonou-se por um sujeito que encontrou em Capri. 
Mandava-lhe rosas =todos os dias e ela andava completamente 
perdida.


*1. Doce napolitano que consiste numa rodela de massa folhada 
dobrada, =recheada com ingredientes diversos e cozida no 
forno. (N. da T.)


389


O general teve de intervir, tirou informaes e depois 
escreveu =uma carta aos pais do rapaz. Ento ele desapareceu 
e ela fez greve de =fome. Chorava tanto que era de partir o 
corao. Agora vamos ver o =que vai acontecer na Amrica - 
disse Sofia.
Teresa pousou a lousa e o giz.
- Est feito. Agora tenho de ir embora. Vemo-nos amanh  
=noite. Vou fazer uma grande Sacher-Torte. A senhora vai 
estar muito =triste com a partida da Thea. O chocolate vai 
p-la outra vez de bom =humor.
Teresa no gostava de mexericos e tinha mais em que pensar. 
Regressou =a casa depois de ter feito as compras e, por baixo 
do arco de Portalba, =viu Renato di Giacomo. Estava sentado 
dentro de um automvel =descapotvel, a fumar um cigarro, e 
olhava-a com um sorriso que =apetecia esbofetear.

390


Teresa fugiu pelo meio de um labirinto de vielas, 
inacessveis aos =automveis. Duvidava que Renato, gordo como 
era, pudesse deixar o =carro para ir atrs dela. Talvez nem 
sequer quisesse persegui-la. =Bastava-lhe faz-la saber que a 
tinha debaixo de olho. Estava a =encenar o velho expediente 
do gato e do rato.
Por fim, encontrou-se num largo. De um lado havia o adro de 
uma igreja =e, em frente, uma loja de vinhos e licores com 
telefone pblico. =Decidiu telefonar ao jornalista 
Malgioglio. Sabia que estava em casa =quela hora e que, 
quase de certeza, estaria a dormir. Mas ele =tinha-lhe dito: 
Se te voltar a incomodar, tu dizes-me, e eu penso =no 
assunto. Conseguiu ultrapassar o filtro da criada velha, que 
=no ousava acordar o doutor. Finalmente, falou com ele e, 
com uma voz =ansiosa, contou-lhe a ltima provocao.
- Vou tratar de obter informaes sobre esse sujeito - disse 
=ele, e acrescentou: - Passa por minha casa amanh.
Teresa estava j determinada a deixar Npoles com os filhos, 
antes =tinha de esperar uma resposta dos irmos, e estava 
tambm =atormentada com a ideia de abandonar o pai. Matteo 
no iria aceitar =ir com ela para o Norte, at porque no 
estava em condies =de aguentar os incmodos de uma viagem. 
Para alm do mais, nem =sequer sabia se ia arranjar 
alojamento para ela, quanto mais para ele =tambm.
No dia seguinte, apresentou-se em casa do jornalista.

391


- No posso fazer nada por ti - anunciou-lhe, depois de ter 
aberto =a porta da entrada.
Teresa sentiu-se gelar.
- Explique-se, doutor.
- Teresa, v se me entendes: no posso fazer nada - repetiu.
-  assim to poderoso? - perguntou.
- Aquele filho da tua madrasta  intocvel - respondeu ele em 
=voz baixa.
- E nem sequer sabe o que ele quer de mim?
O homem viu uma lgrima escorregar pela face de Teresa. 
Conhecia-lhe =a misria e a solido. Era uma das muitas 
vtimas de um regime =que se impunha pela fora. Teve piedade 
dela.
- Entra - convidou-a.
- Muito obrigada, doutor, no  preciso. Estou a faz-lo 
=perder tempo. Percebi muito bem aquilo que disse - 
respondeu, =retrada.
O jornalista pegou-lhe num brao e empurrou-a ao longo do 
corredor, =em direco ao escritrio.
- Senta-te - ordenou, indicando-lhe um pequeno div em frente 
= secretria.
Fechou a porta, os vidros da janela que dava para a varanda e 
as =cortinas de veludo pesado. Depois sentou-se ao lado dela.
- Conheces a Ovra? - perguntou, num sussurro.
- Quem ? - quis saber Teresa.
- Fala baixo, porque as paredes tm ouvidos. A Ovra  uma 
=organizao especial de homens que se infiltram nas 
fbricas, =nos escritrios, nas escolas, nas cadeias, na 
redaco dos =jornais, nos ministrios, nos quartis, nos 
cafs, nos bairros, =at nas prises mais desterradas. A Ovra 
 composta por =espies: vem, ouvem, tomam notas e 
denunciam. Foi assim que o teu =marido acabou com um processo 
e foi condenado. J no pode =escrever, nem falar contra o 
regime e o partido. H cinco anos que =existe um arquiV' 
poltico central que registou em fichas =centenas de 
milhares de antifascistas. Os espies e os homens que os 
=coordenam so muito poderosos.  tudo gente infame, 
Teresella, mas =intocvel. Renato di Giacomo  um deles. Se 
fosse um simples =camorrista, eu podia arranjar maneira de 
mandar fazer uma =investigao. Mas ele  muito, muito, muito 
mais.

392


Na penumbra daquela sala, onde se ouvia o tiquetaque do 
relgio em =cima da lareira, Teresa procurou o olhar do seu 
interlocutor e, com um =suspiro angustiado, perguntou: - Mas 
eu, Teresa Zicri, o que  que =tenho a ver com isto tudo? Os 
meus filhos o que tm a ver com isto =tudo?
- Minha menina, acorda. A democracia j no existe. Vivemos 
num =pas governado por um chefe que quer o consenso de toda 
a gente. E, =para o obter, serve-se da polcia e do Tribunal 
Especial para a =defesa do Estado. O Estado de direito j no 
existe. A =magistratura normal j no existe. H oficiais da 
milcia e =das foras armadas que se servem de tipos 
duvidosos como o filho da =tua madrasta para cumprir os 
desgnios do chefe supremo. Queres saber =o que tu tens a ver 
com isto e o que os teus filhos tm a ver com =isto? Nada. 
Vocs so menos que zero. No existem. Mas aquele =di Giacomo 
quer-te a ti. Para o conseguir, comeou por abordar a tua 
=filha. Est a tentar a bem, em suma. Se lhe responderes que 
no, =vai tentar a mal. Ningum vai intervir para te defender 
- preveniu o =jornalista.
- Ele quer-me a mim? - repetiu, espantada. Por muito terrvel 
que =fosse aquela notcia, recebeu-a com uma sensao de 
alvio. =Tinha pensado o pior. Acreditou que ele queria 
corromper a sua Rosa.
- Fez uma espcie de aposta com os seus dignssimos 
parceiros. =Vai ter-te antes que chegue o Outono - 
confidenciou-lhe, revelando =assim que tinha descoberto ao 
pormenor as intenes do seu =perseguidor. Por isso, 
acrescentou: - No posso ajudar-te, Teresa. =Lamento muito.
- Mas eu posso mat-lo - sibilou.
- Toma cuidado com o que fazes. O teu marido est desterrado, 
mas =est vivo. Pode morrer. No ia ser o primeiro caso, nem 
seria o =ltimo.
- Muito obrigada, doutor - disse ela, despedindo-se. Agora 
sabia o =que tinha a fazer. Correu imediatamente at ao
Hotel Excelsior, desceu  cave e procurou Peppino, o irmo.
Reinava uma grande confuso nas cozinhas, impregnadas de
cheiro a comida. As paredes estavam cobertas por uma crosta 
escura, =hmida e gordurosa, sedimentada ao longo de anos 
pelo fumo dos =foges. Serventes, cozinheiros, talhantes e 
pasteleiros gritavam, =blasfemavam, riam, cantavam e 
discutiam. Mulheres com aventais at ao =cho lavavam 
hortalias,

393


abriam frangos e misturavam farinha com ovos. Os cozinheiros, 
com a =cabea coberta por cilindros brancos altos e 
engomados, retiravam a =espuma dos caldos, trinchavam carnes 
e espalhavam sal, pimenta, colorau =e ervas aromticas dentro 
de panelas enormes. Era o caos produzido =por um exrcito 
desordenado que, no entanto, conseguia preparar =pratos 
triunfais que um batalho de criados transportava e servia 
nas =salas de jantar.
Teresa, em tantos anos, nunca tinha entrado naquele imenso 
espao que =reproduzia, em grande escala, aquilo que ela 
fazia, em ponto pequeno, =nas cozinhas das casas onde 
trabalhava como cozinheira quando era =preciso. Teria muito a 
aprender ali, porque o chefe, um homem =minsculo de voz 
rouca que dava ordens, provava, cheirava, metia o =dedo em 
todas as coisas e depois lambia, era um personagem famoso. Se 
=no se encontrasse numa situao to dramtica, teria 
=observado com interesse aquele universo que a enchia de 
curiosidade. =Porm, limitou-se a olhar  volta para 
localizar o irmo, que =estava a virar umas douradas grandes 
na grelha.
Tambm Peppino a viu e lhe dirigiu um olhar interrogativo. 
Apesar da =confuso aparente, reinava uma disciplina rgida 
naquela cozinha. =O chefe reparou na intrusa e mandou-a 
embora.
Peppino pediu autorizao para falar com a irm e depois 
=dirigiu-se a ela, agressivo: - Mas que disparate! O que foi 
que vieste =aqui fazer?
- Peppi, vou directa ao assunto. Tu tens de tomar conta do 
pai, porque =eu vou-me embora de Npoles e os meus filhos vo 
comigo - =anunciou.
Leu no rosto do irmo a aflio provocada por aquele anncio 
=e nem sequer lhe deu tempo para responder. Deu uma volta 
sobre os =calcanhares e saiu. Sabia que naquela noite ele se 
iria instalar na =viela da Duquesa com a mulher e os trs 
filhos.
Entretanto, tinha de falar com o pai, e esperava que no 
houvesse =cena nenhuma.
Dois dias depois, a meio da noite, Teresa deixou Npoles, a 
=esperana de no estar a ser espiada pelos homens do filho 
da =madrasta.

394


Sabia que no poderia comunicar o novo endereo, se chegasse 
a ter =algum, ao marido, porque as cartas que lhe escrevia 
eram lidas pela =polcia. Peppino e a mulher, depois da 
primeira ansiedade, =compreenderam as razes de Teresa.
Assim, depois de tantos anos, voltou a apanhar um comboio e a 
subir a =pennsula em direco ao Norte. Mandou um telegrama 
aos dois =irmos para anunciar que j estava a caminho e que 
no valia a =pena responder  carta que escrevera.
Os bancos de madeira da carruagem de terceira classe foram um 
longo =tormento. Mas seria muito mais angustiante viver em 
Npoles, =consciente do perigo que a ameaava. No sabia como 
ia ser =recebida por Ciro e Salvatore, nem o que iria ser 
dela e dos filhos. Era =possvel que, mais tarde ou mais 
cedo, o filho da madrasta a =encontrasse. Mas Cernusco sul 
Naviglio era to longe de Npoles! =E, depois, ia estar 
entregue  solidariedade dos irmos e  =proteco de alguns 
santos. Os santos, dizia-lhe a me =se os invocarmos com 
f, ajudam-nos.
Ela tinha muita f. E rezou muitssimo, durante aquela 
viagem.

395


MILO, COMANDO DO CORPO DA ARMADA JUNHO DE =1933


O casal Valeschi e Nino, o filho, estavam no =molhe de 
Gnova, onde tinha atracado o navio de passageiros Nazario 
=Sauro, de regresso dos Estados Unidos da Amrica. Thea 
estava =debruada no parapeito da coberta de primeira classe. 
Por entre a =multido de pessoas que esperavam a chegada dos 
passageiros, =reconheceu imediatamente os pais e o irmo. 
Comeou a esbracejar e =a gritar os nomes deles. Todos os 
passageiros se agitavam como ela. Os =Valeschi no a 
localizaram imediatamente, at porque Thea vinha =muito 
mudada.
O aspecto e a roupa eram os de uma rapariga refinada. =Tinha 
dezoito anos e desabrochara como uma flor delicada que, ao 
abrir =as ptalas, se mostra em toda a sua beleza. Vestia um 
fato de seda =turquesa de duas peas. O cinto, os sapatos de 
taco alto, a =carteira e as luvas eram azuis.
- Quase no a reconhecia - disse Josepha ao marido, 
completamente =espantada com aquela mudana.
- A minha menina est uma mulher - sussurrou Lorenzo, cheio 
de =orgulho.
Nino no disse nada. Aquela irm que no via h um ano 
=parecia-lhe uma estranha.
Baixaram as escadas. Os passageiros de primeira classe foram 
os =primeiros a descer. As formalidades aduaneiras foram 
despachadas =rapidamente. O prmio daquela longa espera foram 
os abraos =comovidos, os sorrisos e as exclamaes de 
alegria.

399


Haveria muito tempo para as narraes mais detalhadas durante 
a =viagem de automvel at Milo.
A bagagem de Thea era impressionante e Lorenzo decidiu 
despach-la =por correio expresso. Ao longo da estrada 
sinuosa, juncada de tneis =infinitos, nasceu uma conversa 
galhofeira entre os dois irmos. Nino =gabava o seu sucesso 
escolar, Thea as experincias americanas, =absolutamente 
assombrosas. Josepha observava o marido de soslaio =e via os 
olhos dele iluminados de alegria pelo regresso da filha. 
=Tambm ela se sentia feliz por voltar a t-la ao p de si, 
mas =essa felicidade, naquela como em outras situaes, era 
sempre =velada pela ansiedade quanto ao futuro. Apesar do 
optimismo de Lorenzo, =no conseguia calar os grandes temores 
que a acompanhavam desde os =tempos da grande guerra, quando 
comeou a recear por si, pela =famlia e pelo futuro. 
Respirava-se por todo o lado um clima pesado =e 
desagradava-lhe o facto de o marido no se aperceber disso.
Durante o Inverno tinha regressado a Merano sozinha, para um 
ltimo =adeus ao antigo tutor. Foi o baro Heini von Wedel 
quem a informou =sobre o estado desesperado em que se 
encontrava. Se dependesse dele, =Joseph Grossmann teria 
partido em bicos de ps, da mesma forma que =vivera. O antigo 
burgomestre tinha sido selvaticamente agredido por um =bando 
de jovens fascistas por ter organizado, em sua casa, uma 
escola =nocturna para as crianas pobres de lngua alem, 
tendo ousado =ensinar-lhes a histria do Tirol e dos seus 
heris. Umas pessoas =que passavam por ali encontraram-no 
coberto de sangue, sem sentidos, na =praa do Teatro.
Foi caridosamente tratado e os amigos denunciaram o facto. 
Mas =ningum quis encontrar os agressores.
Quando viu Josepha  cabeceira da cama, o velho cavalheiro 
ainda =conseguiu mostrar a sombra de um sorriso.
- Gosto tanto de si, Herr Grossmann - sussurrou Josepha, 
=inclinando-se para lhe dar um beijo na testa.
Ele, com muita dificuldade, conseguiu dizer-lhe: - Trata dos 
=teus filhos. Arranja maneira de eles no assimilarem esta 
cultura de =intolerncia. O esprito do homem deve ser 
educado para a =liberdade, para a compreenso e para o 
respeito pelos seus =semelhantes, sobretudo os mais fracos.

400


Depois do funeral, Josepha foi ver o castelo. As janelas 
estavam =fechadas, as portas pregadas, o jardim invadido 
pelas ervas daninhas, o =estbulo e o palheiro a cair aos 
pedaos. Sentou-se num banco de =pedra a olhar a destruio 
do seu passado. A melancolia que a =consumia transformou-se 
num pranto silencioso. Uma mo pousou ao =lado dela um 
raminho de violetas amarelas e azuis. Ergueu os olhos e viu 
=um homem entroncado que se afastava com um andar oscilante.
- Willy! - chamou.
Como nica resposta, ele acelerou o passo e desapareceu por 
entre as =macieiras.
Fosse como fosse, aquele homem continuava a tomar conta 
daqueles lugares =que lhe eram to queridos.
Pegou nas violetas e regressou ao hotel. O baro von Wedel e 
a mulher =estavam  sua espera. Informou-se sobre o caso de 
Willy e =disseram-lhe que trabalhava numa cervejaria por 
baixo das arcadas. Era =considerado uma espcie de idiota 
vagabundo com um passado =misterioso. Dormia com dois ces 
numa cave, lavava-se em pleno =Inverno nas guas geladas do 
Passirio e a sua fora fsica =incutia respeito e temor. 
Ningum, nem mesmo os fascistas, ousava =incomod-lo.
Josepha despediu-se dos amigos e regressou a Milo. Sabia que 
Willy =ia continuar a custodiar o seu passado.
Virou-se para olhar para os filhos que, no banco de trs, 
=sussurravam confidncias e riam baixinho.
- O que foi que a Amrica te ensinou? - perguntou a Thea.
- A ter orgulho na minha ptria - respondeu Thea, deixando-a 
=desorientada. Josepha estava  espera de ouvir dizer que na 
=Amrica tinha aprendido a falar e a escrever correctamente 
em =ingls e a sentir-se livre de exprimir as suas prprias 
=opinies.
- A srio? - perguntou, espantada.
- O governo do nosso pas goza de uma alta considerao. 
=Mussolini  definido como the right man in the right place, 
o homem =certo no stio certo. A Itlia  um modelo para toda 
a Europa. =Dizem que at a Alemanha tem muito a aprender 
connosco. Sabes, eles =adoram desde sempre esta velha Europa, 
e sobretudo a Itlia.

401


- Fazes bem em dizer essas coisas  tua me - interveio 
Lorenzo. =- Ela  sempre muito pessimista e recusa-se a 
compreender a =grandeza do fascismo.
- E por que  que os americanos no importam este modelo? O 
=capitalismo deles est a meter gua por todos os lados. H 
=legies de desempregados. Os pobres vivem em guetos. O 
fascismo podia =ser um remdio infalvel para estes e outros 
problemas - comentou =Josepha com um sarcasmo que ningum 
captou.
- L chegaro - afirmou Lorenzo. - A nossa Itlia  
=realmente um modelo para o mundo.
-  verdade - interveio Nino. - A nica coisa que me aborrece 
=so as reunies e os desfiles.
- Se vocs soubessem a quantidade de desfiles que os 
americanos =fazem! Qualquer ocasio  boa para um desfile. E 
fazem-nos em =grande estilo, com banda de msica, rufo de 
tambores e majorettes com =fatos berrantes.  uma festa de 
cores - declarou Thea.
- Quanto a mim, as calas de l, as botas e as camisas negras 
=do uma melhor imagem da ordem. No  verdade, querido? 
=-replicou Josepha, irnica, dirigindo-se ao marido. Tinha na 
ideia =os desfiles da sua infncia, em que ela prpria 
participara, =vestindo o traje nacional de tons alegres, os 
carros puxados por =poderosos cavalos, as vacas bem nutridas 
cheias de chocalhos enfeitados =com fitinhas vermelhas e a 
msica popular carregada de alegria.
- Concordo contigo, Giuseppina - disse o marido, sublinhando 
com =aquele Giuseppina a irritao provocada por aquela 
ironia =fora de propsito. E acrescentou: - Por que no 
cantamos uma =cano bonita?
- Eu sei muitas americanas. Canes country, meldicas. Mas 
=uma das que na Amrica se ouvem mais  italiana.  Tito 
=Schip(1) quem a canta.  assim: Torna piccina mia, torna dal 
tuo =pap. Conhecem?
- Egli ti aspetta sempre com ansiet(2) - continuou Lorenzo. 
Em =Milo, toda a famlia Valeschi, tias, tios e primas, 
estava
 espera de Thea. Sofia ajudou o cozinheiro a preparar


*1. Volta, minha pequenina, volta para junto do teu pap, 
em =italiano. (N. da T.)
2. Ele est sempre ansioso  tua espera, em italiano. (N. 
=da T.)


402


um especial com os pratos predilectos da menina: legumes 
cozinhados  =napolitana, moluscos gratinados epastiera(1).
Foi uma refeio interminvel, porque Thea estava feliz por 
=poder contar a sua experincia num mundo que a fascinara. A 
tia =Virgnia e a prima Dod, os amigos delas, a casa de dois 
andares =em Little Italy, a empregada de cor, a cerveja e o 
whisky, o peru =recheado na festa de Aco de Graas, o 
Exrcito de =Salvao, o comboio subterrneo, os automveis e 
os grandes =armazns, a independncia das mulheres, a 
liberdade de que gozavam =as raparigas, os teatros de Times 
Square e o clube onde se tocava =jazz.
- A tia Virgnia orienta uma transmisso radiofnica de 
grande =audincia. As mulheres telefonam-lhe para lhe 
contarem os problemas =e ela encontra a resposta certa para 
cada uma. Dod estuda =declamao, porque quer ser actriz de 
teatro. A me est =absolutamente de acordo com essa escolha. 
Ainda havia muito mais para =contar, apesar de em parte j 
saberem, porque vos escrevi quase todos =os dias. Trouxe 
prendas para todos, mas esto nos bas que =esto para chegar 
pelo correio. Agora estou cansada e quero ir =dormir. Se 
conseguir, excitada como estou. Imaginem que a bordo do 
=Nazario Sauro fui eleita rainha de beleza e jantei todos os 
dias  =mesa do comandante. Acabei, an! - concluiu, e no 
conseguiu evitar =um bocejo.
- Disseste an! - repetiu Nino, divertido. - Falas como os 
chefes de =tribo dos filmes sobre os ndios.
Sofia, atrs da porta da sala de jantar, ouviu tudo, passando 
da =surpresa ao assombro e  incredulidade. Finalmente, 
pensou que aquela =rapariga era demasiado livre e que de 
tanta liberdade no Podia vir =nada de bom.
Naquele momento entrou na sala de jantar e aproximou-se de 
Lorenzo.
- Desculpe-me, general. Est ali o Caldonazzo, que tem 
urgncia =em falar com o senhor - sussurrou-lhe. Caldonazzo 
era a =ordenana.
Josepha levantou-se da mesa, imitada pelos outros. Queria 
falar com a =filha em sossego, mas no podia faz-lo naquela 
noite.


*1. Torta napolitana de Pscoa, de massa mole, recheada com 
uma =mistura de requeijo macerado, acar cristalizado e 
chocolate. =(N. da T)


403


Por isso, depois de se ter despedido dos convidados, 
retirou-se para o =seu quarto.
Sofia ajudou-a a despir-se e a arranjar-se para a noite. 
Deveria =sentir-se feliz com o regresso de Thea, mas tinha a 
sensao de =que a filha tinha falado mais do que o 
necessrio, como se quisesse =esconder alguma coisa. Esta 
sensao causava-lhe alguma =inquietao.
- Prepara-me dez gotas de valeriana - pediu  empregada.
A valeriana tinha-se tornado o seu refgio contra os maus 
=pensamentos. Preparava-se para se deitar quando Lorenzo 
entrou no =quarto. Estava feliz como uma criana que acaba de 
ganhar alguma =coisa na tmbola.
- Um despacho de Roma, meu amor. Fui nomeado ministro da 
Guerra!
Josepha levantou o cobertor e o lenol. Meteu-se na cama e 
declarou: =- Eu sabia que havia alguma coisa de errado no ar. 
Deixa-me dormir. =Amanh digo-te o que penso.

404


- Por que  que tinhas de ser tu? - perguntou Josepha, 
olhando o =marido com um infinito pesar. Finalmente, estavam 
s os quatro: ela, =Lorenzo e os filhos. Fazia questo em dar 
tambm a conhecer a sua =opinio a Thea e a Nino.
- Com tantos generais que existem, por que tinham logo que te 
escolher =a ti para ministro da Guerra? E mais, de que 
guerra? Eu estou cansada de =guerra - protestou. Depois 
calou-se porque tinha entrado o criado para =servir o 
pequeno-almoo.
- Si vis pacem, para bellum1 - comentou o marido, enquanto o 
criado =pousava em cima da mesa torradas quentes e caf a 
ferver.
Assim que o criado saiu, Josepha rebateu: - O fascismo ama a 
guerra, =apesar de proclamar que deseja a paz. Por isso, se 
quiserem fazer outra =guerra, eu no vou estar aqui com os 
meus filhos a sofrer-lhe as =consequncias.
- Mutti, calma - interveio Thea. - No te podes deixar 
assustar =por fantasmas. O governo no quer guerra no nosso 
pas. No = assim, pap?
- Claro que  assim. Mas a tua me parece ignorar uma 
=estratgia to velha como o mundo:  preciso estar sempre 
=preparado Para combater, para se viver em paz - explicou 
Lorenzo. E =acresCentou, olhando a mulher com doura: - Eu 
no procurei esta =promoo.


*1. Se queres a paz, prepara a guerra, em latim. (N. da T.)


405


Uma vez que ela chegou, podem reflectir sobre este facto: o 
governo =confiou-me um cargo importante, a mim, que sou um 
homem honesto, =portanto quer governar honestamente.
Josepha pensou que muitas vezes os malfeitores se servem de 
homens =ntegros para conduzirem os seus jogos sujos. Mas no 
exteriorizou =esta convico.
Pousou uma mo na do marido e sorriu-lhe com ternura. - Tenho 
muita =vaidade em ser tua mulher, querido. Nunca me teria 
casado contigo, se =no fosses aquilo que s. Estou orgulhosa 
pelo cargo que =recebeste. Permite-me apenas uma pergunta: 
teremos de passar por mais =uma mudana?
- Receio que sim, meu amor. Vamos ter de morar no palcio do 
=ministrio, em Roma. Fica na Via Napoli. Como vs, Npoles 
=est sempre presente na nossa vida - tentou brincar.
- Nunca hei-de ter uma casa minha - suspirou Josepha, nada 
=animada.
- Eu no quero viver em Roma. Agora tenho aqui os meus 
amigos, a =escola, os professores e a famlia Valeschi - 
objectou Nino.
- Tu s muito idiota! - lamentou Thea. - Vamos viver na 
capital e =conhecer um monte de gente interessante. Em Roma 
h escolas melhores =e podemos ver os nossos primos Valeschi 
quando quisermos, porque os =familiares de um ministro viajam 
gratuitamente - concluiu com o =habitual sentido prtico.
Lorenzo esvaziou a chvena de caf e foi at ao gabinete do 
=Comando. Tinha de preparar com cuidado uma srie de 
documentos para =apresentar ao ministrio. Nino beijou ao de 
leve a face da me, =deu um belisco  irm e saiu para a 
escola. Josepha e Thea =ficaram ss, e olharam-se nos olhos.
- Mutti, dispara de rajada todas as perguntas que quiseres. 
Estou =pronta para aguentar o exame - comeou a rapariga.
Josepha suspirou com um ar de resignao. Aquela filha to 
=desenvolta, to extrovertida e to espirituosa j no lhe 
=pertencia, Sabia-o, sentia-o na pele e no corao. s vezes, 
=pensava: os filhos no nos pertencem. So setas disparadas 
para o =cu, que se vo cravar onde o vento as levar. Quando 
sentiu o =desejo imperioso de ninho que encerrasse a sua 
famlia, no =imaginou que os filhos levantassem voo para 
longe, guiados por =aspiraes diferentes das suas.

406


Sabia muito bem que no podia reter Thea debaixo da asa 
durante toda =a vida. Mas duvidava que aquela menina 
estivesse preparada para =enfrentar o voo, num mundo que se 
tornava cada vez mais difcil. =No ousava defini-la como 
frvola, mas temia que o fosse. =Thea gostava da aparncia. 
Tinha um cuidado quase obsessivo =com o corpo e o vesturio. 
Vangloriava-se dos sucessos desportivos e =dos mundanos. De 
quem teria herdado aquela necessidade de =afirmao social? 
No da me. Nem de Lorenzo. Tinha estado =longe de casa, do 
outro lado do oceano, durante tantos meses. As cartas =que 
escrevia eram fogo-de-artifcio. Ela tinha tentado, por 
=detrs daquelas palavras faiscantes, adivinhar os 
pensamentos =secretos, as emoes escondidas. S encontrou 
aspiraes =confusas.
- No  fcil interrogar-te. Conheo-te muito mal - 
=sussurrou.
- Deixa-te disso, mam, no faas teatro. Tu queres saber se 
=eu tive algum flirt. Eu, no teu lugar, teria curiosidade em 
saber - =declarou Thea.
- E tiveste?
- Mais do que um. O que significa nenhum. Os rapazes 
americanos so =terrivelmente srios. Entre eles, armam-se em 
fanfarres, mas =quando esto  frente de uma rapariga, 
gaguejam. Tive encontros =com muitos amigos. Um deles, mais 
audaz, beijou-me. Deu-me vontade de =rir e ri-me. Acho que 
ficou ofendido, porque no o voltei a ver. =Esta foi a 
transgresso maior. Mutti, na tua opinio, por que  =que me 
deu vontade de rir?
- No estavas apaixonada. S isso.
- E se assim no fosse?
- Se assim no fosse tinhas sentido um n na garganta, 
=caam-te lgrimas de alegria e tinhas desejado aquilo que 
todas =as mulheres desejam do homem que amam, depois de 
estarem casadas,  =claro - esclareceu Josepha. O facto de 
ela ter amado apaixonadamente =Lorenzo durante trs longos 
anos, antes de se casar com ele, era um =pormenor que nunca 
havia de partilhar com a filha.
- No precisas de pr os pontos nos i. Sei =perfeitamente
que s nos podemos entregar ao marido - afirmou Thea, 
divertida.
- Muito bem - sorriu a me. - Como viste, no foi preciso 
=Submeter-te a nenhum exame. Estou-te grata por estes poucos

407


minutos de confidncias - declarou Josepha, preparando-se 
para se =levantar da mesa.
- As confidncias ainda no acabaram - anunciou a filha.
A me escondeu uma sbita ansiedade. Com Thea, nunca tinha 
=sossego. Pensava que tinha conquistado um instante de 
trguas. Estava =enganada.
- Estou perdidamente apaixonada - continuou a rapariga. 
Josepha fez =mentalmente a conta das paixes anunciadas e das
escondidas. Por ordem, havia: um tenente da marinha de vinte 
anos. Thea =tinha ento seis anos. Um empregado de 
restaurante. Thea tinha dez =anos. Um conde arruinado que 
tinha dois lindssimos ces de fila e =lhe recitava poemas de 
Salvatore di Giacomo. Thea tinha doze anos. O =instrutor de 
equitao que tinha quarenta anos e sete filhos. Thea =tinha 
dezasseis anos. Um jovem oriundo das Marche, herdeiro de uma 
=importante fortuna, que acabou por se revelar um impostor, 
tendo Lorenzo =sido obrigado a intervir para o pr na rua.
- Quem , desta vez? - perguntou num sussurro, e j se 
=prefigurava a habitual sequncia com final dramtico, porque 
Thea =ia chorar, fazer greve de fome e declarar que queria 
morrer.
- Tu j o conheces - disse a filha com um sorriso enigmtico. 
- =D-me uma ajuda - pediu, esforando-se por conservar a
calma.
- Guido Battellieri, o homem do comboio, aquele que me 
ofereceu um =cigarro porque sofria de insnia como eu e como 
tu.
- Meu Deus! Tinhas-me dito que era uma histria que no era 
=histria nenhuma. Pouco depois voltmos a Npoles e ficaste 
=perdidamente apaixonada por aquele rapaz das Marche. 
Depois =foste para Nova Iorque. S regressaste ontem. Thea, 
v se me =explicas -implorou a me.
Assim ficou a saber que, durante a estadia americana, a filha 
tinha =mantido uma correspondncia assdua com aquele jovem 
que =encontrara no comboio e que era amigo de alguns primos 
Valeschi. Soube =que os Battellieri eram construtores de 
bicicletas. QUe Guido tinha =vinte e sete anos, dois irmos 
mais velhos, que o pai tinha morrido e =que a me era uma 
espcie de general que conduzia os destinos da =famlia e da 
indstria fundada pelo marido.

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-  claro que ainda no se declarou. Ontem  noite, antes de 
=me deitar, telefonei-lhe. Vou estar com ele hoje, vamos 
tomar um =aperitivo ao Cova. Espero que se declare.
- Lorenzo! - gritou Josepha, abandonando a sala do 
pequeno-almoo. =Precisava de ver o marido imediatamente. 
Subiu a correr at ao andar =de cima e irrompeu no escritrio 
onde ele estava. - A tua filha, eu =j no tenho mo nela - 
desabafou, ofegante. - Est outra =vez perdidamente 
apaixonada por outro, um tal Battellieri, e tu tens de 
=recolher imediatamente todas as informaes sobre este caso. 
- =Lorenzo no estava s. Estavam dois oficiais idosos com 
ele, que =se puseram em sentido e tossiram ligeiramente para 
esconder o =embarao.
Lorenzo no perdeu a compostura. Gostaria de sorrir, mas 
sabia que =isso ia desagradar  mulher. Por isso, franziu as 
sobrancelhas, na =tentativa de assumir a expresso do pai 
agastado.
- Ser que algum dos senhores j ouviu este nome? - 
=perguntou.
- A firma Battellieri fornece as bicicletas ao nosso 
exrcito, =general - declarou um dos oficiais, com um ar 
compungido.
- Isso mesmo, um ciclista - disse Josepha.
- Se me permite, general, gostaria de acrescentar que a 
senhora =Battellieri, Sozzani Negri de solteira, conduz os 
destinos da empresa =h cinco anos, desde a morte do 
engenheiro. E f-lo com punho de =ferro - acrescentou o 
segundo oficial.
- Ouviste, querida? Agora ests sossegada? - disse o marido. 
=Afastou-se da secretria e foi at junto dela, para se 
=despedir.
- Nem um pouco. Hoje vai sair, sozinha, com esse tal. Diz que 
vo =tomar um aperitivo. Quando  que nos mudamos para Roma? 
No pode =ser j, imediatamente? Tenho de ir tomar a 
valeriana - concluiu, =desesperada.


409


CERNUSCO SUL NAVIGLIO JULHO DE 1933


O conde Anacleto Maria Brandazzi, a quem os =camponeses 
chamavam el sur cunt, ou el cunt Brandass, ou ainda el =nos 
padmn, com um fato de linho branco e um chapu de Panam, 
=estava sentado num banco, por trs da balana, e controlava 
=pessoalmente o peso dos casulos fechados em sacos de juta. 
Cada =campons trazia at  sua fiao o fruto de trinta e 
oito =dias de trabalho frentico, que era tarefa de mulheres 
e =crianas.
O conde fazia deslizar o contrapeso ao longo da haste =at a 
balana ficar em equilbrio perfeito. Ento, anunciava =o 
peso em voz alta e a filha, Orsola, ao lado dele, escrevia 
num pequeno =caderno o nome do rendeiro, a quantidade de 
casulos prontos para a =fiao e o preo, que variava em 
funo do brilho e da =cor. Depois dizia: - Passa l por casa 
daqui a uma semana, para =receberes o dinheiro.
O campons agradecia a el sur cunt e  sciura cuntessina e 
=ia-se embora. Os sacos eram carregados numa grande carroa. 
Quando =estivesse cheia, o cavalo puxava-a at  fiao. O 
conde =Brandazzi era proprietrio de sete fbricas de fiao 
de =seda, espalhadas pela regio limtrofe de Cernusco sul 
Naviglio. A =entrega dos casulos fazia-se na praa da 
parquia. Comeava =s cinco horas da manh e conclua-se ao 
escurecer. Como era =Julho, o sol punha-se s nove horas da 
noite.
Chegou um rapazinho, suado da corrida, com os cales 
remendados, =seguros por uma nica ala, e entregou um papel 
amarrotado ao =patro. Dobrou-se a meio para se inclinar

413


 frente dele e, a gaguejar pela emoo de ter de falar com 
=aquele grande homem vestido de branco, disse: - O meu pai 
manda esta =carta e pede desculpa por no vir pessoalmente, 
mas diz que est =muito zangado.
O homem leu o bilhete: Excelentssimo senhor conde, os meus 
=bichos-da-seda ficaram doentes e morreram por causa da 
pebrina. Seu =muito dedicado, Campanun.
O homem entregou o bilhete  filha, para que o lesse tambm. 
=Os bichos-da-seda estavam sujeitos a vrias doenas, como a 
=pebrina, precisamente. No havia hiptese de os curar e, 
quando =uma criao ficava infectada, tinha de ser 
imediatamente =destruda para evitar que o mal se difundisse. 
Campanun, com aquela =desgraa, tinha perdido a esperana de 
um ganho que lhe iria =permitir enfrentar o Inverno com menos 
preocupaes.
- Diz ao teu pai que pode mandar as mulheres da casa  fiao 
=da Larga. Tu, que tens bons braos, podes ir em meu nome ter 
com o =sucur, para aprenderes uma profisso - disse o conde, 
como =despedida.
Tinha-lhe dado ordens que o rapazinho devia transmitir ao 
pai. A =fria de um rendeiro podia ser to contagiosa como a 
pebrina. O =conde no queria preocupaes por causa dos 
camponeses. Ia =aceitar na fiao a mulher, a me e as quatro 
filhas, que =tinham entre oito e catorze anos, compensando-as 
com uma =remunerao mnima, e confiar ao fabricante de 
tamancos a =aprendizagem do rapaz, mediante um pagamento 
irrisrio. =Campanun, assim chamado por causa do seu grande 
nariz em forma =de campnula, iria ficar contente e, assim, 
no fomentaria nenhuma =desordem. Tinha havido demasiadas 
situaes como aquela, no =passado. Apesar de o regime ter 
anulado o direito  greve, com o =controle de toda a zona por 
parte dos fascistas, que usavam mtodos =muito persuasivos e 
ilegais, havia sempre os padres, que empolavam o 
=descontentamento atravs dos jovens da Aco Catlica. O 
=conde Brandazzi, que no se dava nem com os padres nem com 
os =fascistas, porque como costumava dizer Eu estou bem s 
comigo =mesmo, preocupava-se em no pedir favores para no 
sofrer =interferncias. Como um senhor da Idade Mdia, punha 
o lao ao =pescoo dos seus rendeiros e puxava a corda apenas 
o suficiente para =os manter dependentes, sem nunca apertar 
mais do que o necessrio. =Esta precauo permitia-lhe 
defender o melhor possvel os seus =prprios interesses

414


e parecer magnnimo com eles. Bastava pouco para que os 
camponeses o =considerassem como tal. Sempre diziam dele: El 
siiur cunt  um =homem justo. Tinham de continuar a julg-lo 
da mesma =maneira.
- Vem a a terrona(1) - anunciou em voz baixa o homem da 
=carroa, que continuava a amontoar sacos de casulos, 
enquanto o =cavalo esperava pacientemente debaixo daquele sol 
de Julho.
O conde passou um leno pela cara para limpar o suor. A 
condessa =Orsola abanou-se com o caderno das contas.
Numa esquina da praa surgira uma mulher que puxava uma 
carroa, =com as mos agarradas ao tirante. Tinha a ajud-la 
trs =crianas descalas, que empurravam com os braos o 
veculo =carregado de sacos. Ela trazia os tamancos 
pendurados ao pescoo, =oscilando-lhe sobre o peito generoso, 
coberto por uma camisa de =algodo florido. Os cabelos 
negros, fartos e encaracolados, vinham =escondidos por baixo 
de um leno do mesmo tecido. Parou a carroa. =Desapertou o 
fio que segurava os tamancos e enfiou-os nos ps. =No ficava 
bem uma mulher atravessar a praa descala. Depois =recomeou 
a empurrar a carroa.
O conde e todos os outros chamavam-lhe a terrona porque era 
=napolitana. Em Cernusco sul Naviglio havia ao todo seis 
napolitanos: os =dois irmos Ciro e Salvatore Avigliano, 
Teresa Zicr, que era =irm deles, e os trs filhos de 
Teresa. Os irmos trabalhavam =numa grande empresa, em Sesto 
San Giovanni. Ela arranjava-se como podia =para viver: a 
criao de bicho-da-seda, o trabalho na =nao e alguns 
trabalhos pontuais em certas casas da terra, onde =chegara 
dois anos antes. Era viva. O marido tinha morrido um ano 
=antes, no desterro. A princpio tinha sido olhada com 
desconfiana =e com uma espcie de desprezo. Era considerada 
como um subproduto da =raa humana, por causa da linguagem e 
dos hbitos estranhos  =gente daquele lugar. E tambm por 
causa de uma certa altivez, que os =notveis da terra tinham 
definido como prosopoPeia =meridional.
Os dois irmos, que viviam num quarto da Casena Torrianeta, 
=acolheram-na a ela e aos filhos durante alguns dias.


*1. Designao que os italianos do Norte atribuem com 
=frequncia aos do Sul, muitas vezes com uma conotao 
=depreciativa. (N. da T.)


415


Depois ela foi procurar don Cludio, o padre. A conversa 
durou muito =tempo. Ningum sabia o que a terrona tinha 
contado, mas, no =domingo seguinte, durante a homilia aos 
fiis, don Cludio =afirmou: - No devemos olhar com 
desconfiana aqueles que vm =de uma terra distante e 
carregam nos ombros o peso de tantas, demasiadas =injustias 
que afligem o nosso Pas. O forasteiro, quando  =honesto e 
se apresenta armado apenas de boas intenes, deve ser 
=ajudado.  um dever cristo, porque somos todos irmos em 
=Cristo. - Teresa estava sentada ao fundo da igreja com os 
filhos e os =irmos. Muitos olhares se pousaram sobre eles. A 
desconfiana e o =desprezo diluram-se na piedade.
Teresa arranjou alojamento para ela e para as crianas numa 
casa =situada no ptio de uma propriedade agrcola, por trs 
da =igreja de Santa Maria Assunta: uma cozinha e um quarto. 
Como a =estao era propcia a isso, adquiriu alguns 
bichos-da-seda =e, instruda pelas vizinhas, preparou um 
ninho para aqueles =minsculos vermes vorazes que se 
alimentavam de folhas de amoreira. =As lagartas cresceram a 
olhos vistos e, ao fim de duas semanas, mediam =nove 
centmetros. Nessa altura, preparou o bosque de ramos a 
=que as lagartas se agarraram para formar os casulos de seda. 
Teresa =seleccionou-os em funo do tamanho e da cor. 
Raramente o conde =Brandazzi tinha visto casulos to bonitos. 
Pagou-os ao preo =corrente, mas valiam muito mais, devido ao 
aspecto sedoso e ao brilho. =Teresa tomou conhecimento disso 
pelas outras mulheres do ptio que, =no entanto, tinham 
alguma inveja do facto de uma terrona, na =primeira 
experincia, ter obtido um resultado to =extraordinrio.
O patro, porm, ofereceu-lhe a ela e aos filhos quatro meses 
de =trabalho na fiao. Teresa, depois de ter vendido os 
casulos, =arejou a cozinha onde, durante muitas semanas, se 
tinha entranhado o =fedor dos bichos-da-seda. Com gua, 
lixvia, escova e muita =energia, limpou as paredes, o cho e 
os armrios, desalojando o =lixo dos cantos mais escondidos.
As mulheres do ptio olhavam com desconfiana aquela 
necessidade =de limpeza que animava a napolitana e a 
obrigava, todos os dias, a =lavar-se a si prpria e aos 
filhos.
- O importante - diziam-lhe, quase em tom de censura -,  que 
a =alma esteja limpa para o dia em que se apresentar na 
presena de =Nosso Senhor.

416



Teresa no respondia. Recordava a av Lina, que nunca se 
lavava, e =via que estas mulheres se pareciam com ela. Ela 
no conseguia viver =no meio da porcaria.
Foi para a fiao. Catorze horas de trabalho por dia. Para os 
=filhos, obteve um desconto de quatro horas.
O ambiente hmido e sobreaquecido e as mos curtidas pela 
=contnua imerso na gua a ferver eram muitas vezes causa de 
=doenas pulmonares e reumticas. Teresa olhava as 
companheiras e =os filhos delas. Ouvia-as tossir e temia por 
ela e pelos filhos. Estava =atenta para no se enganar no 
trabalho, porque, se perdesse um fio =enquanto dobava os 
casulos, o defeito notar-se-ia na tecelagem e seria =multada 
por isso. No se podia permitir o pagamento de multas, tanto 
=mais que depois da terceira multa, segundo o regulamento, 
seria =despedida.
O patro ou a filha apareciam de repente na fiao ou na 
=tecelagem, controlavam o trabalho das operrias, e, quando 
alguma =coisa no estava a correr bem, diziam, sem perder a 
compostura: - =Podes ir embora. - Uma das mulheres do ptio, 
que trabalhava na =tecelagem, foi despedida por causa de uma 
aposta.
O conde Brandazzi aproximou-se do tear em que ela trabalhava, 
observou =a pea de seda j tecida e viu uma pequena mancha.
- Lava-a - ordenou  mulher.
- J tentei, senhor conde. No desaparece - respondeu.
- Vamos fazer uma aposta. Se a mancha desaparecer, 
desapareces tu =tambm - disse ele. Humedeceu um leno da mo 
e passou-o =energicamente sobre a seda. A mancha desapareceu. 
A mulher teve de ceder =imediatamente o lugar a outra 
operria.
- Por isso, agora estou sem trabalho. Ele, o patro, comprou 
uma =aldeia inteira no Sul, l para os teus lados. Eu nem 
sequer tenho =dinheiro para comprar uma linguia - foi o 
comentrio da =mulher.
Teresa ouvia esta e outras histrias terrveis de explorao 
=e calava-se. Sentia o sangue a ferver, mas no fazia 
=comentrios.
Os casulos que transportava na carroa eram ainda melhores do 
que os =do ano anterior. Soube que noutra fiao, a do 
cavaleiro randoni, =poderia realizar muito mais dinheiro.
- Vem a a terrona - repetiu a condessa Orsola.

417


Teresa, a puxar a carroa, passou em frente da balana. 
Proferiu =um respeitoso Bom-dia, senhor conde, e continuou.
- Onde  que vais? - perguntou o patro.
- Vou ter com o cavaleiro Prandoni - respondeu Teresa, 
seguindo o seu =caminho.
- Pra - ordenou o conde.
Teresa deixou entregue aos filhos a carroa com aquele 
carregamento =precioso.
- Pode falar - disse, plantando-se  frente do conde com os 
=braos cruzados.
- Tens medo que eu no te pague como esse outro?
- Tenho medo que o senhor conde no aprecie a beleza dos meus 
=casulos - respondeu placidamente.
- Tu moras na Cascina della Sovrana.  minha. Posso resolver 
=aumentar-te a renda - ameaou o homem, placidamente tambm. 
=No lhe agradavam estas atitudes de altivez por parte dos 
rendeiros =que viviam nas suas terras. E, por maioria de 
razo, no ia =tolerar aquilo de uma terrona que viera para 
o Norte matar a =fome.
Era meio-dia e o sol a pique queimava a pele e cortava a 
=respirao. Teresa semicerrou as plpebras e os seus olhos 
=tornaram-se duas fendas.
Benedetto morrera h um ano e a dor pela sua perda ainda no 
tinha =abrandado. Soube que ele tinha morrido quando lhe 
chegou um embrulho da =Sardenha. Continha um par de sapatos 
com meias solas postas h pouco =tempo, duas camisolas, um 
casaco gasto, alguns livros, o relgio de =bolso e uma carta 
da polcia judiciria que lhe anunciava o =sbito 
desaparecimento do marido no mar, durante uma tentativa de 
=fuga. No era verdade. Ao fim de poucos dias, Benedetto ia 
voltar em =liberdade. O pensamento de Teresa foi para di 
Giacomo. Tinha a certeza =de que o mandara matar para se 
vingar da sua fuga. Acariciou aquelas =roupas, os livros e os 
sapatos e sentiu, por baixo dos dedos, um alto na =palmilha 
interior. Levantou-a com pacincia. Encontrou uma folha 
=dobrada em quatro. Abriu-a e leu.
Um dia, algum te vai dizer que morri. No acredites. Na 
=verdade. Eu no morro enquanto viverem os meus sonhos. 
Conto-tos a =ti, e so tudo aquilo que te posso deixar. Faz 
uma capa com eles, =Teresa. Veste-a e tem cuidado para no a 
estragares.  feita com =os meus sonhos. Que vo passar a ser 
os teus, no dia em que algum =te disser que morri.
Teresa chorou. Depois, a dor transformou-se-lhe numa raiva 
potente e =silenciosa, da qual tirava as foras para viver. 
No lhe deixaram =sequer um tmulo onde chorar o marido. s 
vezes, sentia-se no =limite de explodir, e seria at capaz de 
matar, armada apenas de uma =manta tecida com os sonhos de 
Benedetto.
- Quer isso dizer, excelncia, que, se no vender os meus 
casulos =ao senhor, ao seu preo, me vai aumentar a renda? - 
perguntou em tom =de desafio.
A condessa Orsola parou de se abanar com o caderno. De 
repente, sentiu =um arrepio de frio. Nunca ningum tinha 
ousado provocar o pai, o =patro.
Teresa, pelo contrrio, pensou que os fascistas e os patres 
se =pareciam uns com os outros. Que entre eles e a camorra do 
Sul no =havia uma grande diferena.
O carregador e os outros camponeses que estavam ali, na 
praa, =ouviam, observavam e continuavam calados. Tambm os 
filhos de Teresa =olhavam em silncio a me, o conde, a jovem 
condessa e os =rendeiros. Teresa estava sozinha, contra 
todos. A terrona, a =estranha que devia agradecer de 
joelhos ao patro que lhe dera um =tecto e um trabalho para 
no morrer de fome, ousava afrontar o conde, =que sabia ser 
um pai severo mas justo.
- Isto quer dizer que no tolero a arrogncia. Amanh de 
=manh deixas a casa - ordenou o homem, impassvel.
Nem casa, nem trabalho, nem po para os filhos. Mas Teresa 
no ia =estragar aquela manta de sonhos. Pensou em Benedetto 
e sorriu.
- A sua casa, excelncia, vai ficar livre esta noite - 
respondeu. =As outras pessoas baixaram a cabea, assustadas. 
O conde passou a =mo pelo pescoo, como se tivesse recebido 
um golpe de chicote. =Teresa voltou a pr as mos no tirante 
da carroa e os filhos =voltaram a empurrar.


418 - 419


- Fizemos um bom negcio, meninos - afirmou Teresa com um ar 
=satisfeito. Enfiou no corpete o dinheiro ganho com a venda 
dos casulos. =E acrescentou: - Graas tambm a vocs, meus 
filhos. Agora =vamos para casa.
- Qual casa, me? - perguntou Rosa, que ia nos catorze anos e 
=estava a ficar cada dia mais bonita e pensativa.
- A nossa. S temos uma - respondeu Teresa, animada pela 
fora e =pela alegria que lhe vinham do corao.
- At logo  noite - precisou Pinuccio. - E depois? Onde 
vamos =dormir esta noite? - perguntou.
- No se preocupem. Deus toma conta e a me remedeia - 
=tranquilizou-os. - J tivemos muita canseira. Hoje deve ser 
um dia =de frias.
No disse nada s mulheres do ptio. Deixou a carroa no 
=depsito das ferramentas, entrou na cozinha, tirou uma forma 
de =po da masseira e cortou muitas fatias. Passou-lhes por 
cima alho, =sal e um fio de azeite. Juntou-as dentro de um 
leno de pano e =meteu-as num cesto.
- Vamos at ao campo - disse, entregando-o  filha
mais velha.
- Vamos comer no prado? - perguntou Iosefa.
- Exactamente - respondeu ela. Saiu de casa e partiu com eles 
em =direco ao campo.
Teresa sempre se considerara um animal urbano. O perodo 
=que

420


passou em Bello Fiore, quando estava grvida do primeiro 
filho, =reforou nela essa convico. Comeou a apreciar a 
vida em =contacto com a natureza durante os anos que passou 
em Merano. Aquele =campo da Lombardia, to plano e infinito, 
suscitara-lhe no incio =um profundo sentimento de solido. 
Depois, convenceu-se de que =Cernusco sul Naviglio era apenas 
um stio como outro qualquer para =esperar o regresso de 
Benedetto, sentindo-se em parte protegida pela =presena dos 
dois irmos. Quando chegou o Inverno, receou =enlouquecer de 
frio. As roupas de l, com que se protegia a ela e aos 
=filhos, nunca eram suficientes. No tinha dinheiro que 
chegasse para =a lenha.  noite refugiavam-se no estbulo, 
onde o calor dos =animais e as histrias contadas pelos 
camponeses derretiam o sangue =que voltava a correr e pulsava 
dolorosamente nos lbulos das orelhas =e nos dedos das mos e 
dos ps, inflamados de frieiras. Com o =passar do tempo, 
aprendeu a apreciar a linguagem spera daquela gente =da 
aldeia que contava coisas dos tempos em que a plancie era 
ainda =uma floresta, reino de veados e de malfeitores. H 
pouco mais de cem =anos, tinha sido visto o ltimo urso. 
Lobos, raposas, texugos, =lontras e gavies existiam ainda na 
memria dos velhos. Com =aquelas histrias, conseguiam captar 
a ateno das crianas, =que esfregavam os olhos, vencendo o 
sono para os poderem escutar.
Agora, no pino do Vero, Teresa embrenhou-se na erva alta. 
Ouvia-se =o gorgolejar de um riacho e o canto desesperado das 
cigarras. Havia uma =grande extenso de accias e sabugueiros 
perfumados.  volta =das suas flores zumbiam abelhas.
- Este parece-me um bom stio para comer - decidiu, enquanto 
se =preparava para se sentar na erva. - Vai ali buscar gua 
ao POO =- ordenou a Pinuccio, entregando-lhe uma garrafa 
vazia.
Teresa desapertou as tampas que fechavam os copos de 
alumnio, que =tinham estampada uma flor estilizada e uma 
frase em esmalte amarelo e =azul: RECORDAO DAS TERMAS DE 
TRESCORE.
Tinha sido um presente de Ciro e Salvatore, que no ano 
anterior l =tinham ido dar um passeio com as noivas.
Eram duas irms que trabalhavam numa fbrica de bordados e 
tules. =Os pais das duas raparigas no aprovavam o namoro com 
os dois =terres e aproveitavam todos os pretextos para 
dizer

421


mal de Ciro e Salvatore. Entretanto, continuavam a adiar a 
data do =casamento com a desculpa de que no havia dinheiro 
para montar uma =casa. Os irmos de Teresa poupavam o que 
podiam, e as noivas faziam a =mesma coisa. Tinham ido a um 
passeio organizado pela parquia a um =santurio de 
Bergamasco e trouxeram aqueles copos como =recordao.
Teresa sentia-se bem com aquela pausa em pleno campo, ao 
abrigo do sol, =com os filhos encolhidos sobre a erva, ao p 
dela. Ouvia-lhes as =vozes, espiava-lhes os sorrisos e 
parecia-lhe que Benedetto tambm =estava ali. Ter-se-ia 
sentido feliz com o sucesso escolar dos filhos. =Rosa 
frequentava, nos dias de descanso, uma escola de orientao 
=profissional, onde aprendia dactilografia, estenografia e 
contabilidade. =Era a melhor do curso e talvez um dia viesse 
a ser secretria. Era =uma esperana que Teresa acalentava 
mas no ousava revelar. =Pinuccio e Iosefa ainda andavam na 
primria e Teresa,  noite, =punha-os a estudar. Divertia-se 
a aprender gramtica e Histria =com eles. No precisava de 
gastar dinheiro com os livros nem com os =cadernos. A Caixa 
Escolar oferecia-os gratuitamente aos alunos mais =pobres. E, 
como eram todos pobres, nenhum se envergonhava por aquela 
=caridade.
Havia meio limo no cesto. Teresa espremeu-o gota a gota 
dentro da =garrafa cheia de gua fresca. Depois distribuiu 
fatias de po =pelos filhos. O azeite com que estavam untadas 
tinha vindo de =Npoles. O outro irmo, Peppino, mandara-lhe 
uma lata de cinco =litros de azeite, que ela usava com muita 
parcimnia.
Os vizinhos encaravam com alguma desconfiana o uso do 
azeite. =Preferiam o toucinho, a banha de porco e a manteiga, 
quando podiam =permitir-se esse luxo. Quanto ao limo, 
consideravam que irritava o =estmago, que fazia emagrecer e 
que era nocivo para as crianas. =Teresa olhava com 
repugnncia os pratos que preparavam com as rs =que 
apanhavam nos charcos. Eles desculpavam-na porque, sendo 
"terrona", =no podia apreciar a delicadeza daquela comida. 
"Mas tu, que vens de =Npoles, o que  que podes perceber 
destas coisas?" Ela nunca lhes =contou que tinha cozinhado em 
casas de prncipes. O tempo em que =vivera no palcio 
Castiglia ou em Schloss Rundegg, a habilidade como 
=cozinheira e a capacidade de pr uma mesa de festa faziam 
parte do =passado. No queria falar disso.

422


Provavelmente, se o fizesse, ningum ia acreditar. Nem sequer 
=acreditaram quando, ao regressar da fiao, as mulheres lhe 
=mostraram a villa Valeschi Colonna e ela perguntou, cheia de 
=curiosidade: - Quais Valeschi? Aqueles que vivem em Milo?
- Os senhores destas casas vivem todos em Milo - 
=responderam-lhe.
- Eu conheo o general Valeschi e a mulher - disse ela.
- Essa agora! H uns dez anos que ningum vem a esta villa. 
Como = que os podes conhecer? - E olharam-na com 
desconfiana.
Teresa estava quase para contar o perodo em que viveu no 
palcio =Castiglia e os anos que passou em Merano. - Fui ama 
em casa deles - =sussurrou.

- Essa  boa, queres que a gente acredite nisso? - comentaram 
em ar =de troa.
No replicou. Mas ao fim de alguns dias foi dar uma volta 
pelos =arredores da villa. Era uma slida construo 
oitocentista, =macia e severa, rodeada por um parque. As 
paredes estavam cobertas =de hera e jasmim, as janelas 
fechadas e o jardim invadido pelas ervas =daninhas. Escreveu 
a Sofia, contou-lhe o que fazia e pediu notcias =de Thea e 
da villa de Cernusco.
A resposta de Sofia chegou um ms depois, de Roma. Assim 
ficou a =saber que, depois da morte da signora Vezia 
Bassanesi Valeschi, a =famlia no tinha voltado quela 
residncia de Vero, que =o general era ministro e que Thea 
estava noiva de um jovem =industrial.
- Me, esta noite sonhei que estvamos a comer macarro com 
=carne picada - disse Rosa, sacudindo Teresa dos seus 
pensamentos.
- Como aquele que comamos em Npoles? - perguntou Iosefa.
- Tal e qual - anuiu a irm.
- Eu sonhei com o pai - interveio Pinuccio.
- E como foi? - perguntou Teresa, curiosa.
- Estava sentado num rochedo, em frente ao mar. Eu ia a nadar 
para =chegar ao rochedo, mas no conseguia atingi-lo - 
murmurou.

423


Teresa no disse nada. Virou-se para o outro lado para 
esconder os =olhos marejados de lgrimas.
- Quem sabe se ele se afogou mesmo? Pode ser que um dia 
regresse - =disse Rosa, com um suspiro.
- Agora temos de voltar para casa. E arrumar as nossas coisas 
- =decidiu Teresa, com um movimento enrgico. Levantou-se e 
voltou a =arrumar no cesto os copos e a garrafa vazia.
- Para onde  que vamos, esta noite? - perguntou Pinuccio, 
=interpretando a ansiedade de todos eles.
- J vos disse: Deus toma conta e a me remedeia - respondeu, 
=enquanto se preparava para ir embora.
Entretanto, a notcia da expulso dos "terres" daquela casa 
=andava j na boca de toda a gente.
- Para onde  que vais? - perguntaram-lhe as mulheres do 
ptio, =olhando-a com piedade. Muitas delas seriam capazes de 
a acolher com os =filhos. Mas temiam a represlia do conde 
Brandazzi.
Teresa carregou na carroa todos os seus haveres: roupas, 
pratos, =copos, cobertores, um colcho e alguns mantimentos. 
Os poucos =mveis que ali havia eram do patro.
- Meninos, eu puxo e vocs empurram - disse, segurando o 
=tirante.
Saram do ptio e atravessaram a aldeia seguidos pelos 
camponeses =que, a pouco e pouco, foram aumentando de nmero 
at se tornarem =uma multido. Teresa chegou  praa da 
igreja. A luz suave do =entardecer acariciava as pedras do 
adro e a antiga fachada. Parou =ali.
- Chegmos - disse aos filhos.
Olhou os rostos atnitos dos rendeiros que os fixavam, mudos, 
a ela e =aos filhos.

- A nossa casa  aqui, em frente  casa do Senhor - 
acrescentou. =Pousou o colcho no cho. - O cu vai ser o 
nosso tecto, e o =nosso cobertor a mo de Deus - concluiu.
A praa, naquela altura, estava cheia de gente. Naquele fim 
de tarde =de Julho, Teresa j no era a "terrona" que tinha 
cado no meio =deles e fora acolhida, segundo a advertncia 
de don Cludio, =porque eram todos irmos em Cristo. Era uma 
figura imponente
No adro da igreja. Era o smbolo de todas as mes que nunca 
tinham =ousado revoltar-se para afirmar a sua dignidade e a 
dos filhos, =obrigados a trabalhar desde pequenos e 
submetidos como elas,  =vontade de um patro desptico. 
Teresa no pronunciou uma =nica palavra contra el sciur cunt 
que a tinha despedido, nem pediu =nada a ningum. Entregou-se 
a Deus e aos habitantes daquela aldeia, =que eram mais de 
seis mil e viviam todos na misria.
 
424 - 425


Numa pequena sala de jantar de tectos pintados com frescos e 
estuques =dourados a emoldurar as portas, o conde Anacleto 
Maria Brandazzi jantava =com a filha, Orsola. A toalha 
imaculada de linho da Flandres roava o =cho. O brilho dos 
cristais, das porcelanas e das pratas contrastava =com a 
frugalidade da refeio. O conde e a filha estavam de 
=pssimo humor.
- Ests a ver como reagem estes miserveis? Ds-lhes um tecto 
=e um trabalho e agradecem-te com a arrogncia. Quando lhes 
explicas =que o mercado da seda est em crise, respondem-te 
com um sorriso =idiota. No ouvem razes. Querem dinheiro, 
sempre dinheiro, e =trabalhar o mnimo possvel - resmungou o 
conde entre duas =colheres de sopa. Depois limpou os lbios 
com um guardanapo =cndido.
Orsola no replicou. Se falasse ainda era pior. No fim de 
contas, a =fiao no era assim to interessante como isso. 
Aquilo que =lhe despertava o interesse eram as fiandeiras 
jovens, aquelas que tinham =entre quinze e dezasseis anos, 
magras, mal nutridas, j com =prtica de jogos amorosos, que 
conseguiam exprimir uma sensualidade =desenfreada sempre que 
podiam encher a boca de fruta doce e creme de =ovos com 
marsala.
- Daqui a dois ou trs anos vou ter de fechar. A  que eles 
=vo perceber o que significa a fome - continuou o conde.
- Telefonaram de Milo. Para amanh, querem legumes e fruta 
=fresca - anunciou a filha.

426


- Aquela tambm s sabe pedir - resmungou o pai. Referia-se 
= mulher, que o rejeitara no dia em que os mdicos 
sentenciaram =que o conde estava doente com sfilis. Tinha 
sido o fim do mundo, =porque ela prpria fora contagiada. 
Refugiou-se em Zurique para se =tratar. Curou-se e, ao 
regressar a Itlia, decidiu ficar a viver em =Milo. O conde, 
pelo contrrio, no quis saber de terapias. - =A sfilis j a 
temos no sangue h vrias geraes. O =meu pai morreu aos 
oitenta anos com uma pneumonia e a minha me aos =noventa com 
um ataque. Os nossos camponeses, que nunca tiveram =sfilis, 
quando lhes corre bem conseguem chegar aos cinquenta. A 
=condessa  muito caprichosa - sentenciou. Entretanto, vivia 
sozinho =h cinco anos, o que no lhe desagradava. s 
mulheres da =cidade, sofisticadas e cheias de exigncias, 
sempre preferira as =empregadas que vinham do campo, 
aguentavam as suas investidas sem =protestar e, quando 
ficavam grvidas, eram afastadas pelo =administrador. 
Bastava-lhe pouco dinheiro para se ver livre delas.
Acontecia-lhe s vezes mexer com dificuldade o brao e a 
perna =esquerda. Outras vezes sofria de alucinaes. Eram 
distrbios =passageiros. Bastavam alguns dias de repouso, 
umas sanguessugas =aplicadas nas tmporas, e ficava de novo 
forte como antes. Que diabo, =tinha apenas cinquenta e cinco 
anos e era um homem vigoroso. E esse =vigor ia busc-lo s 
raparigas novas, que tinham j =experimentado a cama de 
Orsola. A filha tinha quase trinta anos e no =queria saber 
de homens. Tinha razo. Era j de si suficientemente 
=masculina.
Entrou um criado a anunciar que estava na cozinha um campons 
que lhe =queria falar.
- Diz-lhe que volte amanh - respondeu o conde.
- Parece que  uma coisa urgente - replicou o homem.
- Manda-o subir - concedeu, a olhar para a filha, como se 
esperasse =dela um parecer a esse propsito. Orsola encolheu 
os ombros e =continuou a saborear o doce.
O campons, conhecido pelo nome de Trombeta porque contava ao 
conde =tudo aquilo que acontecia na aldeia, parou  entrada 
da sala de =jantar. Tinha tirado o chapu e torcia-o entre as 
mos, de olhos =no cho.

427


- Ento, o que  que h assim de to urgente? - perguntou =o 
patro com uma voz spera, pronto a maltrat-lo se aquela 
=intruso se revelasse de escasso interesse.
- A "terrona" ps o colcho no adro da igreja.  l que vai 
=dormir com os filhos. Metade da aldeia est na praa e 
ningum =pia - disse o Trombeta.
O conde levou alguns instantes a digerir a notcia.
- E o don Cludio o que est a fazer? - perguntou por fim.
- Abriu a igreja e disse-lhe para entrar. Ela nem se mexeu.
- Est bem. Podes ir embora - disse o conde. E sorriu. A 
=reaco da napolitana pareceu-lhe divertida, apesar de o ter 
=apanhado desprevenido. Esperava encontr-la a implorar 
perdo, =frente ao porto da villa.
- Se no fazes alguma coisa, os fascistas vo intervir - 
avisou =Orsola. Entretanto, pensava na jovem Rosa Zicri. 
Mantinha-a debaixo de =olho h alguns meses. Tinha a beleza 
de uma flor extica, apesar =de no estar ainda pronta para 
ser colhida. Tencionava esperar pelo =Vero seguinte para a 
sondar. Mas agora o acaso acabava de lha =entregar. Tambm 
ela, assim como o pai, sorriu.
- Deixa-os intervir. Vo prend-la por vagabundagem e 
=perturbao da ordem pblica. Os filhos sero entregues a um 
=instituto e os nossos camponeses vo perceber que a nica 
vontade =que conta  a do patro - replicou ele.
- A coisa vai dar que falar.  melhor evitar que a notcia 
chegue =a um jornal. Vale a pena esticar assim tanto a corda? 
Aos olhos desta =gente, a "terrona" ia tornar-se uma vtima - 
observou Orsola.
-  mesmo pena que tu no tenhas nascido macho em tudo e para 
=tudo. O que pensas fazer?
- Falar com o proco e convenc-lo de que a mulher 
interpretou =mal as tuas intenes. Entretanto, eu aceito 
aqui em casa a filha =mais velha. Parece que  muito 
estudiosa. De qualquer maneira, vais =ver que o don Cludio 
to tarda a chegar - respondeu a =condessa.

J tinha cado a noite. Os camponeses no pareciam dispostos 
a =deixar a praa. As suas vozes eram um murmrio de palavras 
=piedosas. "El sciur cunt no a devia ter posto fora de 
casa", diziam, =julgando-o pela primeira vez. "Seja como for, 
no passa de uma pobre =viva com trs filhos para criar",

428


diziam as mulheres, com pena dela. "Mesmo sendo napolitana, 
quanto a =seriedade no h nada a dizer. Nunca se armou em 
esperta com =ningum", acrescentavam outros. "Ao cunt 
Brandass no importam =estas coisas. Ele paga-te tanto por 
volta de tear e o resto no =conta", comentavam as operrias. 
"Mas f-lo ficar mal. Foi vender =os casulos ao Prandoni. No 
devia", defendiam as mais receosas. As =crianas, puxando os 
pais pelas pernas das calas, perguntavam: "E =agora, o que  
que vai acontecer?".
Naquela aldeia, onde nunca acontecia nada para alm dos 
nascimentos e =das mortes, das doenas e das desgraas, a 
napolitana tinha =montado um espectculo aberto a qualquer 
desenvolvimento e, portanto, =pelo menos naquela noite, 
interrompeu a monotonia das suas vidas. =Estavam-lhe gratos 
por isso. Entretanto observavam o velho proco =que falava 
com Teresa em voz baixa, enquanto os irmos Zicri =exultavam 
de prazer porque se sentiam, ao menos por uma vez, o centro 
=das atenes.
Depois apareceram Ciro e Salvatore Avigliano. Regressavam do 
trabalho =quando, nas proximidades de Cernusco, lhes chegou a 
notcia de que =Teresa, expulsa pelo conde, se tinha mudado 
para a praa.
Apressaram o passo e na margem do Naviglio encontraram o 
ferreiro Luigi =Videmari, conhecido por elfer. Era um homem 
alto e forte, com uma =perna coxa. Na sua oficina, trabalhava 
o ferro incandescente com =pancadas potentes do mao, 
forjando grades e ornamentos to finos =como uma renda. 
Naquelas mos, o ferro transformava-se num material =malevel 
ao servio da sua fantasia criativa. Tinha uma casa por =cima 
da oficina e vivia com uma me caprichosa, que sofria 
=permanentemente de dores de cabea, razo pela qual andava 
sempre =com a testa coberta com um pano embebido em vinagre. 
Ele tinha trinta e =cinco anos e era solteiro. As raparigas 
da aldeia olhavam com =desconfiana aquela perna magra, 
atacada pela paralisia infantil, e =diziam que aquilo era um 
sinal do diabo. Luigi tinha uma irm freira. =Constava que se 
tinha refugiado num convento para no ter que =aguentar por 
mais tempo aquela me insuportvel. Tambm o =marido a 
deixara vinte anos antes. Emigrou para Frana e no =voltou a 
dar notcias.

429



Luigi reparara em Teresa mal ela chegou. Tinha sabido que o 
marido =estava desterrado e a piedade por aquela mulher 
sozinha e pelos seus =trs filhos levou-o a oferecer-lhes 
alguns brinquedos forjados no =ferro. Quando soube da morte 
do marido, comeou a considerar Teresa a =uma nova luz. 
Reparou na beleza dela, naquele andar quase altivo e na 
=maravilha daqueles cabelos quando o leno lhe escorregava da 
=cabea. Porm, tmido como era, nunca mais ousou dedicar-lhe 
a =ela e aos filhos as atenes que tinha antes.
Agora, tendo sabido daquilo que estava a acontecer na praa, 
disse = me: - Temos trs quartos vazios. Podiam oferecer-se 
 =napolitana.
- Desde que ela possa ser til - respondeu inesperadamente a 
=velha.
Luigi Videmari ia a caminho da praa para oferecer um tecto a 
Teresa =e encontrou os irmos dela.
O povo abriu caminho aos trs homens, que se dirigiram  
igreja. O =proco soltou um suspiro de alvio.
- Tentem vocs conversar com esta teimosa - desabafou, 
=informando-os sobre o que tinha acontecido.
- Vem para nossa casa, pelo menos por agora. Depois v-se - 
=decidiu Ciro.
- Eu tenho direito a um trabalho e a uma casa de onde um 
patro =no me possa expulsar por eu no ter aceitado um 
preo de =agiota. Npoles fica a centenas de quilmetros 
daqui. Eu fugi da =camorra e julgava que estava a salvo. 
Enganei-me. Aqui  como l. =Afrontas, s afrontas. H uma 
vida inteira que as aguento. Agora, =chega - disse Teresa com 
ardor.
- Eu ofereo-vos uma casa, se me derem a honra de a aceitar - 
=props o ferreiro. - So trs quartos limpos e decentes, por 
=cima da oficina. A minha me est de acordo.
Teresa considerou as palavras daquele homem esquivo e olhou-o 
nos =olhos. Tinha um olhar brando, que inspirava confiana.
Quase todos os dias passava em frente  casa do ferreiro. NO 
=rs-do-cho havia duas grandes janelas com vidro martelado. 
Nas =noites de Inverno via o fulgor avermelhado do fogo que 
ardia na forja e =sentia as pancadas do malho na bigorna. 
Pensava que aquele devia ser o =lugar mais quente de toda a 
aldeia.
- Agradeo-lhe muito - sussurrou. E acrescentou: - Mas no = 
justo.
- E o que seria justo, para ti? - perguntou Salvatore.
- Que o conde me pedisse desculpa e me prometesse que nunca 
mais se ia =comportar daquela maneira, nem comigo, nem com os 
outros - =declarou.
- Podes esperar sentada - disse o proco. - V l que at =te 
correu bem. O fere  um bom homem. Junta os teus tarecos e 
=desaparece. E, para a prxima, pensa duas vezes antes de 
bateres com =a cabea - concluiu, com uma sensao de alvio. 
Depois =voltou-se para a gente que ali estava: - Regressem s 
vossas casas =e tentem no fazer correr muita conversa - 
avisou.
No esperava, de facto, que o problema se conseguisse 
resolver assim =to depressa. Durante toda a noite, temera a 
interveno dos =fascistas. J tinha problemas suficientes 
com eles e no queria =que a histria de Teresa se tornasse 
um pretexto para mais um aperto =por parte das autoridades.
Voltou  igreja e ajoelhou-se em frente ao altar. Preparou-se 
para =agradecer ao Senhor, enquanto sorria a pensar no vexame 
do conde =Brandazzi que, tinha a certeza, esperava a visita 
dele para lhe implorar =piedade por aquela pobre mulher 
transtornada. s vezes Deus dirige o =olhar para o seu 
rebanho e restabelece a justia, pensou. ="Correu-lhe mal, 
senhor conde", murmurou antes de juntar as mos e =rezar o 
Padre-nosso.


430 - 431


ROMA - MINISTRIO DA GUERRA JULHO DE 1933


Lorenzo saiu do seu escritrio no primeiro andar do 
ministrio, =seguiu por uma escada secundria e entrou no 
apartamento a chamar a =mulher em voz alta.
Josepha estava ao p do armrio da roupa e estudava a 
=possibilidade de remendar a bainha de um lenol de linho.
- Este foi a av Rost que o bordou. So bordados que j no 
=se fazem: do muito trabalho. Nunca vou ser capaz de o 
deitar fora - =dizia para a costureira.
- Mesmo que se faa um conserto em ponto miudinho, na prxima 
=lavagem vai rasgar outra vez - observou a mulher.
- Ento passa-se a ferro com cuidado e volta-se a meter no 
=armrio. Guardo-o como recordao - disse, resignada. Depois 
=ouviu a voz do marido e espreitou para o corredor.
- Estou aqui, querido. No  preciso gritar.
- Ai no? - perguntou ele, furibundo, a abanar os papis que 
=trazia na mo.
Lorenzo estava num daqueles raros momentos em que perdia as 
estribeiras =e, fosse qual fosse o motivo, ela tinha de lhe 
ouvir o desabafo.
- Vamos para ali - sugeriu, avanando  frente dele em 
=direco ao quarto de dormir. Era a nica diviso em que 
=podiam discutir livremente, sem que ningum pudesse 
ouvi-los.
- A tua filha vai arruinar-me - vociferou, assim que a mulher 
fechou =a porta. - Novecentas e setenta e seis caixas de 
bombons em prata, =quilos de confeitos, um camio de flores,

435


trinta peas de roupa interior de seda bordada  mo, trinta 
e =seis lenis, quarenta toalhas, cinco tailleurs de viagem, 
cinco =vestidos de noite, chapus, sapatos e carteiras. Isto 
aqui  o =oramento para a impresso de mil e duzentas 
participaes =de casamento, para o vestido de noiva em crepe 
da China, para o =organista e para o coro, para a recepo e 
por a adiante.
Atirou para cima da cama um mao de papis. - Fazes alguma 
ideia =de quanto nos poder custar tudo isto? - perguntou, 
furioso. - Mas =quem  que aquela menina julga que ?
Josepha sentou-se numa poltrona e sorriu.
- Julga que  a filha de um dos homens mais poderosos de 
Itlia =- respondeu com uma voz serena.
- Giuseppina, por favor, deixa-te de ironias. Este no  o 
=momento. Eu no sou milionrio, nem nunca vou ser. No posso 
e =no quero esbanjar. Seria imoral. Em Itlia h gente que 
morre =de fome, e aceitar as exigncias da tua filha seria 
como cuspir no =rosto da misria - disse, medindo o quarto a 
passos largos.

- S te quero lembrar que a nossa filha tem boa memria. 
=Lembras-te do ltimo casamento pomposo a que assistimos? 
Thea estava =connosco, e tu disseste-lhe: "Quando te casares, 
a magnificncia da =tua boda vai fazer com que isto parea 
uma festa de aldeia". No =digas que no  verdade, porque eu 
ouvi, com estes ouvidos. A Thea =tomou nota dessa promessa e 
est a preparar-se para ela - =atirou-lhe.
- Ento tu pensas como ela - disse o marido, espantado.
- Conheces-me suficientemente bem para saberes aquilo que 
penso. J =sabes que, se dependesse de mim, vivamos no campo 
a criar vacas, =cavalos e galinhas. Mas tu nunca estarias de 
acordo com isso. Thea =no tem a noo do dinheiro. Ela v os 
ministros, os =embaixadores e os diplomatas que andam com os 
bolsos cheios de dinheiro =e gastam s mos-cheias. Por que  
que o pai no pode fazer =a mesma coisa?
- Porque eu, minha querida, vivo do meu salrio - respondeu 
ele, =como um professor paciente que tenta explicar um 
conceito simples a um =aluno mais atrasado.
- Isso significa que, em relao aos teus colegas, s mal 
pago =- insinuou Josepha.

436


- Isto significa que eles metem algum dinheiro ao bolso - 
deixou =fugir, e imediatamente se arrependeu por ter feito 
aquela =afirmao.
- Eles roubam, querido. Roubam com as encomendas de carvo, 
com as =empreitadas dos caminhos-de-ferro e com os 
fornecimentos de cereais e =de armas. Se tu explicasses isto 
tudo  tua filha, talvez ela =percebesse mais alguma coisa 
sobre os ideais do fascismo, que s =valem para o povo e no 
para quem governa - observou ela com uma voz =suave.
- C estamos ns outra vez. Mas por que  que no aprendes =a 
fechar a boca? Eu acredito profundamente neste regime. Meia 
dzia =de malfeitores no conseguem mudar a grandeza dos seus 
ideais. As =pessoas vivem melhor desde que existe o fascismo. 
A economia recuperou, =secaram-se os pntanos, h trabalho 
para toda a gente, os =comboios andam a horas, as crianas 
pobres vo para a praia e para =a montanha. Toda a gente vai 
 escola, e quem tiver vontade de =estudar pode singrar na 
vida sem nenhuma diferena de classe.  =isto que tu no 
queres perceber - disse, inflamado.
- Entretanto, os opositores ao regime so perseguidos e 
ignobilmente =trucidados, os jornais so submetidos  censura 
e o povo s tem =que obedecer porque h um pai bom e 
circunspecto que pensa por ele. =Por que razo devo eu calar 
esta e outras verdades?
- Porque com isso me podes arranjar problemas.  uma 
=explicao convincente?
Josepha levantou-se, foi at junto dele e acariciou-lhe a 
face com =ternura. Lorenzo sabia muito bem que a corrupo 
aumentava. No =podia fazer nada para a denunciar e 
limitava-se a ficar fora dela. - =Vejo fios de prata no meio 
dos teus cabelos - sussurrou-lhe a =sorrir.
- Estou a caminho dos cinquenta anos, meu amor - murmurou, 
=abraando-a.
- Se parares, eu apanho-te num instante. S tenho menos oito 
que tu =- respondeu com um jogo de palavras, para no admitir
que j tinha ultrapassado os quarenta.

- Tu nunca me vais apanhar, Josepha. Sers sempre a menina 
=empertigada que encontrei nas escadas do palcio Castiglia 
h =muitos, muitos anos - sussurrou-lhe ao ouvido, 
acariciando-lhe os =flancos.

437


- Ainda te lembras?
- Lembro-me de tudo o que se passou contigo e agradeo a Deus 
por =te ter posto no meu caminho. Que sentido teria a minha 
vida, se nunca te =tivesse encontrado?
- Nunca te tornei a vida muito fcil - admitiu.
- De facto,  disso que eu gosto. - Abraou-a e enfiou-lhe 
uma =mo por dentro da blusa.
- Ests a fazer-me ccegas - disse ela a rir.
J se tinham os dois esquecido do casamento de Thea e a cama 
estava =ali, pronta para os receber. Depois viram as facturas 
e os oramentos =espalhados na colcha de renda e o encanto 
quebrou-se.
- Por favor, querida, queres tu conversar com a nossa filha? 
- =perguntou, largando-a.
- A Thea  tua, ou minha, ou nossa, consoante os momentos - 
=comentou Josepha. Depois acariciou-lhe um brao e 
ofereceu-lhe um =sorriso tranquilizador.
- No te preocupes, Lorenzo. Eu resolvo tudo com ela 
-concluiu, =como despedida.
Sabia muito bem que o salrio do marido, apesar de ser 
elevado, =no permitia uma tal despesa. Mas havia os 
rendimentos dela, os que =lhe vinham dos Castiglia, para 
equilibrar o oramento domstico. =Lorenzo nunca se 
preocupara em conhecer a consistncia daquele =patrimnio. De 
resto, nem ela se preocupava com isso. Quando =precisava de 
dinheiro, telefonava ao administrador, que tratava de =tudo.
Em Npoles, uma vez por ano, fazia-se uma reunio com os 
=herdeiros Castiglia, proprietrios, entre outras coisas, das 
=destilarias. Josepha encontrava-se com a ex-cunhada 
Marianna, o =representante legal de Virginia e Ezio Burgio 
que, depois da morte de =Carolina, tinha sido atingido por 
uma paralisia e estava condenado a uma =cadeira de rodas. O 
acidente no o impediu de continuar a ocupar-se =da empresa, 
que dava dividendos cada vez maiores. Uma parte dos 
=rendimentos era reinvestida e o resto era gerido pelo 
administrador da =famlia.
Para o casamento de Thea com Guido Battellieri, Josepha reti 
rou o =necessrio dos seus rendimentos. No dava importncia 
a =dinheiro. Mas tinha urgncia em casar a filha, que se 
estava

438


a tornar cada vez mais problemtica. Tinha a certeza de que 
um marido =e alguns filhos conseguiriam aplacar aquela 
exuberncia. Apanhou os =papis espalhados. Thea apareceu  
porta.
- Incomodo? - perguntou.
- Depende - respondeu a me, pousando as facturas no 
toucador.
- No te roubo muito tempo. S te queria mostrar a lista de 
=convidados - disse Thea.

Josepha olhou para a filha. Defini-la como sendo bonita seria 
redutor. =Dorothea Valeschi no tinha contornos perfeitos, 
nem curvas dignas de =relevo, mas era uma rapariga estupenda 
que se impunha por um fascnio =vagamente eslavo, um porte 
aristocrtico e a natureza de uma =verdadeira senhora. Alguns 
meses atrs, um realizador de cinema, =ofuscado por aquela 
personalidade, tinha-lhe proposto um papel num =filme. - 
Agradeo-lhe muito essa oferta. No posso aceitar, =porque 
sei que no tenho talento para a declamao - =esquivou-se 
imediatamente. Mas, logo a seguir, gabou-se daquela =proposta 
a toda a gente, provocando uma crise de cimes em Guido, o 
=futuro marido.
Josepha soltou um suspiro de resignao e preparou-se para 
ouvir =pela dcima vez os nomes dos convidados.
- Sou muito aborrecida, eu sei. Mas tu s to boa e to 
=paciente, minha Mutti - disse, olhando a me com ternura. E 
=acrescentou: - Ao fim e ao cabo,  a primeira vez que me 
caso e =no vou ter uma segunda oportunidade.
- Depende - observou novamente Josepha, divertida.
- Por favor, mam, no brinques com uma coisa to 
=importante.
- Vou ouvir-te e vou ficar muito sria. D-me esses =papis.
Comeou a l-los, comentando os nomes que ali estavam 
=indicados.
- Eu diria que com os parentes e os amigos Valeschi est tudo 
bem. =Em relao aos parentes e amigos Battellieri tens de 
ver com o =Guido. A minha famlia no est aqui, at porque 
no a =tenho. De Merano s vm os von Wedel. Parece-me que a 
tribo dos =Castiglia est completa. Fala com o teu pai sobre 
o mundo romano. =Sabes muito bem que eu no sei fazer a 
distino entre generais =e ministros - comentou Josepha.

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- Eu sei. Para ti, o primeiro-ministro vale tanto como o 
baro von =Wedel.
- Ests enganada. O baro von Wedel vale muito mais.
- Ainda mais do que um prncipe de sangue real?
- O que queres dizer com isso?
- Que vem um ao meu casamento, Mutti - declarou Thea. E 
acrescentou: =- O pap no te falou nisso?
- J o conheces. At  possvel que j se tenha =esquecido - 
disse Josepha.
- Mas eu no - sublinhou a rapariga. - Por isso lembrei-me 
que se =calhar devamos pedir a ajuda de um cengrafo para o 
arranjo da =igreja.
- Vou pensar nisso. Mas tu tens mesmo a certeza de que te 
lembraste dos =amigos todos? - perguntou Josepha.
- Por isso  que te pedi ajuda.
- No vejo o nome da tua ama - sussurrou Josepha.
Thea teve um gesto de irritao. No gostava de ser apanhada 
em =falta.
- Ests a ver como  fcil esquecer as pessoas de quem 
=gostamos? - continuou a me.
- Vou ter com ela na prxima semana, com o Guido, porque 
assim =tambm fica a conhecer o noivo. No queres vir tambm? 
Vamos a =Npoles de manh e regressamos ao fim da tarde - 
sugeriu =Thea.
- A tua ama j no est em Npoles h algum tempo - =informou 
Josepha.

- A srio? Onde est?
- Est em Cernusco sul Naviglio. Acho que este nome te diz 
alguma =coisa.
- Fui l contigo quando era pequenina. O pap tem uma villa 
=naquela aldeia. No  isso?
- No  s do pap.  dos Valeschi.
- Ento vou ter com ela quando estiver em Milo.
- Entretanto podias escrever-lhe. No achas?
Thea escreveu a Teresa uma longa carta e enviou-lhe um quilo 
de =confeitos e uma caixa de bombons em prata.
Recebeu uma resposta cheia de recomendaes: "Arranja maneira 
de =te atirarem muitos punhados de arroz, porque isso

440


significa prosperidade. Conseguirs as boas graas da sorte 
se =usares, no dia do casamento, uma coisa nova e uma usada, 
uma emprestada =e uma comprada, uma coisa de l e uma de 
seda. Depois do casamento =vai a casa da tua sogra e leva-lhe 
um ramo de oliveira, que  para =nunca teres problemas com 
ela. Estou muito feliz por ti e estou =comovida, porque te 
lembraste da tua ama".
Era o fim do ano de 1933. Quando Thea estava no Cairo, em 
viagem de =npcias, Hitler tomou o poder na Alemanha.
Telefonou ao pai. - O que pensas disso? - perguntou-lhe.
Lorenzo Valeschi respondeu: -  uma desgraa. Mas no te 
=preocupes. Diverte-te, enquanto podes.

441


MILO - PRAA SANTANGELO MAIO DE 1936


Em Milo, Thea conheceu jovens que definia como 
"terrivelmente =simpticos e interessantes", com os quais ia 
ao cinema e ao teatro, =aos cafs e s recepes,  
inaugurao de =exposies de arte e ao tnis, ao picadeiro 
ou a passeios nos =lagos. Como era bonita e tinha um apelido 
importante, era disputada por =toda a gente.
Conheceu jornalistas, escritores, pintores, gente do teatro, 
=industriais, banqueiros e polticos. Nunca se tinha 
divertido tanto. =Em qualquer parte se sentia o centro das 
atenes, e esta =conscincia dava-lha uma grande satisfao. 
Alguns jovens, =apesar de a saberem casada, faziam-lhe uma 
corte discreta que ela =fingia ignorar. Guido, o marido, 
tornava-se cada vez mais ciumento e =recorria a Pequenos e 
extravagantes expedientes para dissipar as =dvidas que o 
afligiam.

Naquele momento, Thea preparava-se para sair. Tinha um 
encontro no =Caff Cova com um jornalista. O pequeno Lorenzo, 
o nino, andava nos =jardins pblicos com Miss Elaine, a 
nurse. Em Milo, o ms de =Maio no era como em Roma: no era 
to quente. L fora =brilhava um sol esplendoroso, mas o 
vento que soprava do Norte fazia =arrepiar. Por isso, 
decidiu-se por um tailleur de l cor de nata. =Encontrou o 
chapu mais adequado e uma carteira do mesmo tom. Depois 
=escolheu os sapatos. Ao tir-los do armrio, reparou que 
tinham =na sola um crculo traado a giz. Pensou em pedir 
=explicaes  empregada. Depois esqueceu-se.

445


Arnaldo Sacconi, o jornalista, esperava-a  entrada do caf. 
- =J soubeste, Thea? - perguntou, com uma voz ansiosa.
- J soube o qu?
- As tropas italianas entraram em Adis Abeba e o Negus fugiu.
- Sim, j sei. O meu pai informou-me hoje de manh. Parece-me 
=uma boa notcia. Quero eu dizer que a guerra se resolveu 
rapidamente. = claro que  tudo mrito do pap. Ele 
declarou, desde o =incio, que ia procurar encerrar esta 
histria em pouco tempo. E =conseguiu - disse ela, 
sentando-se  mesa.
Mas no era sobre esse assunto que ela queria falar com o 
jornalista. =Tinha mais interesse em saber antecipadamente 
aquilo que Arnaldo ia =escrever sobre ela, que era a chefe 
dos Fasci Femminili da =Lombardia.
Alguns dias antes, ele tinha-lhe feito uma longa entrevista 
para um =semanrio. Ela falou em pormenor sobre a actividade 
das mulheres =fascistas, sublinhando as capacidades 
extraordinrias de algumas =delas. Tinha discorrido 
longamente sobre as "mes como criadoras", =sobre os filhos 
que representam "esforadas esperanas", sobre o =povo 
"ardente de juventude". Mas, sobretudo, comentou de uma forma 
=polmica as afirmaes de certas feministas que pediam  
=mulher o "conhecimento de si". Thea props, pelo contrrio, 
o ="esquecimento de si", para bem da famlia e da ptria.
Afirmou que as mulheres fascistas nunca se quereriam impor em 
=actividades em que "s a tmpera masculina pode lutar e 
vencer", e =que se sentiam felizes por "viverem na sombra" 
dos seus homens.
O jornalista entregou-lhe o rascunho do artigo, que deveria 
ocupar duas =pginas e que seria apresentado com fotografias 
de Thea a distribuir =presentes s crianas pobres, com o 
pequeno Lorenzo ao colo, e a =servir o almoo aos idosos de 
um hospcio.
- L-o com ateno e, se quiseres, faz as tuas =correces - 
disse-lhe Arnaldo.
Guardou as folhas na carteira e, a partir daquele momento, J 
estava =pronta para regressar a casa. Mas o jornalista 
procurava obter dela =notcias em primeira mo e no parecia 
disposto a deix-la =partir sem trocarem dois dedos de 
conversa. Thea era suficientemente =sensata para saber o que 
podia dizer e o que devia calar.

446


- Em Espanha vive-se uma atmosfera pesada. Um tal Francisco 
Franco =est a recolher apoio contra o governo republicano. - 
Thea deixou =cair uma notcia que no tinha nada a ver com a 
Itlia.
- Muito interessante - observou o jornalista. - E o que me 
dizes =desta vitria etope?

- A consequncia  bvia. O Duce vai entregar uma colnia =ao 
rei e Vittorio Emanuele vai ficar-lhe grato por isso - 
concluiu =Thea, que tinha pressa de regressar a casa.
Estava preocupada. Se Guido chegasse a casa antes dela e no 
a =encontrasse ia ficar irritado. Por outro lado, durante o 
telefonema de =Roma, sentiu uma nota de melancolia na voz do 
pai. Deveria ter exultado =com aquela vitria mas, pelo 
contrrio, pareceu-lhe triste. Tinha =de ligar  me para 
descobrir o que  que no estava a =correr bem.
Subiu a correr as escadas do palcio da Praa Sant'Angelo, 
onde =vivia j h trs anos. Entrou em casa. Felizmente, 
Guido ainda =no tinha aparecido. O pequeno Lorenzo, em 
contrapartida, foi ao =encontro dela com pequenos gritos de 
alegria. Thea cobriu-o de =beijos.
- Agora a mam vai mudar de roupa e tu vais fazer-lhe 
companhia - =disse-lhe, levando-o para o quarto de vestir.
Lorenzo respondeu  maneira dele, com uma srie de slabas 
sem =sentido.
- Quando  que te decides a falar, Lorenzino? - perguntou 
ela, =enquanto arrumava o tailleur no armrio. O pequeno 
respondeu com uma =espcie de gorjeio. Tinha encontrado um 
bton na carteira da =me, tirou-lhe a tampa e lambia com 
gosto aquela pasta =gordurosa.
- Olha como te puseste! - gritou Thea, e chamou aos berros a 
nurse, =que conseguiu recuperar o bton e tranquilizou a me. 
- O =bton no  venenoso. Basta um pouco de gua e sabo 
para =lhe lavar a cara.
O menino, privado daquele jogo to interessante, comeou a 
berrar =e gritou: - Mam!
Thea pegou nele ao colo e apertou-o contra ela, a rir de 
alegria. - =Que maravilha! O meu pequenino disse mam! A mam 
est aqui, =meu anjo. - Lorenzo parou de chorar.

447


Miss Elaine, uma mulher com cerca de quarenta anos, pequena e 
gorducha, =disse-lhe com um sorriso benvolo: - Ser que 
estava com medo =que este "big Mussolini" no falasse? - Era 
assim que tratava =Lorenzo, porque era uma criana robusta e 
o seu crnio redondo =tardava a cobrir-se de cabelos.
Thea tinha-a escolhido entre muitas candidatas porque era 
doce, =maternal, sorridente e firmemente convencida de que as 
crianas =tm mais necessidade de amor do que dos esquemas 
rgidos =consagrados nos manuais de puericultura.
- Miss Elaine, pode fazer outra coisa. Eu trato de o lavar e 
de lhe dar =a papa - decidiu Thea.
Preparou-lhe a comida com caldo de carne, massa com glten e 
queijo =derretido no caldo.
Quando Josepha vinha visit-la a Milo, observava o cuidado 
com =que a filha mantinha a casa, a habilidade com que seguia 
o pessoal de =servio e a dedicao ao filho e dizia: - s 
fantstica. =Quem foi que te ensinou isto tudo?
- Tu, como  evidente - respondia ela.
- Mas se tu nunca me ouvias!
- Porque j sabia a lio de cor e, como vs, no momento 
=oportuno tratei de a pr em prtica.
Josepha, porm, estava preocupada com o envolvimento poltico 
que =Thea tinha assumido e no concordava com as ideias dela.

O telefone tocou em casa dos Battellieri e um criado anunciou 
a Thea: - =A sua me pede para falar com a senhora.
Thea levantou o pequeno da cadeira de braos. Tinha acabado 
de comer. =Limpou-lhe a cara com o babete e entregou-o a MISS 
Elaine.
- Ia ligar-te mais tarde - disse imediatamente.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou Josepha.
- Isso queria eu que tu me dissesses. Ouvi o pap e 
pareceu-me =cansado - observou a filha.
- A vitria na Etipia no vai ser uma pgina muito bonita 
=na histria italiana. O teu pai est perfeitamente 
consciente =disso. Espera que o rei recuse a coroa de 
imperador - sussurrou Josepa. =Tinha sempre medo de que 
algum pudesse espi-la e referir o =contedo dos seus 
telefonemas. Tinha-se tornado muito =desconfiada!

448


tinha razes para o ser, porque os delatores estavam por todo 
o lado, =at no meio do pessoal de servio.
- No percebo. Foi ele quem comandou esta guerra - objectou 
=Thea.
- Mas no foi ele quem a quis. O teu pai s actuou de forma a 
que =se resolvesse rapidamente. Foi um extermnio de gente 
desarmada. Uma =vergonha, Thea. O teu pai sabe-o e sofre por 
isso.
Josepha gostaria de poder ajudar o marido que, sentia-o, era 
=prisioneiro de foras que o dominavam.
- Mutti, tem calma. Olhando para o que acontece nos outros 
pases, =podemos considerar-nos com sorte - rematou. Guido 
tinha chegado e =estava a chamar por ela. - Um beijo. At 
breve - concluiu.
- A quem  que ests a mandar um beijo? - perguntou o marido, 
=que tinha aparecido  entrada da sala.
Thea levantou-se, foi ao encontro dele e ofereceu-lhe a face 
para um =beijo, o que ele fez distraidamente.
- Ento, com quem estavas a falar? - insistiu.
- Com a mam. Por que  que s sempre to desconfiado?
- O que  que ela queria?
- Aquilo que querem todas as mes das filhas que esto longe. 
=Queria falar comigo. Parece-te assim to estranho?
O criado serviu o aperitivo: vermute, azeitonas verdes e 
=pistcios.
- O que fizeste hoje de manh? - perguntou Guido.
Se Thea lhe dissesse que tinha sado para se encontrar com 
Arnaldo =Sacconi, Guido ia franzir o sobrolho e iniciar um 
interrogatrio =aviltante. No lhe queria dizer que tinha ido 
buscar o rascunho de um =artigo que lhe dizia respeito, 
porque queria que fosse uma surpresa para =o marido.
- Absolutamente nada - respondeu.
- No saste?
- Claro que no - mentiu.
Guido levantou-se da poltrona, agarrou-a pelos ombros e 
olhou-a como =se a quisesse fulminar.
- O que  que me andas a esconder? Onde estiveste? Com quem? 
- =vociferou.

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- Guido, pra com isso. J te disse que fiquei em casa o 
tempo =todo - protestou.
- Os teus sapatos esto ali, no quarto de vestir, e a marca 
que eu =tinha feito com giz j l no est. Isto significa 
que tu =saste.
Thea corou, no pela vergonha de ter sido apanhada em falta, 
mas de =raiva.
- Como  que consegues ser to mesquinho? - gritou, e no 
=conseguiu travar a mo que caiu com muita fora na face do 
=marido.

450


CERNUSCO SUL NAVIGLIO MAIO DE 1936


Como prenda de aniversrio, Thea recebeu do =pai um 
automvel. Era um Lancia Belna de um bonito tom de creme, com 
=guarda-lamas pretos. Thea, que era uma das pouqussimas 
mulheres com =carta de conduo, considerava aquele automvel 
como um =brinquedo de luxo e utilizava-o raramente, at 
porque Guido ficava =sempre ansioso quando ela conduzia. 
Naquela altura, ia a guiar a uma =velocidade moderada porque 
levava consigo o filho, a nurse e o casal de =empregados. A 
mala estava carregada at ao limite. Ia a caminho de 
=Cernusco sul Naviglio, para a villa dos Valeschi, abandonada 
h =anos.
Exasperada com os cimes de Guido, esperou que ele =sasse de 
volta ao escritrio e depois telefonou  tia Liliana, =irm 
do pai, para lhe pedir as chaves da casa.
- S l vais encontrar ratos e traas - avisou a tia.
- Mas esses, ao menos, no me vo fazer nenhuma acusao - 
=disse, revelando-lhe as razes da ltima discusso com o 
=marido. Depois recomendou-lhe: - No contes nada disto ao 
pap, =nem  mam. J esto suficientemente preocupados por 
outros =Motivos.
Desta vez, sem prvio aviso, Thea estava firmemente decidida 
a =castigar o marido. O modelo da mulher "esquecida de si" 
era desejvel =para as "camaradas", no para si prpria. 
Recusava categoricamente =qualquer forma de submisso e, 
sobretudo, j no Suportava os =cimes de Guido.

453


Para o fazer feliz, deveria viver fechada dentro das paredes 
=daquela casa, contentando-se com alguns encontros com outras 
pessoas =apenas quando estava com ele. No estava habituada a 
esse tipo de =vida e no ia modificar os seus hbitos nem 
sacrificar a sua =liberdade. Quando ia a sair da cidade, 
recordou o dia do casamento, na =igreja romana de Santa Maria 
degli Angeli. Fora uma cerimnia =sumptuosa, que chegou a ser 
objecto de reportagem no telejornal, que =passou em revista 
os rostos de todas as "excelncias" presentes no =acto. 
Recebeu prendas fabulosas: jias, pratas antigas, quadros 
=valiosos, esculturas e porcelanas. Sentiu-se protagonista de 
uma =fbula. E depois a fuga para Capri, para a lua-de-mel, e 
logo a =seguir a viagem de npcias ao Egipto, a travessia do 
deserto at =ao Mar Vermelho e o lendrio Cairo. 
Oficialmente, era a signora =Dorothea Battellieri, mas toda a 
gente se referia a ela como a condessa =Thea Valeschi, filha 
do Ministro da Guerra.
A fbrica de bicicletas Battellieri nunca conhecera um 
momento to =prspero. Estava em contnua expanso, porque 
choviam =encomendas de todos os lados.
Guido amava apaixonadamente aquela jovem esposa e nunca a 
deixava s. =Levaram durante meses uma vida excitante e 
mundana. Depois =instalaram-se em Milo, no apartamento da 
Praa Sant'Angelo. Thea =estava grvida. Soube-o a 14 de 
Junho de 1934, quando, pela primeira =vez, Mussolini e Hitler 
se encontraram em Veneza.
O pai comentou: - Este encontro parece-me uma coisa boa. Vai 
servir =como contrapeso s nossas relaes com a Frana e com 
a =Inglaterra.
A me respondeu: - Conheo as pessoas como Hitler. So a 
=expresso dos piores instintos da minha gente. Noutros 
tempos, estes =personagens eram marginalizados. Agora so 
idolatrados.
Thea e Guido, indiferentes a tudo isto, cultivavam a paixo 
que os =unia e, quando ele a deixava para ir para o 
escritrio, Thea bordava =babetes e toucas e contava os 
minutos que a separavam do regresso do =marido. Nunca lhe 
tinha acontecido, antes dessa altura: passar tantos =meses 
isolada do mundo. Passava os dias a ouvir rdio, a ler e a 
=preparar pequenas surpresas para o marido.
Depois nasceu Lorenzo. Miss Elaine chegou quela casa e Thea, 
entre =uma e outra mamada, comeou a aborrecer-se. Aos 
poucos, foi =retomando os contactos com o mundo, e a 
serenidade que at

454


ali envolvera a sua vida conjugal cedeu espao a violentos 
temporais =que se concluam, inevitavelmente, com 
reconciliaes =apaixonadas. Thea prometia limitar os 
compromissos mundanos e Guido =jurava esquecer o cime. Mas 
ela no resistia ao apelo dos amigos, =nem ele ao da posse. 
Inspeccionava-lhe os bolsos e as carteiras e =espiava os 
telefonemas que ela fazia  procura da prova de =traies que 
s existiam na sua mente, porque Thea era uma =mulher 
apaixonada e fiel. Desta vez, Guido tinha batido no fundo. 
Tinha =de ser castigado. Que melhor punio do que deix-lo 
s, =sem um criado sequer?
No demorou muito tempo a chegar a Cernusco, que ficava 
apenas a =catorze quilmetros de Milo.
As fechaduras um pouco ferrugentas da villa cederam  fora 
do =criado, e Thea entrou naquelas salas sombrias, 
poeirentas, h tanto =tempo abandonadas. No escuro, as 
poltronas e os mveis cobertos com =lenis brancos pareciam 
fantasmas que imploravam o regresso  =vida.
Se havia ratos, como garantia a tia Liliana, deviam ter 
fugido h =algum tempo.  medida que iam abrindo as janelas e 
as persianas, o =sol tpido da tarde iluminava as salas, 
inundando-as de poeira =dourada. O pequeno olhava em volta 
silencioso e atnito, enquanto a =me se esforava por evocar 
plidas recordaes de =infncia. Miss Elaine j tinha 
arregaado as mangas e ajudava =os empregados a fazer 
limpeza.

Thea e Lorenzo foram at ao jardim, invadido por ervas 
daninhas e =heras. A glicnia j tinha florido, e os ramos 
carregados de =folhas estavam entrelaados, formando um arco 
por cima da grade. Do =outro lado da rua viam-se as videiras 
e as amoreiras. E por entre a =vegetao avanou oscilante a 
figura de uma mulher que trazia =Pela mo um menino to 
pequeno como Lorenzo, enquanto que com a =outra transportava 
um cesto pesado. Tambm ela viu Thea, Para l =da grade de 
arabescos. Parou um instante. Depois apressou o passo. O 
=rosto severo amaciou num sorriso enquanto sussurrava o nome 
dela. Thea =pegou em Lorenzo ao colo e correu at ao porto. 
Saiu e parou  =frente da mulher.
- Ama! - exclamou, feliz.
- Menina - disse Teresa. Pousou no cho o cesto cheio de 
roupa e =abraou-a.
As duas crianas olharam-se com curiosidade.
- Este  o meu Lorenzo - disse.
- Que idade tem?
- Dezoito meses. Mas ainda no fala. E esse?
-  o meu Matteo. Pus-lhe este nome porque espero que cresa 
=forte e honesto como o meu pai. Tem quinze meses.
Thea olhou o rosto da ama, curtido pelo sol e marcado pelas 
rugas. =Teresa adivinhou os pensamentos da rapariga.
- Casei-me outra vez - explicou. - Luigi  o ferreiro da 
aldeia. =Um homem bom e generoso. Por isso, aqui est o meu 
quinto filho. =Pinuccio, o primeiro, era da tua idade. Ainda 
te lembras dele?
- Nunca o esqueci - murmurou.
- Por que  que ests aqui? - perguntou Teresa. Sempre que 
=passava em frente quela casa esperava rever algum da 
=famlia.
- Zanguei-me com o meu marido - explicou.
- Para sempre?
- S por pouco tempo. Pelo menos, espero. Estou grvida outra 
=vez. Mas ele no sabe.
Teresa assentiu. Ergueu os olhos. Viu os empregados a sacudir 
os =tapetes, a bater os colches e a limpar os vidros.
- Como  que vais fazer com o jantar? - perguntou-lhe.
- Queres tratar tu disso, ama?
- Quem mais  que o podia fazer? - respondeu Teresa.

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As pessoas da aldeia chamavam ao pequeno Matteo Videmari el 
fererin, o =filho do ferreiro, e a Teresa a ferra, por ser a 
mulher do ferreiro. =Os irmos Zicri tinham quase perdido o 
sotaque napolitano e Matteo, =que era precoce na fala, 
exprimia-se em dialecto lombardo. Npoles, =com todas aquelas 
vielas srdidas, os palcios opulentos, o mar, o =Vesvio e o 
folclore, pertencia a um passado j distante que se 
=desvanecia na memria dos trs filhos mais velhos. Ela, 
porm, =no esquecia, e conservava na lembrana a imagem do 
primeiro =marido a ponto de, de vez em quando, repetir em 
segredo as suas palavras =de despedida: "Um dia, algum te 
vai dizer que morri. No =acredites. No  verdade. Eu no 
morro enquanto viverem os meus =sonhos. Confio-tos a ti, e 
so tudo aquilo que te posso deixar. Faz =uma capa com eles, 
Teresa. Veste-a e tem cuidado para no a =estragares.  feita 
dos meus sonhos. Que vo passar a ser os teus, =no dia em que 
algum te disser que morri".
Teresa observava os filhos e procurava neles a altivez que 
caracterizara =a personalidade do pai. Rosa, que tinha 
dezasseis anos, era empregada =numa grande empresa 
metalomecnica de Sesto San Giovanni. Tinha =orgulho em ser 
uma secretria e nos privilgios de que gozava em =relao 
aos operrios. - Imagina, me, um operrio veio =pedir trs 
dias de licena porque lhe morreu a me. Queria que =lhe 
fossem pagos. Isso  um direito que s nos toca a ns, 
=empregados de escritrio - disse um dia. Teresa teve vontade 
de a =fulminar.

457


- Para mim,  uma consolao saber que quando eu morrer vais 
=ter trs dias de licena paga. Eu valho isso tudo. As mes 
dos =operrios, pelo contrrio, no valem nada.
- Mas por que  que tens de pr sempre as garras de fora, 
mesmo =quando se trata de uma situao que te favorece? - 
protestou =Rosa.
- No fales das minhas garras. No dessa maneira - 
=encrespou-se. - D graas a Deus por no precisares de 
=quebrar a espinha a sachar a terra. Mas o facto de usares a 
bata de =cetim preto com o colarinho branco no te deve 
impedir de olhar a =realidade. No te esqueas de que o teu 
pai foi um operrio e =morreu porque sempre se bateu pelos 
seus direitos.
- No lhe adiantou muito. Teresa deu-lhe uma bofetada na 
cara.
- De facto. J que a filha  uma cretina cheia de bazfia, 
=escrava do chefe de escritrio. Um dia podem despedir-te 
assim de um =momento para o outro, sem nenhuma razo. Estaro 
no seu direito. =Nesse momento ainda ters a mesma opinio? 
No percebes que os =nicos direitos que existem so os dos 
patres e que os deveres =esto todos em cima dos ombros dos 
operrios? O teu salrio = metade daquilo que recebe um 
empregado macho. Despedem-te se =ficares grvida e se 
responderes a uma provocao. Se as =canseiras da tua me e a 
morte do teu pai no te ensinaram nada, =ento s mesmo uma 
cretina - concluiu Teresa, furibunda.
Rosa encaixou a bofetada e aquele ataque de fria. Sabia que 
a me =tinha razo, mas ela queria alguma coisa mais da vida, 
que no =poderia obter com protestos.

Agora, perante Thea que lhe pedia notcias dos filhos, Teresa 
=informou-a, sem orgulho, de que Rosa era secretria, 
enquanto o =rapaz frequentava uma escola de desenho tcnico e 
Iosefa estudava =contabilidade. Quanto a Matteo, ainda era 
realmente muito cedo para =fazer projectos sobre ele, apesar 
de desejar que crescesse so e =robusto e que aprendesse a 
profisso do pai.
- Para forjar o ferro - explicou -  preciso fora e 
fantasia. =- Entretanto tirava as tampas s panelas que tinha 
trazido de casa. =Continham o jantar para Thea e para os 
empregados e um creme de legumes =para o pequeno Lorenzo. A 
mesa estava posta no terrao. As pessoas da =aldeia, ao 
passarem em frente  villa Valeschi, olhavam o =automvel 
branco na alameda,

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as janelas completamente abertas e a ferra a conversar 
=tranquilamente com uma jovem senhora loira. As mulheres 
lembraram-se de =quando Teresa dissera que conhecia a famlia 
Valeschi. No era =bazfia. Teresa subiu na considerao 
delas.
- Senta-te e come comigo - props Thea. Os empregados estavam 
a =comer na cozinha.
- Agradeo-te muito, menina. Esto  minha espera em casa - 
=respondeu. E acrescentou: - Se demorares a fazer as pazes 
com o teu =marido,  melhor arranjares mais pessoal. Na 
aldeia no faltam =mulheres. Diz-me alguma coisa - concluiu, 
despedindo-se.
Thea jantou sozinha. Depois entrou em casa e inspeccionou as 
salas do =rs-do-cho e as do primeiro andar. Pensava no pai, 
que tinha =passado longos veres de infncia naquela villa. A 
que jogos teria =brincado? Que criana teria sido? Procurou, 
sem encontrar, marcas da =sua passagem. Talvez se parecesse 
com o seu Lorenzo. Mexia-se  =procura de pretextos para se 
sentir menos s. Sentia a falta de =Guido. Apercebia o desejo 
urgente da sua ternura. Porque ele sabia ser =adorvel. s 
vezes, quando a via inquieta, abraava-a e depois 
=sentavam-se ao piano a tocar uma cano de amor. Era a esse 
homem =que ela no queria renunciar. O outro, aquele que 
fazia cenas de =cimes e recorria a expedientes mesquinhos 
para desmascarar enganos =inexistentes, no o queria mais.
Ouviu o motor de um camio. Chegou-se a uma janela do 
primeiro =andar. Um grande veculo estava parado em frente ao 
porto. =Desligou-se o motor e o ar da noite foi cortado pelo 
som insistente da =buzina. O homem que estava ao volante ps 
a cabea de fora e, =vendo-a  janela, gritou: - H uma 
encomenda urgente para a =lindssima signora Battellieri. - 
Era Guido, que lhe sorria. Os =criados e a nurse, que 
segurava Lorenzo pela mo, tendo reconhecido o =camionista, 
retiraram-se para o interior da casa. O menino, fugindo ao 
=controle de Miss Elaine, correu para o camio com aquele 
andar pouco =firme das crianas pequenas e comeou a gritar: 
- Pap! - =Thea desceu as escadas precipitadamente, 
atravessou o jardim, segurou o =filho e, atravs do porto 
fechado, perguntou: - O que =Queres?
- Enchi o camio de lilases. Estes cachos perfumados 
parecem-se =contigo. Ofereo-tos. Em troca, s peo o teu 
perdo - =disse Guido, descendo do camio.

459


Lorenzo agitava os braos contra as barras do porto, 
=esticando-os em direco ao pai.
- No queres abrir? - perguntou ele.
- Depende - respondeu ela.

- Eu sei que exagerei. Prometo-te solenemente que no volta a 
=acontecer. Queres perdoar-me e aceitar estas flores?
- O teu cime ultrapassou os limites da decncia - disse ela, 
=tentando resistir, apesar de saber que, por fim, ia acabar 
por abrir o =porto e os braos.
- No mexas mais na ferida - suplicou. E acrescentou: - 
Preciso de =ti, meu amor.
- Os teus filhos tambm precisam de ti - disse ela, abrindo o 
=porto.
- Os meus filhos? - perguntou Guido, preparando-se para a 
=abraar.
- Vem a mais um - sorriu Thea.
Os lilases foram plantados de maneira a formarem um pequeno 
bosque =perfumado por baixo da varanda do quarto que Thea 
ocupou com o marido. =Decidiu passar ali o Vero inteiro, 
enquanto Guido andava de um lado =para o outro. Saa de 
Cernusco todas as manhs e regressava  =noite. A proximidade 
de Teresa, que de vez em quando aparecia com o =pequeno 
Matteo, confortava a jovem senhora. Tambm a tia Liliana 
=aparecia, ao domingo, com o marido e os filhos. Ao fim de 
tantos anos de =abandono, a villa Valeschi recomeara a 
viver. s vezes, ao =fim-de-semana, chegava Ortensia 
Battellieri, a sogra de Thea. O jardim =foi limpo e as salas 
arejadas. Thea mandou restaurar os mveis mais =bonitos.
As pessoas diziam: - Fecha-se uma villa e abre-se outra. 
-Havia =j algum tempo, de facto, que o conde Brandazzi tinha 
vendido as =fbricas de fiao e partido para o Sul. Diziam 
que tinha ido =morrer a Positano onde, na encosta rochosa do 
monte, se erguia contra o =cu a esttua gigantesca de um 
anjo de bronze. Estava coberto de =lminas de ouro e, ao 
entardecer, tingia-se de vermelho e irradiava =um brilho 
ofuscante. Ele foi sepultado aos ps do anjo. Orsola, a 
=filha, foi obrigada a deixar Cernusco, na sequncia de uma 
=histria muito feia em que se envolveu. Uma jovem tecedeira 
foi morta =e lanada num poo, no meio do campo. Apresentava 
sinais, tanto =quanto se murmurava na aldeia, de "jogos 
erticos anormais".

460


De repente, tudo foi coberto por um vu de silncio, a 
famlia =da rapariga recebeu do administrador do conde uma 
soma considervel e =Orsola foi ter com o pai a Positano.
Numa tarde de Setembro, Josepha e Lorenzo chegaram  villa 
=Valeschi.
Thea ficou muito feliz com aquela visita inesperada, mas no 
=conseguiu exprimir a alegria que sentiu, tanta era a 
angstia e a =tenso que leu no rosto dos pais.
Thea ia no sexto ms de gravidez. A sua figura angulosa tinha 
j =assumido os contornos da maternidade.
- No vos esperava - foi tudo aquilo que conseguiu dizer, 
olhando =para eles.
- Minha querida filha, foi uma deciso repentina - explicou 
Lorenzo =Valeschi. E acrescentou: - Eu e a tua me, hoje de 
manh, =olhmos um para o outro e perguntmo-nos para onde 
poderamos =ir num momento como este. Depois a tua me disse: 
"Vamos ter com a =Thea". E aqui estamos.
- Porqu? O que foi que aconteceu? - perguntou ela, num 
=sussurro.

- O pap foi destitudo - anunciou Josepha. - Hoje de manh, 
=s seis horas, o telefone tocou. Ainda estvamos a dormir. 
Atendi =eu, com uma voz ensonada. Pensei que fosse o Nino, de 
Nova Iorque. J =sabes que o teu irmo se esquece do fuso 
horrio e telefona s =horas mais estranhas - explicou 
Josepha.
O criado aproximou-se para perguntar se podia tratar da 
bagagem e do =jantar dos hspedes. Thea mandou-o embora com 
um gesto.
- Mas, afinal? - perguntou, ansiosa.
- "Queria falar com Sua Excelncia o general Valeschi" disse 
uma voz =de homem. Dei o telefone ao teu pai e vi-o 
empalidecer, enquanto ouvia, =sem interromper, a comunicao 
de que a partir de hoje o =Ministrio da Guerra ia ser 
entregue a outras pessoas e que =tnhamos de arranjar outra 
residncia o mais depressa =possvel.
- Porqu? - perguntou a rapariga.
- No lhes agradou o meu relatrio - afirmou Lorenzo em voz 
=baixa.
- Tambm se vo vingar nos Battellieri - interveio Josepha, 
sem =dar tempo ao marido de explicar de que relatrio se 
tratava.

461


- J o fizeram - informou Thea.
Agora estava tudo claro. Guido tinha-lhe telefonado ao 
meio-dia para =lhe dizer que ia partir para Roma na tentativa 
de perceber por que =razo tinha sido cancelada de repente 
uma encomenda de dez mil =bicicletas, de um modelo novo, 
destinadas ao exrcito.

462


Thea abraou o pai e disse: - O quarto de hspedes est 
sempre =pronto. Descansem um bocado. Depois jantamos juntos.
- Nem sequer te pedi notcias do meu neto - desculpou-se 
=Josepha.
- Est ptimo. Agora est a dormir.
O casal Valeschi seguiu a empregada, que os acompanhou at ao 
=primeiro andar. Ela refugiou-se no escritrio do rs-do-cho 
=e pegou no telefone para ligar para o Hotel d'Azeglio, em 
Roma. Por fim, =a voz annima de outra telefonista 
anunciou-lhe que estava em =comunicao com o nmero pedido: 
- Pode falar, por favor.
Thea perguntou pelo marido.
- Chegou neste preciso momento - informou o recepcionista do 
hotel. - =Vou passar-lho imediatamente.
- Ia ligar-te - disse Guido. - Est tudo em ordem?
- Apanha o comboio e regressa a Milo.  intil 
=apresentares-te no ministrio. No vais conseguir nada. Nem 
=agora, nem nunca mais.
- O que foi que aconteceu? - perguntou ele.
- Faz o que te digo. O pap e a mam esto aqui, em Cernusco. 
=O pap foi destitudo - explicou sucintamente.
Houve alguns instantes de silncio. Depois Guido acrescentou: 
- =Obrigado por me teres ao menos ajudado a salvar a face. 
Volto =imediatamente.

463


O termo "destitudo" ressoava na cabea de Thea com um eco 
=sinistro. Parecia o toque de um sino que anuncia uma morte. 
Sentiu-se =ofendida e humilhada. Conhecia bem a honestidade 
do pai e sabia com =quanta lealdade tinha servido o regime 
fascista em que tambm ela =acreditara. Ao atingir Lorenzo 
Valeschi, o regime atingia tambm a =filha. Os minutos 
passavam, e a conscincia daquela afronta =tornava-se cada 
vez mais forte.
Bateu  porta do quarto dos pais. Entrou. Estavam sentados na 
beira =da cama, muito juntos. Josepha segurava entre as mos 
dela a mo =do marido.
- Incomodo? - perguntou em voz baixa.
Ainda no tinham mudado de roupa. Lorenzo tinha pousado o 
chapu =numa cadeira e Josepha levantara o vu azul do 
chapeuzinho de =rfia. Sorriram-lhe e Lorenzo estendeu um 
brao para ela. - Anda =c, minha menina - pediu.
- Uma mulher grvida precisa de serenidade - observou 
Josepha. - =No te devamos ter envolvido nisto.
- Contem-me que histria  essa do relatrio - pediu Thea, 
=sentando-se ao lado deles.
- Mandaram-me recuperar, na Etipia, armas e outro material 
=blico - comeou Lorenzo, e continuou: - Desde h meses que 
=nas altas esferas se fala de uma "conflagrao mundial" para 
a =qual precisamos de nos preparar, enquanto que nas reunies 
se promete =paz e prosperidade. Eu no aceitava aquele 
projecto louco de um novo =conflito. Achei que era meu dever 
avanar com um relatrio onde =exprimia toda a minha 
discordncia. Sem meias palavras, escrevi que a =Itlia no  
uma grande potncia e que uma guerra mundial =exige tempo, 
dinheiro que no temos e matrias-primas de que =carecemos. A 
resposta foi o telefonema de hoje de manh.
- Destitudo - murmurou a me.
- Mas continuas a ser general do Corpo da Armada.  um cargo 
para =toda a vida - disse Thea, no tanto para o consolar 
como para =dissipar as revelaes horrveis que acabava de 
lhe fazer.
Na manh seguinte, Guido regressou de Roma a tempo de ser 
chamado aos =bancos com os quais os Battellieri trabalhavam 
desde sempre, para repor =imediatamente todos os emprstimos.
Chegou a Cernusco com a me e dois irmos. Estavam muito 
=alarmados.


464


- Em vinte anos de actividade, nunca nos encontrmos em 
semelhante =situao - disse Ortensia Battellieri.
- Temos trs dias para devolver os emprstimos aos bancos. O 
=nosso dinheiro disponvel s d para cobrir metade do dbito 
=- observou o irmo mais velho de Guido, administrador da 
=empresa.
Estavam todos reunidos no escritrio da villa de Cernusco. 
Thea =lanou  me um olhar suplicante. Josepha sorriu para a 
=tranquilizar.
- Aquilo que faltar, ns pomos - afirmou. Sabia que podia 
dispor, =dentro de poucos dias, do dinheiro necessrio. 
Bastava um telefonema =ao administrador dos Castiglia.
- Mas ns no temos esse dinheiro todo - objectou Lorenzo. 
Foi o =nico que se espantou. Todos os outros sabiam que a 
signora Valeschi =usufrua de avultados rendimentos pessoais.
Josepha olhou o marido com ternura. Sempre tinham vivido a 
gastar =tambm os rendimentos dela. Ele nunca se apercebera 
disso, porque =tinha delegado inteiramente na mulher a 
administrao da =famlia. - Temos sim, fica sossegado - 
afirmou Josepha. Naquele =momento, o rosto do marido 
iluminou-se. - Temos mesmo assim tanto =dinheiro?
- Para as necessidades imprevistas, como esta - explicou em 
voz baixa =ao marido.
- A tua generosidade comove-me - interveio Ortensia. Era uma 
mulher =severa, que sempre conduzira os destinos da famlia 
com punho de =ferro. Os filhos temiam-na, mas sabiam que a 
empresa criada pelo pai =tinha progredido ao longo dos anos 
graas  prudncia e  =energia que ela consagrava ao 
trabalho. - Mas isso no vai resolver =os nossos problemas. - 
Sublinhou "nossos", porque era implcito que, =se Guido no 
tivesse entrado na famlia Valeschi, no teriam =encontrado 
aquelas dificuldades. - A produo de bicicletas para =o 
exrcito cobre trs quartos da nossa facturao. O resto = 
constitudo pelas bicicletas de corrida. No vai faltar muito 
=para que as organizaes desportivas escolham a 
concorrncia. =S nos restam as sobras: as bicicletas de 
passeio. Mais vale =fechar.
- Temos quatrocentos operrios. Vo ficar sem trabalho de um 
dia =para o outro - observou Guido.

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- Estou desolado - disse Lorenzo. Finalmente, sentia-se o 
nico =responsvel por aquele desastre. Se tivesse sido menos 
intransigente, =se tivesse inclinado a cabea e satisfeito os 
desejos dos chefes =supremos, se tivesse comprometido a sua 
conscincia, nada daquilo =teria acontecido.
- Estou muito orgulhosa de ti, pap - afirmou Thea. Depois, 
como se =tivesse sido iluminada por uma ideia repentina, 
perguntou:
- Conhecem as trotinetas?
Todos a olharam, perplexos. As trotinetas eram usadas pelas 
crianas =que corriam pelas ruas ou ao longo das alamedas dos 
jardins, a fazer um =rudo diablico. - O Nino mandou uma da 
Amrica, no ms =passado.  um presente para o Lorenzo. Mas 
esqueceu-se de que o meu =filho ainda no tem dois anos e que 
aquilo  um brinquedo para os =mais velhos. Guardei-a no 
sto. Guido, por favor, vai =busc-la. Parece-me um produto 
muito interessante
- declarou.
Era feita num metal leve, pintada de vermelho e azul. As 
rodas eram de =borracha, como as das bicicletas, e tinha at 
um pequeno guiador. O =que a tornava inslita era um pequeno 
pedal que funcionava como =mbolo. Quando se carregava, a 
trotineta avanava sem =esforo.
Nesse momento sucedeu uma coisa que suscitou uma hilaridade 
inesperada =num momento to dramtico, porque Lorenzo 
Valeschi quis =experiment-la ao longo da pequena alameda do 
jardim. E de que =maneira funcionava! S era pena que fosse 
um bocado pequena para a =sua estatura. Ento, tambm Guido e 
os irmos quiseram =experimentar.
- Vamos produzir trotinetas de pedal - decretou Ortensia 
Battellieri. =- E bicicletas para crianas, e automveis de 
pedal. Depois olhou =para Josepha e acrescentou: - Aceitamos 
a tua oferta. Ser apenas um =emprstimo. Obrigada, em nome 
dos Battellieri, e dos operrios, =que no vo perder o 
emprego.

466


CERNUSCO SUL NAVIGLIO SETEMBRO DE 1943


Teresa levantou a tampa da panela de ferro =esmaltado em 
que tinha preparado uma sopa de legumes. Era Julho e estava 
=muito calor. Esperou que a sopa arrefecesse antes de chamar 
para a mesa =os filhos e o marido. A omeleta, feita com ovos 
das suas galinhas e =melhorada com tomates e pontas de 
urtiga, repousava num grande prato =coberto com um 
guardanapo. Deitou numa tigela a papa de arroz a que =tinha 
acrescentado uma noz de manteiga. Armada de colher e 
guardanapo, =saiu da cozinha e foi bater  porta do quarto de 
Cecchina, a =sogra.
A mulher estava na cama. Tinha amarrado na testa o =leno do 
costume, embebido em vinagre.
- Preparei-lhe uma papa muito boa - disse Teresa, pousando a 
tigela =na mesa de cabeceira. - Apetece-lhe comer um 
bocadinho?
- Tenho a cabea a estourar - lamentou-se Cecchina.
- Tenha pacincia, me. Cada um tem os seus problemas.
- Os teus so piores do que os meus, eu sei - anuiu a mulher, 
=sentando-se na cama.
Teresa no replicou. Ajudou-a a arranjar as almofadas atrs 
das =costas e fez-lhe uma festa ligeira na face encovada. Era 
s pele e =osso, aquela velha. Apesar do mau feitio, Teresa 
gostava dela, at =porque era a me do marido. Amava Luigi 
pela nobreza de carcter e =pela ndole carinhosa. No sentia 
por ele a paixo que =alimentara a sua relao com Benedetto. 
Teresa era j uma =mulher de meia-idade.

469


Os dissabores de outros tempos e o tormento de agora eram 
pedras que =suportava com coragem.
- No se preocupe, me. Coma mas  esta papa, por mim - 
=disse, metendo-lhe a comida na boca como se Cecchina fosse 
uma =criana. Tinham j passado muitos anos, mas Teresa no 
deixava =de lhe estar grata por lhe ter dado uma casa e ter 
permitido salvar o =seu orgulho. Aquilo que tinha acontecido 
depois entre ela e o ferreiro =fora a consequncia da devoo 
e do respeito que aquele gigante =coxo lhe dedicou, a ela e 
aos filhos. Teresa recebeu-o no seu leito e =ele 
recompensou-a com delicadeza e pudor. Don Cludio sorriu e 
=abenoou aquela unio.
Teresa lavou a sogra com um pano ensaboado, mudou-lhe a 
camisa e =arejou o quarto. Por fim, fechou as persianas. 
Meteu-lhe o tero na =mo, beijou-a na testa e desejou-lhe 
uma boa noite. Sabia que ia =dormir at  manh seguinte. 
Ento regressou  cozinha, =acendeu uma vela e pousou-a numa 
pequena prateleira de madeira em =frente  fotografia de 
Pinuccio, vestido de soldado. Tirara-a em =Milo, onde fora 
recrutado para a instruo militar. Tinha =vinte anos. Partiu 
para a Grcia, de onde no voltou. Um torpedo =inimigo 
afundou o navio.
Como tinha j acontecido com Benedetto, tambm desta vez no 
=teve a consolao de um tmulo para chorar. Por vezes,  
=noite, no conseguia conciliar o sono. Via o filho a 
afogar-se nas =guas do Adritico e uma dor surda 
contraa-lhe o estmago. =Levava uma mo  boca para no 
gritar. Depois chorava baixinho. =A mo do ferreiro vinha 
pousar-lhe nos cabelos e ele dizia-lhe: - =Chora sem 
vergonha, Teresa. No te resta mais do que a =consolao das 
lgrimas. - Ento refugiava-se no abrao =daquele gigante 
bondoso e soluava sobre o seu ombro. Ele fazia-lhe =festas 
na nuca, at que Teresa adormecia.

Naquele momento, pegou no retrato do filho, beijou-o e voltou 
a =pous-lo na prateleira. Depois ps a mesa. Do rs-do-cho 
=chegavam as pancadas do malho, cadenciadas e poderosas, con 
que o =ferreiro forjava o ferro na bigorna. Os vidros do 
armrio vibravam a =cada pancada. Teresa tinha-se habituado 
quele rudo que lhe =fazia companhia. Ouvia as vozes das 
crianas que brincavam no pequeno =ptio. No meio deles 
estava tambm Matteo, o filho que tivera com =Luigi. Tinha 
oito anos

470


e o nome do av Avigliano, que morrera pouco depois de Teresa 
ter =fugido de Npoles. Matteo era uma criana robusta. 
Quando no =se perdia na brincadeira, gostava de ficar na 
oficina, a ver o pai dar =pancadas com o malho numa barra de 
ferro incandescente. - Quando for =grande vou ser ferreiro - 
dizia ele aos pais.
No meio das crianas que andavam a brincar, estavam tambm 
Lorenzo =Battellieri, o primognito de Thea, e a irm mais 
nova, Verdiana, =que tinha seis anos. Os netos de Josepha 
preferiam o ptio do =ferreiro ao jardim da villa em que 
viviam, desde que o pai partira para =a frente russa e Thea 
deixara definitivamente a casa de Milo que, =devido aos 
bombardeamentos, j no oferecia segurana. Tal como =ela, 
muitos habitantes de Milo, naquele perodo, recuperaram em 
=Cernusco casas esquecidas.
Teresa chegou-se  janela e chamou o filho. - Avisa o pap. 
=Diz-lhe que a comida est na mesa.
Naquele momento viu na rua Iosefa, que pedalava com 
velocidade em =direco a casa. Vinha de Monza, onde estava 
empregada na mesma =fbrica em que trabalhara a irm, Rosa. 
Esta tinha casado com o =engenheiro Alvise Brusato, director 
da fbrica, e vivia em Milo. =Teresa no sabia se a filha 
tinha tido sorte em casar com aquele =homem rico que tinha 
mais vinte anos do que ela. Mas Rosa parecia =satisfeita por 
se ter tornado a signora Brusato. Vivia no Corso Buenos 
=Aires, num grande apartamento, tinha uma criada e muitas 
vezes recebia =hspedes, at alemes. Durante o Inverno 
apresentou-se em =Cernusco com um casaco de vison. Teresa 
torceu a cara. - A minha filha =vendeu-se - murmurou.
Tirou a sopa e viu,  porta da cozinha, os dois pequenos 
=Battellieri.
- Venham. Ainda chega para vocs os dois - disse, pondo na 
mesa =mais duas tigelas.
Acontecia muitas vezes os filhos de Thea ficarem a comer em 
casa do =ferreiro. Teresa ficava contente, porque lhe parecia 
retribuir, de =alguma maneira, a generosidade de Josepha.
- Depois o Matteo pode vir brincar connosco? - perguntou 
Verdiana, =sentando-se  mesa. Ela concordou.
Iosefa chegou esbaforida pela longa corrida de bicicleta.

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- Sabem o que aconteceu? - disse com uma voz ansiosa. Os 
aliados =saram da Siclia. Vo desembarcar na Calbria.  
uma =questo de dias, e a guerra acaba.
Lorenzo e Verdiana trocaram um olhar feliz.
- Ento o pap tambm vai voltar - disse Lorenzo. Deixou a 
=sopa a meio e foi-se embora a correr. - Vou dizer  mam - 
=anunciou. A irm foi atrs dele.
Thea estava no quarto a dar de mamar a Gianni, o terceiro 
filho, que =tinha dez meses. Nascera dois meses depois da 
partida de Guido para a =frente russa.
Pouco antes tinha estado a escutar a Rdio Londres e ouvira a 
=notcia de um desembarque iminente na costa de Calbria. 
Telefonou =ento ao pai, para Roma.
As comunicaes telefnicas estavam cada vez mais difceis. 
=Quando conseguia linha, a conversa era muitas vezes 
interrompida. - =Pap, ouviste? - perguntou, assim que ele 
atendeu o telefone.
- Queres que eu te diga que a guerra vai acabar? No  bem 
assim, =minha querida - declarou Lorenzo Valeschi, com uma 
voz melanclica. =- O rei e o coronel Badoglio no tm a 
mnima inteno =de pousar as armas.
- Mas se os aliados sobem a pennsula, vo ser obrigados a 
=faz-lo - observou ela. - Resistir seria uma loucura.
- Tudo aquilo que aconteceu at aqui  uma loucura. Vai-se 
=continuar a combater, Thea. Cidade atrs de cidade, aldeia 
atrs =de aldeia. Casa atrs de casa. Pe a salvo, em 
qualquer parte, =tudo o que tens de valor na casa de Milo. E 
fica em Cernusco com os =teus filhos - recomendou-lhe o pai.
- E o Guido? - perguntou num sussurro. Era a pergunta de 
sempre. Quase =todos os dias Lorenzo Valeschi se dirigia ao 
Ministrio para saber =notcias do corpo de expedio em que

472 - 473


tinha sido incorporado o genro. E a resposta era a mesma de 
sempre: =Desaparecido.
O general Valeschi, depois da destituio, foi esquecido. Os 
=prncipes e os ministros que o tinham adulado e disputado a 
honra de =se encontrarem com ele, fingiam agora no o 
reconhecer quando o viam. =Sobravam-lhe poucos amigos fiis, 
que tinham sempre apreciado a sua =honestidade e sensatez. 
Lorenzo via aquela ptria devastada pela =guerra e lamentava 
os anos em que pensara que a ditadura fascista era a =nica 
via de salvao para o pas. Aquela guerra =desgraada 
levara-lhe tambm o filho, Nino, morto em combate nos 
=Balcs.
- Tem f. O teu marido h-de voltar - respondeu  filha.
Enquanto dava de mamar a Gianni, que tinha o mesmo nome do 
tio =desaparecido, Thea sussurrou-lhe com doura: - Vais 
conhecer o teu =pai e gostar muito dele. Foi assim que eu h 
muitos anos me apaixonei =pelo meu pap, que conheci quando 
voltou da guerra.
Guido fora chamado para o exrcito no incio de 1940, para 
cumprir =dois meses de instruo.
Em Junho, quando a Itlia entrou na guerra, Thea despediu-se 
de =Guido que partiu para Frana com o grau de capito. Pouco 
depois =foi enviado para a Jugoslvia. Quando regressava a 
casa de licena =queria ver gente, sair, danar. No falava 
com Thea sobre a =guerra. O seu confidente era Lorenzo 
Valeschi. Sogro e genro =fechavam-se na sala e conversavam 
durante horas.
Uma vez, Thea ouviu o pai dizer a Guido: - Espero que a minha 
filha =nunca venha a saber nada destas vergonhas.
Thea adoptou a tcnica da avestruz: tapava os ouvidos para 
no =ouvir, para no saber. Ficava j suficientemente 
angustiada de =cada vez que o marido a deixava para regressar 
 frente. Felizmente, =havia as cartas que ele lhe escrevia, 
sempre reconfortantes. Guido =escrevia muitssimo, quase 
todos os dias, quando estava longe. O =regime fascista, 
apesar de ser ineficaz em todos os aspectos, =preocupava-se 
com o bom funcionamento do correio. Sabia como era 
=importante, para o moral das tropas, que os homens da frente 
pudessem =comunicar com os familiares.
No Vero de 1942, Lorenzo Valeschi teve uma discusso agitada 
com =o genro que Thea no pde ignorar.

474


- No percebes que est tudo perdido? A Rssia sempre engoliu 
=os exrcitos todos, lembra-te disso. Se gostas da tua mulher 
e dos =teus filhos, renuncia a esse cargo - gritou Lorenzo, 
fechado no =escritrio com Guido.
Thea estava grvida do terceiro filho, que devia nascer em 
=Setembro.
- Que exemplo seria eu para os meus homens se aceitasse a 
=escapatria que me prope? Quase todos os meus companheiros 
tm =mulher e filhos, como eu. Ficaria envergonhado at ao 
fim dos meus =dias se os deixasse. General, este  um 
argumento que o senhor devia =compreender - respondeu o 
genro, levantando a voz. Ouviu tambm a =rplica sofrida do 
pai.
- Eu s sei que o meu filho morreu e no quero que a minha 
filha =fique viva.
Mais tarde, Lorenzo desabafou com Thea. - O teu marido  um 
teimoso =- disse-lhe. Depois acrescentou: - No entanto, deves 
estar orgulhosa =dele.
A 22 de Julho, Guido partiu com a Armir(1) para a Rssia. 
Todos os =dias chegava uma carta dele, de localidades cada 
vez mais distantes: =Brennero, Munique, a Polnia e, 
finalmente, a Rssia. Thea lia =vrias vezes a 
correspondncia do marido, seguindo o seu percurso =num mapa. 
Hoje entrmos na Polnia. As pessoas, que =sobreviveram ao 
assdio de Varsvia, olham-nos com =desconfiana. 
Atravessmos o Vstula.  meia-noite =chegmos ao rio Berg. 
Um comboio de alpinos foi atingido por uma =mina. Morreram 
sessenta pessoas. Os alemes reduziram a distncia =entre as 
linhas ferrovirias. Um trabalho ciclpico. As judias 
=polacas so muito dedicadas  limpeza. Andam de um lado para 
o =outro com a vassoura e a p. Passam ao largo de um comboio 
de =alemes. Aproximam-se furtivamente do nosso para pedir de 
comer. =Muitas delas esto grvidas, prximas do parto como 
tu, meu =amor. E no tm comida. Atirei-lhes um pacote de 
biscoitos. Um =oficial contou-me que, na semana passada, os 
alemes trucidaram dois =mil judeus polacos. Falava-lhe de 
destruio, de gente no =limite da sobrevivncia, de cidades 
bombardeadas, de crianas =abandonadas. E, no entanto, no 
perdia a esperana.



*1. Armada Italiana na Rssia. (N. da T.)


475


Tenho tanta vontade de te voltar a ver, e aos nossos filhos, 
e de =pegar no pequeno Gianni ao colo. Obrigado pelas 
fotografias que me =mandaste. Meti-as no bolso de dentro do 
sobretudo. Do-me uma =sensao de calor. Lembras-te das 
minhas cenas de cimes? Que =estpido eu era! Perdoa-me, se 
puderes. A 25 de Novembro =escreveu: Hoje  o meu 
aniversrio. Recebi o teu leno de =seda. Tem o teu perfume. 
Trago-o ao pescoo, e  como uma =carcia. Sinto tanto a tua 
falta, meu amor.  possvel que os =russos tenham sabido que 
eu fao hoje trinta e quatro anos, porque =vieram com os 
caas metralhar a aldeia onde me encontro: Millerovo. A =cada 
novo ataque, o Comando manda-nos resistir at ao ltimo 
=homem. Ns obedecemos.
A ltima carta de Guido trazia a data de 16 de Dezembro. 
Vinha de =Tcherkovo. Dizia: Continuamos a ouvir exploses  
=distncia. No se percebe se so canhes ou avies. =So 
sons lgubres no silncio da noite. Meu Deus, faz com que 
=esta guerra acabe depressa.
A partir da, e j tinham passado sete meses, Thea no 
voltara =a receber notcias. E o pai acabava de lhe dizer que 
a guerra ia =continuar.

475


Acabou de dar de mamar ao filho mais pequeno. Depois 
mudou-lhe a fralda =e deitou-o no bero, ao lado da sua cama. 
Gianni era um menino =sossegado. Comia e dormia. Lorenzo e 
Verdiana brincavam com ele como se =fosse um boneco. Miss 
Elaine, a nurse, tinha regressado a Inglaterra na =vspera da 
declarao de guerra. Thea no a substituiu, =at porque j 
no podia permitir-se despesas suprfluas. A =fbrica dos 
Battellieri fora destruda num bombardeamento. De Roma =vinha 
pouco dinheiro. As destilarias dos Castiglia, depois da morte 
de =Ezio Burgio, foram vendidas. Aquela herana considervel 
do =primeiro casamento tinha-se evaporado ao longo dos anos. 
As casas e as =propriedades do Sul, no meio daquela runa 
absoluta do pas, =tinham sido em parte vendidas e em parte 
confiscadas.
Thea Valeschi, criada no luxo, sobrevivia a poupar nas 
despesas e a =dispensar algum pessoal. Havia uma mulher da 
aldeia que tratava da =limpeza da villa. E havia a ama, que a 
ajudava sempre que podia - =Ortensia Battellieri, hspede 
fixa, dava-lhe uma mo, sobretudo =quando vinham os irmos de 
Guido com as mulheres e os filhos.

476


Naquela noite, a casa estava cheia de gente. Ortensia 
cozinhava, as =cunhadas punham a mesa e as crianas 
brincavam. Lorenzo e Verdiana =chegaram ao quarto a correr.
- Mam, os americanos preparam-se para desembarcar na 
Calbria. =A guerra vai acabar depressa e o pap vai voltar 
para casa
- anunciaram, excitados.
- Acordaram o Gianni - disse ela em tom de censura. Depois 
viu a =felicidade que bailava nos olhos deles. Eram altos e 
magros, aqueles =dois filhos destravados. Pareciam aves 
prontas para levantar voo. No =teve coragem para os 
desiludir.
- Eu sei - disse, abraando-os. Depois enfiou a chupeta na 
boca do =mais pequeno e, enquanto o embalava, acrescentou: - 
 realmente uma =boa notcia, e eu tambm espero que o pap 
volte depressa.
Lorenzo saiu a correr para contar aos outros aquela grande 
novidade. =Verdiana sentou-se na beira da cama.
- Posso embalar eu um bocadinho? - perguntou.
Verdiana gostava do papel da mam. Thea confiou-lhe o menino. 
Depois =sentou-se em frente ao toucador e comeou a pentear o 
cabelo.
- Ns j comemos - disse a filha.
-  mesa da ama,  claro - continuou Thea.
- Mam,  verdade que tu foste uma militante fascista? - 
=perguntou a filha,  queima-roupa.
- Quem te disse?
- Eu e o Lorenzo vimos uns jornais no escritrio. H muitas 
=fotografias. Pareces to jovem! Quase uma menina. O Lorenzo 
leu um =artigo que te define como o emblema da mulher 
fascista. O que  que =isso significa?
- Significa que na vida se cometem muitos erros. Acreditamos 
que uma =determinada coisa  justa e dedicamo-nos a ela, de 
corpo e alma. =Rasguei o meu carto h muitos anos, quando o 
teu av foi =destitudo. Tu ainda no eras nascida.
- Desapareceram os camisas negras da aldeia. Marietto, o 
padeiro, =fugiu. A mulher disse: Anda a monte, porque est 
com medo que lhe =limpem o sebo. O que  que isso quer 
dizer, mam?
Gianni tinha voltado a adormecer. Thea aconchegou-o

477


com cuidado no bero. Pegou na menina pela mo e saiu do 
quarto, =deixando a porta entreaberta.
- Mam, o que  que quer dizer? - insistiu Verdiana.
- Outra vez, eu explico-te. Agora vai lavar as mos. No 
jardim, =Lorenzo brincava com os primos.
Entretanto, tinha chegado Teresa com um cesto de ervilhas, 
que =comeou a descascar, sentada num banco de pedra, 
enquanto tomava =conta das crianas.
- A comida est na mesa - anunciou algum, debruando-se da 
=varanda. As crianas entraram em casa precipitadamente, 
enquanto Thea =se aproximava de Teresa.
- Vou acabar de descascar estas ervilhas. Depois deixo-as na 
cozinha =- disse a ama.
- Olha l, eu no posso aceitar esses presentes todos. Ou 
=ento deixas-me pagar-te alguma coisa - avisou Thea.
- No me aborreas com essa conversa - respondeu a ama, 
=impaciente. - Toma, descasca-as tu - acrescentou, 
metendo-lhe o =cesto dos legumes na mo. Depois atravessou o 
jardim num passo =marcial e saiu. Thea seguiu-a para fechar o 
porto  chave.
Naquele momento, viu na rua Paolo Valli, o professor dos 
filhos. Era o =ltimo de nove filhos de uma famlia de 
camponeses da aldeia. =Tinha vinte e trs anos e fora 
despedido do exrcito por causa de =um princpio de 
tuberculose. Passou um ano no sanatrio de Sondalo =e 
curou-se, mas os mdicos recomendaram-lhe que levasse uma 
vida =tranquila. Por isso, retomara os estudos universitrios 
de medicina =e, ao mesmo tempo, ensinava na escola primria.
Era um bonito jovem, loiro, alto e com um rosto aberto e 
sorridente. Os =seus mtodos de ensino nem sempre eram muito 
ortodoxos. Levava muitas =vezes os alunos para o campo e 
ensinava-lhes os nomes das flores, das =ervas e das plantas. 
Para as crianas que vinham da cidade, aquelas =lies eram 
ensinamentos preciosos.
Naquele momento parou em frente ao porto. Trazia na mo um 
grande =ramo de rosas brancas.
- Boa-tarde, signora Battellieri - disse.
- Boa-tarde, professor - respondeu Thea.
- No se importa de dar estas rosas  menina Verdiana, se faz 
=favor?
- E o que foi que ela fez de to extraordinrio para as 
=merecer?
- Ajudou uma companheira com dificuldades. A sua filha tem 
uma grande =capacidade para dar. Esta virtude, cada vez mais 
rara, deve ser premiada =- explicou.
- Agradeo-lhe muito, professor. Quer jantar connosco?
- Ns os camponeses, comemos muito cedo. J jantei h um
pedao - desculpou-se.
- Ento fica para outra vez - disse Thea, estendendo a mo 
para =receber as flores. Os seus dedos tocaram os dele e 
Paolo Valli =corou.

478 - 479


Apesar de a villa Valeschi ter trinta e seis divises, chegou 
um =momento em que parecia no haver espao para toda a 
gente. Chegou =de Milo a tia Liliana com os filhos e um 
grupo de amigos. Todos eles =tentavam pr-se a salvo dos 
ataques areos que assolavam sem =descanso a cidade. Os 
silvos das bombas, o estrondo da artilharia =antiarea e o 
som lancinante dos alarmes nocturnos no davam =trgua. Todos 
os dias havia novas devastaes e aparecia por =todos os 
lados mais gente sem tecto. Fechavam fbricas e =escritrios, 
lojas e restaurantes. Havia falta de tudo. Thea =continuava a 
ter esperana no regresso de Guido. O marido de Liliana, =que 
estava de servio no hospital de Niguarda, chegava a Cernusco 
= noite e voltava para Milo de madrugada. Depois de cada 
=bombardeamento, dava a volta s casas todas: a da Via 
Chiossetto, a =da Praa Sant'Angelo e as dos outros irmos e 
cunhados. Quando =chegava, sorria e dizia: Ainda esto em 
p. No tinham =sido bombardeadas.
As crianas, no meio de tanta confuso, estavam felizes. 
Havia =seres tranquilos em que parecia que a guerra no 
existia. =Ento os mais pequenos brincavam, os grandes 
disputavam =interminvel jogo de cartas e os mais velhos 
conversavam =tranquilamente sobre as doenas de que sofriam e 
os vrios =remdios que tomavam. Ao que parecia, os sais, a 
tintura de iodo e o =blsamo Sloan eram medicamentos de 
eleio para todos os =distrbios.

480


A 8 de Setembro, o rei assinou o armistcio com os aliados 
que subiam =a Calbria. O general Clark desembarcou em 
Salerno, Mussolini foi =libertado pelos alemes e nasceu a 
Repblica Social Italiana de =Saio.
A Itlia estava dividida em duas partes e no se conseguia 
=estabelecer nenhuma ligao entre o Norte e o Sul. Thea 
tremia =porque deixara de ter notcias dos pais.
Quase todas as tardes, sempre com um novo pretexto, recebia 
um ramo de =rosas do professor Valli, que se apresentava ao 
porto da villa. Eram =rosas brancas ou vermelhas, ou metade 
brancas e metade vermelhas. O =professor recusava 
sistematicamente os convites de Thea para passar o =porto. 
Ela sentia-se embaraada. Os parentes sorriam e =formulavam a 
nica hiptese possvel: Est apaixonado =por ti. Mas, como 
 tmido, no tem coragem para se =declarar. Eu sou uma 
mulher casada. E ele sabe disso, =replicava Thea muito 
depressa.
- Professor, o senhor est a saquear o jardim da sua me - 
=disse-lhe ela, um dia, com um tom maternal.
- Se for para isto, at vou saquear os das outras pessoas da 
aldeia =- respondeu ele. Baixou os olhos e corou.
Por fim, Thea acabou por perder a pacincia.
- Ento, d-mas - pedia-lhe. Naquela tarde disse: - As flores 
=nunca se recusam. Mas, por favor, no me volte a pr nesta 
=situao embaraosa. Da prxima vez, no poderei =aceitar.
Nesse momento Paolo Valli olhou em volta, empalideceu, atirou 
as rosas =ao cho e, de repente, quatro homens que saram dos 
arbustos =atiraram-se a ele. Ele tentou fugir. Dois deles 
imobilizaram-no, =enquanto um terceiro o atingiu com um murro 
no estmago. O quarto =correu em direco a um automvel 
preto, p-lo em andamento =e aproximou-se deles. Thea berrava 
como se estivesse com uma crise =histrica. Saram todos de 
casa e precipitaram-se Para o =porto. Vieram aldeos, homens 
e mulheres. O jovem foi empurrado =para dentro do carro, que 
arrancou com um chiar de pneus e uma nuvem de =p. Logo a 
seguir instalou-se um silncio atnito.
Teresa avanou do outro lado da rua, segurando o pequeno 
Matteo pela =mo.
- Os repubblichini - disse ela. - Apanharam-no.
481


Os repubblichini eram os fascistas da Repblica de Saio. 
Trabalhavam =lado a lado com os alemes. Consideravam os 
italianos traidores, =porque tinham virado as costas a 
Hitler. Eram consumidos pela crueldade =que nasce do medo. 
Agrediam os homens e matavam-nos ou entregavam-nos =aos 
camaradas alemes para que os mandassem para os campos de 
=concentrao, depois de os terem torturado. s vezes os 
homens =morriam durante as torturas. Raramente devolviam os 
corpos aos =familiares. A maior parte das vezes eram mandados 
para os campos.
- Porqu? - conseguiu Thea perguntar, interpretando a dvida 
de =todos eles.
- No te trazia rosas para te fazer a corte - sussurrou-lhe 
Teresa =ao ouvido. - Eram um sinal.
O tio Stefano, o marido da tia Liliana, murmurou: - Nunca 
mais o =voltamos a ver.
A gente da aldeia regressou a casa, sem fazer comentrios. Os 
=Battellieri voltaram  villa.
- Mas era preciso ajudar aquele rapaz - disse Teresa a Thea, 
que =no se tinha mexido.
Dirigiu-lhe um olhar perturbado - O que  que ns podemos 
=fazer?
- No sei - respondeu a ama, desconsolada. Depois disse: - 
=Tomas-me conta do menino at amanh? L em casa arranjam-se 
=melhor sem ele, quando eu no estou.
- Sabes alguma coisa que eu no sei? - perguntou Thea. A 
mulher =encolheu os ombros.
- Quanto menos souberes, melhor - respondeu, antes de partir. 
Depois =pegou no filho pelos cales, antes de ele ir embora 
com Thea: - =Porta-te bem. Venho buscar-te amanh.
Afastou-se em direco  igreja. Entrou na residncia do 
=padre. O sacristo estava a limpar os castiais de lato.
- Onde est o don Cludio? - perguntou Teresa.
- Est ocupado. O que queres? Costuma-se bater antes de 
entrar - =rosnou o homem com um ar carrancudo.
- Sabes muito bem o que eu quero - replicou ela. Atravessou a 
sala e =entreabriu a porta da casa do padre.
Don Cludio estava a jantar. Um prato de sopa e uma fatia

482


de po escuro. Ergueu o olhar para a mulher, engoliu uma 
colherada e =soltou um suspiro.
- J sei tudo - comeou.
- E fica a, sossegado, sem mexer um dedo? - desabafou 
Teresa.
- Mete-te na tua vida,ferra - disse o padre.
- Quando lhe trago alguma coisa para aqueles que esto aqui 
debaixo =no me diz para me meter na minha vida - respondeu, 
agressiva e em =voz baixa, a apontar para o cho.
Ali debaixo, na cripta da igreja, o padre escondia uma 
famlia de =judeus de Milo. Quase todos os dias Teresa 
deixava na cozinha da =residncia ovos, arroz cozido, legumes 
e, quando podia, um pedao =de carne. Tinham-lhe aparecido  
frente, um fim de tarde de Agosto, =quando andava a apanhar 
rs num charco. Viu-os estendidos na erva e =assustou-se. Era 
um casal com trs filhos pequenos. Eles ainda se =assustaram 
mais do que ela. Depois contaram-lhe que andavam a fugir. 
=Duas noites atrs, em Milo, tinham ido ao cinema. Quando 
=regressaram viram as SS em frente ao prdio onde viviam. 
Andavam  =procura deles. Fugiram e chegaram a Cernusco. 
Teresa conduziu-os  =residncia do padre e entregou-os a don 
Cludio. Na mesma =ocasio descobriu tambm que o professor 
Valli era um informador =da resistncia e que transmitia 
mensagens ao sacristo, =empoleirado no cimo do campanrio, 
sobre os movimentos dos alemes =e dos repubblichini na zona. 
O professor Valli ia at ao porto da =villa Valeschi, que o 
sacristo observava com um binculo, e =levava um ramo de 
rosas brancas, se no houvesse movimentao =do inimigo; 
vermelhas, se andassem por ali os alemes: brancas e 
=vermelhas, se houvesse fascistas. Depois o sacristo 
informava os =companheiros.
Ento o padre recordou-lhe: - Foste tu que os trouxeste para 
c, =os dali debaixo.
- E o senhor acolheu-os. Assim como j ajudou muitos outros 
=desgraados. Agora s quero saber se vai abandonar o 
professor - =disse.
- Sabes to bem como eu que no posso fazer nada - replicou o 
=velho, desconsolado.
- Ento, reze - disse,  laia de despedida.

483


Naquela noite, Teresa no dormiu. O marido, deitado ao lado 
dela, =sussurrou: - Conforma-te.
- Isso nunca. Nunca me conformei.
- A que horas vais?
- Assim que houver luz. Como  que sabes?
- Deixaste o menino fora.
- Na villa est seguro. Eu no demoro. Toma conta da tua me 
=- recomendou.
A bicicleta que tinha fora um presente de Thea. O marido 
ensinou-a a =equilibrar-se no selim e agora andava ligeira.
Ainda no tinha nascido o sol quando pendurou no guiador um 
cesto =cheio de hortalia fresca e um grande ramo de dlias. 
Saiu da =aldeia em direco a Milo. Chegou  entrada da 
cidade.
- O que levas a? - perguntou-lhe o homem que controlava a 
=entrada.
- Podes ver. Flores, alfaces, legumes. E hoje no levas nada 
=-declarou, olhando-o com um ar agressivo.
J se conheciam e Teresa, de vez em quando, dava-lhe ovos ou 
uma =abbora. O homem vivia em Pioltello, tinha seis filhos e 
a comida =nunca chegava. Achava que Teresa devia ser uma 
pessoa com posses.
- Est bem. Desta vez no te vi passar - disse ele.
Teresa percorreu avenidas, ruas e praas quase desertas e 
meio =destrudas. Havia poucos elctricos, os automveis eram 
raros e =havia muitas bicicletas e gente a p que caminhava 
apressadamente. =Iam para o emprego. Algumas mulheres faziam 
compras nas poucas lojas =abertas. Havia muitos alemes. 
Chegou  Via Vivaio e travou frente =a um edifcio austero. 
Desceu da bicicleta e entrou na portaria, que =se abria para 
um ptio. Havia dois automveis estacionados. Um era =o Fiat 
do genro. O porteiro estava a lav-lo com o jacto de gua =de 
uma mangueira. Teresa encostou a bicicleta ao muro e parou, 
ofegante. =O homem reconheceu-a.
-  muito madrugadora. Os senhores ainda esto a dormir 
-disse =ele.
Ela retirou o cesto do guiador.
- Ainda bem. Assim fao-lhes uma boa surpresa - replicou. 
Entrou =por uma porta de vidro e subiu as escadas at ao 
primeiro
andar. Tocou  campainha da porta de servio. Foi Ersilia, a 
=empregada, quem veio abrir.
- Arranja-me um caf - pediu Teresa, pousando o cesto na mesa 
da =cozinha. Depois deixou-se cair, extenuada, numa cadeira.
- Que lindas dlias - comentou Ersilia, enquanto punha a 
mquina =de caf no fogo elctrico. E continuou: - Chegou 
muito cedo. =A senhora deu ordens para ser acordada s dez.
- Agora vamos tratar do caf, enquanto eu recupero o flego. 
=Depois vais acord-la - decidiu Teresa.
- Se ficar zangada, a culpa  sua.
- E de quem  que havia de ser?
- O senhor engenheiro est a tomar o pequeno-almoo na sala 
de =jantar. Quer cumpriment-lo?
-  melhor no. No sei o que hei-de dizer-lhe.
Logo a seguir, enquanto na cozinha se espalhava o aroma do 
caf, =Alvise Brusato abriu a porta e viu Teresa. Olhou-a, 
surpreendido.
- Bom-dia, minha senhora. Aconteceu alguma coisa?
- Nos tempos que correm acontece sempre alguma coisa. E 
nenhuma  =agradvel - respondeu a sogra.
O homem concordou. Era pequeno e calvo. No rosto redondo e 
plido =sobressaa um bigode negro e farto. Cheirava a gua 
de colnia =de boa marca. Vestia um fato escuro com colete. 
Teresa olhou-lhe para =as mos. Ersilia tinha-lhe dito que, 
no barbeiro, tambm =arranjava as unhas. Trazia no dedo 
mindinho um anel de ouro com um =braso gravado.
- Se precisar de alguma coisa, j sabe onde me encontra - 
disse. =Depois virou-se para a empregada: - Avisa a senhora 
de que a espero =para almoar no Savini. - Por fim, 
inclinou-se na direco de =Teresa e beijou a mo que ela lhe 
estendia.
Dava-lhe vontade de rir sempre que o genro se exibia naquele 
=cumprimento. E de todas as vezes pensava que a filha 
acabaria depressa =por se cansar de um marido to velho.
Assim que ficaram ss, Ersilia contou-lhe: - Agora a senhora 
=chama-me com uma campainha elctrica. Mandou instalar um 
boto =por baixo da beira da mesa. Carrega e aqui acende-se 
uma luzinha =vermelha - explicou, indicando uma engenhoca 
pendurada na parede.

484 - 485


Teresa no fez comentrios. Tomou o caf, depois levantou-se 
e =saiu da cozinha. Entrou no corredor que conduzia aos 
quartos de dormir e =abriu uma porta. Foi acometida por um 
odor intenso de p-de-arroz. =Abriu a porta envidraada que 
dava para uma varanda e levantou a =persiana. Espalhou-se 
pelo quarto a luz tnue da manh. Rosa =dormia profundamente, 
envolvida em lenis de seda. Teresa, levada =por um hbito 
antigo, comeou a arrumar a roupa abandonada aos =ps da 
cama.
- Rosa, acorda. Preciso de falar contigo.  uma coisa urgente 
e =tenho pressa de regressar a casa.
A resposta foi um gemido de desapontamento. A mulher no 
perdeu o =nimo.
- Ouviste? - perguntou, levantando a voz.
- Mas que horas so? - resmungou a rapariga. E protestou: - O 
que =foi que eu fiz de mal para ser acordada a esta hora?
- Tu  que sabes. Ouve-me - disse, sentando-se na cama.
- O que foi que aconteceu? - perguntou Rosa, completamente 
=acordada.
- Levaram um rapaz em Cernusco.  o professor do Matteo e dos 
filhos =da signora Battellieri. Tu tens de o mandar libertar.
- Eu? O que  que eu tenho a ver com isso?
- O teu marido trabalha com os alemes, que esto feitos com 
os =repubblichini. Tu convidas essa gente horrvel para tua 
casa noite =sim, noite no. Em troca dos meus legumes frescos 
com que os =alimentas, pede a esses delinquentes para 
libertarem o Paolo Valli.  =assim que ele se chama. 
Lembras-te do nome, ou  melhor eu =escrever?
- Eu lembro-me.  s isso?
- A mim parece-me muito. Despacha-te para ires ao Comando 
alemo, =porque depois o teu marido est  tua espera no 
Savini.
- Mas por que  que no te metes na tua vida? - protestou 
=Rosa.
- Porque os fascistas sempre se meteram na vida dos outros. O 
fim do =teu pai e do teu irmo servem para te lembrar isso. 
Despacha-te, =antes que aquele pobre rapaz seja morto ou 
mandado para a Alemanha.
- Pedir certos favores  um risco.

486


- Tambm receber em casa certas pessoas. Ainda no percebeste 
que =o fascismo acabou, que a guerra se perdeu sem honra, e 
que os =alemes, todos eles, so uns criminosos e vo ter em 
breve o =castigo que merecem?
- Fala baixo, por favor. Aquilo que eu sei  que o Alvise  
=obrigado a trabalhar com eles. Tambm eu espero que no seja 
por =muito tempo. Entretanto, no temos escolha.
- Levanta-te e corre - ordenou a Rosa. - Eu volto para o 
campo. =Quero aquele rapaz na aldeia hoje, so e salvo. E 
fazias bem em =deixar esta casa e vir para o campo tambm. 
Fiz-me entender? - =disse Teresa, preparando-se para sair do 
quarto.
Rosa foi ter com ela e abraou-a.
- Sempre foste uma mulher extraordinria, me. Lembro-me de 
=quando me pregaste um par de estalos por causa daquele 
infame, filho da =tua madrasta. Renato di Giacomo, era como 
ele se chamava. Mataram-no. =Sabias?
A mulher abanou a cabea.
- Tinha feito uns jogos demasiado sujos. Foram mesmo os 
homens dele que =o liquidaram. Esfaquearam-no. J foi h mais 
de um ano.
- Como soubeste?
- Por acaso. Li no Il Mattino.
- s vezes, a justia de Deus manifesta-se - sussurrou 
Teresa. =Paolo Valli regressou a Cernusco naquela noite. 
Tinha sido
maltratado. Foi Rosa quem o levou, no carro do marido. Thea 
foi ter com =ele e levou-lhe as rosas que, na noite anterior, 
tinham cado ao =cho. Estavam a desfolhar-se. O rapaz 
recolheu as ptalas que lhe =caram nos joelhos.
... enquanto as estrelas avanam e se dissipam os ventos, a 
rosa =sobre um fio de trevas pouco a pouco se desfolha 
murmurou.
Thea sorriu. -  a rosa mutvel, cantada por Garcia Lorca - 
=disse.
-  um poeta proibido. Sabia?
- Fizeram-lhe muito mal?
- Carcias, em comparao com aquilo que teria acontecido se 
a =filha da Teresa no tivesse intervido.
- Nunca mais me leva rosas, pois no? - pediu Thea, passando 
uma =mo suave por entre aqueles cabelos loiros.

487


Ele fez uma careta. Tinham-lhe enfiado umas agulhas 
elctricas por =baixo da ctis, para o obrigarem a falar.
- No eram apenas uma mensagem em cdigo - sussurrou ele.
- Eu tinha percebido - respondeu ela, e abanou a cabea.

488


MILO - PRAA SANTANGELO ABRIL DE =1945


A retrica do regime fascista, a =insolncia e a 
crueldade, a corrupo e a velhacaria tinham por =fim 
produzido o desastre total. Todas as famlias choravam os 
seus =mortos, abatidos entre as fileiras do exrcito ou 
debaixo dos =bombardeamentos. Era impossvel contar o nmero 
de pessoas que =tinham ficado sem casa, sem dinheiro e sem 
comida. A economia estava de =rastos. O povo olhava atnito 
aquele mundo triste, cinzento, =devastado. Os soldados que 
desciam dos comboios, aclamados pela =multido que os 
esperava, traziam os olhos desanimados de quem =assistiu a 
uma catstrofe hedionda. A morte tinha-os poupado e, 
=amontoados em comboios-hospital ou em camionetas de gado, em 
camies =ou em carroas, a p ou em meios de transporte de 
acaso, mal =nutridos, feridos e sujos, regressavam a casa.
Thea, como muitas outras mulheres, namoradas, mes =ou irms, 
procurava uma abertura no meio da multido, ao longo das 
=plataformas da Estao Central, e passava em revista, um a 
um, os =militares que vinham da Rssia. Era um ritual 
desesperado que se =repetia todos os dias.
Trazia com ela uma fotografia de Guido com a farda de 
capito. Olhava =com inveja as pessoas que conseguiam 
finalmente abraar um parente. =Quando os comboios ficavam 
vazios, seguia os militares que se =afastavam.
- Estou  procura do meu marido. Conheceu-o?  este. Capito 
=Battellieri. Estava com a Armir, a combater na Rssia.
491


Naquele dia, depois de ter visto desfilar centenas de 
soldados vestidos =de farrapos, aproximou-se de um 
sobrevivente que se tinha acocorado no =cho porque no tinha 
foras para sair da estao com os =outros. Trazia vestidas 
umas calas de pijama e uma camisa sem =mangas, e estava 
descalo e esqueltico. Inclinou-se sobre ele e =ofereceu-lhe 
vinho. A cabea calva, sustida por um pescoo muito =dbil, 
quase a quebrar-se, oscilou da direita para a esquerda.
- Quero a minha me - murmurou, respirando com dificuldade. 
No =tinha dentes. Aproximou-se dele uma mulher e meteu-lhe 
um torro de =acar na boca. Depois acariciou-lhe a face 
encovada.
- A tua irm foi procurar uma ambulncia - disse. - O Dr. 
=Gasperi est em casa  tua espera. Lembras-te do Dr. 
Gasperi?
O homem assentiu com um sinal imperceptvel de cabea.
Thea pensou: Admitindo que consigas chegar a casa. Depois, 
=porm, mostrou-lhe a fotografia do marido e perguntou: -  o 
=capito Battellieri. Nunca o encontrou na Rssia?
- Deixe-o em paz - disse a me. - No v o estado em que =ele 
est? - E continuou: - Ele vem de Mauthausen. Tatuaram-lhe o 
=nmero no brao. Tinha vinte anos em 1942. Agora tem vinte e 
=trs. Algum diria?
Chegou uma padiola e o homem foi erguido e instalado naquela 
pequena =cama. Thea escondeu o rosto entre as mos e comeou 
a soluar. =Estava profundamente envergonhada por ter sido 
uma de tantos que =acreditaram no fascismo. Sentia-se 
cmplice daquela =catstrofe.
Quando ia a sair da estao, misturada com a multido, 
mantendo =bem  vista, no peito, a fotografia de Guido, ouviu 
sussurrar uma =notcia: Mussolini, Claretta Petacci e mais 
alguns fidelssimos =tinham sido capturados no lago de Como e 
assassinados.
-  bom de mais para ser verdadeiro - comentou uma mulher.
- Deviam t-lo morto h vinte anos - murmurou um homem. Uma 
=mo veio pousar sobre o seu ombro. Thea reconheceu o
perfume da me. No a via h dois anos e no esperava 
=encontr-la  entrada da estao. Josepha tinha um aspecto 
=frgil e o rosto muito plido, marcado pelas angstias e 
pelo =sofrimento. J no
havia sinais da mulher enrgica e determinada que ela 
conhecera. =Chorou nos seus braos.
- Julgava que estavas em Roma - disse, por fim.
- Estamos em viagem h trs dias. Eu e o teu pai precisvamos 
=de estar contigo. Anda, vamos para casa. - Empurrou-a para 
dentro de =um txi.
Foram directas ao apartamento da praa Sant'Angelo, agora 
=completamente vazio. Os repubblichini, que o tinham ocupado 
abusivamente =seis meses antes, tinham surripiado objectos e 
mveis. Para se =aquecerem, durante o Inverno, tinham 
instalado um grande fogo de =barro que alimentaram queimando 
livros, mesas, cadeiras e cabeceiras de =camas. Duas semanas 
antes, quando Thea chegou de Cernusco, onde deixara =os 
filhos, fez algum esforo para reconhecer o apartamento que 
ela e =o marido tinham decorado com tanto cuidado. No 
desanimou. - Vamos =arregaar as mangas e comear a fazer 
limpeza - disse  =empregada.
Trabalharam febrilmente e conseguiram restituir s vrias 
=divises uma aparncia de habitabilidade. Depois comeou a 
=chegada dos comboios que traziam de volta  ptria os 
=sobreviventes da guerra, com as longas, desesperadas esperas 
na =estao.
Agora, ao sair do txi em frente ao prdio onde morava, 
sorriu =para a me. O tempo da incompreenso e das rebelies 
com =Josepha tinha passado h um bom pedao.
- O pap est em casa? - perguntou, enquanto subiam as 
escadas. =O ascensor no funcionava.
- Foi  Via Chiossetto, a casa da tia Liliana. Chega  hora 
de =jantar - respondeu.
Abriu a porta e, no vestbulo, sentiu um cheiro forte a 
=desinfectante. A empregada encarniava-se diariamente a 
esterilizar =o apartamento porque achava que no conseguia 
remover as crostas da =imundcie deixada pelos fascistas. No 
vestbulo estava uma mala. =Thea reconheceu-a imediatamente.
Olhou para a me e sussurrou: - Guido. - Por um instante, 
acalentou =o pensamento de que o marido tinha voltado da 
Rssia. Viu o olhar =triste de Josepha e captou imediatamente 
a verdade.
A me assentiu. Pegou-lhe numa mo e manteve-a apertada entre 
as =suas.

492 - 493


- Trouxeram-na hoje de manh. S aquilo, com a notcia do 
=desaparecimento dele - disse-lhe, baixinho.
Thea ajoelhou-se junto  mala e acariciou-lhe a superfcie 
=spera.
- Soubeste como morreu? - perguntou, com uma voz sumida.
- Foram os russos. Atingiram-no pelas costas. Est escrito no 
=relatrio do comandante que o encontrou - explicou, 
estendendo-lhe =uma carta.
Thea ignorou-a. Abriu lentamente a tampa da mala e reconheceu 
a roupa =de Guido, a mquina fotogrfica, o relgio de pulso, 
as =fotografias dela e dos filhos e um caderno que tinha um 
ttulo na =capa: Dirio de guerra. Comeava em Julho de 
1942 e =acabava em Dezembro do mesmo ano.
- Aqui esto os ltimos seis meses da vida dele - murmurou. E 
=acrescentou: -  tudo aquilo que me resta.

494


A notcia da morte de Mussolini apanhou os Valeschi em 
Bolonha, =quando viajavam para Milo.
- Porqu agora, que j no estava em condies de fazer =mal? 
- perguntou Josepha ao marido, que a olhou, perplexo. Ela 
explicou =aquele pensamento: - Deviam t-lo matado h muitos 
anos, quando =comeou a armar confuso. H dez anos, onde 
estavam os =dissidentes?
- Nunca vais mudar. Para ti,  tudo preto ou branco. Um dia, 
se =tiver tempo, vou escrever a histria destes ltimos vinte 
=anos.
Josepha pousou uma mo sobre o medalho que trazia ao 
pescoo, =por baixo da camisa. Continha a fotografia de Nino, 
o filho que tinha =ido combater numa guerra em que ela no 
acreditava.
- Por que  que queres fazer isso? - perguntou ao marido.
- Para perceber se tive alguma responsabilidade na morte do 
Nino, por =exemplo - sussurrou ele. - De qualquer maneira, a 
guerra acabou, mas o =dio permanece e vai continuar a correr 
sangue - prognosticou =Lorenzo.
Em Milo, a empregada disse-lhes que Thea estava na estao 
= espera de um comboio que vinha da Rssia. Naquele momento 
chegou =a mala de Guido, trazida por dois oficiais do 
exrcito italiano com =os quais Lorenzo se afastou.
Quando foram embora, Josepha estava a chorar. Tinha percebido 
tudo.

495


- Agora, temos de dizer quela pobre rapariga - balbuciou por 
entre =as lgrimas.
- Thea, no fundo do corao, j o sabe. Como ns =sabamos
- replicou Lorenzo. E acrescentou: - Vamos  estao.
- No. Eu vou sozinha. - Queria poupar ao marido a dor de 
assistir = angstia da filha. - Tens a tua famlia  espera 
na Via =Chiossetto. No os faas sofrer. Logo  noite, a Thea 
e eu =vamos ter convosco - decidiu.
Lorenzo levou a mulher de carro at  entrada da estao e 
=depois dirigiu-se ao Corso Buenos Aires. A rua estava 
bloqueada por um =grupo de homens com bandeiras vermelhas. 
Viu dois camies apinhados =de jovens com lenos vermelhos ao 
pescoo. Agitavam metralhadoras =e espingardas e cantavam: 
Vamos erguer a bandeira vermelha.
Soltou um suspiro e pensou: Os 'camaradas' desapareceram. 
Agora =h os 'companheiros'. Sero melhores? Para ser melhor 
que os =fascistas no  preciso muito. Estacionou o 
automvel junto =do passeio. Saiu do carro e um dos 
manifestantes enfrentou-o, =estendendo-lhe uma bandeira com a 
foice e o martelo. - Pega e anda =connosco, companheiro - 
ordenou.
- Estou cansado de bandeiras, seja qual for a cor delas - 
respondeu =Lorenzo, decidido.
O homem levantou um brao e gritou: - Apanhmos outro.
- Deitou a bandeira ao cho, segurou Lorenzo por um brao e 
=atirou-o em direco aos companheiros.
Seis deles atiraram-se a ele e comearam a dar-lhe murros e 
=pontaps. S mais tarde Lorenzo soube que a polcia o tinha 
=salvo do linchamento a tempo. Quando o levaram para a 
esquadra, ainda =estava sem sentidos. Um comissrio 
encontrou-lhe os documentos =quando lhe remexeu os bolsos.
-  o general Valeschi - disse para os outros. - Andam  
=procura dele em Roma por causa do processo relativo ao 
general =Ronzoni.
- A famlia Valeschi  muito grande.  preciso cautela. Ele 
=tem muitos amigos em Milo - avisou o comandante, quando foi 
=informado. - Nem sequer devia estar na enfermaria da priso.
- Foi uma medida de preveno - defendeu-se o comissrio. - 
=Ao que parece, foi um grande defensor do fascismo.

496

- Oua, eu j tenho problemas que me cheguem neste momento. 
Tenha =cuidado com a maneira como se move - replicou o 
superior.
- Eu no posso ignorar um comunicado da polcia de Roma. Para 
=alm do mais, se o mandamos para l, livramo-nos de um 
problema =- observou o comissrio.
A ordem pblica, naqueles dias, estava num estado de 
emergncia =gravssimo. No havia homens suficientes, surgiam 
armas de todos =os lados e estavam nas mos de muitssimos 
civis. Chegavam ordens =contraditrias, e j ningum sabia 
quais eram as regras a =seguir e quais a ignorar.
O comissrio foi  enfermaria. Lorenzo estava num estado 
=lastimvel. O rosto tumefacto, com ndoas negras e 
=escoriaes por todo o corpo, e a respirao entrecortada 
=por causa das costelas partidas.
- Est em condies de se mexer? - perguntou ao mdico que =o 
assistia.
- No me parece. Cuspiu sangue. Pode haver uma hemorragia 
interna. =Sugiro que o transportem para o hospital - 
respondeu o mdico.
- Telefone ao professor Olivieri.  cunhado dele. Que venha 
=v-lo e decida o que quer fazer. Eu vou avisar a famlia - 
=concluiu, antes de ir embora.
O professor Olivieri, director de servio no hospital de 
Niguarda, =era o marido de Liliana Valeschi, a irm de 
Lorenzo.
Naquela noite, quando Josepha entrou no pequeno quarto do 
hospital, =Lorenzo j tinha recuperado e conseguia falar.
O cunhado tinha-o submetido a um inqurito rigoroso sobre o 
caso =antes de lhe permitir receber visitas. Felizmente no 
havia leses =internas e, segundo as suas previses, aquele 
fsico ntegro ia =permitir-lhe uma recuperao rpida.
- No ests propriamente um espanto - comeou Josepha, 
=tentando vencer a dor e sorrindo-lhe.
- Se eu te prometer que melhoro, s capaz de considerar a 
=possibilidade de permitires que te faa a corte? - replicou 
ele, =esforando-se por dominar a comoo.
- Depende das garantias que me ofereceres para o futuro - 
respondeu =ela. Encostou uma cadeira  cama e sentou-se ao p 
dele.

497


No sabia como havia de lhe dizer que em Roma o esperavam 
para depor =no processo contra o general fascista Attilio 
Ronzoni. Decidiu no =lhe falar nisso, pelo menos naquela 
altura.
- Como sabes, o meu pai queria que eu fosse advogado. Era 
isso que tu =tambm querias, h tantos anos, quando ramos 
novos. Posso =comear agora. O que achas? - tentou brincar.
- Amo-te tanto, Lorenzo - sussurrou Josepha, acariciando-lhe 
o =rosto.
- Eu tambm - respondeu ele, e sentiu uma saudade lancinante 
=daquela alegria de viver que os abandonara.
- Lembras-te da nossa primeira noite juntos, em Schloss 
Rundegg? Eu =estava a chegar de frica e inventei uma doena 
grave da minha =me para ir ter contigo a Merano - disse ele.
- Era noite de Natal e havia muita neve. Tu eras lindssimo e 
eu =amava-te. Amei-te e estimei-te toda a vida. Foste sempre 
um =cavalheiro. Sei que continuars a s-lo. - Pensava no 
processo =em que Lorenzo devia depor e j sabia que, contra 
tudo e contra =todos, ia defender o general fascista, mesmo 
que fosse a custo da =prpria vida.
- Como foi que a Thea reagiu? No falo de mim. Refiro-me  
morte =de Guido - perguntou ele.
- Thea  jovem.  bonita. Tem trs filhos que precisam de um 
=pai. Espero que refaa a vida dela - respondeu.
Foram precisos alguns dias para que Lorenzo pudesse enfrentar 
a viagem =para Roma. O tribunal tinha-o convocado 
oficialmente. Foi depor no =processo contra o general 
Ronzoni, precedido pela notcia do =linchamento de que tinha 
sido vtima. A imprensa, depois de anos de =sujeio ao 
regime, tinha-se lanado na caa aos culpados. =Entrou no 
tribunal submerso em assobios do pblico e enfrentou a 
=animosidade dos juzes em relao a ele.
Como cavalheiro, no pronunciou acusaes contra o ru, como 
=a justia daquele tempo gostaria. Comeou o depoimento com a 
=afirmao: No estou aqui para acusar o general Ronzoni, 
=mas sim para dizer a verdade sobre aquilo que vi e que 
conheo. =Comeou um burburinho. Foi acusado de omisso. 
Algum foi =remexer no seu passado de estratega na guerra da 
Etipia. Por fim, =foram formuladas contra ele vinte e uma 
acusaes. Foi encarcerado =em Regina Coeli.

498


CERNUSCO SUL NAVIGLIO MAIO DE 1946


Na sala de audincias do tribunal de Roma, =que devia 
julgar o general Valeschi por crimes de abuso de poder 
durante =o ltimo decnio fascista, a entrada de Thea 
Battellieri Valeschi =provocou o silncio entre os presentes. 
Trazia um vestido de seda =preto que lhe exaltava a silhueta 
alta e esguia. Um vu negro =cobria-lhe o rosto at ao queixo 
e fazia sobressair o cabelo dourado =apanhado na nuca. 
Atravessou a sala, a todo o comprimento, avanando =com um 
porte altivo em direco ao banco dos juzes.
Lorenzo Valeschi no estava presente. Durante a =noite tinha 
sofrido um enfarte. Estava na priso h um ano, e =s nos 
ltimos dias tinha sido autorizado a receber a visita dos 
=familiares. Quando Thea e a me puderam enfim abra-lo, 
=no conseguiram reter as lgrimas. Estava irreconhecvel, de 
=to magro e doente. Porm, ainda teve coragem para brincar 
sobre o =ambiente na priso e sobre as regras higinicas e 
alimentares.
- Estava mesmo a precisar de uma priso, para me pr a par 
com =estes tempos. Li muitos livros bonitos que tinha perdido 
nestes =ltimos anos. Aprendi mais aqui dentro do que em toda 
a minha =vida.
Josepha contratou uma equipa de quatro advogados, dois de 
Milo e =dois de Roma. Forneceu-lhes uma infinidade de 
documentos com vista ao =desagravo do marido, tentando 
desmontar, um aps outro, aquela =srie infinita de 
argumentos da acusao. Mas no conseguiu =encontrar uma 
cpia do relatrio que Lorenzo realizara em Setembro =de 1936

501

e que lhe tinha custado a destituio do cargo de ministro. 
Os =adversrios, pelo contrrio, tinham algumas notas de 
Badoglio que =acusavam Lorenzo de ter colaborado com os 
alemes contra os =interesses da nao. Era uma clamorosa 
mentira. O processo tinha =atrado a ateno da imprensa, que 
o condenou ainda antes da =formulao de uma sentena. 
Finalmente, Thea encontrou em =Cernusco, no escritrio da 
villa Valeschi, a cpia do relatrio =que faltava no 
processo.
A partir daquele momento, a actuao da defesa ia basear-se 
=naquele documento. Tinha de ser um golpe de teatro. Thea 
ofereceu-se =para subir ao banco das testemunhas. Sabia que 
as declaraes de =uma filha no tinham valor de testemunho, 
mas sabia tambm que a =conscincia da honestidade do pai 
havia de a inspirar.
Quando se sentou no banco das testemunhas, os jornalistas 
prepararam =papel e caneta para transcrever as suas 
declaraes. O pblico =murmurava comentrios sobre a beleza 
daquele rosto, que se revelou no =momento em que levantou o 
vu. Os juzes observaram-na com um ar =de resignao. Sabiam 
que a sua interveno no ia =alterar as convices que j 
tinham mas, uma vez que agora a =Itlia era um pas 
democrtico, era necessrio dar a palavra = filha de um 
homem que ia ser severamente condenado. Nos primeiros =bancos 
estavam sentados todos os familiares Valeschi e Battellieri.
Thea pronunciou com uma voz clara as declaraes gerais. 
Depois =comeou:
- Se me vem vestida de preto  porque estou de luto pelo meu 
=marido, que morreu na Rssia, em Dezembro de 1942, a 
combater pela =Itlia. O meu marido deu-me trs filhos. O 
ltimo, no o =chegou a conhecer. Nasceu quando ele j estava 
na frente. Mas antes =disso perdi o meu irmo. Tambm ele 
combateu pela ptria, nos =Balcs.
Falava para os juzes, para os advogados, para o pblico, e 
na sua =mente desfilavam as imagens do marido que a abraara 
pela ltima =vez em Julho de 1942. Ela estava no stimo ms 
de gravidez. Guido =sussurrou-lhe: A ptria precisa de mim. 
Eu preciso de ti e dos =nossos filhos. Ser mesmo verdade que 
para viver em paz  preciso =fazer a guerra?.

502


Passou um dedo pelo lobo da orelha. At h dois dias tivera 
ali os =brincos de prolas que tinham pertencido  princesa 
Carolina =Castiglia. Vendeu-os bem, e assim assegurou um ano 
de =sobrevivncia.
- Nasci numa famlia abastada. Muita gente enriqueceu com o 
=fascismo. Ns perdemos tudo - continuou com uma voz firme. - 
O meu =pai no queria arrastar a Itlia para uma guerra sem 
=salvao. E teve a coragem de o escrever. O relatrio do meu 
=pai, que est agora inserido no processo,  a prova 
inequvoca =da sua inocncia. A resposta fascista foi a de o 
afastar =imediatamente do seu cargo. O meu pai acreditou que 
o fascismo era uma =evoluo do socialismo. Mais trinta 
milhes de italianos =pensavam como ele. O meu pai saiu do 
partido em 1936. Quantos o =seguiram? As acusaes que lhe 
foram feitas so falsas, como =ser demonstrado pelas provas 
da defesa. Est preso h mais de =um ano como um delinquente 
comum. Quem de entre vs tem interesse em =fazer calar um 
cavalheiro? A nossa jovem democracia, tenho a certeza =disso, 
no se vai querer manchar com um crime de cunho fascista: 
=condenar um inocente - concluiu. Tinha os olhos brilhantes 
de =lgrimas, mas a voz no vacilara enquanto olhava com o 
rosto =descoberto todos aqueles que a ouviam em silncio.
O eco da sua voz apagou-se. Uma mulher, no meio do pblico, 
gritou: =Muito bem!, e aplaudiu. Outra imitou-a, e de 
repente foi um =estampido de aplausos, enquanto um juiz 
agitava a campainha para pedir =silncio.
Naquela mesma tarde foi emitida a sentena: O general 
Lorenzo =Valeschi  alheio a todas as acusaes que lhe foram 
feitas e = absolvido porque no subsistem provas da sua 
culpa.
Thea regressou a Cernusco. Precisava de estar com os filhos. 
Josepha =tomou conta do marido.
As trs crianas no tinham percebido o motivo daquelas 
=repetidas ausncias da me. Durante os ltimos meses, Thea 
=tinha passado muito tempo longe deles. Estava constantemente 
em viagem =entre Roma e Milo e eles ficavam entregues  
empregada e a =Teresa. De vez em quando vinha a tia Liliana. 
Uma vez, quando ficaram =todos doentes com sarampo, foi 
v-los o Dr. Paolo Valli, aquele que =durante a guerra tinha 
sido seu professor.

503


A empregada no tinha muita confiana naquele mdico. -  =um 
doutorzinho. Ainda est a praticar.
Mas a tia Liliana defendia: -  um bom mdico.  o aluno mais 
=promissor do meu marido.
A ama comentava: -  uma pessoa que gosta de crianas. O 
amor, =s vezes,  mais poderoso do que muitos medicamentos.
Thea chegou um dia de manh. Os filhos estavam na escola e a 
=empregada tinha ido s compras. A grande villa estava 
mergulhada no =silncio. Subiu ao primeiro andar e entrou no 
quarto das crianas. =Havia brinquedos por todo o lado: o 
Meccano de Lorenzo, uma boneca =decapitada de Verdiana, o 
cavalo de baloio de Gianni. Recordou as =suas incurses 
natalcias  cidade, quando quase todas as lojas =estavam 
fechadas, para desencantar um presente qualquer para levar 
aos =filhos e assim lhes proporcionar uma aparncia de 
normalidade num =mundo que andava  deriva. Pequenas coisas 
que no conseguiam =cobrir a necessidade de serenidade e de 
equilbrio. Durante alguns =anos, Thea conseguira sobreviver 
na esperana de que o marido =regressasse. Desde que soubera 
da morte de Guido, deambulava  =procura de um apoio.
Pegou na boneca de Verdiana, sentou-se num banco e tentou 
fixar a =cabea de celulide no corpo da boneca. Comeou a 
chorar. =No havia nada que corresse bem.
- Chegaste, finalmente - disse Teresa. Beijou-lhe a testa com 
ternura =e sentou-se ao lado dela.
- D-me a boneca. - Com uma pancada enrgica voltou a meter a 
=cabea no stio. - J est - concluiu. Depois tirou um 
=leno do bolso e estendeu-lho. - O rimmel e as lgrimas no 
=combinam bem. Vai lavar a cara. Pareces um palhao.
- O que  que ests aqui a fazer? - perguntou Thea, enquanto 
=limpava o rosto.
- Vi a porta aberta. Percebi que tinhas chegado - respondeu. 
E =acrescentou: - Aqui na aldeia toda a gente leu os jornais 
e estamos =muito contentes por ti, pelos teus pais e pela tua 
famlia. Iam fazer =uma grande maldade ao teu pai.
Tentava distrair Thea da melancolia e da solido.
- Tenho trinta e um anos, ama - sussurrou ela. - Vivi pouco 
tempo com =o meu marido. Tenho trs filhos que j no tm 
pai.
- Conheo bem esse problema. As nossas vidas so parecidas.
- Ando por a, olho  minha volta e em toda a parte vejo um 
homem =e uma mulher de mos dadas, ou de brao dado. Olham-se 
nos olhos =e sorriem.  possvel que tenham discutido cinco 
minutos antes, ou =que vo discutir cinco minutos depois. 
Mas, entretanto, so um =casal. Eu estou sozinha. Ento 
gesticulo como se me estivesse a =afogar. Chorei muito pela 
morte do Guido. Mas agora pergunto o que vai =ser de mim e 
dos meus filhos. - Comeou a soluar, =desesperada.
- Nascemos de uma costela de Ado - disse Teresa, 
abraando-a. =-  essa a nossa condenao. Sem um homem, 
sobretudo quando =somos jovens, ficamos mesmo muito mal.
Thea parou de chorar e olhou-a com um ar interrogativo.
- O que  que me ests a dizer, ama?
- Que tens de viver. Que precisas de um companheiro.
- Isso, nunca! - protestou, indignada.
- D tempo ao tempo. Agora vai a correr lavar a cara, para 
ires =buscar os teus filhos, que esto quase a sair da 
escola.

504 - 505


CERNUSCO SUL NAVIGLIO VERO DE 1947


A fbrica das bicicletas foi reconstruda =e recomeou a 
produzir. Os Battellieri tinham tomado a seu cargo o 
=sustento de Thea e dos filhos. Ela tornara-se scia dos 
cunhados e =trabalhava com eles. Virgnia Castiglia, dos 
Estados Unidos, =mandou-lhe uma srie de ensaios, manuais e 
artigos de jornais sobre =publicrelations.
Thea comeou a estudar. Compreendeu a =importncia de 
estabelecer relaes com as sociedades =desportivas, com os 
jornalistas e com todos aqueles que, de alguma =forma, podiam 
influenciar os gostos do pblico e orientar a escolha =para 
as bicicletas com a marca da famlia. No bastava produzir um 
=artigo fivel. Era necessrio divulg-lo. Thea tinha 
amizades =influentes que se estavam a revelar fundamentais 
para o relanamento =da empresa.
Tinha intudo que a publicidade era indispensvel. Uma 
bicicleta =vendia-se melhor se fosse fotografada ao lado de 
uma bonita rapariga em =cales. Idealizou um calendrio de 
belezas de =bicicleta, apresentou-o durante algumas 
reunies com os =vendedores e distribuiu-o em todo o 
territrio. As bicicletas =Battellieri conquistaram o 
mercado.
- Eu acho - comeou ela durante uma reunio da empresa, - 
=que devamos, mais uma vez, diversificar a produo.  
=preciso olhar em frente. A Itlia est a recuperar 
rapidamente da =guerra e dentro de no muito tempo vo 
vender-se motos ligeiras. =O sector automvel est em 
crescimento. O das bicicletas vai =declinar. Vamos apostar 
nas motos.

509


Ao fim e ao cabo, continua a tratar-se de veculos de duas 
=rodas.
A sogra gelou aquele entusiasmo.
- Estamos endividados at ao pescoo. Para j, e por muitos 
=anos ainda, no podemos pensar em novos investimentos - 
disse.
Thea nunca tivera nenhuma familiaridade com os problemas 
econmicos. =Aceitou a observao como certa. E continuou a 
trabalhar.
A me telefonou-lhe de Roma.
- Vou vender o castelo. Por que no vens a Merano comigo?
Thea sabia que Josepha nunca venderia Schloss Rundegg se a 
isso no =fosse obrigada pela necessidade. Tinha de pagar os 
honorrios dos =advogados que tinham defendido Lorenzo. Ela 
no estava =particularmente ligada quele lugar, que deixara 
quando era ainda uma =criana.
As origens austracas da me tinham-lhe muitas vezes 
provocado =situaes embaraosas e no perdoava  gente do 
Tirol o =terem alinhado com os alemes quando a Itlia 
alterou as =alianas. A ptria de Josepha encarniara-se 
contra os =italianos com um sadismo que no tinha 
justificao.
Josepha no gostava que a filha recusasse uma parte das suas 
=razes. Desculpava-a por considerar que a vida no lhe tinha 
=poupado sofrimentos e pensava que era justo que Thea olhasse 
para o =futuro.
Thea comprou um carro para se deslocar rapidamente da casa da 
cidade = do campo, onde passava todos os fins-de-semana com 
os filhos. =Cernusco era um lugar importante para todos eles. 
Ali encontrava uma =parte da famlia Valeschi, que 
considerava, a todos os ttulos, a =dela. As crianas tinham 
espao para brincar ao ar livre. A tia =Liliana e o tio 
Stefano iam ter com ela quase todos os domingos e com =eles 
vinham os filhos e os netos. A ama estava sempre disponvel 
para =dar uma ajuda na cozinha e sentar  mesa hspedes fixos 
e =inesperados.
Enquanto andava  volta do fogo, Thea ajudava-a de boa 
vontade, =at porque daqueles momentos nasciam as 
confidncias entre as =duas.

510


Naquele perodo, Teresa andava preocupada com Rosa, a filha 
mais =velha.
- Anda a enganar vergonhosamente o marido - confessou  
=rapariga.
- Talvez no seja feliz com o engenheiro - replicou Thea.
- Eu tinha-lhe dito que vinte anos de diferena era 
demasiado. Ela =deixou-se ofuscar pela riqueza. Agora tem 
quase trinta anos, no tem =filhos e aborrece-se. Por isso 
arranjou um jovem actor como amante. O =meu genro, que no  
estpido, sabe de tudo e faz de conta que =no se passa nada. 
Achas que  uma maneira bonita de se =comportarem?
- Se ficas a cismar nessas coisas, no resolves nada e 
envenenas o =teu sangue - avisou Thea.
- Uma me no consegue deixar de se preocupar com os filhos. 
Por =agora os teus ainda so pequenos e tu pensas que, quando 
crescerem, =vo fazer as escolhas deles e acabam a os teus 
problemas. No = assim. Eu vejo muita coisa e sofro com 
isso. Sabes que a Rosa tem =vergonha de mim? Quando quero ir 
v-la tenho de avisar primeiro, =porque se tiver visitas no 
me recebe. Parece que ainda ontem a =levava descala para a 
fiao. Hoje sente-se uma princesa. =Enquanto que eu, que 
conheci princesas de verdade, sei que no se =parece com elas 
nem num cabelo. Faz-me pena, percebes?
- Referes-te  minha me?
- Exactamente. E  princesa Castiglia. Elas foram realmente 
grandes =senhoras. Eu acho que aquele mundo j no existe.
- No te queixes, ama. At te correu bem. Alguma vez pensaste 
que =as tuas filhas se iriam poder libertar do jugo da 
misria? Olha para =Iosefa:  a primeira dama de Cernusco. 
Achas pouco?
Iosefa Zicri tinha casado com Franco Carenghi, um jovem 
industrial que =produzia rolamentos. Era o homem mais rico da 
aldeia. Teresa continuava =a no estar orgulhosa com este 
segundo, brilhante casamento. Sentia =que, de alguma maneira, 
as filhas tinham trado as suas origens.
- Quando Benedetto, o meu primeiro marido, me falava de um 
mundo =melhor, no se referia a isto - explicou. - O mundo 
melhor que ele =tinha em mente, e que eu aprendi a conhecer, 
 o da dignidade e do =respeito pelo trabalho. S espero que 
o meu pequenino venha a ser um =bom ferreiro como o pai.

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As grandes fortunas dificilmente nascem da honestidade.
Thea sabia que a ama tinha razo.
- Com a idade ests a ficar cruel - disse Thea. - Os sonhos 
do teu =marido e os do meu pai acabaram h muito tempo. O 
mundo mudou.
- Mas os patres exploradores no. A nossa Constituio diz 
=que a Itlia  uma repblica baseada no trabalho. Quem a 
=assinou, entre outros, foi Terracini, um grande homem que 
nunca =pertenceu ao partido dos patres. Mas os exploradores 
so como a =erva: arranca-la num stio, e ela nasce, ainda 
mais vigorosa, no =outro. E s se preocupam com os interesses 
deles.
- Ama, tornaste-te comunista?
- No duvides.
- E com o padre velho, como te arranjas?
- Ele pensa como eu, apesar de dizer que estou a ficar com 
uma alma =danada. Olha, Thea, ser comunista no significa 
afastar-se da =religio. Eu nunca poderia viver sem a minha 
Nossa Senhora e sem os =meus santos. Mas os santos e a Nossa 
Senhora no podiam viver num =stio onde reina a injustia. 
Don Cludio  um homem =inteligente e sabe muito bem estas 
coisas.
- J percebi, ama. Por hoje basta. Os hspedes j chegaram, o 
=almoo est pronto. Serves tu  mesa, por favor? - 
perguntou, =enquanto tirava o avental.
Ouviu a sineta no porto do jardim e depois um rudo de 
passos no =saibro. Chegou  varanda e viu Paolo Valli, que se 
aproximava. Trazia =na mo um ramo de rosas.
Thea foi ao encontro dele com um ar alegre.
- Doutor, rosas outra vez? - disse-lhe, a sorrir.
- Desta vez no so um sinal. A guerra acabou h uns tempos - 
=respondeu ele.
- Que pena - disse ela.
- Que pena ter acabado a guerra? - perguntou ele.
- Que pena no serem um sinal - sussurrou ela.
O rapaz corou. Era muito tmido e ficou embaraado.
- O professor Olivieri convidou-me para almoar - explicou.
- No sabia. Ento vamos entrar. Estamos quase a ir para a 
=mesa.


512


Deu-lhe o brao com um modo mundano e sentiu-o tremer.
Os filhos, quando o viram, correram ao seu encontro. Durante 
o Inverno =tinha-lhes tratado as amigdalites e, depois, 
entreteve-os com pequenos =jogos. Insistiam em trat-lo ainda 
por professor, e Gianni, o mais =pequeno dos filhos de Thea, 
tratava-o por tu.
Eram dezoito  mesa, entre adultos e crianas. Foi um almoo 
=muito alegre. Thea, de vez em quando, sentia em cima dela o 
olhar do =mdico e retribua-o com um sorriso.
De tarde, enquanto os mais novos jogavam voleibol e as 
senhoras se =entretinham a conversar sob um caramancho de 
glicnias, Liliana =Valeschi arranjou maneira de se afastar 
com a sobrinha.
- Acho que j percebeste que o Dr. Valli te est a fazer a 
corte =- disse-lhe.
- Precisava de saber ler-lhe os pensamentos. Porque, nos 
factos, =limita-se a sorrir e a trazer-me as rosas do jardim 
da me - =esclareceu Thea.
- Tu tens um grande domnio sobre ele. No te ds conta, mas 
=s dura como aquela crucca da tua me.
- Muito obrigada, tia. No te maces a tecer-me elogios - 
replicou =Thea.
- Percebeste muito bem aquilo que eu quis dizer. Ele  muito 
=tmido e tu no lhe ds coragem. Se gostas dele, devias 
=dar-lhe a entender isso. O teu tio considera que o Paolo  
um rapaz =excepcional e que tem boas possibilidades de 
carreira a nvel =hospitalar. Enfim, Thea, v se te mexes, 
porque, se queres voltar a =casar, aquele  o homem certo - 
rematou a senhora, com a sinceridade =que lhe era habitual.
Gianni veio ter com elas a chorar, com uma mo apertada 
contra a =orelha.
- A abelha. Mordeu-me a abelha m! - gritava cheio de dores, 
=desesperado.
Paolo estava a jogar uma partida de pingue-pongue sob o 
alpendre com o =professor Olivieri. Abandonou a raquete e foi 
tratar do pequeno. Pediu a =Thea que o ajudasse.
- Preciso de amonaco, de uma pina e de um pedao de 
=algodo - disse, pegando no mido ao colo. E continuou: - 
Di =muito, eu sei. Agora vamos ver o que se pode fazer.

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- Por que foi que me picou logo a mim, aquela m? - perguntou 
o =pequeno.
- Porque confundiu a tua orelha com uma flor. A abelha no  
=estpida. Sabe reconhecer as coisas bonitas. A tua orelha  
muito =bonita e vai j deixar de te doer - tranquilizou-o, 
enquanto =extraa o ferro com a pina. Com um gesto rpido, 
apertou o =algodo embebido em amonaco sobre a picadela. 
Gianni lanou um =grito agudo.
- Agora um bocadinho de gelo, por favor - pediu a Thea. Ao 
fim de =poucos minutos, Gianni sorria. - Obrigado, professor. 
A dor j =passou.
- Eu j sabia. Segura o gelo ainda mais um bocadinho.
- Porqu? - perguntou o pequeno.
- Porque te estou a pedir - replicou Paolo.
- Eu tambm te posso pedir uma coisa, professor?
Ele concordou.
O menino envolveu-lhe o pescoo com os braos e perguntou: - 
=Queres ser o meu pap?

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MERANO - SCHLOSSRUNDEGG 31 DE DEZEMBRO DE =1999


Paolo Valli foi um bom marido para Thea e um bom =pai 
para as trs crianas. Com ele, Thea reencontrou a 
serenidade. =Cultivou as suas capacidades empresariais, nas 
quais se misturavam o =dinamismo dos Paravicini e o sentido 
de disciplina dos Valeschi, e =tornou-se uma corajosa 
directora da empresa. Enfrentando os receios dos 
=Battellieri, transformou a indstria das bicicletas numa 
indstria =de motociclos. Lanou no mercado a scooter, que se 
tornou o =smbolo dos veculos daqueles anos, e afastou a 
=concorrncia.
O trabalho e a dedicao do marido ajudaram-na =a superar os 
momentos mais difceis, que no foram apenas a perda =dos 
pais e de muitos amigos, mas tambm a morte de Lorenzo, o 
=primognito, num acidente areo.
s vezes, pensava com melancolia no pai e na me e lamentava 
o =facto de no ter falado o suficiente com eles. Tinham 
desaparecido no =momento em que se deu conta de que tinha 
muitas coisas para perguntar, =muitas curiosidades para 
aprofundar.
A ama falecera h vinte anos, deixando um grande vazio na sua 
vida =afectiva. Restava-lhe na lembrana como uma figura 
luminosa que lhe =deixara, sem se dar ares disso, 
ensinamentos preciosos. Toda a sua vida =foi uma grande lio 
de dignidade. S no fim, quando estava a =morrer, Thea lhe 
disse: - Gosto muito de ti, Teresella.
A mulher olhou-a com severidade. - Ests a ficar velha, se te 
=pes a tratar-me pelo meu nome.
-  verdade, estou a ficar velha e sentimental - respondeu.

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- No, ests s a fazer confuso. Tu s a signora, =eu sou a 
ama. Cada qual deve saber ocupar o seu lugar - esclareceu, 
com =a teimosia de sempre. Morreu com a mo de Thea apertada 
na dela.
Guido, o primeiro marido, continuava na sua recordao dos 
anos de =juventude, no tempo em que se julgava dona do mundo.
Nino, o irmo, to dcil e s vezes to sarcstico, =inimigo 
da guerra e estudioso apaixonado de literatura antiga, estava 
=sempre no seu corao.
Mas no se passava um dia em que no se lembrasse do pai. 
Apesar =de j terem passado muitos anos, a dor daquela perda 
no =adormecera. Sonhava muitas vezes com ele, e obtinha 
algum conforto =daqueles sonhos.
Paolo deixou-a s quando ela tinha j oitenta anos. Morreu no 
=consultrio, enquanto via um doente. Enfarte fulminante, 
=declarou o colega que foi imediatamente chamado para o 
socorrer.
Thea entregou a Gianni, que era engenheiro, a orientao da 
=empresa de que ela era ainda presidente honorria, e a 
Verdiana, que =era mdica, a direco de uma clnica para 
idosos em =Cernusco.
Tinha cinco netos e nove bisnetos. s vezes perguntava-se se 
=existiria ainda naqueles jovens um pouco do sangue vigoroso 
do general =Lorenzo Valeschi e da senhora de Rundegg e 
Rametz. Se assim fosse, Thea =no duvidava de que teriam 
coragem suficiente para enfrentar a =vida.
Agora ia comear o novo milnio e ela tinha um projecto para 
=realizar.
Calou uns botins forrados de plo, enfiou o casaco e o 
chapu =e desceu at ao hall do hotel Schloss Rundegg.
As empregadas da recepo cumprimentaram-na, sorridentes. 
Saiu =para o jardim. Estava todo branco, coberto de neve. Viu 
um homem em =mangas de camisa a limpar a alameda com uma p. 
Fez-lhe lembrar =Willy, o homem forte e misterioso que, 
quando ela era muito pequena, =tomava conta dela e de 
Josepha.
- Bom-dia - cumprimentou-o.
- Bom-dia - respondeu ele. E continuou a trabalhar.
- Willy, komm!(1) - gritou algum da porta da cozinha.


*1. Willy, vem!, em alemo. (N. da. T.)


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O homem largou a p e dirigiu-se ao hotel com um passo leve e 
o =andar oscilante de que no se esquecera.
- O senhor tambm se chama Willy - constatou Thea, falando 
mais =consigo prpria do que com ele. No teve resposta.
Continuou ao longo da alameda em direco ao muro que 
limitava o =terreno. Nas suas recordaes de infncia, o 
jardim era imenso. =Pareceu-lhe muito mais pequeno. Procurou 
inutilmente o estbulo e a =arrecadao dos utenslios. 
Tinham sido demolidos.
Os ps afundaram-se na neve. Perdeu o equilbrio. Esteve 
quase a =cair. Assustou-se.
- Os receios mesquinhos dos velhos - murmurou para si, 
=envergonhada.
Ergueu os olhos e observou o castelo. Era maior do que se 
lembrava. =Tinham-lhe acrescentado uma ala posterior. O galo 
de ferro, no cimo da =torre, estava imvel, com a cabea 
voltada para ela, como se a =observasse.
Uma empregada sacudia um edredo numa janela do primeiro 
andar.
- Havia uma balaustrada de madeira, em tempos - sussurrou 
Thea. Mais =abaixo, num nicho escavado na parede, havia um 
Cristo de madeira. A =velha Klara punha-lhe flores aos ps. 
Agora a parede era branca e =lisa. Gostaria que Josepha 
estivesse ainda ali, para ver como tinha =mudado e melhorado 
o seu castelo.
Sabine, a empregada, foi a correr ao encontro dela.
- Frau Valeschi! Chamam-na ao telefone - anunciou.
- Eu avisei para no me passarem nenhuma chamada - protestou, 
=seguindo-a.
-  uma chamada dos Estados Unidos - justificou-se a 
rapariga.
Thea entrou na cabina, ao lado do banco do porteiro. Levantou 
o =auscultador e ouviu a voz forte e clara de Isadora 
Castiglia, a =prima.
- Falei com os teus filhos. Disseram-me onde estavas. Queria 
=desejar-te um bom Ano Novo - disse.
- Muito obrigada, Dod. Como ests?
- Como uma velha sozinha. Os meus filhos e os meus netos 
foram esquiar =para Montana. E eu fiquei entregue aos 
cuidados de uma mulher que me =tiraniza.

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Isadora tinha tido quatro maridos. Estava divorciada de dois. 
Os outros =dois tinham morrido. Os quatro deixaram-lhe ricas 
heranas. Vivia em =Connecticut, numa casa imensa, rodeada 
por dois hectares de parque. Thea =e Isadora consideravam-se 
primas, apesar de o no serem. Isadora =vivia no culto da 
me. Virginia Castiglia fora uma personagem de =destaque no 
mundo do feminismo. Os seus escritos tinham-se tornado 
=textos de estudo e encontravam-se em muitas universidades 
americanas. =Faleceu numa idade tardia, rodeada por uma 
multido de alunas que a =adoravam.
- No te queixes. s mais nova do que eu. Eu tambm estou 
=s. Por que no apanhas um avio e vens ter comigo?
- Pode ser uma ideia. Tenho muita vontade de rever Npoles. A 
minha =famlia  desesperadamente americana. Mas eu ainda me 
sinto =italiana. A minha me quis pr um oceano entre ela e a 
Itlia. =Mas no cortou as minhas razes. Sabes uma coisa? 
Gostava de =comprar o palcio Castiglia. Era uma maneira de 
mostrar aos meus =netos de onde vm - disse.
Thea soltou uma gargalhada.
- No posso acreditar! Eu estou num hotel que foi o castelo 
da =Josepha, e estou aqui para o comprar.
- Achas que so loucuras de velhas senhoras? - perguntou 
=Isadora.
- Talvez. Mas por que havemos ns de deixar este mundo sem 
realizar =um sonho?
- Exactamente, porqu? De qualquer maneira, Thea, vida longa 
e muita =sade.
- Para ti tambm, querida Dod.
Thea chamou um txi que a levou  cidade. Ali, as ruas tinham 
sido =desimpedidas da neve. Entrou na Via del Portici. Parou 
em frente  =livraria de Poetzelberger. A silhueta escura da 
catedral reflectia-se, =com as suas agulhas, no vidro 
brilhante da montra. Quando era pequena, =Josepha levava-a 
com ela, s vezes. O velho livreiro oferecia-lhe =figurinhas 
ou lpis de cor. Mais adiante, encontrou a drogaria onde =lhe 
ofereciam rebuados. Muitos dos letreiros antigos j no 
=existiam. Mas viu lojas novas que exibiam vestidos, sapatos, 
carteiras e =perfumes. No entanto, a civilizao do consumo 
no tinha =conseguido apagar o carcter antigo daquela 
pequena cidade. Quando =chegou  Praa do Teatro, voltou para 
trs e subiu


520


em direco  catedral. Parou em frente  placa de =mrmore 
em memria do conde Bernhardus Paravicini, cidado =ilustre, 
falecido com a idade de cento e sete anos.
Thea sorriu, convencendo-se de que, se uma parte dos 
cromossomas =daquele trisav tivesse chegado at ela, tinha 
boas possibilidades =de viver mais vinte anos. Depois fez uma 
careta e sussurrou: - Se =calhar  de mais. Mas no serei eu 
a definir os limites da =Providncia.
Regressou ao hotel. A sala de jantar estava cheia de gente. 
Havia =hspedes italianos e alemes. Casais de jovens 
apaixonados, de =idosos, de pais com os filhos. Pessoas 
elegantes, compostas. Falavam =educadamente em voz baixa, 
para no incomodar. Uma clientela =discreta, pensou. A 
instalao sonora transmitia em surdina =msicas do folclore 
do Tirol.
O matre acompanhou-a at  mesa. Em cima da toalha 
=sobressaa um corao feito com pequenos ramos de abeto 
=entrelaados com prmulas amarelas e amarrados com uma 
pequena =fita dourada. Um bilhete dizia: BEM-VINDA  SUA 
CASA.
Thea dirigiu ao homem um olhar interrogativo.
-  da parte do pessoal, signora Valeschi. Soubemos que 
nasceu aqui =- explicou o homem com um sorriso quase 
comovido.
Thea assentiu.
- Ser que me pode mandar servir a refeio no quarto, por 
=favor? - pediu de repente. Pegou no pequeno corao de 
=prmulas e abeto e dirigiu-se ao ascensor.
Assim que chegou ao quarto, marcou no telefone um nmero que 
conhecia =de cor. Respondeu-lhe a voz annima de uma 
secretria. - Sou a =signora Valeschi. Queria falar com o 
advogado Stefani - disse.
Ouviu a resposta da interlocutora e depois prosseguiu: - Eu 
sei que = o ltimo dia do ano e que o Sr. Doutor est de 
frias. Por =isso localize-o imediatamente e ligue-me a 
seguir. Tome nota do meu =nmero de telefone.
Sabine entrou com o carrinho da refeio. - Quer que fique 
para a =servir, minha senhora? - perguntou a rapariga.
- No, obrigada - respondeu.
Sentou-se  mesa em frente a uma janela da qual podia 
observar o =jardim e as montanhas. Lembrou-se de quando era 
menina e,

521


numa manh ventosa, de Novembro, a me lhe disse que o pai ia 
=regressar da guerra: naquele momento, ela vira uma guia 
real planar =majestosa sobre a crista de um monte. Ento, 
pronunciou, como nessa =altura: Der Adler fngt keine 
Miicken. A guia no =apanha insectos. Quem sabe se ainda 
haveria guias no Tirol.
Pouco depois, deixadas as recordaes de parte, saboreou a 
entrada =e a seguir levantou a tampa da bandeja dos 
tagliolini. Naquele momento, =tocou o telefone. Era o 
advogado Stefani.
- Thea, o que  que se passa? - comeou, com uma voz 
=preocupada.
- Quero comprar um hotel - declarou ela.
- Logo hoje? Sabes que dia ? Fazes alguma ideia de onde 
estou?
- Sei que no perdes o contacto com o teu escritrio, que, se 
=no estou em erro, vive e prospera graas aos meus 
processos. Onde =quer que estejas, tens certamente  mo uma 
daquelas engenhocas =modernas com as quais podes contactar 
quem quiseres e saber tudo aquilo =que precisas. Portanto, 
abre bem os ouvidos. Estou em Merano, o hotel =chama-se 
Schloss Rundegg.  um castelo. Era da minha me. =Vendeu-o, 
creio eu, h cinquenta anos. Quero recuper-lo - =anunciou 
com o tom empresarial com o qual dirigira durante anos a 
=empresa dos Battellieri. - Enquanto acabo de jantar, 
arranja-te como =puderes para me dizeres tudo sobre este 
hotel - concluiu.
Depois ligou a televiso e ouviu as notcias do telejornal 
=regional.
Acabou de jantar e empurrou o carrinho para fora do quarto. 
Depois ligou =para o servio de bar e pediu um caf.
Nunca se sentira to bem. Sentia-se invadida por uma euforia 
=agradvel que conhecia bem. Era a mesma que sempre tinha 
marcado os =momentos importantes da sua vida. Tinha oitenta e 
quatro anos, mas a =energia era a mesma de sempre. Depois 
vinha o abalo, j sabia. Mas, =entretanto, gozava aquele 
momento extraordinrio.
Sabine levou-lhe o caf, a leiteira da nata e uma tacinha de 
=doces.
- Chegou a orquestra - anunciou-lhe. - Vo fazer algum 
barulho. =Espero que no a incomodem.
- O barulho do rs-do-cho no chega at aqui - replicou 
=Thea.

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-  verdade. A senhora conhece a casa.
Thea deitou o caf na chvena e espalhou-se pelo quarto o 
mesmo =aroma que pairava na sala de visitas, quando Klara 
servia o caf  =me e aos convidados.
O toque do telefone quase a fez estremecer. Era o advogado 
Stefani.
- Como  que podes comprar um hotel que j  teu?! - 
=espantou-se o advogado.
Thea levou alguns segundos a assimilar a informao.
- s capaz de ser mais claro? - perguntou.
- A tua me vendeu o castelo a uma sociedade de energia 
elctrica =da qual possua um certo nmero de aces herdadas 
da =av, Dorothea von Rost. Esta sociedade, que tem sede em 
Bolzano, =j faz parte dos teus pacotes de aces. O hotel  
teu em =cinquenta e um por cento. Os lucros da gesto no so 
=brilhantes, mas permitiram a recuperao do castelo - 
explicou =sucintamente o advogado.
Thea no conseguiu conter uma gargalhada.
- Ento compra as aces que faltam. Quero a propriedade a 
cem =por cento - ordenou.
- No  um investimento brilhante - observou o interlocutor.
- Isso deixa-me decidir a mim - rematou. E acrescentou: - 
Obrigada, =e bom ano.
Depois, satisfeita, recostou-se na poltrona e comeou a 
saborear o =caf com um prazer infinito.
Tinha recomeado a nevar. Os flocos pareciam pequenas 
borboletas =enlouquecidas.
- Estou em casa - sussurrou. Teve a certeza de que Josepha 
Sidonia =Paravicini von Riccabona, senhora de Rundegg e 
Rametz, onde quer que =estivesse, lhe sorria.
Thea sussurrou: - A vida, para ser perfeita, deve ser como um 
=crculo que se fecha no ponto em que comeou.



LTIMOS TTULOS PUBLICADOS NESTA =COLECO


O Impressionista - Hari Kunzru
A Vida Feliz do Jovem Esteban - Santiago Gamboa
A Taberna da ndia - Antnio Sarabia
Os Demnios  Minha Porta - Jos Manuel Fajardo
O Rotters' Club - Jonathan Coe
A Caravana de Veneza - Muriel Romana
A Praia Roubada - Joanne Harris
O Cemitrio dos Barcos Sem Nome - Arturo Prez-Reverte
Soldados de Salamina - Javier Cercas
Adeus, Minha nica - Antoine Audouard
Louco Por Saias - John Ramster
A Fragata "Surprise" - Patrick O'Brian
Susana em Lgrimas - Alona Kimhi
A Filha Perdida da Felicidade - Geling Yang
Golpe de Mestre - Michael Frayn
Cinco Quartos de Laranja - Joanne Harris
Pequenas Felicidades - Bonnie Burnard
To Veloz Como o Desejo - Laura Esquivel
O Mensageiro - Mayra Montero
Que Baguna! - Anna Maxted
Pau-Brasil - Jean-Christophe Rufin
Baunilha e Chocolate - Sveva Casati Modignani
Pensamentos Secretos - David Lodge
O Homenzinho Verde - Simon Armitage
Os Rostos do Silncio - Karla Surez
A Morte de Vishnu - Manil Suri
Sono Crepuscular - Edith Wharton
A Namorada 44 - Mark Barrowcliffe
Jesus na Fogueira - Catherine Clment
As Causas Perdidas - Jean-Christophe Rufin
A Terra do Fogo - Sylvia Iparraguirre
A Casa dos Deuses - Samuel Shem



Data da Digitalizao


Amadora, Novembro de 2003
